₊ Capítulo 01.1
𓂃˖˳·₊˚.𔓎 Capítulo 01.1: Cruzando o primeiro limiar ⋆⁺₊
Era uma pequena aldeia nas montanhas, encoberta por um manto de árvores exuberantes e viçosas.
Havia apenas um único caminho que levava até a tal aldeia. Por causa da forte chuvarada, a trilha estava particularmente enlameada; era preciso ter um cuidado especial ao caminhar por aquela estrada.
Naquele momento, Lin Qiushi e uma jovem alta arrastavam os pés por aquele caminho. A moça parecia ser mestiça. Suas sobrancelhas eram bastante grossas e largas, bem bonitas, e ela era incrivelmente alta, muito mais alta que Lin Qiushi. Vestindo um vestido longo e fora de moda, e com olhos profundos cheios de lágrimas, a garota soluçava de leve e de forma espasmódica, e então sussurrou:
— Que lugar é este, afinal?
Lin Qiushi indagou:
— Onde você estava antes?
A jovem:
— Eu estava dentro do banheiro da minha casa.
Lin Qiushi:
— Eu estava no corredor da minha casa.
A jovem:
— Corredor…?
Lin Qiushi ergueu a cabeça e olhou para o céu sombrio.
— Por acaso você abriu alguma porta?
A jovem pareceu ter se lembrado de algo; houve uma mudança sutil em sua expressão. Ela disse:
— Sim.
Lin Qiushi olhou de volta para ela.
— O mesmo aqui.
Uma rajada de vento soprou, e as folhas pesadas nas copas das árvores farfalharam com a brisa. A atmosphere ao redor ficou mais silenciosa. Flocos leves de neve de repente flutuaram do céu, como se os instigassem a apressar o passo; eles tinham que chegar à aldeia cercada pelos bosques antes do anoitecer.
No decorrer da conversa, Lin Qiushi ficou sabendo que o sobrenome da garota era Ruan. Ela se chamava Ruan Baijie.
Lin Qiushi ficou atordoado por uns três segundos depois de ouvir o nome dela, e então elogiou falsamente:
— Belo nome.
Ruan Baijie o fuzilou com os olhos marejados e sibilou:
— Todos os homens são mentirosos.
Lin Qiushi:
— Hein?
Ruan Baijie:
— Não pense que eu nunca vi aquele livrinho pornô¹.
Lin Qiushi: …
Pelo visto, aquela garota não era tão fraca ou delicada quanto ele havia imaginado. Enquanto seguiam em direção à aldeia, os dois trocaram informações e concluíram que o outro também havia aberto uma porta antes de chegar de repente àquele ermo remoto.
Ruan Baijie abriu a porta do lavabo, enquanto Lin Qiushi abriu a porta do próprio corredor.
— A porta era uma porta preta, de ferro. — A voz de Ruan Baijie era suave. — Não tinha nenhum enfeite. Na hora, eu fiquei um pouco confusa: como é que uma porta daquelas podia aparecer de repente na minha casa? Também não pensei muito a respeito e a puxei displicentemente…
No exato segundo seguinte a puxar a porta, elas apareceram naquele ermo desolado.
Lin Qiushi:
— Eu também abri uma porta preta de ferro…
Mal terminou de dizer isso quando avistou uma figura sombria no caminho à frente. A figura era bastante alta, muito provavelmente um homem adulto.
— Gege² aí na frente!!! — Lin Qiushi cumprimentou em alto e bom som, de longe.
Aparentemente tendo ouvido a voz de Lin Qiushi, o homem interrompeu os passos.
Lin Qiushi correu apressado para a frente, então esticou o braço e bateu de leve no ombro dele.
— Olá, você poderia nos dizer que lugar é este?
O homem virou a cabeça, revelando um rosto barbudo. À primeira vista, ele praticamente lembrava um urso, com aquele rosto peludo e o corpo alto e robusto.
— Vocês são novos por aqui?
Lin Qiushi questionou:
— Novos?
O homem não respondeu. Ele encarou Lin Qiushi e depois olhou de relance para trás dele, para a assustada Ruan Baijie.
— Venham. Vamos até a aldeia, aí eu explico tudo para vocês dois.
Lin Qiushi murmurou em concordância. Depois disso, as três pessoas partiram rumo à aldeia.
A estação ali parecia ser o inverno; o crepúsculo caía muito cedo. Antes de chegarem ali, o sol poente ainda estava claramente pendurado no céu, mas, num piscar de olhos, restavam apenas nuvens escuras e flocos de neve caindo.
Lin Qiushi conversou com o homem e observou a situação ao redor. Além da aldeia, aquele lugar não tinha nenhuma outra fonte de luz. Cercada pela visão de florestas vastas que se estendiam até onde a vista não alcançava, aquela estrada vazia não podia estar mais deserta e abandonada.
Lin Qiushi tirou um cigarro do bolso e o ofereceu ao homem. O homem recusou com um aceno de mão.
— Gege, que lugar é este? — Lin Qiushi perguntou.
O homem falou:
— Vocês podem me chamar de Xiong Qi³.
Lin Qiushi pensou consigo mesmo que aquele homem realmente fazia jus ao próprio nome. Ele queria fazer outra pergunta, mas então viu Xiong Qi fazer um gesto de “pare”.
— Não pergunte. Você vai entender o que está acontecendo quando chegarmos à aldeia.
— Ah. — Lin Qiushi soltou. — Está bem.
Durante todo o trajeto até lá, eles permaneceram em silêncio. As três pessoas se esforçaram para apressar a jornada. Finalmente chegaram à entrada da aldeia pouco antes de a escuridão envolver completamente o céu acima.
Xiong Qi relaxou visivelmente. Ele lançou um olhar para a escuridão atrás de si.
— Certo, está tudo bem. Vamos. Primeiro vamos encontrar com eles.
Novos. Eles. Lin Qiushi captou essas palavras-chave. Embora já tivesse um mau pressentimento desde que chegara ali, naquele exato momento aquela sensação desagradável estava ficando mais forte, mais intensa. Ruan Baijie também parecia ter sentido algo. Ela não chorava mais. Seu rosto atraente estava pálido como o de um cadáver, e seus olhos brilhavam de pânico.
Xiong Qi continuou avançando, e logo os levou até um pequeno prédio de três andares ao lado da casa do chefe da aldeia.
Ele parou diante da porta e bateu. De dentro veio a voz de uma garota jovem:
— Quem é?
— Sou eu, Xiong Qi — respondeu ele.
— Ah, é o Xiong gege. Entre. — A garota acrescentou: — Estávamos esperando por você.
Xiong Qi empurrou a porta com a mão. Um leve rangido soou e, em seguida, a cena por trás da porta ficou totalmente exposta. A porta se abria para uma sala de estar espaçosa. Naquele momento, cerca de uma dúzia de pessoas estavam mais ou menos sentadas na sala. Elas rodeavam um fogo intenso e pareciam estar discutindo algo naquele instante.
— Recém-chegados? — Alguém finalmente notou Lin Qiushi e Ruan Baijie de pé atrás de Xiong Qi.
— Recém-chegados. — Xiong Qi entrou lentamente no cômodo e, sem cerimônia, achou um lugar para se sentar. — Sentem-se. Xiao Ke, explique para eles.
Xiao Ke era a garota que havia aberto a porta para Xiong Qi. Ela aparentava uns quinze ou dezesseis anos de idade, e seus traços faciais eram delicados e bonitos.
— Vocês dois também podem se sentar. Vou descrever brevemente as circunstâncias.
Lin Qiushi e Ruan Baijie se entreolharam. As duas pessoas então se sentaram perto da porta.
— Na verdade, não há muito o que dizer. — A atitude de Xiao Ke não era nem um pouco cordial. — Precisamos ficar nesta aldeia por um período de tempo e resolver alguns problemas. É basicamente isso.
Lin Qiushi:
— Que problemas?
Xiao Ke respondeu:
— Nós também não sabemos disso por enquanto. Temos que visitar o chefe da aldeia amanhã… — Ela então perguntou: — Algum de vocês é cético?
Lin Qiushi ergueu a mão e declarou:
— Eu.
Xiao Ke insinuou:
— Então aquilo em que você acredita vai ter que mudar.
Lin Qiushi:
— …O que você quer dizer?
Xiao Ke explicou:
— O que eu quero dizer é que eventos sobrenaturais vão acontecer aqui.
Lin Qiushi: …
Todos estavam completamente indiferentes à chegada dos recém-chegados, Lin Qiushi e Ruan Baijie. Nenhuma única pessoa, além de Xiao Ke, tomou a iniciativa de cumprimentá-los.
Antes de entrar no cômodo, Lin Qiushi presumiu que eles estivessem discutindo algumas coisas, mas, depois de ficar sentado ali por um tempo, Lin Qiushi descobriu que eles nunca diziam uma palavra. Várias pessoas apenas ficavam sentadas quietas na sala de estar, olhando para as chamas diante de si em transe; outras estavam simplesmente segurando seus celulares, jogando.
Nenhum celular tinha sinal ali, então era impossível entrar em contato com o mundo exterior; no entanto, ainda era possível jogar jogos offline para um jogador.
Lin Qiushi simplesmente começou a contar. Ele contou um total de treze pessoas naquele cômodo. Nove homens e quatro mulheres. Só pela aparência de seus rostos, a maioria deles era relativamente jovem; o mais velho entre eles não devia ter mais de quarenta anos.
A lenha da fogueira crepitava. Ruan Baijie ficou sentada por um tempo; ela parecia estar ficando um tanto sonolenta. Olhou ao redor e viu que ninguém tinha a menor intenção de sair dali ainda. Com uma voz suave, ela indagou:
— Bem… desculpem o incômodo, mas posso perguntar se há algum quarto para dormir? Estou um pouco cansada.
Lin Qiushi não tinha certeza se era só impressão sua, mas, no momento em que Ruan Baijie fez aquela pergunta, a atmosfera dentro daquele cômodo pareceu congelar.
— Deixa pra lá. Nós também deveríamos descansar um pouco. — Xiong Qi se levantou. — Caso contrário, vamos acabar dormindo na sala de estar. Os quartos serão divididos. — Ele examinou Lin Qiushi. — Você vai ficar junto com ela. Tomem cuidado à noite. Não vão a lugar nenhum nem fiquem perambulando…
Ruan Baijie interveio:
— Vou dividir o quarto com ele? Mas…
Xiong Qi soltou um suspiro:
— Homens e mulheres são lá diferentes? Depois que você passar a primeira noite aqui, vai perceber que esses detalhes insignificantes não importam. Uma vida perdida, que diferença faz se você é homem ou mulher?
Ruan Baijie ainda queria retrucar, mas, ao ver que o humor de todos não estava lá muito bom, Ruan Baijie deixou o assunto de lado e concordou em dividir um quarto com Lin Qiushi.
Lin Qiushi viu a expressão ansiosa dela e não pôde deixar de confortá-la:
— Não se preocupe, não vou fazer nada com você.
Ruan Baijie assentiu.
Três andares, um total de nove quartos. Mas, a julgar pela forma como foram projetados, eles nunca foram planejados como ocupação individual. Pelo menos duas pessoas ficavam em um quarto, e havia até alguns quartos que abrigavam três pessoas.
— Chegamos. — Xiong Qi declarou. — Até amanhã.
O grupo se dispersou, indo para outros lugares. Antes de partir, Xiao Ke de repente foi até o lado de Lin Qiushi e aconselhou em voz baixa:
— Não confie demais nos outros; talvez assim você consiga sobreviver a esta primeira noite…
Lin Qiushi tinha acabado de abrir a boca, querendo lhe fazer perguntas, mas ela saiu apressada, como se não pretendesse ficar por perto nem falar mais nada com Lin Qiushi.
— Vamos. — Ruan Baijie se pronunciou. — Vamos dormir.
Lin Qiushi assentiu.
O quarto deles ficava no lado mais à direita do corredor do segundo andar. Havia apenas uma cama no quarto, e um pôster de personagem estava pendurado perto da cabeceira.
Não havia eletricidade ali, então eles não tiveram escolha a não ser acender o lampião de querosene. Como a luz emitida não era brilhante o bastante, o quarto inteiro apresentava uma espécie de tonalidade antiquada. Um leve odor de mofo impregnava o ar.
Lin Qiushi originalmente havia pensado que Ruan Baijie teria aversão às condições atuais, mas não esperava que ela se adaptasse ainda mais rápido do que ele próprio. Depois de se lavar rapidamente, ela foi direto para a cama e se jogou nela.
Ao contrário dela, Lin Qiushi se sentou na beirada da cama, sentindo-se um pouco desconfortável.
— Durma. — Ruan Baijie estava com a cabeça enterrada nos cobertores, sua voz saiu levemente abafada. — Você não está cansado?
Lin Qiushi admitiu:
— Um pouco cansado.
— É, hoje foi realmente estranho demais. — Ruan Baijie murmurou. — Eu até suspeitei que vocês tivessem sido convidados para algum programa de pegadinha. Mas, para uma pegadinha ir tão longe e ser tão detalhada assim…
Lin Qiushi tirou o casaco e subiu na cama a fim de evitar despertar suspeitas. Embora ele e Ruan Baijie dividissem uma cama, havia dois cobertores separados, um para cada.
— Muito estranho.
Ruan Baijie mencionou:
— E aquelas pessoas. Você reparou na expressão dos olhos delas?
Lin Qiushi respondeu:
— Elas estão com medo.
— Isso mesmo. — Ruan Baijie concordou. — Elas estão com medo… Mas do que exatamente elas têm tanto medo?
Lin Qiushi ponderou sobre isso por um instante. Estava prestes a falar quando ouviu uma respiração leve e regular vindo do seu lado. Ele virou a cabeça para o lado e viu que Ruan Baijie havia caído em sono profundo.
Deitado de costas, Lin Qiushi apoiou a cabeça no travesseiro e ficou olhando para o teto acima de si. Sob a iluminação fraca, ele mergulhou em um transe, um estado meditativo profundo. Ele realmente admirava Ruan Baijie. Aparecer de repente em um lugar estranho, topar de repente com inúmeras pessoas estranhas, mas, vejam só! Ela precisou apenas fechar os olhos para dormir como uma pedra.
Mas, enquanto Lin Qiushi remoía isso, a sonolência foi gradualmente engolindo seus pensamentos. Seus olhos se fecharam pouco a pouco, e ele acabou sucumbindo ao sono.
꒷꒦︶꒷꒦︶꒷꒦ NOTA: ꒷꒦︶꒷꒦︶꒷꒦
¹Existe um romance pornô chinês que atende pelo nome de “Bai Jie” ou “Branca e Pura”. Em outras palavras, o nome de batismo de Baijie é o nome de um romance pornô, daí o choque de Lin Qiushi, o elogio falso e tudo o mais.
²O termo chinês Gege (哥哥, pronunciado gēge) significa literalmente “irmão mais velho” em mandarim. No entanto, seu uso vai muito além do contexto familiar biológico, funcionando como um importante honorífico social, afetivo e até romântico na cultura chinesa.
³O nome dele é literalmente BEHR (Tinta) — como a corporação. Caso você não saiba, há um urso na frente dos produtos deles, e Xiong Qi também lembra um urso.
╋━ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna, Othello&Yuki