⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 09
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 09
A nuca com um boné, uma camiseta um pouco surrada e uma bandagem enrolada no antebraço exposto. E até aquelas costas segurando um celular na mão e fitando o painel com o olhar vazio.
—Kwak Eunho?
Naquele momento ele chamou o nome em voz alta, ou apenas o remoeu por dentro? Uma coisa é certa: no instante em que aquelas três sílabas lhe vieram, algo que ele mantinha a duras penas desabou por completo.
—Você…!
Ele se lembra do momento em que finalmente agarrou a ilusão que via em sonhos toda noite. Se não fosse pelo calor sentido na palma da mão, ele certamente teria concluído que enfim perdera a razão. Um arrepio percorreu os olhares que se cruzaram, e uma cor nítida surgiu naquelas pupilas quietas e assentadas.
—Ah…
Aquele suspiro foi como uma sentença de morte. Ele não conseguia respirar direito e nem sequer piscar. Porque, se aquilo fosse um sonho, parecia que ele não suportaria o momento de acordar. Porque, se fosse uma alucinação, ele teria de catar com as próprias mãos o coração desabado em pedaços.
Até que aquela memória que ele não conseguiu recobrir uma única vez nos últimos três anos, aquelas incontáveis lembranças em que ele nem pôde enterrar a desculpa de estar ocupado, e aquela pessoa cruel chamassem seu nome.
—…Ji Hyeon.
Tardiamente, o ar voltou. Kwak Eunho estava diante de seus olhos.
O que ele diria se o reencontrasse? Primeiro confirmaria como ele tinha andado e perguntaria o motivo de ter sumido sem dizer nada. Se ele assistira ao filme que ele fizera, e se sim, o que achou, ou se ao menos uma vez ouviu por acaso alguém falar dele — ele queria confirmar tudo isso também.
—Ei, aonde você tá…
Mas, dentre tantas e tantas palavras, nenhuma saiu pela boca. Ele apenas segurou Kwak Eunho com firmeza e caminhou em silêncio. Como se algo lhe subisse por dentro, ele sentia que só o fato de não ter explodido ali mesmo já esgotava toda a sua paciência.
Felizmente, Eunho o seguiu em silêncio, sem nenhuma resistência. No começo perguntou aonde iam, e depois, como Ji Hyeon não respondeu, chegou até a ajustar a velocidade dos passos. Ele parecia estar consciente dos olhares ao redor, e essa atitude, ao contrário, fez a revolta subir.
É um sujeito que adia até o próprio embaraço com medo de causar embaraço a alguém. Se a consideração impregnada nele é tão gentil assim, que motivo teria pra sumir de repente? Se de fato ele não tinha valor suficiente pra receber um contato, então qual o motivo de agora se deixar segurar assim quando ele o segura?
—Entra.
—…….
Mesmo depois de colocar Eunho no carro e fazer o diretor Byeon descer, Ji Hyeon continuou escolhendo mentalmente as palavras. Embora o que ele acabou soltando tenha sido apenas “fala”. Que ele tenha se estourado com a pergunta que voltou, de certa forma, era natural.
—Você tá bem?
—…….
Você acha que eu estaria bem? Era isso que ele queria perguntar. Você acha que eu pareço bem? E você, andou bem?
Os motivos de não ter conseguido foram exatamente dois. Primeiro, porque aquele Kwak Eunho que perguntava assim era detestável demais; e, além disso, porque não tinha confiança pra explicar o motivo de não ter andado bem.
Ele andou bem mesmo depois que morreram os pais que estavam com ele desde o nascimento. Às vezes ficava aéreo, mas nunca sentira que viver em si fosse pesado. Quando achava tudo fútil, bastava esvaziar a cabeça e se mover como sempre.
Então, por que motivo dizer que não andara bem? Que legitimidade colar ao ressentimento por ele pra que fosse justo? E se, mesmo sem ter encontrado nenhuma dessas respostas, ele continuasse sentindo ódio, o que fazer?
—Você é um puta de um filho da mãe.
—…….
Mesmo diante da acusação repentina, Eunho não se irritou. Quando ficava sem graça, ele costumava esfregar a nuca, mas diante daquele xingamento pesado nem isso conseguiu fazer. Os dois olhos quietos e baixos, os lábios firmemente fechados — o momento em que tudo aquilo voltaria a se abrir era estranhamente tenso.
—Desculpa.
Engraçado que aquela única palavra dissipou seu mau humor. Ele sempre achara péssimo remendar as coisas com a boca, mas, no instante em que ouviu aquilo, sentiu-se compensado por toda a raiva que sentira. Como se dissesse: você pode se irritar, o erro foi meu mesmo.
—Desculpa de quê?
—…….
—Por que você faz coisa de que tem que se desculpar?
—…Você fala igual a protagonista de novela.
—Ei.
Diante da pergunta cobrada, Eunho, odiosamente, apenas deu um risinho. Foi um sorriso pequeno, mas com uma sensação bem diferente da dos dezenove anos. O perfil dele encostando a cabeça no encosto e fechando os olhos também trazia agora um ar bem mais masculino.
—…Ji Hyeon.
Naquele momento, qual foi o motivo de seu coração afundar? Mesmo com Kwak Eunho bem diante dos olhos, a boca secava com uma ansiedade que insistia em avançar. Esse momento que ele imaginara não sei quantas vezes chegava a ser mais angustiante que alegre.
—No dia em que você foi pra Hong Kong, minha avó desabou.
As palavras que ele lhe disse eram os motivos que Ji Hyeon vagamente esboçara. Desculpas quaisquer: que estava ocupado demais, que estava difícil demais, e por isso não teve fôlego. Aquele tipo de imaginação que ele às vezes evocava, mas que se interrompia no meio porque sabia que era uma hipótese cruel.
—Você não tem nada a dizer?
—…….
Quando Eunho perguntou, Ji Hyeon observou brevemente a figura dele. Um rosto que ele nunca esqueceu por um único instante, a linha do pescoço com o pomo de adão saliente e os ombros retos. E até as cicatrizes deixadas no antebraço exposto sob a camiseta velha e as mãos cheias de calos.
—Por que você machucou o braço?
Por que ele enrolou uma bandagem? E que tipo de ferida haveria embaixo daquele curativo? Se machucou trabalhando, ou apanhou de alguém, ou será que ele mais uma vez apenas aguentou feito um idiota?
—Só trabalhando.
—Trabalhando no quê?
—Isso e aquilo…
Ele não pretendia deixar passar com uma resposta vaga daquelas. Como sentia que algo em algum lugar desmoronava, quis explodir de raiva como fizera um dia. A sensação de ter o íntimo apodrecendo era algo com que, por mais vezes que sentisse, ele nunca se acostumava.
—…De dia eu faço obra e de noite trabalho no turno da noite.
Droga, se era pra sumir, que ao menos andasse bem. Se ele tivesse entrado numa boa faculdade, feito bons amigos e vivido bem com a avó, tudo bem na cara dele, ele ao menos teria podido culpá-lo à vontade.
—Normalmente eu não me machuco. Hoje foi um descuido.
Que aquilo era mentira dava pra ver só pelas pequenas cicatrizes que restavam. Ainda assim, no colégio ele não era assim; era óbvio o tipo de suplício que ele passara assim que fez vinte anos. Só de imaginar, seu íntimo fervia, e parecia que, se abrisse a boca, sairiam palavras pesadas.
—…É que eu estou sem Manager agora.
Mas Ji Hyeon descobrira que não se pode dizer qualquer coisa por preocupação. Descobrira também que uma fala que não pretendia menosprezar podia, pro outro, tocar seu orgulho. Ele não aprendera com o próprio caso com ele que, quando ficasse com raiva ao ver Kwak Eunho machucado, o certo era consolar em vez de expressar a raiva?
—Você quer fazer isso?
Pois é, na verdade ele queria dizer outra coisa. Que ele pagaria a droga da conta do hospital. Que ele largasse na hora aquele bico de merda e fosse tratar o braço machucado no hospital. Que ele não aguentasse desse jeito estúpido, que por favor estendesse a mão pra ele.
—Não, faz você.
Como era a única coisa que ele podia dizer, em certo sentido chegou a se sentir impotente. Palavras oferecidas com paciência não combinavam com o gênio dele, mas, como Kwak Eunho não se irritava, surgiu ao menos a certeza de que não era um método errado. No instante em que viu que ele ia recusar com uma cara de constrangimento, junto com um estouro veio um sentimento ansioso.
—Você disse que tá precisando de dinheiro.
—…….
—E eu tô precisando de Manager.
Precisando uma ova. Até alguns minutos antes ele pensava em largar tudo. Administração de agenda e coisa e tal, bastava aceitar todos os trabalhos que chegassem e dar conta do que desse.
—Então faz você.
Era o máximo de persuasão que Ji Hyeon conseguia. Mais do que um ato inteiramente pelo bem dele, era algo próximo de um impulso nascido do desespero. Porque, se não fizesse isso, parecia que ele apareceria de novo cheio de feridas. Não, porque, no instante em que descesse daquele carro, talvez nunca mais voltasse.
—É urgente de verdade.
—…….
Durante o tempo em que ele não esteve, era como se ele estivesse se afogando aos poucos numa água do mar que já lhe subia até o pescoço. No começo nem sabia que estava afundando, e, quando percebeu, já era tarde demais pra escapar. Agora que finalmente sua garganta sufocada respirava, ele não podia perder um momento tão precioso quanto uma chuva no deserto.
—…É mesmo?
—…….
—Então vou te dar trabalho.
Ele quis gritar de alegria. Pelo fato de ter criado um pretexto, pelo fato de ter surgido um elo legal, e pelo fato de não precisar mais ficar aflito com medo de que ele fosse embora. Porque, no rosto de Kwak Eunho falando com jeito acanhado, apareceram ao mesmo tempo culpa e um certo peso.
Era o que ele sempre pensava ao olhar o colar escondido sob a roupa. E se, em vez de receber um presente, ele tivesse dado? Se ele tivesse entregado mais coisas e, por isso, Kwak Eunho tivesse sentido um peso? Se fosse assim, um resquício de dívida teria segurado o tornozelo dele e ele não teria conseguido cortar o contato primeiro.
Portanto, isso não era boa-fé, era uma falsidade nascida da ganância. Uma isca pra fisgá-lo e nada mais que um golpe pobre e sórdido. Um golpe que, se ele não tivesse mordido de bom grado, teria virado uma cantada ridícula e insignificante.
Ele quis assinar o contrato na hora, mas o diretor Byeon o conteve. Externamente, o motivo era que já era tarde, mas ele sabia que na verdade era porque não confiava em Eunho. Porque, aproveitando que Eunho não estava olhando, ele demonstrou insatisfação dizendo como se contratava como Manager alguém sem saber como ele lidava com o trabalho.
Claro, a opinião do diretor Byeon não importava. A contratação até poderia ser feita pela empresa, mas a escolha era prerrogativa de Ji Hyeon. Se realmente não desse, havia o método de fazer um contrato pessoal sem passar pela empresa.
—Tenta fugir de novo pra você ver.
—Quando é que eu fugi…
Parece que ele também tinha consciência, porque o resto da frase não saiu até o fim. Em vez disso, apenas falou com calma pra Ji Hyeon:
—Quando eu organizar o que estou fazendo, eu ligo.
—Você não sabe meu número.
Ligar, se ele soubesse fazer isso, tinha feito antes. Ele nem sabia que ele tinha celular; por que método ele ia entrar em contato?
—Você mudou de número?
Mas Eunho perguntou aquilo sem mudar uma linha da expressão. E ainda tirou o celular dizendo que então ele lhe daria o próprio número. Diante desse Eunho, Ji Hyeon respondeu sentindo uma tensão sem motivo:
—Não.
Ele recebeu tanto trote e nem assim conseguiu mudar. Porque, se mudasse até isso, sentia que todo elo com Eunho se romperia. Ele parara de esperar a ligação depois de um ano, mas era por isso que continuava checando as chamadas perdidas por hábito.
—Então eu sei.
—…….
—Ainda lembro.
Ele deveria se admirar com aquela memória extraordinária, ou deveria se magoar pelo fato de que, mesmo assim, ele não entrou em contato?
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna