⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 10
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 10
Quando falta dinheiro, normalmente não se procura onde pedir emprestado? Até os Managers que trabalharam pouco tempo às vezes estendiam a mão. Como pra um artista que ganha bem aquilo é trocado, havia gente que pedia como quem pede esmola.
—…Você é um cara realmente estranho.
Pensando bem, Kwak Eunho sempre foi assim. Nunca estendia a mão e não esperava nada dele. Entre pessoas que, ao se aproximar um pouco, pediam isso e aquilo, ele nunca sequer perguntou como era o set de filmagem. Aceitava mansamente os objetos que ele lhe dava, mas, se achasse algo minimamente caro, traçava a linha com firmeza.
Por que ele não deseja nada? Por que ele não pergunta nem uma coisinha, e nem sequer se esforça pra chegar mais perto?
Sim, ele sabe. Que contradição enorme era essa. E que era ainda mais estranho achar estranho agora aquilo que no começo ele achava confortável.
Mas o que fazer? Ji Hyeon sempre teve curiosidade sobre ele. Se ele é o único amigo que se tem, não é natural dedicar ao menos esse tanto de interesse? Se a secura demonstrada por Kwak Eunho é o normal, como explicar essa emoção pegajosa que ele sente?
Você não tem curiosidade sobre mim?
Ele não conseguiu dizer isso até o fim. Porque, se ele dissesse que não, seria estranho; e se dissesse que sim, também seria estranho. E, pra fazer uma pergunta complicada de propósito, ele não queria abrir mão da paz que sentia depois de tanto tempo.
—Você impediu ele de ser ator pra fazer dele seu Manager?
O diretor Byeon continuou lamentando por Eunho mesmo depois que a conversa acabou. Dizendo que era prejuízo alguém com aquele rosto ser Manager, ele continuou tentando convencer Ji Hyeon a fazê-lo atuar de algum jeito. Depois tentou convencer o próprio Eunho, mas ele recusou a proposta do diretor Byeon com firmeza.
—Eu não sei fazer esse tipo de coisa.
Aquela firmeza de Kwak Eunho foi um enorme alívio. Porque, se ele tivesse aceitado docilmente, até impedir isso teria sido abuso de poder da parte dele. Claro, quando ele soltou a asneira de que artista é coisa pra garotos com a cara do ator Ji, foi um pouco absurdo.
De qualquer forma, no resultado final, Eunho se saiu muito bem como Manager. Tão bem que, em apenas dois meses, o diretor Byeon já se admirava dizendo que fizera bem em contratá-lo. Aprendeu rápido a dirigir, deu conta da agenda sem dificuldade e, acima de tudo, tinha uma habilidade impressionante pra lidar com Ji Hyeon.
Não, mais precisamente, era mais o caso de Ji Hyeon ele mesmo puxar o freio.
—Peço desculpas.
Ele descobriu pela primeira vez que podia ser revoltante alguém abaixar a cabeça no seu lugar. Eram situações em que ele surtava porque havia motivo pra surtar, mas no fim quem pedia desculpas era Kwak Eunho. Ao diretor, ou ao diretor Byeon. Ou, se não, aos fãs com quem cruzavam por acaso.
—Por que você é que pede desculpas?
No começo isso o irritava, mas Kwak Eunho não parecia sequer se sentir injustiçado. Dizia que era o trabalho dele, que um Manager obviamente devia fazer isso. E curvava a cabeça como se nada fosse, como alguém que já nascera Manager.
E depois passou até a dizer, de leve e num tom despreocupado:
—Se você não gosta que eu peça desculpas, então não arruma confusão.
—…….
Era só uma fala de passagem, e Eunho provavelmente não estava falando sério. A julgar pelo fato de não parecer nada incomodado, ele não parecia ter o orgulho ferido, mesmo agindo como subalterno aqui e ali. Ao contrário, dava pra ver claramente que ele achava que, naquele nível, dava pra levar.
—…Basta eu ficar quieto na frente dos outros?
Mas aquilo também o desagradava. Quando o diretor Byeon se rastejava, ele não sentia nada; mas ver Kwak Eunho fazendo aquilo lhe acendia mil fogueiras por dentro. Não havia necessidade nenhuma de agradar o diretor, e até um “desculpe” dito por educação o deixava de mau humor.
—É, é só ficar quieto.
Eunho não mandava que ele aguentasse até abusos inúteis. Disse que, se fizessem exigências absurdas, ele barraria por conta própria, e chegou a lhe dar permissão pra sair do lugar se a condição física caísse muito. Acrescentou até a piada de que, quando estivesse de humor tão ruim que nem quisesse falar, bastava ficar só sorrindo.
—Aí eu resolvo o resto.
Foi a partir daí. Que, acontecesse o que acontecesse, ele se portava docilmente no set de filmagem. Que, embora apertar a mão de várias pessoas continuasse detestável a ponto de dar náusea, ele aguentava com todas as forças até aquele compromisso terminar.
Sorrir com gentileza não era tão difícil; ele é que não suportava ver Kwak Eunho agindo como um culpado.
A reputação melhorou rápido, de forma surpreendente. Não é que corressem boatos ruins antes, mas as conversas sobre o caráter dele, que se espalhavam de boca em boca, sumiram como que lavadas. A satisfação do diretor Byeon era indescritível, e dava pra ver que a situação de Eunho também ia melhorando aos poucos.
—…Dizem que aquilo era do seu próprio bolso.
Quando Eunho disse isso, mais ou menos um ano depois, Ji Hyeon não conseguiu dizer nada. Porque, embora não achasse que conseguiria esconder pra sempre, quando foi pego pensou que chegara o que tinha de chegar. E se ele ficasse com raiva? E se ele o xingasse dizendo “quem você pensa que é pra fazer isso?”, como daquela vez? No meio desse pensamento, uma voz serena disse:
—Obrigado.
—…….
—Graças a você eu sobrevivi.
Como chamar o que ele sentiu naquele momento? Não era a primeira vez que ouvia aquilo, mas era a primeira vez que sentia uma sinceridade tão pungente. Não fora um ato de boa-fé, e no entanto aquela única frase lhe deu a ilusão de que ele tinha se tornado uma boa pessoa.
—Eu vou te pagar de volta um dia, com certeza.
Talvez ele já sentisse isso de forma subliminar. Que a necessidade de uma quantia grande desapareceria dali a pouco tempo. Por isso ele baixou os olhos com um rosto tão solitário.
Como seria a avó que criou Kwak Eunho? Ele pensava que queria conhecê-la ao menos uma vez. Como seria o rosto dela, como ela falaria, onde e quanto doía nela e se realmente não havia esperança de cura. Ele sempre tivera curiosidade sobre a realidade concreta de uma família que ele não tinha.
Só que ele não a conheceu porque simplesmente não tinha confiança. Nem confiança pra dizer ao garoto que iria junto, nem pra cumprimentar a avó, nem pra dizer com orgulho que era amigo de Kwak Eunho.
Porque Ji Hyeon não sabia direito nem coisas básicas, como o modo de se comportar num primeiro encontro com um adulto.
—Ji Hyeon, vamos passar rapidinho no hospital da minha avó.
A oportunidade veio num momento fortuito. No caminho pra casa depois da agenda, Eunho disse que passaria brevemente no hospital. Ele mandou que esperasse um pouco no estacionamento, mas Ji Hyeon desceu do carro assim que ele foi em direção à recepção.
—…….
O cheiro de desinfetante roçando a ponta do nariz. E aquele clima estático e calmo. Um lugar que ele sempre visitara apenas como paciente nunca lhe parecera tão estranho. E ainda mais porque, mesmo caminhando sem pensar, a dúvida “será que eu posso fazer isso?” o acompanhava.
Se é que se pode dizer felizmente, encontrar o quarto da avó não foi difícil. Foi graças a ter ouvido de passagem o número quando ela foi transferida pra um quarto comum tempos antes. Era um quarto de três leitos, mas, como por acaso as pessoas tinham saído, ele disse que usavam como se fosse individual. Diante do “então muda pro quarto individual”, ele apenas dera um risinho, como quem ouve absurdos.
No instante em que abriu a porta, sentiu uma tensão que nunca sentira até então. Uma sensação que não sentira nem no primeiro momento diante de uma câmera, nem numa audição formal com um diretor famoso, nem sequer numa coletiva de imprensa.
Antes que sequer conseguisse respirar fundo, pela fresta da porta aberta viu uma senhora idosa sentada, apoiada na cama.
—…….
A primeira impressão foi a de que ela não se parecia muito com Eunho. Depois se surpreendeu com o quanto ela era miúda, e em seguida ficou desconcertado por ela não olhar naquela direção. A avó, que estava sentada na cama fitando o vazio, só virou lentamente a cabeça depois que Ji Hyeon se aproximou.
—É o estudante que sai na novela.
Antes que ele dissesse “boa tarde”, a avó falou primeiro. Ele achou que ela não o reconheceria, assim como Kwak Eunho, mas ela parecia já saber que Ji Hyeon era ator. Como deveria se apresentar? Frustrando essa preocupação, veio junto uma pergunta despretensiosa.
—Você veio junto com o nosso Eunho?
—…Como a senhora sabe?
Só depois de responder por reflexo é que ele se deu conta. Porque parece que falou de um jeito mal-educado demais. No mínimo deveria ter usado uma forma mais respeitosa, mas se assustou tanto que acabou perguntando assim.
—Claro que eu sei. Você é amigo do nosso Eunho.
Felizmente, a avó sorriu com gentileza, sem sinal de desagrado. No instante em que os olhos enrugados se curvaram com doçura, a tensão que subira até o pescoço se abrandou. Então, mesmo sem parecença nos traços, o rosto sorridente pode ser parecido. Ele aprendeu mais um fato que desconhecia.
—Boa tarde. …Eu sou o Ji Hyeon.
Havia quanto tempo ele não se apresentava com a própria boca? Como todo mundo o reconhecia em qualquer lugar, dizer quem ele era soava excessivamente estranho. E também aquela frase desajeitada que ele só tentara diante do diretor Byeon.
—Sou amigo do Eunho.
Pensando agora, foi um encontro realmente estranho. Porque ele apareceu sozinho, do nada, e nem sequer explicou por que tinha ido. Mas mais estranha ainda era a avó de Eunho, que acenava com a cabeça e o acolhia com bondade.
—Está bem, Ji Hyeon.
—…….
Ele achava que na vida dele só Kwak Eunho o chamaria assim. Aquele tratamento que o incomodava quando vinha de outra pessoa não o incomodou naquele momento. Enquanto sua expressão ficava cada vez mais desajeitada, a avó continuou com uma voz afetuosa:
—O Eunho te dá muito trabalho.
Ele percebeu vagamente. Que Kwak Eunho falara dele. Por mais que não soubesse em quanto detalhe ele contara, ela ao menos sabia que ele era amigo dele e a relação de modo geral.
—Ai, eu tinha que descascar ao menos uma fruta pra você…
—Não, não. Não precisa.
Como ela tentou se levantar num instante, Ji Hyeon a impediu às pressas. Disse que de qualquer forma tinha que ir logo, e chegou a fazer o gesto de virar as costas. Na verdade não era um caso pra tanto desespero. Foi tão atrapalhado que a avó chegou a cair na risada.
—Você é bonzinho mesmo, como o meu filhotinho disse.
—…….
Então ela chama Kwak Eunho de filhotinho. Chamava aquele sujeito enorme de um jeito infinitamente carinhoso. Não é possível que ele tenha dito que eu sou bonzinho. Mesmo pensando que era só uma frase vazia, ele ficou com uma sensação estranha.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna