⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 26
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 26
E então, de novo, nenhuma palavra circulou. Ji Hyeon ficou apenas com o queixo apoiado na mesa, fitando Eunho. O que havia de tão interessante em vê-lo pôr sal em ovos? Aquele olhar era tão insistente que, mesmo parado, ele se sentia observado.
—O que você tá fazendo?
Por isso, quando Ji Hyeon perguntou, Eunho soltou sem querer um suspiro baixo. Parece que, a partir de certo momento, ele até esquecera de respirar. Depois de pigarrear à toa, Eunho fabricou uma voz serena:
—Ovos mexidos.
—Ainda tinha ovo em casa?
—Tinha alguns.
Era um diálogo familiar e sem nenhum valor nutritivo digno de nota. Não era constrangedor, mas não era natural; não era incômodo, e no entanto ele ficava o tempo todo consciente. Até mesmo o nome que ele chamou de leve, virando-se pra ele.
—Ji Hyeon.
—…….
O olhar de Ji Hyeon se voltou pra Eunho. Não, talvez não tivesse se desprendido desde antes. Eunho tirou um prato do armário e perguntou:
—Quanto você tá pesando agora?
O peso que constava no perfil do portal fora medido quando ele estava em plena atividade como modelo. Naquele nível de magreza a condição física em geral não era boa, e por isso durante as gravações ele mantinha um peso um pouco maior. De cinco a até oito quilos. Precisava mudar ao menos uma vez o primeiro dígito pra que o preparo físico melhorasse de fato.
—Sei lá… faz tempo que eu não me peso, não sei bem.
—No hospital não pesaram?
—Não teve ocasião.
Ouvindo aquela resposta vaga, Eunho examinou Ji Hyeon de olho. Como o tempo que passaram juntos não fora em vão, só pelo que se via por fora dava mais ou menos pra estimar. Especialmente por coisas como a linha do rosto ficando saliente e a impressão mudando pra algo mais afiado.
—Precisa engordar um pouco.
Chegando rápido a essa conclusão, Eunho serviu no prato os ovos bem cozidos e o pousou. A maçã que separara ele lavou bem e começou a descascar com a faquinha. Hoje ele resolveria assim mesmo e, a partir de amanhã, pretendia abastecer a geladeira. Pra gravar ele precisava recuperar o preparo físico, e, com a internação, ele devia ter perdido bastante massa muscular.
—Come isso e come a maçã toda também. Amanhã eu faço compras.
—…….
Ji Hyeon pegou em silêncio o garfo posto na mesa. Ele achou que ele fosse comer, mas o que ele fez foi só cutucar o prato de leve. Ele ia dizer pra ele parar de brincar e comer, quando ele puxou o assunto devagar:
—…É que eu tô confuso.
As pupilas de cor clara se voltaram pra Eunho. Elas já não eram propriamente brilhantes, mas ultimamente pareciam de fato submersas na água. Submersas ou, melhor dizendo, imóveis. Se por acaso alguém as encontrasse, ficaria sem palavras.
—Isso é função de Manager?
Pois é, como agora.
—Os outros Managers também fazem tudo isso?
—…….
Num instante ele se assustou. Porque dizer que sim era estranho, e dizer que não também era estranho. Foi como se a cabeça se esvaziasse de branco e, ao mesmo tempo, como se a consciência ardesse por ter sido acertada em cheio.
Ser Manager não significava cuidar exclusivamente da parte profissional. Checar a condição do artista sob sua responsabilidade e criar um bom ambiente de gravação também era papel de Manager. Casos como o de Eunho, que até cozinhava, não deviam ser comuns, mas isso não quer dizer que não existissem.
Mas, a rigor, não era que Eunho tivesse calculado tudo isso pra agir. Se muito, ele apenas cuidara automaticamente, por hábito, do jeito que sempre fizera. Desde o instante em que entrou naquela casa, o corpo se moveu sozinho; que desculpa ele daria?
Mas, seja lá como ele interpretou aquele silêncio, Ji Hyeon estreitou o meio das sobrancelhas e abriu a boca:
—Não é cobrança…
—Eu também não sei.
—…….
—Como é que eu vou saber se o Manager dos outros faz isso ou não?
Toc, a maçã se partiu ao meio sobre a tábua. Depois de cortá-la mais uma vez ao meio, ele tirou as sementes e cortou em pedaços pequenos, bons de comer.
—Eu só faço por hábito.
Tudo o que se relacionava a Ji Hyeon era assim. Cuidar dele, ficar ao lado dele — pra Eunho, aquilo era apenas mais um pedaço do cotidiano. Até o sentimento de gostar dele se instalara como hábito, a ponto de ele nem se dar conta se não o retomasse deliberadamente.
—Não fica me perguntando cada coisinha. Eu também sou Manager pela primeira vez e não sei direito como se faz; e, sinceramente, eu também não sei bem como devo te tratar agora.
Pra Eunho tudo também era a primeira vez. A primeira vez gostando de alguém, a primeira vez sendo a existência única de uma pessoa, a primeira vez brigando desse jeito, a primeira vez voltando a ficar ao lado dele sem nenhuma emoção resolvida.
—…Esse tipo de coisa você é que devia saber.
O que diabos ele deveria fazer? Se pudesse, queria segurar Ji Hyeon e perguntar. O que ele devia dizer, como devia tratá-lo, até onde acolher e até onde cuidar. E também o motivo de ele esperar essas coisas dele.
—Deixa de conversa e come. Se você ficar desajeitado desse jeito e isso aparecer na gravação, o que a gente faz?
Quando ele o repreendeu, meio por constrangimento, Ji Hyeon começou a comer em silêncio. Ergueu um pouco dos ovos amarelinhos e fofos e levou à boca num gesto limpo, sem excessos. Era um sujeito de etiqueta à mesa impecável, e por isso, enquanto mastigava, ficava simplesmente quieto.
“Parece que ainda não sarou de vez.”
Vendo aquilo, Eunho de repente percebeu uma coisa. Ele tinha tirado o gesso, mas ainda parecia ter desconforto pra usar a mão direita. Tanto pelo jeito desajeitado de segurar o garfo, quanto por, de vez em quando, pousar o garfo e abrir e fechar a mão. Mesmo que não doesse, era certo que ao menos restava uma sensação de formigamento.
“E ele quer voltar a gravar com essa mão…”
Falaram pra ele descansar no mínimo três meses. Ji Hyeon decidira voltar ao set assim que começasse a semana seguinte. O motivo era que, sem o protagonista, a produção não avançava; mas desde quando ele tinha esse espírito profissional tão apurado, ele não sabia. Não… bom, ele sempre teve um lado sério no que dizia respeito ao trabalho.
—Hoje no hospital, se o resultado não for bom, descansa mais um pouco.
—…….
—Se você voltar com esse braço e acontecer alguma coisa, quem leva xingamento dos fãs é a empresa.
—…….
—E o diretor também se preocupa muito, então…
Eunho, que emendava a fala havia um tempo, percebeu que o garfo de Ji Hyeon ia ficando cada vez mais lento e fechou a boca. À primeira vista ele parecia normal, mas a expressão estava sutilmente endurecida. Não era por estar de mau humor; provavelmente a situação atual estava desconfortável pra caramba pra ele.
—…Eu não vou dar sermão, então só come.
Um sujeito que não se abalava com um sermão desse tamanho. Normalmente ele até entraria por um ouvido e sairia pelo outro, descaradamente. Ele poderia até dizer, como se nada fosse, algo que faria o diretor Byeon ter um treco, tipo “e o que eu tenho a ver com a empresa levar xingamento?”.
—…….
Mas hoje ele não estava medindo a situação um pouco… muito, exageradamente? Há pouco ele soltava um “meu bem” com toda a cara de pau, e agora agia como se tivessem posto uma faca no pescoço dele.
Sem alternativa, Eunho engoliu um suspiro pequeno e se levantou. Como ficar observando só o deixava cada vez mais desconfortável, ele pretendia simplesmente sair de perto. Ji Hyeon se virou pra ele com um compasso de atraso, mas não deteve Eunho, que saía pra sala.
* * *
Depois da refeição, foram ao hospital no carro dirigido por Eunho. Eunho, que havia devolvido a chave do carro tempos antes, a recebera de volta junto com o cartão do apartamento das mãos do diretor Byeon. Embora fosse um carro de propriedade dele, Ji Hyeon não perguntou nem uma vez de onde Eunho tinha tirado a chave.
Durante todo o caminho até o hospital, Eunho ficou olhando o retrovisor com olhos inseguros. Ji Hyeon saíra da cozinha uns dez minutos depois, e, por menos comida que houvesse, aquilo fora bem mais rápido que o normal. Ele conferiu por precaução: a maçã que ele deixara pra comerem juntos também estava toda consumida.
—…….
Ele não está com indigestão? Mesmo pensando isso, ele não conseguia perguntar. Porque, assim que entrou no carro, Ji Hyeon encostou a cabeça na janela e fechou os olhos. A cor do rosto parecia mais ou menos boa, mas, como era um sujeito acostumadíssimo a esconder as coisas, não dava pra se tranquilizar com nada.
Se é que se pode dizer felizmente, até chegarem ao hospital não apareceu nenhuma reação anormal em Ji Hyeon. Foi assim também quando Eunho confirmou a consulta e continuou assim até fazerem o raio-X depois de uma breve espera.
—O osso já colou, e se ele descansar bem…
O próprio interessado, Ji Hyeon, parecia ouvir por alto, mas Eunho ouviu com atenção as palavras do médico. O estado não era ruim e a capacidade de recuperação era boa, ele disse. Disse que, sem forçar, a vida cotidiana também não seria problema, mas era certo que o critério de “forçar” era bem diferente do de Ji Hyeon.
Próxima consulta em uma semana. Horário igual, onze da manhã. Assim que terminou o pagamento com o cartão corporativo, Eunho apressou os passos. Porque Ji Hyeon, que apenas o seguia comportado, parecia estranhamente instável.
“Melhor levar ele pra casa logo.”
Parecia uma bomba-relógio prestes a explodir. Nessas horas, havia grande chance de a condição de Ji Hyeon despencar de repente. Aí a crise de pânico era só questão de tempo, e essa era uma situação que Eunho definitivamente não desejava.
Depois, durante todo o caminho de volta pra casa, Ji Hyeon não disse nada. Olhando de relance pelo retrovisor, ele estava com a cabeça encostada na janela e os dois olhos fechados. Pensou em dizer pra ele usar ao menos um travesseiro de pescoço, mas, como a sensação era esquisita, decidiu não mexer com ele.
E foi quando chegaram em frente ao prédio e terminaram de estacionar.
—…Você não dormiu?
Eunho, que se virou por hábito, perguntou sobressaltado. Porque Ji Hyeon estava fitando Eunho. Ele estava claramente de olhos fechados até a hora da manobra, mas parece que abriu os olhos naquele breve intervalo em que ele soltava o cinto.
—…….
Ji Hyeon não deu resposta nenhuma e, em vez disso, acenou levemente com a cabeça. Pra esse Ji Hyeon, Eunho, em vez de perguntar qualquer coisa, acabou dizendo apenas isto:
—Chegamos, então pode subir.
Surpreendentemente, Ji Hyeon estancou no instante em que ouviu aquilo. E então franziu a testa e mexeu os lábios. O moleque, que hesitou por sabe-se lá que motivo, só depois de um longo tempo perguntou com uma voz sem força:
—…Você não vai subir junto?
Era um tom tão sofrido que por um instante seu coração amoleceu. Não posso ficar achando ele digno de pena. Pensando isso, Eunho fabricou um rosto sem expressão. E as palavras que soltou soaram, mesmo aos próprios ouvidos, bastante frias:
—Hoje não tem mais compromisso.
—…….
Não é preciso ficar o dia todo junto como antes. Foi com esse pensamento que ele falou. De qualquer forma não havia agenda, então Ji Hyeon podia simplesmente descansar em casa, ele achou.
—Amanhã eu venho te buscar.
Foi por isso que ele disse aquilo, mas a reação de Ji Hyeon não foi nada comum. Em vez de responder, ele apenas piscou os olhos, aéreo. O rosto elegante como um desenho foi se contorcendo aos poucos, e num instante a cor sumiu daquele rosto pálido.
E, ao mesmo tempo, da boca fechada saltou uma ânsia de vômito.
—…Urgh.
Foi um som pequeno, mas suficiente pra desconcertar Eunho. Ji Hyeon cobriu a boca com as costas da mão e encolheu o tronco de vez. Como se ele mesmo se irritasse com aquela situação, um palavrão mastigado baixinho perfurou seus ouvidos. Eunho, vasculhando às pressas a mochila em busca de um saco plástico, pensou:
—…….
Ah, porra. Eu sabia que ele estava com indigestão.
Ele estava inseguro desde antes. Se estava mal, era pra ter deixado sobrar. O problema foi ele ter medido a situação e, mesmo assim, ter enfiado tudo goela abaixo, inclusive a maçã. Sendo ele já sensível daquele jeito, seria estranho se passasse sem nenhum incidente.
—Toma aqui primeiro…
Assim que Eunho, tendo achado o saco plástico, o passou pro banco de trás, Ji Hyeon o arrancou da mão dele. Ele achou que ele fosse vomitar ali mesmo, mas o que ele fez foi encarar Eunho de cara franzida.
—…….
—…….
Por um tempo os olhares foram e vieram. Com o rosto pálido e suando frio, Ji Hyeon manteve a boca bem fechada e fez aqueles olhos arregalados.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna