⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 19
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 19
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Até então ele nunca reverteu uma conclusão a que tivesse chegado. Embora tivesse um temperamento um tanto impulsivo, Eunho era, na maioria das vezes, alguém que cumpria o que planejava, e a decisão de não ir pra faculdade fora seu primeiro e último capricho.
Mas, quando se envolvia com Ji Hyeon, nada disso era fácil. Decidir e desabar algumas vezes, retomar a determinação e se desfazer outras tantas — vivendo desse jeito, aquilo já virara um laço de onze anos.
Dessa vez também foi assim. Eunho não tinha nenhuma intenção de entrar em contato até que Ji Hyeon o procurasse primeiro. Mas também não tinha intenção de ir até o hospital e voltar sem mais nem menos, nem de, depois de voltar assim, ficar inquieto a ponto de não conseguir estudar.
Deixar um garoto doente à própria sorte também não era educado, e, apesar disso, o mais chocante era não ter confiança pra encarar aquele rosto.
—Desculpe. Surgiu um imprevisto, acho que não vou conseguir ir.
Naquele dia, no caminho de casa, Eunho ligou pro diretor Byeon e soltou uma desculpa qualquer. Que tinha surgido um imprevisto de repente e que talvez não conseguisse ir ao hospital. O diretor Byeon respondeu de bom grado que estava tudo bem e ainda acrescentou que, se por acaso ele fosse, avisasse antes.
Que ele nunca mais iria até lá, ele percebeu no instante antes de desligar. Por isso segurou o diretor Byeon, que dizia que ia desligar, e perguntou em detalhe como foi o acidente.
—…A torre de iluminação desabou?
Ele se perguntava que equipamento tinha tombado, e era justo aquela torre de iluminação enorme. Que azar mais miserável; uma coisa que normalmente ficava bem fixada estava instável justo naquele dia.
—Ele quebrou o braço direito, mas o médico disse que com reabilitação vai ficar bom. Saiu como oito semanas de recuperação, e por ora eu vou deixar ele descansar uns três meses. O moleque fica insistindo que um mês basta, essa mer… não, essa asneira; eu vou tentar dissuadir. Ai, mas já é sorte ele não ter batido a cabeça nem nada.
Talvez por não ter onde desabafar, o lamento do diretor Byeon se estendeu mais do que ele imaginava. Como a maior parte era sobre Ji Hyeon, Eunho ouviu com calma e se concentrou nas palavras dele. Ele queria perguntar se os ferimentos no rosto não deixariam cicatriz, mas, como não podia dizer que o vira, teve que engolir só aquela frase.
—Mas você não perdeu de vez o afeto pelo Hyeon, né?
Quando ele perguntou isso por último, ele ficou um instante sem palavras. E ainda mais porque foi uma pergunta feita não como diretor da agência do ator Ji, mas como tio de Ji Hyeon. E o motivo de não conseguir responder por um bom tempo depois disso foi o medo de que um “não” carregasse coisas demais.
—…Como é que eu ia perder o afeto por ele?
Pois é, desse jeito.
—Se for assim, então que bom…
Será que ele conseguiria odiar Ji Hyeon? Ressentir ou detestar, talvez; mas nunca uma única vez ele cogitou passar a odiá-lo. Ele passou anos ao lado dele suportando aquele gênio infernal; se fosse um afeto que se soltasse com facilidade, não teria grudado desde o início.
Não havia o que fazer. Assim como Eunho era o único pra Ji Hyeon, Ji Hyeon também era o único pra Eunho. Se a única carência que Eunho tinha era a pobreza, quem preencheu essa carência foi unicamente Ji Hyeon.
Mas, se tudo era por causa do dinheiro, ele queria responder que não. Mesmo que Ji Hyeon não existisse, Eunho teria atravessado aquele período difícil de algum jeito. Recortando as horas de sono pra fazer bicos, e passando fome mais ou menos. Mesmo que fosse pra vender órgãos, ele teria aguentado cada dia até o instante em que a avó partisse.
—…Pra eu ir ao hospital?
Mas o fato de estarem juntos se torna, às vezes, um consolo avassalador que não se compra nem por centenas de milhões. Nas horas em que era difícil a ponto de querer largar tudo, quando tudo pesava e ele queria simplesmente cair no chão, quando lhe dava o impulso de destruir com as próprias mãos tudo o que construíram até ali.
—É, eu vou estar gravando, então vai lá. Daqui a pouco acaba o horário de visita.
—…….
—Tá chovendo lá fora, então dirige com cuidado.
Será que ele sabe que uma frase dita sem pensar vira a força motriz pra suportar aquele momento? Aquelas palavras indiferentes soltadas na sala de espera, enquanto ele lia o roteiro, sem nem sequer lhe dirigir o olhar.
—Enfim, Kwak Eunho é foda. Ele é tão ocupado quanto eu e mesmo assim consegue ir ver a avó toda vez.
Na verdade, Eunho também não queria ir. Estava difícil demais e ele queria descansar em casa, e também não queria ficar mais tempo naquele espaço sufocante. Ele não sabia quantas experiências de engolir por dentro palavras que não podia dizer a ninguém, desejando que tudo acabasse.
Mas o motivo de não deixar isso transparecer era a intuição de que um dia se arrependeria daquele momento. De certa forma era autossatisfação e, pensando de outro jeito, era quase teimosia. Não por ser bom, mas simplesmente… simplesmente por não querer se tornar uma pessoa ruim.
—Mas não vive com tanto afinco.
—…….
—Prefiro que você faça o trabalho de Manager de qualquer jeito.
Ele falava como brincadeira, mas ele sabia que era sério. Porque conhecia Ji Hyeon, que às vezes se impacientava com Eunho dizendo que ele desse uns jeitinhos. Não era coisa que um empregador dissesse. E, ao ouvir a frase seguinte, a garganta se fechou.
—Você já está fazendo o suficiente.
Onde ele aprendeu palavras tão bonitas assim? Um sujeito que normalmente só escolhia coisas maldosas às vezes soltava frases admiravelmente louváveis. Como nem ele mesmo pretendia dizê-las, havia muitos casos em que ele soltava e esquecia completamente depois.
—Não precisa se esforçar mais do que isso.
Provavelmente era uma fala relacionada ao trabalho de Manager. Mas Eunho, ao ouvir aquilo, sentiu os ombros ficarem mais leves. A situação não mudara em nada, e no entanto foi como se tudo fosse se resolver a qualquer instante.
Era uma pressão que Eunho carregava desde a infância. Que ele, por não ter pais, por morar só com a avó, por ter uma casa em dificuldades, precisava amadurecer cedo. Que precisava estudar com afinco e rápido cumprir seu quinhão, pra escapar do círculo asqueroso da pobreza.
Ao conhecer Ji Hyeon, ele fez um amigo pela primeira vez e também discutiu levantando a voz pela primeira vez. Também foi a primeira vez que saiu da escola pulando o muro escondido na hora do almoço e que passou a noite vendo uma novela de que nem gostava.
—Aquele seu amigo é muito mais bonito ao vivo.
Quando a avó, que recupera as forças depois de muito tempo, disse isso, Eunho não conseguiu perguntar onde ela o vira. Simplesmente lhe ocorreu que devia ter sido assim mesmo e, com um risinho, apenas respondeu:
—No colégio ele era ainda mais bonito.
Agora ele está mais pra bonitão do que naquela época. Os traços do rosto ficaram mais marcados e ele ganhou um ar másculo. Ainda assim, o fato de ser um sujeito de beleza delicada não mudara.
De qualquer forma, como era um laço que vinha se estendendo assim, pra Eunho também Ji Hyeon era uma existência única. O único amigo, a única pessoa por quem gostava e, ainda, o primeiro e último ator de quem cuidaria de perto.
Como Eunho poderia ignorar e descartar até o fim alguém assim?
O tempo passou rápido e, quando ele viu, o verão se aproximava. Como já fazia bastante tempo desde a ida ao hospital, a mídia, que fervia com a notícia do acidente de Ji Hyeon, já estava bem mais calma. Pelo que Eunho estimava mais ou menos, ele provavelmente receberia alta em breve.
Eunho, que fora dormir cedo, terminou de se arrumar assim que o dia clareou e saiu de casa. Pensou em usar boné, mas acabou não usando, e escolheu a roupa mais arrumada possível, cuidando um pouco mais da aparência do que de costume.
O lugar aonde chegou assim foi a sede da NB Entertainment, onde Eunho trabalhou por vários anos.
—Manager Kwak!
O funcionário sentado na recepção o recebeu com o rosto iluminado assim que Eunho entrou no prédio. Quando Eunho se aproximou com uma expressão constrangida, ele lhe estendeu algo com um rosto todo animado. O que ele tinha na mão era, nada menos, o crachá de acesso ao prédio.
—Veio ver o diretor, né?
—Ah, Eunho, é o seguinte. Será que amanhã você podia passar um pouquinho na empresa?
Quanto ele se assustou ao receber aquela ligação ontem? Por um instante ficou preocupado, achando que algo tinha acontecido com Ji Hyeon. Mas, frustrando esse pensamento de Eunho, o diretor Byeon falou com voz um tanto embaraçada:
—Então, é que na reforma da grade do ‘AME’ chegou uma proposta de participação fixa…
Ele previa a proposta de participação fixa; o que não previa era a reação do diretor Byeon. Recusar educadamente ou simplesmente ignorar — ele escolheu não uma dessas duas, mas ligar pra Eunho.
Bom, pra chamar de inesperado, ele também respondeu sem pensar muito.
—Eu vou até amanhã de manhã.
—Aqui está. Pode subir direto à sala do diretor.
—Obrigado. Bom trabalho.
Eunho cumprimentou o funcionário com os olhos e caminhou com o crachá pendurado no pescoço. A empresa, visitada depois de tanto tempo, parecia realmente estranha. Talvez o único consolo fosse que todos que iam e vinham eram rostos familiares.
“Ele deve estar ainda no hospital.”
Mesmo assim, será que ele devia ter ido fazer uma visita? Só depois de passado o tempo é que esse pensamento veio. Talvez não fosse ruim passar lá rapidamente depois de terminar a conversa com o diretor Byeon hoje. De qualquer forma, ele já teve tempo mais que suficiente pra organizar os pensamentos nesse meio-tempo.
—Diretor, é o Kwak Eunho.
A sala do diretor ficava depois de subir um bom tanto de elevador. Eunho, parado diante da porta, bateu de leve: toc, toc. E, assim que ouviu de dentro que entrasse, abriu a porta sem hesitar.
—Ah, chegou? Senta, senta.
Como previsto, dentro da sala não se via Ji Hyeon. Apenas o diretor Byeon se levantou meio desengonçado pra recebê-lo. Sobre a mesa havia um papel qualquer e, desde não se sabia quando, até um café fumegante preparado.
—O café está bom? Devia ter preparado gelado?
—Não, está bom assim.
Eunho se sentou primeiro no sofá em frente ao diretor Byeon. Era o lugar onde eles se sentavam lado a lado quebrando a cabeça sempre que havia algum problema com Ji Hyeon. Ele se lembra de que, quando chegou a primeira proposta do ‘AME’, eles conversaram exatamente nessa posição.
—Então… o motivo de eu ter te chamado hoje…
Ele achava que ele daria voltas, mas o diretor Byeon tentou ir direto ao ponto assim que Eunho se sentou. Em vez de detê-lo, Eunho endireitou a coluna e o encarou. O diretor Byeon soltou um suspiro e empurrou pra ele o papel que estava sobre a mesa.
—…É que eu ainda não processei o seu pedido de demissão.
Era a carta de demissão que Eunho apresentara dizendo que largaria o cargo. Ele desconfiava disso, mas parece que ele realmente a guardara sem processar. Bom, a situação estava caótica mesmo. Pra cobrar o porquê, Eunho também não confirmara direito, então não tinha o que dizer.
—E, como eu falei no telefone, chegou uma proposta de participação fixa no ‘AME’ pro Hyeon.
As palavras que começaram assim eram algo que Eunho já previra o suficiente durante o trajeto até a empresa. Que era uma oportunidade excelente e que as condições também eram ótimas. Que ainda não dissera a Ji Hyeon, mas que convencer aquele moleque não era coisa tão difícil.
—Você também sabe, Eunho. As pessoas soltam um monte de besteira só porque um Manager mudou. E ainda mais tendo aparecido na TV; imagina a reação se dissermos que trocou de pessoa.
Proposta de participação fixa, essas coisas bastava recusar. Cogitar a participação desde o início já era uma situação absurda. E, ainda assim, Eunho não achava aquilo absurdo, apenas sentia que era bom que tivesse acontecido.
—Claro que eu sei que é um desaforo falar isso, mas…
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna