⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 30
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 30
* * *
A gravação terminou num horário não muito tarde da noite. Como, na prática, Ji Hyeon era o mais importante, isso se deu porque gravaram primeiro todas as cenas em que ele aparecia. Como gravaram sem enrolar, houve pouco tempo desperdiçado, mas o problema pequeno é que, sem nem uma folga pra descansar, ele parecia cansado.
—Bom trabalho!
—Vão com cuidado!
No caminho de saída do set, recebendo vários cumprimentos. Eunho, assim que se sentou no banco do motorista, virou o corpo e conferiu primeiro o estado de Ji Hyeon. Felizmente ele não estava suando frio, o rosto não estava pálido e ele também não estava com aquela expressão de desagrado de sempre.
—E o braço?
—Ótimo.
Como que provando que aquilo não era mentira, Ji Hyeon girou o ombro direito umas duas vezes. Como naquele dia as gravações foram principalmente internas, o que ele fizera com a mão direita era, no máximo, anotar. Só então Eunho, com um rosto aliviado, deu partida no carro.
—…….
—…….
No caminho pra casa, Ji Hyeon leu o roteiro em silêncio. Um sujeito inutilmente cheio de disposição; parece que, mesmo depois de gravar o dia inteiro, ainda lhe sobra força pra ler roteiro. Se ele tirasse ao menos um cochilo ele pretendia deixá-lo em paz, mas, se era assim, não parecia necessário poupá-lo.
—O que você fez com o meu cartão?
—…….
Diante da fala solta de repente, Ji Hyeon estremeceu os ombros. Eunho, que estava dirigindo, não viu direito, mas a fala que veio em seguida também soou bem suspeita.
—…Que cartão?
Não havia como não saber. Se é pra ser cara de pau, que esconda direito. Como ignorar alguém que fica espiando de relance? Se fosse outra pessoa, ele teria deixado passar sem perceber, mas Eunho, que via Ji Hyeon havia tanto tempo, não.
—O cartão que você deu pro Shin Ichan da última vez; o que você fez com ele?
—Ah… aquilo.
Felizmente, Ji Hyeon não fingiu desconhecimento até o fim. Provavelmente ele achou que negar não adiantaria. Mas a frase emendada devagar não era propriamente uma admissão de culpa:
—Por que você tá me perguntando isso?
Era uma resposta desenvolta e natural o bastante pra enganar. De fato, perguntar a Ji Hyeon o paradeiro de um cartão que deveria estar com Ichan era estranho.
Sim, se ele não tivesse acrescentado uma frase.
—Como é que eu vou saber que ele perdeu?
Hum, Eunho fez o pomo de adão vibrar e pisou no freio. Parou suavemente o carro no sinal e olhou pra Ji Hyeon pelo retrovisor. Como aqueles olhos elegantes o encaravam de volta, ele alinhou o olhar e perguntou com indiferença:
—Ele disse que perdeu o cartão?
—…….
Era uma expressão de “opa”. Dava pra saber pelo franzir do canto dos olhos.
—Essa eu não sabia.
Bom, ele meio que previa. Não viera contato nenhum até então, e só pela introdução que Ichan puxou dava pra saber que algo acontecera com o cartão. Mesmo assim ele fingiu não saber à toa, e Ji Hyeon, depois de hesitar um instante, disse a Eunho:
—Ele perdeu o cartão e me pediu o seu número. Mas, como você estava descansando, eu falei pra ele não entrar em contato.
—Quando?
—Pouco depois de você largar.
Dessa vez não parecia mentira. E também o fato de ele acrescentar à toa “eu falei com educação”. Num timing oportuno, o sinal ficou verde, e Eunho voltou a olhar pra frente e falou com serenidade:
—Fez bem.
Foi só por um motivo desses que ele ficou medindo a situação? Por mais acuado que ele ande ultimamente, aquilo não era exagero? Não é como se ele fosse dizer alguma coisa só porque ele não passou um número.
“Ou então deve ter outro motivo…”
Claro, nem por isso ele pretendia cobrar. Ele só perguntou pra saber se ele tinha aprontado alguma; não tinha a intenção de deixá-lo em apuros. Além disso, com o Ji Hyeon de agora, era realmente delicado insistir.
—…É só isso?
—O quê.
—Sua reação é só isso?
—Então que mais eu ia dizer?
Ji Hyeon ter dito pra ele não entrar em contato foi uma sorte também pra Eunho. Porque, no instante em que largou o cargo de Manager, ele esquecera completamente tudo o que dizia respeito a Ichan. Se agora tivesse vindo um contato com isso e aquilo, dele também não sairia uma reação boa.
—Sinceramente, se ele tivesse me ligado durante o descanso, teria sido só incômodo.
Ele disse isso, mas de trás não veio resposta nenhuma. Como logo estava dirigindo, ele também não conseguia ver direito que expressão Ji Hyeon fazia.
Só depois de um bom tempo é que Ji Hyeon voltou a perguntar a Eunho:
—Você vai encontrar com ele?
—Bom, se ele entrar em contato eu encontro…
O sentido de “encontrar” não é meio ambíguo? No máximo eles tomariam um chá e ele ouviria em fila as desculpas que Ichan enfileirasse. Na verdade, a essa altura, nem havia mais necessidade de conversarem.
—Eu já sei mais ou menos o que ele vai falar, pra quê.
Desde o início ele nem estava curioso e não tinha nenhum interesse especial. Ele lhe enfiara o cartão só pra não criar mais incômodo; se pudesse não entrar em contato, pra Eunho era mais confortável assim. De que adiantaria a conversa se estender à toa, além de acabar virando fofoca?
—…….
Ji Hyeon não disse nada e apenas ficou olhando pra Eunho. No retrovisor devia dar pra ver, no máximo, os olhos; ele não sabia o que havia de tão interessante pra ele lançar um olhar tão vazio. Ji Hyeon, que ficou assim por um longo tempo, murmurou baixinho como quem fala consigo:
—…Você também tem um gênio péssimo.
—…….
Um riso vazio escapou. Ele não pretendia negar, mas era estranho ouvir isso justo de Ji Hyeon. Não que ficasse de mau humor; só achou um pouco absurdo.
—Deixa de conversa e dorme.
Junto com essa frase, Ji Hyeon recolheu o olhar. Encostou a cabeça no encosto e virou o rosto de lado, olhando a paisagem noturna do lado de fora. As luzes noturnas que tremeluziam se infiltraram naquelas pupilas claras.
—…….
—…….
É raro uma relação em que o silêncio não é constrangedor. E ele nem sabe há quanto tempo não ficava assim com aquele sujeito raro. Nenhum dos dois em ponta de nervos e nenhum dos dois tenso. Aquele instante em que a respiração que se ouvia baixinho não pesava.
“Seria bom se a gente continuasse assim.”
Se fosse assim, não haveria nem necessidade de largar o cargo, não? Porque o trabalho combinava com Eunho e porque ele não desgostava de ficar ao lado de Ji Hyeon. Como não há nada mais cansativo do que tentar mudar as coisas, a vontade de manter tudo em estado de calmaria era enorme.
Bom, ele sabe que no fim é um desejo fútil. Manter é tão difícil quanto mudar, e a relação deles já começara a mudar. O que restava era apenas concluir tudo perfeitamente.
Tanto a gravação do ‘AME’ quanto o próprio sentimento dele por Ji Hyeon.
* * *
Depois disso, por alguns dias, repetiram-se dias sem nada de especial. A rotina de ir buscar Ji Hyeon cedo pela manhã e levá-lo de volta pra casa depois da gravação. Dias comuns em que Ji Hyeon não fazia grandes birras e em que Eunho não tinha motivo pra se irritar com ele.
—Manager, quanto tempo!
E chegou o grande dia da gravação do ‘AME’. Eunho apertou a mão da produtora Yu, que o cumprimentou com alegria, e cumprimentou com os olhos o diretor de fotografia e a equipe.
—Conto com vocês nesta gravação.
—Ai, eu é que conto com você.
Diferente da vez anterior, dessa vez o interior da casa não seria mostrado. Por isso, as câmeras de observação foram instaladas apenas na van em que eles andariam. Os principais locais de gravação eram o estúdio e o hospital, e hoje o cenário do ‘AME’ seria uma ruela, locação externa.
ainda não fora lançada, mas no ‘AME’ algumas cenas da série seriam divulgadas. Era algo já acordado com a produtora; fecharam o acordo de mostrar apenas o suficiente pra despertar curiosidade, sem virar spoiler. Como já era amplamente sabido que Ji Hyeon estava gravando uma série, era certo que queriam fazer uma grande divulgação, já que gravariam um reality de observação de qualquer forma.
—É só fazer como da última vez, à vontade…
Portanto, como precisavam se ajustar ao cronograma de , o roteiro do ‘AME’ tinha um grau de liberdade maior que na gravação anterior. Na prática quase não havia roteiro, mas, ao contrário, o coração ficava mais leve. Diferente da vez anterior, em que ele tinha de espremer conteúdo à força, dessa vez bastava desempenhar o trabalho de Manager que ele fazia normalmente.
—Quando estiverem prontos, podem sair à vontade.
Assim que a produtora Yu terminou de falar, Eunho subiu na van. Ji Hyeon já estava no banco de trás, lendo o roteiro.
Ji Hyeon, que olhou de relance pra Eunho subindo no banco do motorista, falou como quem murmura pra si:
—Dessa vez você não colocou máscara.
A reação a aquilo foi boa, viu — a voz que passou de relance se enrolou em seus ouvidos. Eunho respondeu mexendo à toa na nuca:
—Naquela vez eu usei porque a equipe mandou.
Pensando bem, ele também deve ter assistido ao ‘AME’. Uma sensação constrangida lhe veio de repente. Como não falavam desse assunto, ele tinha esquecido, mas aparecer na TV diante de um sujeito cuja profissão era atuar era razoavelmente vergonhoso. Até a CG de purpurina espalhada no instante em que ele tirou a máscara lhe pareceu embaraçosa.
—Posso sair?
—Faz como for melhor pra você.
Como esperado, ao contrário de Eunho, que estava tenso, Ji Hyeon deu de ombros com um rosto impassível. Não é à toa que é ator: bastava a câmera ser instalada pra que aquele clima tranquilo característico surgisse.
Eunho, que olhou de relance pra Ji Hyeon, bateu uma palma diante da câmera instalada à frente.
No caminho até o local da gravação não era preciso puxar nenhuma conversa. Foi algo que ele sentiu na gravação anterior: mesmo sem preencher deliberadamente como um programa de rádio, surgira nele a confiança de que a produtora Yu editaria tudo direitinho.
Por isso Eunho deixou Ji Hyeon ler o roteiro durante todo o trajeto. Perguntar por hábito como estava sua condição e dizer pra não forçar se o braço doesse foi tudo o que houve de conversa. Ji Hyeon também respondeu, como sempre, que estava mais ou menos bem.
—Atores, aguardem por aqui!
A ruela previamente locada estava, como sempre, caótica e barulhenta. Como em todo set, mas, no caso de externas, era preciso se mover muito mais rápido que o normal. Como as condições de gravação mudavam conforme o clima e outras variáveis, um dia inteiro podia se perder por descuido.
Com a cena a ser gravada dessa vez era a mesma coisa. Não era uma cena demorada, mas ele soube que a ordem fora empurrada por causa da locação e do clima. E, depois que tudo estava pronto, Ji Hyeon se acidentou e eles tiveram de esperar mais um bom tempo.
—Não força de jeito nenhum.
Eunho recomendou a Ji Hyeon várias e várias vezes. Porque a cena que Ji Hyeon gravaria naquele dia era uma briga intensa numa ruela. Não o Minhyeok possuído pelo promotor Junhyeok, mas simplesmente Kwon Minhyeok. Como era o protagonista de e um homem que vivera nos becos, havia muitas rubricas mais intensas que o normal.
—Se doer nem que seja um pouco, dá NG. Entendeu?
—…….
Ji Hyeon não respondeu e apenas ficou olhando fixamente pra Eunho. Nesses últimos dias, sempre que Eunho dizia algo preocupado, ele fazia essa expressão. Parecia que ouvia com atenção e, ao mesmo tempo, que pensava em outra coisa. Aqueles dois olhos que piscavam devagar pareciam até dóceis.
—Me dá o braço.
Eunho arregaçou com cuidado a manga de Ji Hyeon e examinou minuciosamente a bandagem enrolada. Bem antes de tocá-lo, não se esqueceu de conferir a cor do rosto dele. Se por acaso ele mostrasse sintomas de TOC, ele pretendia olhar só por fora, sem tocar. Felizmente Ji Hyeon não demonstrou nenhuma repulsa, e a bandagem enrolada desde o pulso também estava intacta.
—Se soltar, eu enrolo de novo; me avisa.
Como se machucar era frequente ao gravar cenas de ação, Eunho sabia fazer todos os primeiros socorros básicos. Além de ter decorado métodos de bandagem, houve uma época em que ele até considerou seriamente aprender massagem esportiva. Claro, desistiu ao pensar que aquilo parecia mais coisa de Manager de atleta que de ator.
—Eu vou olhar do lado, mas no fim quem tem que cuidar da dor é você. Então grava o que eu disse.
—…Tá.
Finalmente saiu uma resposta pequenininha de Ji Hyeon. Diante do gesto de ele até acenar com a cabeça, Eunho soltou seu braço, aliviado. Ji Hyeon massageou a parte que encostara em Eunho e ficou abrindo e fechando a mão direita à toa.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna