⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 21
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 21
O gesso no braço direito e um boné familiar. Com um rosto um pouco emagrecido, era justamente aquele moleque.
—…….
Ji Hyeon — ele quase o chamou assim. Não havia motivo pra não chamar; o problema é que ele quase reagiu com naturalidade, como se tivessem voltado ao passado. Enquanto Eunho, desconcertado, engolia as palavras, o diretor Byeon, sentado no sofá, soltou uma voz sobressaltada:
—O quê? Hyeon, como é que você veio parar aqui?
—…….
Ji Hyeon, em vez de responder a ele, ficou olhando fixamente pra Eunho. Os olhos claramente se encontraram, mas não deu a sensação de que realmente se encontraram. Porque naquelas pupilas de um castanho quase transparente não surgiu emoção nenhuma.
—…….
—…….
Sob a aba do boné, os olhos sombreados piscaram como em câmera lenta. A imagem dos cílios longos projetando sombra não tinha um pingo de realidade. Falando com sinceridade, era um pouco estranho, digamos. Porque fazia realmente muito tempo que ele não via Ji Hyeon se movendo a uma distância tão próxima.
—Eu perguntei como você veio.
Quem quebrou o silêncio foi o diretor Byeon. Diante daquela única frase, Ji Hyeon desviou o olhar de Eunho. E então respondeu, entediado, ainda com o rosto sem emoção:
—Como eu vim? De táxi, ora.
E o que Ji Hyeon fez foi passar por Eunho e ir em direção ao sofá. Como se o tratasse feito homem invisível — uma atitude natural ao extremo. Ji Hyeon, que se sentou no sofá de cara franzida, recostou-se no encosto e soltou um suspiro raso.
—Ficar no hospital dá uma coceira insuportável…
O rosto do diretor Byeon se encheu de perplexidade. E não era só o diretor Byeon. Eunho, ignorado bem diante dos próprios olhos, também ficou sem palavras e piscou, aéreo.
“Mas o que é isso?”
Nos tempos de colégio, mesmo quando brigaram a ponto de se agarrarem pelo colarinho, Ji Hyeon ficava espiando de relance. Mesmo quando estava irritado, e mesmo quando tinha queixas de Eunho, ele podia até rondá-lo abertamente, mas nunca o ignorava fingindo não conhecê-lo.
Mas agora Ji Hyeon parecia não ter o menor interesse em Eunho. Não deu sinal de reconhecê-lo, não perguntou por que ele viera e, mais ainda, depois de desviar os olhos uma vez, nem sequer olhou pra trás.
—Ei, moleque, por mais que vocês tenham brigado…
O diretor Byeon estalou a língua. Girando os olhos e medindo a reação de Eunho, parecia aflito com medo de que estourasse algum problema. Ji Hyeon franziu o canto dos olhos, como quem acha aquilo besteira, e sem querer baixou o olhar em direção à mesa.
—…?
Uma fenda leve surgiu no meio das sobrancelhas bem-feitas. No lugar pra onde o olhar dele se dirigira estava a carta de demissão que Eunho entregara ao diretor Byeon. As rugas na testa foram ficando mais fundas, e em algum momento seu rosto ficou estupidamente vazio. E então Ji Hyeon virou a cabeça de repente e olhou pra onde Eunho estava.
—…….
—…….
Os olhares se encontraram. Sim, dessa vez ele sentiu que realmente se encontraram. O espanto encheu as pupilas claras, e os olhos elegantes se arregalaram.
No instante em que Eunho deixava escapar um riso perplexo, dos lábios que se moviam saiu uma voz trêmula:
—…Kwak Eunho?
Não era necessário responder. Eunho esfregou a nuca uma vez e girou o olhar.
Será que ele agora achou que tinha visto errado? A essa distância, e tendo olhado tão diretamente pra ele. Por mais distraído que ele ande, mesmo assim…
—…Hm.
Eunho olhou de relance pra Ji Hyeon e murmurou baixinho. Ji Hyeon continuava duro como pedra. Ele pensou em cumprimentá-lo dizendo “quanto tempo”, mas simplesmente voltou o olhar pro diretor Byeon.
—Então eu vou indo primeiro.
Com essa frase, Eunho virou as costas sem hesitar. Mas, no instante em que ia dar um passo, uma força tão intensa que fez seu corpo inteiro cambalear agarrou seu antebraço. No lugar pra onde ele virou a cabeça, franzindo a testa, Ji Hyeon estava com a boca bem fechada, olhando pra ele.
—…….
—…….
Se agarrou, que ao menos falasse. Ele não disse nada. E também não soltou Eunho, nem afrouxou a força da mão que o segurava. Apenas, com olhos bem arregalados, encarou Eunho com firmeza.
—O quê.
—…….
Quando Eunho finalmente perguntou, Ji Hyeon franziu a raiz das sobrancelhas e mexeu os lábios. Parecia com raiva e, ao mesmo tempo, parecia inseguro. Os olhos estavam bem tensionados, mas as pupilas oscilavam levemente, e por isso ainda mais.
—…Você vai aonde?
Não seria mais lógico perguntar primeiro por que ele veio? Que assunto o trouxe — não era isso que deveria perguntar primeiro?
—Pra casa, ué.
—Você vai pra casa?
—É, dói, então solta e fala.
Ji Hyeon estremeceu os ombros e afrouxou a mão. E, mesmo assim, não soltou o braço de Eunho. Sendo destro, por que a força da mão esquerda também era tanta? A parte agarrada estava toda formigando.
—…….
—…….
E de novo, silêncio. Ele pensou em apressá-lo mais uma vez, mas Eunho apenas soltou um suspiro pequeno. Que Ji Hyeon tenha estremecido diante daquele suspiro não foi de forma alguma impressão dele.
—Ji Hyeon.
Era um nome que ele chamava depois de muito tempo. Porque, desde aquele dia em que ele fora à sua casa, muito tempo se passara. Nos sete anos desde que começara o trabalho de Manager, era a primeira vez que ele ficava tanto tempo sem ver o rosto dele.
—O diretor está aqui, o que você tá fazendo?
Quando ele falou apontando com o queixo, Ji Hyeon olhou pro diretor Byeon. O diretor Byeon, com olhos de algum modo complicados, olhava alternadamente pra Ji Hyeon e pra Eunho. Eunho retirou o braço da mão de Ji Hyeon e voltou a se virar pra porta.
—Se não vai falar, eu vou.
Mas nem dessa vez Ji Hyeon o deixou ir. Segurou seu pulso mais uma vez e só então abriu a boca num tom lento:
—Eu…
O resto, como esperado, não saiu por um bom tempo. As reações dele estão lentas hoje. Foi mais ou menos quando Eunho pensou isso que uma frase saltou de repente:
—Eu me machuquei.
—…….
Era uma fala sem sentido e sem contexto. Só que era um assunto eficaz pra segurar Eunho. Eunho baixou o olhar tardiamente e examinou o gesso no braço direito. Não era um gesso fechado como da última vez, era um meio-gesso que dava pra tirar bastando soltar a bandagem.
—…Fiquei sabendo. Disseram que teve um acidente.
Os ferimentos do rosto tinham sumido sem deixar rastro. Felizmente, parece que não eram feridas de deixar cicatriz. As partes cobertas pela roupa ele não sabia, mas, a julgar pelo fato de ele andar bem, tirando o braço, o resto parecia tudo em ordem.
—Você nem teve alta ainda e por que veio até aqui? E se acontece alguma coisa?
Não era a intenção, mas o tom saiu um pouco como sermão. Ele dissera que a alta seria essa semana, mas, se era um ferimento de oito semanas de recuperação, mesmo após a alta ele teria de fazer tratamento ambulatorial regularmente. Ou seja, ele até podia levar uma vida cotidiana, mas ainda precisava tomar cuidado com andar por aí sozinho.
—Você sabia que eu tinha sido internado?
Ji Hyeon, em vez de responder à fala de Eunho, perguntou piscando os olhos. Ele não sabe por que os cílios que tremiam levemente pareciam tão desolados. Eunho franziu a testa e abriu a boca:
—Claro que…
Claro que eu sabia — essa frase ele não conseguiu dizer de jeito nenhum. Porque sentia um pouco de culpa por saber e nem sequer ter ido visitá-lo. Então ele simplesmente engoliu o resto, mas Ji Hyeon disse de repente:
—Eu não me machuquei de propósito.
—…….
—E também não me machuquei porque quis.
Ele não pensou isso nem uma única vez. Que maluco se deixa esmagar por um refletor de propósito?
—Depois do acidente eu fui direto pro hospital, e depois da cirurgia fiz o tratamento direitinho. Tomei todos os remédios que mandaram, e o médico disse que essa semana eu já posso receber alta.
Aquela voz suave característica estava especialmente apressada naquele dia. Um sujeito que normalmente falava com brandura até quando estava com raiva não tinha agora um pingo de tranquilidade.
—Durante toda a internação eu não saí um passo, fiquei só no hospital. Sério. Hoje eu saí porque…
—Por que você tá me dando satisfação?
Foi uma fala nascida do desconcerto. Como ele começou a se justificar em fila sem que ninguém o tivesse acusado. Mas, seja lá como ele interpretou aquilo, as pupilas de Ji Hyeon esfriaram.
—…Por nada.
—…….
—Por nada…
Com o fim da frase arrastado, a confiança sumiu. Da mesma forma, o olhar também foi descendo cada vez mais. Se ele quis dizer que falou por falar, ou se havia mais alguma coisa? No meio dessa ambiguidade, Ji Hyeon soltou o pulso de Eunho.
—Da próxima vez eu não conto.
—…….
Ah, ele entendeu como se eu tivesse dito pra não contar. Parece que achou que ele estivesse traçando a linha friamente, dizendo que aquilo não era da conta dele.
—…Eu não disse pra não contar, eu disse que não precisa se justificar. Eu não achei que você tinha se machucado de propósito. E também não achei que você não tivesse seguido o médico.
Eunho corrigiu imediatamente a parte que Ji Hyeon entendera errado. Por mais que fosse assim, ele não pretendia ser tão sem coração com alguém machucado. A não ser que fossem inimigos mortais, como não se preocupar diante da notícia de um acidente?
—Se o corpo tá bem, então tá bom. Eu estava preocupado, ainda bem.
Foi depois de terem brigado feio, mas, de qualquer forma, tendo ouvido a notícia do acidente, ele pretendia perguntar como ele estava. Não imaginava que seria desse jeito, mas, já que o assunto surgira, era preciso tocar nele ao menos uma vez.
Mas Ji Hyeon, ao ouvir a fala de Eunho, mostrou de novo uma reação abobalhada.
—…Você estava preocupado?
Ele tá me achando com cara de psicopata? Num acidente em que uma torre de iluminação desaba, ele se preocuparia até se fosse um ator totalmente desconhecido. Então, no instante em que ia perguntar se ele achava que ele não se preocuparia, alguém pigarreou do lado do sofá.
—Ahem.
Era o diretor Byeon, que ficara quieto o tempo todo. Eunho olhou pra lá com um rosto de quem se dera conta. Porque até ele meio que esquecera a existência dele desde o instante em que Ji Hyeon começou a falar apressado.
O diretor Byeon pigarreou mais uma vez e lançou um olhar de relance a Eunho.
—É que… o Manager Kwak disse que tem uma coisa pra falar.
Tanto pela expressão quanto pela nuance, era o assunto do ‘AME’. Bater o ferro enquanto está quente: parece que ele queria que Eunho desse a notícia a Ji Hyeon já que tinham se encontrado. Ou então parecia inseguro com medo de que Eunho mudasse de ideia.
—E aí, quer que eu dê uma saidinha?
—…Por que ele voltou a ser “Manager Kwak”?
Quem respondeu dessa vez foi Ji Hyeon. Ji Hyeon reagiu de forma exageradamente intensa, como quem se sentiu atingido. Estalou a língua rapidamente e ainda amassou o rosto com irritação.
—E que assunto o quê…
—Eu tenho um assunto.
Eunho cortou a fala de Ji Hyeon num tom sereno. Como Ji Hyeon se virou com olhos surpresos, ele falou pro diretor Byeon fingindo que nada era:
—Não precisa sair, não. A gente conversa lá fora.
Já que era assim, ele pensou em conversar de uma vez. Como não seria uma conversa tão longa, não havia necessidade de tomar emprestado um espaço. E, mesmo que se estendesse, não era um conteúdo pra se conversar tomando a sala do diretor. O ‘AME’ era um assunto profissional, mas o que se escondia por trás disso pertencia ao domínio pessoal.
—Vamos conversar um pouco.
Engraçado que, assim que ouviu aquilo, Ji Hyeon endureceu a expressão. O rosto abertamente tenso parecia o de uma criança prestes a levar bronca. Como isso o fez parecer digno de pena à toa, Eunho franziu as sobrancelhas de propósito e virou o corpo.
—…….
Sentiu atrás de si a presença que o seguia em silêncio. Ele não perguntou qual era o assunto e também não perguntou aonde iam. Aqueles passos que apenas o seguiam em silêncio nunca ultrapassavam Eunho.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna