⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 27
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 27
Como Eunho não saberia o que aquele olhar significava? Sem alternativa, Eunho engoliu um suspiro pequeno e abriu a porta do motorista. Assim que desceu do carro e fechou a porta, o dentro e o fora ficaram completamente separados.
“Não é a primeira vez que eu vejo isso…”
Ele nem pretendia culpá-lo por estar com o estômago ruim. Eunho era alguém que andava sempre com sacos plásticos, creme de mãos, protetor labial e todo tipo de remédio na mochila. Que ele vomitasse não era nada de mais, mas parece que, pra Ji Hyeon, aquilo não era assim de jeito nenhum.
Seria por achar sujo, ou por não querer mostrar um lado frágil? A julgar pelo fato de ele pedir tranquilamente pra passarem creme nas mãos dele, provavelmente a primeira hipótese era mais forte. Com aquele temperamento especialmente obcecado por limpeza, não era de espantar que ele se irritasse consigo mesmo por reagir de forma tão sensível.
—Haa.
Eunho bagunçou o cabelo com uma das mãos e olhou de relance pra janela. Do outro lado do vidro com película escura não se via silhueta nenhuma. Não é à toa que é carro de artista. O fato de não conseguir ver o interior era realmente sufocante.
Ji Hyeon desceu do carro cerca de dez minutos depois. Eunho, que continuara ali perto até então, subiu pra casa com Ji Hyeon sem dizer nada. Ji Hyeon, que ficou em silêncio até chegarem ao último andar, mesmo depois de chegar em casa desapareceu no banheiro deixando Eunho pra trás.
E, quando saiu, estava como sempre de roupão branco. Da cabeça pingava água, e ele nem estava com a frente do roupão fechada direito. Ji Hyeon, que saía passando a mão pelo cabelo molhado, estancou no lugar assim que viu Eunho sentado no sofá.
—…….
—…….
Uma gota que escorreu desceu ao longo da clavícula saliente. Ficou presa por um instante na depressão e, como Ji Hyeon moveu a cabeça, escorreu pela região do peito. Ele parecia um pouco mais magro que antes, mas talvez justamente por isso os músculos do tronco se viam de forma ainda mais crua.
—Você não foi?
Ele nem conseguia responder à pergunta que saiu baixinho. O cinto amarrado de qualquer jeito cobria por pouco apenas as partes importantes. Se ele desse mais alguns passos assim, talvez ele não encontrasse lugar decente onde pousar os olhos.
—…Você acha que eu ia conseguir ir?
Eunho respondeu num tom sereno, fingindo com esforço que nada era. Eu devia ter vindo de boné. Pensando isso, ele desviou os olhos de Ji Hyeon. E, nas palavras que soltou, veio junto, mesmo que pouco, um suspiro complicado.
—Eu tinha que ver se você estava bem antes de ir.
Como deixar um sujeito que passou tão mal a ponto de vomitar? Fosse a causa física ou psicológica, ele só ficaria tranquilo depois de ver a melhora. Não, mesmo que fosse embora, no mínimo ele tinha que avisar que ia.
—Como tá o estômago?
—Uma merd…
Ji Hyeon, que ia responder por reflexo, engoliu o resto às pressas. Depois de ficar um instante assim, só então ajeitou direito a gola do roupão e ofereceu uma resposta modificada:
—Mais ou menos.
Era diferente de quando ele fazia protesto contra Eunho. Ao contrário daquela vez em que ele imitava abertamente um menino obediente, agora se via claramente que aquele “estou bem” saíra depois de muita ponderação.
“Sujeito fácil de ler.”
Como pode um sujeito que atua tão bem ser tão transparente? Ele não sabia se era só aos olhos dele ou se era assim aos olhos de todos. Se fosse a primeira hipótese, era um enorme alívio, mas o fato de conhecê-lo tão bem também o deixou amargo.
—Sobe e dorme um pouco.
—…….
Ji Hyeon, em vez de responder, baixou levemente a cabeça. Girou o olhar devagar, como quem pondera, e o lugar pra onde ele acabou dirigindo os passos não foi a escada, mas o sofá onde Eunho estava sentado.
Como Eunho estava numa posição diagonal, Ji Hyeon se sentou, como sempre, no sofá comprido com encosto. Era aquela posição onde ele às vezes se deitava esticado e varava a noite de olhos abertos quando o sono não vinha. Ele devia estar realmente mal, porque, em vez de se sentar direito, deitou-se esticado usando o braço do sofá como travesseiro.
—Se é pra deitar, deita na cama.
—Preguiça de subir.
Então que ao menos vestisse uma roupa. Ele estava deitado, indefeso, vestindo apenas um roupão. Com a cabeça voltada pro lado onde Eunho estava e a mão sobre a testa, ele fitava o teto, aéreo. Aquelas pálpebras que iam se fechando aos poucos não podiam parecer mais frágeis.
—Não precisa tomar remédio?
—Não.
Ji Hyeon respondeu curto e baixou os olhos. Mexeu os lábios escolhendo palavras e murmurou com uma voz quase inaudível:
—Remédio eu já estou de saco cheio.
Era uma fala perfeitamente compreensível. Só os remédios que ele tomava normalmente já não eram um ou dois; e agora, com o acidente, os tipos deviam ter aumentado. Como ele mesmo dizia estar de saco cheio de remédio, era um sujeito que detestava até vitaminas.
—…Se estava mal, era pra ter deixado sobrar.
Como se algo apodrecesse por dentro, Eunho falou num tom um pouco acusatório. Toda essa situação lhe parecia dolorosa além do que se podia expressar. A região do peito ardia, a ponto de ele ter que engolir em seco várias vezes.
—Você mandou eu comer a maçã toda.
Ji Hyeon respondeu com aquela voz branda característica. Por algum motivo, num tom meio injustiçado. Mas aquilo ele dissera sem saber que ele passaria mal. Como ele achava que precisava aumentar o peso, quis fazê-lo comer alguma coisa.
—Você acha que eu ia te alimentar até você vomitar? Nem que fosse tortura por comida.
À frase entregue junto com um suspiro não veio resposta nenhuma. Provavelmente Ji Hyeon também tinha consciência de que forçara. Porque, se fosse normal, no instante em que sentisse que o estômago não aceitava, ele teria dito a Eunho e parado de comer.
—…….
—…….
Desde quando o silêncio ficou constrangedor? Ele não conseguia saber o que aquele sujeito de olhos fechados estava pensando.
Ele pensou em perguntar se ele ia continuar desconfortável daquele jeito, mas decidiu deixar pra lá. Foi porque julgou que apressar um doente não geraria nenhuma situação boa. Além disso, esse clima constrangedor não era culpa exclusiva de Ji Hyeon.
“Não pode ser assim na gravação também.”
Se fosse, a comunidade viraria um caos na hora. Diriam que Ji Hyeon e o Manager brigaram, que a relação estava estranha, e todo tipo de especulação correria solta. Sendo um meio em que sai fumaça até de chaminé apagada, não havia necessidade de acender o fogo de propósito, não é?
—…Por que você fica medindo tanto a minha reação?
Então Eunho abriu a boca com cautela, empurrando pra baixo o aperto no peito. Não por se preocupar com o ‘AME’, mas por pensar que aquilo não podia continuar assim pra sempre. Programa, bom, é, falando sem papas na língua, tanto fazia se virasse uma bagunça. Mas o íntimo de Ji Hyeon virar uma bagunça era outro problema.
—Eu falei que ia trabalhar como Manager até terminarem as gravações. Eu nem disse pra você não falar comigo; por que você fica tão desconfortável se é só me tratar normalmente?
A fala, que começou com calma, no fim saiu com um pouco de emoção. Achando que demonstrara demais a impaciência, ele estalou a língua e, vendo Ji Hyeon ainda sem dizer nada, voltou a abrir a boca:
—Se você estiver muito incomodado, eu simplesmente lar…
—Não estou incomodado.
—…….
—Falei que não estou incomodado.
Você parece incomodadíssimo até agora.
Essa frase ele engoliu goela abaixo. Porque Ji Hyeon virou a cabeça e olhou pra Eunho. As pupilas de cor clara, quase transparentes, se voltaram diretamente pra Eunho.
—Eunho.
—…….
Ele às vezes sente isso: o Ji Hyeon que o chama assim tem um lado bastante estranho. A voz se abrandava com suavidade e dava uma sensação estranhamente cócega. Ji Hyeon nem era do tipo que chamaria alguém com carinho, e por ser um tratamento íntimo como que deliberado, ainda mais.
—Eu andei pensando.
Aquele começo que saiu brando deixava, por algum motivo, tenso. A ponto de Eunho endireitar a coluna e corrigir a postura sem perceber. Piscando, Ji Hyeon fechou os olhos sem força, abriu-os e emendou lentamente:
—Você disse. Que as coisas que eu te exijo e espero de você as pessoas não fazem numa amizade comum.
Eram exatamente as palavras que Eunho dissera. De tanto remoê-las, ele se lembrava sem errar uma sílaba. Ele pensou bastante, então. No instante em que Eunho pensava isso, Ji Hyeon perguntou de leve:
—Então por que você acolheu isso até agora?
—…….
Ele ficou sem palavras. Porque não havia como responder àquela pergunta. Porque, pra responder como se nada fosse, as várias emoções que Eunho carregava seguravam seus tornozelos.
—Porque você tem pena de mim?
—…….
—Ou então… “vou ceder um pouco pro moleque imaturo”, era isso?
A pergunta seguinte não tinha a nuance irônica de sempre. Ao contrário, era mais como se ele desejasse que fosse assim. A pergunta que soava de algum modo suplicante, em certo sentido, parecia também uma busca por um pretexto.
—Você ainda está com raiva de mim.
—…….
—Então por que você é tão bom comigo? Me deixando confuso.
Ele começou falando com calma e, no fim, a última frase soou meio injustiçada. Assim como acontecera com Eunho, era certo que nele também as emoções vinham se misturando conforme ele falava.
—…Mesmo sem ser Manager, a gente é amigo.
Eunho escolheu, entre as muitas palavras que rondavam sua boca, um motivo mais ou menos aceitável e o soltou. Porque teve a impressão de que hoje não podia entrar numa discussão longa. O clima instável daquele momento era inseguro como caminhar sobre gelo.
—Se um amigo está doente, obviamente eu me preocupo.
—…….
Era uma expressão de quem tinha muito a dizer, mas Ji Hyeon não abriu os lábios. Apenas olhou pra Eunho com olhos afundados. Por algum motivo, aquele olhar chegava a parecer desagradado.
—…Se você passar mal de madrugada, me liga.
Eunho disse isso e se levantou imediatamente. Como não havia nada que ele pudesse fazer ficando mais, era pra ir de vez pra casa agora.
—Você vai?
Mas, ao mesmo tempo, Ji Hyeon se ergueu. Sem sequer ajeitar o roupão aberto, ele perguntou com um rosto de algum modo desconcertado:
—…Você não fica mais?
Era igual a quando ele perguntou antes se ele não tinha ido embora. Numa hora ele dava como certo que ele tinha ido, e agora, quando ele dizia que ia pra casa, ele mostrava essa reação. E até a frase que emendou como protesto:
—Você disse que ia ver se eu estava bem.
—Você parece bem, por isso eu vou.
O estômago podia estar meio ruim, mas não era um estado em que fosse acontecer algo naquele instante. Na verdade, depois de vomitar, ele já devia ter melhorado bastante. Provavelmente jantar não seria grande problema. E talvez o fato de ele estar ali fosse justamente o que mais o incomodava.
—…….
Ji Hyeon foi contorcendo o rosto aos poucos e mexeu os lábios. Não era a sensação de ficar lívido como antes; era como se ele não encontrasse o que dizer. E então, uma voz ansiosa soltou aquele pedido familiar:
—Dorme aqui e depois…
—Ji Hyeon.
Ao mesmo tempo, uma voz baixa chamou por Ji Hyeon. Ji Hyeon olhou pra Eunho com um rosto de algum modo tenso. Como o íntimo dele vinha revirando havia um tempo, Eunho o fitou de frente e disse:
—Parece que você esqueceu, mas eu sou gay.
Em que esse moleque se apoia pra fazer isso? Ele pensou nisso sem parar. Quando ele saiu vestindo apenas um roupão, quando conversaram com ele deitado no sofá daquele jeito e até agora, quando ele diz descaradamente pra ele dormir ali.
—Se fosse com você, conseguiria dormir na mesma casa que um homem?
Foi uma fala nascida meio de um estouro. Porque, dizendo assim, era certo que ele mandaria embora nem que fosse por se ofender. Porque tudo bem que um amigo seja gay e poder se tornar “esse” tipo de alvo eram, claramente, coisas diferentes.
—Amanhã eu venho cedo.
Com essa frase, Eunho virou as costas sem sequer olhar pra Ji Hyeon. Porque não tinha confiança pra ver que expressão ele fazia nem pra ouvir que palavras ele diria.
Felizmente, Ji Hyeon não o deteve e não disse nada até ele sair da sala.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna