⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 15
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 15
Foi na mosca. Dava pra ver só pela expressão que Ji Hyeon fez. E então o que ele queria fazer? De que adiantava só remexer aleatoriamente um problema que não se consegue resolver?
—Vai embora.
—…….
—Não me procura até você organizar tudo.
A paciência ia exatamente até ali. Eunho empurrou Ji Hyeon quase com brutalidade. Ji Hyeon, que caminhou até a entrada sem alternativa, inesperadamente não afastou a mão de Eunho nem se irritou. Apenas falou com uma voz frágil o bastante pra abalar seu coração por um instante:
—…Sem você eu não consigo respirar.
Era uma fala bem cruel. Tanto o fato de aquilo soar exatamente como uma declaração, quanto o fato de que, apesar disso, não era uma declaração. E também o fato de que a única coisa que Eunho podia dizer a esse Ji Hyeon era uma só.
—Vai ao médico.
—…….
—Isso eu não posso resolver por você.
Era uma fala fria, mas era verdade. Talvez por ter recusado de forma cortante demais, Ji Hyeon deixou escapar um risinho que não combinava com a situação. Uma voz que saía autodepreciativa murmurou como quem fala consigo:
—Você é realmente…
O resto ele podia adivinhar sem ouvir. Ele ia dizer que ele era um sujeito estranho, ou coisa parecida. De qualquer forma, isso também não era da conta dele, então Eunho apenas empurrou Ji Hyeon e fechou a porta. Assim que a porta bateu, um silêncio pesado desceu sobre a entrada.
—Ha…
O cansaço veio como uma maré. Não tinha dormido, tinha usado a cabeça a noite toda e ainda desperdiçara emoção à toa. E o mais irritante é que, mesmo tendo-o expulsado com firmeza, ele se preocupava com o Ji Hyeon que voltaria pra casa.
Eunho conteve a raiva sem destino e deu um passo pra dentro de casa. Então, de repente, se deu conta de uma coisa e bagunçou o cabelo com irritação. Aquela consideração que ele lhe oferecera sem pensar, em que nem tinha reparado.
—…Meu boné.
Pra que diabos ele colocou até o boné dele? De nada adiantava se dar conta agora, quando ele já tinha ido embora. E, mesmo assim, era absurdo o fato de ele pensar que ainda bem que ele saiu ao menos usando um boné.
* * *
Já fazia sete anos que ele era Manager de Ji Hyeon. Do inverno dos vinte e dois à primavera dos vinte e nove, durante todo esse longo tempo, Eunho via o rosto de Ji Hyeon todos os dias. Acompanhava toda a agenda dele e ficava sempre ao lado dele, cuidando de cada movimento seu.
—O Manager Kwak é bom em cuidar da casa. Faz tudo que uma esposa faria.
De tão zeloso que aquilo parecia, uma vez o diretor Byeon chegou a dizer isso. Eunho deixou passar sem pensar muito, e o diretor Byeon certamente também não dissera com nenhum segundo sentido. Mas Ji Hyeon, que ouvia calado, retrucou com uma voz entediada:
—Diretor, hoje em dia, se você chamar alguém de esposa só porque cozinha, você leva xingamento. É por estar cheio de preconceito assim que o senhor ainda não conseguiu se casar.
Pensando bem, era uma fala não menos que cômica. Ele que xingara tanto dizendo “viado” isso, “viado” aquilo. O maior amontoado de preconceitos e homofóbico do mundo tinha lá suas belas palavras. Não que ele estivesse errado, mas o que irritou o diretor Byeon foi outra coisa.
—Eu simplesmente não casei? Não casei porque vivo limpando a sua sujeira, moleque!
—Alguém pediu?
—Se… seu ingrato…!
Uma vez pra segurar o diretor Byeon, que quase caiu pra trás com a pressão subindo, e outra vez pra segurar Ji Hyeon, que queria zoá-lo sem noção de limite. Foram apenas essas duas vezes que Eunho abriu a boca. Não era um episódio memorável, e ele se lembra de ter saído da empresa naquele dia sem nada de especial.
Mas, por algum capricho do destino, depois daquele dia, Ji Hyeon passou a usar um tratamento estranho. Um tratamento constrangedor ao extremo, que na primeira vez o assustou tanto que ele ficou sem palavras.
—Meu bem.
—…….
Ele enlouqueceu? Foi o que ele pensou. Não, como era fato que ele era louco, talvez tivesse tomado o remédio errado. De qualquer forma, depois daquele chamado absurdo, veio junto também aquele pedido banal que ele já ouvira até enjoar.
—Vem morar na minha casa de uma vez.
Pensando de novo, não era um sujeito reprovável? Com uma insônia daquele tamanho, conseguir dormir bem se Eunho estivesse por perto. Sem sequer ser abraçado pra dormir, conseguir cair num sono profundo só pelo fato de ele estar por perto.
Ele sabia. Que a insônia dele era um problema psicológico. E também que, vida regrada ou não, enquanto não se resolvesse a doença de raiz profunda no coração, não haveria cura completa.
O motivo de, mesmo sabendo disso, não ficar ao lado dele era que aquilo não podia ser um tratamento completo. Enquanto a causa fundamental não fosse arrancada pela raiz, não seria estranho se uma barragem provisória desabasse a qualquer momento. Eunho também sabia disso, e por isso não estendia uma mão de que não poderia se responsabilizar.
Portanto, dessa vez também, Eunho apenas fez a mesma escolha. Porque, só porque Ji Hyeon pedia socorro, não surgia um método de ajudá-lo. Ficar simplesmente ao lado dele era o máximo que Eunho podia fazer, e, como até isso se tornara inútil, agora não havia outro método senão manter distância.
Mas tomar uma decisão racional não significava que o coração ficasse imediatamente bem. Assim como ele passou a noite em claro, mesmo com o corpo cansado, depois de mandá-lo embora; e assim como ficou repetindo pegar e largar o celular sem motivo; ou como passou a checar com mais frequência a comunidade que antes via apenas por causa do trabalho.
Tirando o fato de estar um pouco mais ocioso, era um cotidiano comum. De manhã acordava e fazia as tarefas de casa, de dia estudava pro concurso e, à noite, dava uma caminhada leve pelo bairro e voltava pra casa.
Mas, mesmo nesse cotidiano banal, sem que ele percebesse, havia Ji Hyeon. Em partes bem pequenas: como fazer arroz para duas pessoas, ou levar creme de mãos ao sair, ou olhar o céu nublado e se preocupar com a direção.
—Meu bem.
—O quê.
—Que tal cortar o cabelo hoje?
O que torna familiar até aquele tratamento absurdo é o tempo. Dizem que formar um hábito leva cerca de três meses, e o tempo que eles passaram juntos foi de sete anos. Como nesse período eles compartilharam o cotidiano sem falhar um único dia, não seria estranho se todos os seus dias derivassem de Ji Hyeon.
—…….
Pois é, ou seja, ainda era cedo demais pra abandonar o hábito de checar a agenda.
—…Teve confraternização.
No celular de tela grande havia uma foto tirada com várias pessoas. O lugar era uma churrascaria, e uma das pessoas sentadas à mesa não era outro senão Ji Hyeon. E mais: Ji Hyeon pegando carne com os hashis e levando à boca.
—…E se eu fizer outros amigos?
Será que ele estava tentando pôr aquilo em prática? Depois de ser expulso da casa de Eunho, Ji Hyeon começou a aparecer em lugares privados com uma frequência estranha. Primeiro foi a confraternização de , depois uma foto em grupo com os atores e, recentemente, o perfil pessoal de Shin Ichan.
「Aprendendo muito com o sunbaenim que eu admiro」— junto com essa legenda, havia uma foto de Ji Hyeon e Shin Ichan conversando sobre o roteiro.
「O clima do set deve estar muito bom mesmo… ㅠㅠ é a primeira vez que vejo o ator Ji saindo tanto por aí」
「Nosso menino fez um amigo (chorando)」
「Eita… é surpreendente pra caramba ele ser próximo do Shin Ichan; aquele cara não fez marketing de polêmica em cima do ator Ji?」
Eunho, que deslizou a tela, olhou também as reações gerais e desligou o celular. Sobre o clima do set ser bom ele não sabia, mas os dois comentários seguintes ele também subscrevia.
Por mais alienado que Shin Ichan fosse, ele não postaria uma foto de qualquer jeito. Então isso quer dizer que ele ao menos pediu autorização a Ji Hyeon, não? Não, desde o início, só o fato de estarem olhando um mesmo roteiro juntos já era muito surpreendente.
—Porra, que nojo, sério…
—…….
Pode uma atitude mudar assim tão rápido? Por mais que pensasse, não era coisa que Ji Hyeon fizesse. E era justamente por pensar que não podia ser que as palavras que ele dissera insistiam em voltar.
—Se eu conviver com outras pessoas, não esperar nada de você e, com isso, eu deixar de ser o único pra você…
—…….
—Então eu vou poder te ligar?
Ele ligou de novo a tela travada do celular. Abriu a foto da churrascaria que via até pouco antes e ficou encarando o Ji Hyeon pequeno na imagem. Não que isso lhe revelasse o íntimo dele, mas ao menos a linha do queixo, que parecia um pouco mais magra, se via com nitidez.
E também um objeto absolutamente incompreensível.
—Por que ele fica usando o meu boné…
Havia um boné na cabeça de Ji Hyeon. E era justamente aquele boné preto que Eunho lhe pusera da última vez.
Não sendo protesto, que motivo teria um sujeito com tanta roupa pra usar um boné surrado daqueles? Ele não achava que ele fosse devolvê-lo, mas nunca imaginou que ele o usaria descaradamente por aí. Talvez, ao experimentá-lo, tenha até gostado; nas fotos tiradas em ambientes privados, ele aparecia sempre com aquele boné.
Eunho suspirou mais uma vez e largou o celular. Será que distração também vira hábito? Ele ia olhar só um pouquinho e acabou perdendo tempo demais. Olhando de relance as horas, Eunho pegou a lapiseira que estava ao lado.
Um mês. Era o dia em que se completava exatamente um mês desde que ele mandara Ji Hyeon embora.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna