⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 14
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 14
Não… será que ele já tinha que arquivar esse tipo de preocupação também?
—Tendo assunto ou não, é preciso ter um mínimo de educação. Ligar de madrugada também.
Eunho falou da forma mais serena possível. Chegou a fazer uma voz fria de propósito, pra que a preocupação não se misturasse.
—Até quando eu vou ter que…
—Desculpa.
—…….
Os lábios se fecharam num estalo. Foi por causa daquela única frase que Ji Hyeon disse baixinho. Quando Eunho o encarou, desconcertado, veio uma voz ainda mais afundada.
—Eu errei.
Talvez fosse isso o que ele queria dizer pelo telefone, pensou. Que aquele resto de frase que ele julgara ser uma manha qualquer talvez fosse, na verdade, um pedido de desculpas nada característico dele.
—Não vou mais ligar àquela hora.
—…….
—E também não vou mais aparecer sem avisar.
—…….
—Naquela vez…
Como se a garganta fechasse, Ji Hyeon parou de falar por um instante. Como estava com a cabeça bem baixa, não dava pra ver direito que expressão ele fazia. No instante em que Eunho se arrependia de ter colocado o boné nele, o resto finalmente saiu.
—Desculpa por ter falado besteira.
Aquela voz seca era serena demais pra um pedido de desculpas sincero. Não era o jeito habitual de Ji Hyeon falar, e também não parecia ser por vergonha. Depois daquele pedido de desculpas que soava, de algum modo, familiar, veio ainda uma justificativa razoavelmente plausível.
—Eu não queria falar daquele jeito.
—…E de que jeito você pretendia falar?
Não era cobrança, era curiosidade. Eunho não estava com raiva; ao contrário, achou até louvável ele ter vindo pedir desculpas pessoalmente. Só que a parte que ele não aceitava não era o resultado da atitude, e sim o motivo.
—Eu sei que aquilo foi um deslize. Sei que não foi sincero, e sei que você já se arrependeu bastante. Você veio me procurar porque sente muito. Já recebi o pedido de desculpas, então isso está resolvido.
Mesmo que não estivesse tudo bem, no instante em que ouvisse o pedido de desculpas ele ficaria bem na hora. O vício de linguagem dele era irritante, mas isso não era motivo pra ressentir a pessoa Ji Hyeon em si. Era fato que aquilo era odioso e reprovável, mas não chegava a ser um estopim para cortar de vez o afeto.
—Mas você tem certeza de que não vai fazer de novo?
—…….
—Se voltar àquele momento, tem certeza de que não vai falar comigo daquele jeito?
Era o problema fundamental. Erro basta uma vez, e enquanto não se resolve a causa, o resultado não muda. Não havia garantia de que, só porque ele agora se arrependia e pedia desculpas, a mesma situação não voltaria a acontecer.
—Não tem certeza, né?
—…….
Sem um pingo de jogo de cintura, Ji Hyeon não conseguiu responder que sim nem por educação. Como já previa aquela reação, Eunho falou apenas os fatos num tom sereno:
—Foi por isso que eu larguei. Não porque fiquei com raiva de você, mas porque achei que assim não podia continuar.
Para romper o círculo do ciclo vicioso é preciso agir de acordo. Seja resolvendo, seja rompendo, se não age, nada muda. Aceitar o pedido de desculpas não era difícil, mas ele sabia que nem por isso alguma coisa mudaria.
—Eu aceito o pedido de desculpas. Mas não vou voltar a ser seu Manager.
Se ele veio até aqui, o objetivo é um só. Foi com esse pensamento que ele falou. Porque conhecia Ji Hyeon, cujo estado só pioraria se ele deixasse uma esperança pela metade.
Mas Ji Hyeon, ainda de cabeça baixa, respondeu devagar:
—Antes de você ser meu Manager, a gente era amigo.
O que aquela voz afundada dizia soava, à primeira vista, quase como uma cobrança. O tom continuava brando, mas no fim das palavras vinham várias emoções.
—Foi por sermos amigos que você virou meu Manager.
—…….
—E agora nem amigo a gente é?
Era o dilema do ovo e da galinha. Quem traçou a linha primeiro foi Eunho, mas isso foi porque Ji Hyeon queria algo além de amizade. Eunho traçava a linha e Ji Hyeon se irritava; quando Eunho se aproximava, Ji Hyeon traçava a linha. E dessa vez até aquela linha virou uma bagunça, e Eunho foi arremessado pra fora.
—…Quando é que eu disse que não ia mais ser seu amigo?
—Você desligou o telefone.
Dizendo isso, Ji Hyeon ergueu a cabeça. Os olhos sombreados pareciam profundamente injustiçados.
—Você falou pra eu não ligar.
—…….
Era parecido com uma criança fazendo birra. Se ao menos ele explodisse abertamente, ele se irritaria junto; mas, como ele se magoou de verdade, as palavras que podia lhe dizer eram poucas.
—Falei pra não ligar àquela hora sem motivo.
—Então, se eu tiver motivo, posso ligar?
—…….
Eunho não conseguiu responder na hora e fechou a boca. Na verdade, o importante não era a existência ou não do motivo.
—Ji Hyeon, faz só dois dias que a gente brigou.
Não é à toa que existe a expressão “o tempo é o remédio”. Dito ao contrário, se não se passa o remédio, há um limite pra cicatrização. Ou seja, ele ainda não conseguia tratá-lo como se nada fosse.
—Eu ainda não quero muito ver a sua cara.
—…Então quanto tempo eu tenho que esperar?
Ji Hyeon devolveu a pergunta a Eunho sem se dar por vencido. As pupilas tremiam finamente, e ele parecia até ansioso.
—Quanto tempo eu tenho que esperar pra gente voltar a ser amigo?
Será que ele sabe que uma frase lançada sem pensar deixa cicatriz? Aquela atitude cega remexia seu estômago sem parar. Desejando algo mais que amizade, pedir pra permanecer como amigo era egoísta demais.
—Até que eu…
—…….
—Até que eu deixe de ser o único pra você.
Ele não pretendia dizer nem isso. Talvez por ter varado a noite, o íntimo insistia em escapar. O que ao menos aliviava é que, até ali, ainda era possível um julgamento racional.
—Sinceramente, aturar seu gênio não é nada de mais. Não é nem tão difícil, e as coisas que você diz não me machucam muito.
Lá vem ele surtando de novo. Dava pra deixar passar mais ou menos com essa impressão. Não era porque gostava de Ji Hyeon, nem porque tinha se acostumado com ele. Era simplesmente porque Eunho tinha um temperamento capaz de deixar passar o que quer que os outros dissessem.
—Mas isso também tem limite.
—…….
—Eu não posso acolher sua manha pra sempre.
Só que não se incomodar e acolher aquilo eram coisas separadas. Assim como não há razão pra continuar apanhando só porque não dói, não é preciso ter paciência infinita só porque está tudo bem.
—Eu não sou sua família, nem seu namorado, nem seu cônjuge. Eu não posso ser uma existência única pra você. Você entendeu?
Não era essa a intenção, mas o final saiu um pouco exaltado. Ji Hyeon, que ouvia em silêncio, logo devolveu com um rosto meio endurecido:
—Por que não pode ser único?
—Como assim, por quê…
Que pergunta sem nutrição. Por que diabos ele não entende uma lógica tão óbvia?
—Amigo, normalmente, é mais de um.
—…….
Engraçado que Ji Hyeon estava com um rosto que não aceitava aquilo de jeito nenhum. Na verdade, não era coisa que Eunho pudesse dizer. Porque Eunho também tinha, como amigo, apenas Ji Hyeon. Mas nem por isso ele era ignorante a ponto de não saber por que aquilo era um problema.
—…Parece que você não sabe, mas as coisas que você me exige e espera de mim as pessoas não fazem numa amizade comum.
O afeto que ele desejava era cego demais, e às vezes lhe dava a ilusão de que ele tinha se tornado uma pessoa importante. Pra Ji Hyeon é só que não existe substituto, mas ele acaba se envaidecendo com esse fato. Se embriagava com o fato de ser uma existência única, acabaria surgindo uma situação em que, mesmo sabendo que era uma relação doente, ele não conseguiria escapar.
—Você só… é obcecado por mim porque eu sou seu único amigo.
Aquela fala também feriu o próprio Eunho, que a dizia. O fato de finalmente admitir isso com a própria boca era aliviante e irritante ao mesmo tempo. Pra Eunho, que expelia um suspiro sufocado e desviava o olhar, Ji Hyeon falou com uma voz de algum modo contida:
—…E se eu fizer outros amigos?
Era uma hipótese que não combinava com ele. E o mesmo valia pro resto que veio em seguida.
—Se eu conviver com outras pessoas, não esperar nada de você e, com isso, eu deixar de ser o único pra você…
As hipóteses que saíram em fila foram ficando cada vez mais rápidas quanto mais avançavam. Assim como acontecera com Eunho, parece que nele também várias emoções subiam.
—Então eu vou poder te ligar?
—…….
—Sem avisar… não, se eu avisar, posso ir te ver?
—…….
—É essa a relação que você, Kwak Eunho, quer?
Só então ele percebeu. Que a relação que ele desejara até então não era uma amizadezinha daquelas. E que agir com aquela naturalidade toda era, na verdade, porque quem estava mais desesperado não era ele, mas Ji Hyeon.
—Ei.
No instante em que percebeu, ficou surpreendentemente desagradado. Ele acabou encarando, sem querer, um fato que vinha evitando. Estava desistindo porque era impossível se realizar, e no entanto um sujeito que nem tinha intenção de realizar vinha cobrar dele, virando o jogo.
—Deixa eu perguntar ao contrário. O que você queria que eu fizesse?
Quem é que está sendo injustiçado agora? Sendo ele também incapaz de definir a relação, era cabível vir protestar a própria mágoa?
—Você quer que eu volte a ser seu Manager?
—…….
À pergunta feita num estouro não veio resposta nenhuma. Nem Eunho, dessa vez, deixou de achar aquilo inesperado. Se ele respondesse de imediato que sim, ele pretendia recusar com firmeza dizendo que não tinha intenção nenhuma.
—Sinceramente, eu não sei o que você quer de mim. E você também não sabe agora.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna