⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 08
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 08
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No começo ele achou que aquilo não podia ser. Depois pensou que devia haver algum motivo, e por fim pensou que talvez ele tivesse esquecido o número. Racionalizava dizendo que aquilo aconteceria de qualquer jeito, mas também houve momentos em que explodiu de indignação, sentindo uma raiva de origem desconhecida.
Por que ele me deixou?
Ele não conseguia se livrar desse pensamento. E, mesmo assim, o motivo de não conseguir xingá-lo é que, ao contrário, não havia razão nenhuma pra ele não ir embora.
Ele sabe que Kwak Eunho não tinha obrigação nenhuma. Cuidar dele, entrar em contato com ele, considerá-lo amigo e conviver de perto — ele não desconhecia que tudo isso era um tratamento além do que merecia.
Ele não esquece o dia em que se formou completamente sozinho. Entre tantos e tantos formandos, ele nunca imaginou que a ausência de apenas uma pessoa, Kwak Eunho, seria tão vazia. Deixando de lado todas as palavras que esperava e antecipava, ele se sentiu injustiçado a ponto de enlouquecer só por não ter conseguido ver aquele rosto uma única vez.
Então, de repente, se deu conta. Que a emoção que ele vinha sentindo até então talvez fosse, na verdade, medo. Que a dor incômoda na região do peito e a falta de ar que sentia às vezes ao vê-lo talvez fossem uma insegurança vaga em relação às coisas que somem aos poucos.
Pra Ji Hyeon, alguém ao seu lado partir era tão natural quanto respirar. Ele já tinha poucas pessoas próximas desde o início, mas todos os laços por que passara até então não acabavam voltando a ser relações fúteis? Portanto, não era difícil racionalizar dizendo que não era um laço destinado a durar.
—…….
Ainda assim, ainda assim, que ao menos ele dissesse uma única palavra. Pra onde tinha ido, por que tinha ido, quando voltaria e como ele deveria esperar. Se não fosse voltar, ao menos qual era o motivo dessa escolha.
Como não encontrava o motivo, também não conseguia encontrar Kwak Eunho. Queria contratar alguém pra procurá-lo, mas achava que, se fizesse isso, ele se horrorizaria de verdade e fugiria. Que ele fora embora porque não gostava dele, que pra que ele o procurara. Se ele dissesse isso, o que diabos ele responderia?
Passando os vinte, chegando aos vinte e um, atravessando o verão dos vinte e dois até receber o outono.
A raiva por ele virou resignação, e as palavras de acusação viraram autoacusação. Ele largou num canto do quarto o colar de que só tinha pena e, depois, passou noites em claro fitando-o, sem dormir nada. E quando o vômito subia como se o estômago virasse, ele ficava um bom tempo agarrado ao vaso sanitário sem sequer saber o que era aquela emoção empedrada.
Será que teria sido diferente se ele o tivesse feito ator naquela época?
Se, em vez de mandar decorar o número, o tivesse escrito num papel.
Em vez de ir gravar um filme, ele deveria ter aproveitado os poucos meses de vida escolar que restavam.
Quando o período separados ultrapassou o período em que estiveram juntos, ele passou a usar o colar o tempo todo. Era um ato quase de protesto, motivado pela ideia de que, fazendo isso, um dia ele acabaria caindo no campo de visão de Eunho.
Por mais que ele não pesquise nada, uma hora ou outra vai ver. Aí, ao menos por esse breve instante, seria bom se ele pensasse em mim, por mais ocupado que estivesse. E, quem sabe, não haveria a possibilidade de um contato por um capricho impróprio dele?
A insônia piorou, mas os casos de pânico diminuíram. Ele parou de dar NG atuando, e o número de vezes em que vomitava depois de beber só água também diminuiu. Com a perda de peso, a saúde piorou, mas, cumprindo a agenda mecanicamente, dava pra aguentar mais ou menos.
—Se vai ser assim, então anda a pé, moleque!
Deixar o diretor Byeon com raiva não foi bem de propósito. Ele só estava distraído, com a cabeça em outro lugar, e viu umas costas parecidas com as de Kwak Eunho e tentou descer do carro. O carro estava justamente partindo, e o problema, se é que era um problema, é que coisas parecidas já tinham acontecido várias vezes antes.
—Onde você deixou a cabeça?! Acha que Manager é quem limpa a sujeira que você faz?
Dava pra entender. Nos últimos anos, todos os Managers de Ji Hyeon largaram o cargo sem aguentar nem três meses. Os motivos eram variados, mas em geral era não conseguir dar conta da agenda excessiva ou não conseguir lidar com as atitudes imprevisíveis de Ji Hyeon.
Às vezes o diretor Byeon, com medo de que descobrissem o estado de Ji Hyeon, os trocava por conta própria.
—Você faz ideia do prejuízo daquele contrato que você quebrou da última vez? Abafar o barraco que você fez no set não é coisa de um ou dois dias!
Ji Hyeon também tinha o que dizer. Ele apenas dissera que não faria, porque exigências absurdas se repetiam. E também não gostou do diretor, ou seja lá o que fosse, tratando um membro da equipe como um rato e batendo na cabeça dele.
Porra, será que o Kwak Eunho também não está apanhando assim por aí? Assim que esse pensamento veio, ele saiu pisando duro do set.
—Se for pra fazer desse jeito, larga a carreira de ator!
—…….
Em vez de responder qualquer coisa, ele apenas brincou com o colar em silêncio. Diante daquela reação mansa, até o diretor Byeon se assustou e ficou medindo a situação. Ji Hyeon, que ficou ali um bom tempo aéreo, murmurou tardiamente, como quem fala consigo mesmo:
—Pois é.
—…….
—Existe o método de largar.
Por que eu não pensei nisso? Se ele achava tudo fútil, era só largar. Pra que ele aguentou e aguentou e chegou até aqui teimando em viver?
—A multa contratual era de quanto…? Quantos anos faltam de contrato?
Ele perguntou com sinceridade, mas o diretor Byeon não respondeu. Apenas disse pra ele não ter ideias tolas e o levou pra casa em silêncio. Diante do “eu venho te buscar amanhã, então durma bem”, nem Ji Hyeon teve o que responder.
E a noite que veio assim foi uma guerra contra o sono que não vinha. Quando ele tomava o sonífero e se deitava, invariavelmente ouvia vozes que não deviam ser ouvidas.
Tá tudo bem. Vamos dormir um pouquinho com a mamãe. Meu Hyeon é bonzinho, né? Quando você abrir os olhos, vai estar tudo acabado.
Devia ter ido junto com a mãe, tem a vida dura à toa… o que eu faço com um moleque que não sabe fazer nada.
Ji Hyeon, você tá bem? Olha pra mim. Espera aí, vou chamar o professor. Fica aqui.
—…….
Entre aquelas vozes misturadas e embaralhadas, qual era a que mais o desagradava? O zumbido ecoando na cabeça ele aguentava, mas as cenas que passavam de relance ele não conseguia suportar. Por mais que ele se perguntasse infinitamente como tinha chegado àquela situação, o fato de que não havia nada a reverter era excessivamente impotente.
Foi nessa época que ele descobriu que, tomando álcool junto com remédio, conseguia dormir de algum jeito. Quando a consciência se apagava com um estalo, como se desligassem a energia, ele até sonhava muito, mas não acordava no meio do sono. Às vezes abria os olhos num hospital em vez de em casa, mas, depois disso, a cabeça até parecia ficar mais limpa.
—Vamos dar uma pausa nas atividades por um tempo.
Quando o diretor Byeon disse isso, Ji Hyeon percebeu que tinha ido longe demais. Porque uma pessoa que ficava angustiada só de ele descansar um pouquinho estava sugerindo aquilo com uma cara muito séria.
—Descansa das atividades e, por enquanto, vai ao hospital e faz ao menos umas terapias. Ou então se interna.
Terapia, essas coisas não adiantavam nada. E internação ele já estava de saco cheio, nem queria.
—Por quê, eu pareço um doente mental?
—Hyeon.
Mesmo fazendo uma voz severa, o diretor Byeon tinha uma expressão preocupada. Com a cor do rosto ruim, parece que a fala de aposentadoria que Ji Hyeon soltara fora bem chocante.
—Aquele hospital que você frequentava na infância é que era estranho. O tio vai perguntar por aí e procurar, então…
—Diretor.
—…….
—O senhor não está falando isso só como tio.
Se é pra cuidar, que cuide direito. Não, se era pra mandar pro hospital, que tivesse mandado antes. Achou que ninguém ia perceber que ele só resolveu bancar o tio agora que a carreira de ator parecia em risco?
Engraçado que o diretor Byeon não se justificou. Mais precisamente, seria correto dizer que ele não tinha o que dizer. Por mais que ele amasse Ji Hyeon, era fato que ele não podia deixar de se preocupar primeiro com a vida dele como ator. Ser tratado puramente como sobrinho era uma consideração que, desde o início, ele nem esperava.
—Para de fazer coisa que não combina com o senhor e aja como sempre. Eu não vou morrer que nem minha mãe.
Talvez graças ao tom deliberadamente indiferente, felizmente o diretor Byeon não arrastou mais o assunto. Escondeu com esforço a expressão endurecida e engoliu goela abaixo o pedido pra ele descansar. Em vez disso, veio uma fala de diretor, como sempre:
—…Os fãs colocaram um anúncio de aniversário pra você. Mais tarde à noite vamos lá tirar uma foto de comprovação.
Ele puxou o boné bem pra baixo e cobriu o rosto com a máscara. Na verdade não tinha o menor interesse em anúncio de aniversário. Mas sabia que não podia ignorar aquele gesto. Ainda que aquela comemoração barulhenta servisse pra fazê-lo esquecer a data da morte da mãe. Ao menos fingir gratidão era o correto.
—Eu vou sozinho.
—O quê? E como você vai tirar a foto, moleque…?
—É só tirar uma selfie.
Quando chegaram em frente à estação, Ji Hyeon desceu do carro antes que o diretor Byeon conseguisse segurá-lo e foi em direção ao saguão. Achou que ele o seguiria em seguida, mas inesperadamente o diretor Byeon não desceu do carro. Provavelmente achou que devia lhe dar um tempo sozinho, nem que fosse breve.
Não havia muita gente na estação. Mesmo essas poucas pessoas lançavam olhares de relance a Ji Hyeon, mas ele ignorou tudo e caminhou até onde ficava o painel eletrônico. Já sabia mais ou menos a localização pelo diretor Byeon, então bastava ir lá e tirar uma foto qualquer.
—Aniversário, que droga…
Ele nunca fora grato por ter nascido neste mundo. E o momento em que a comemoração de alguém o deixou feliz foi, em toda a sua vida, apenas uma única vez. O colar que ele usa até hoje por baixo da roupa. Até esse objeto, que quase se tornara uma boa lembrança, não virara agora uma memória sórdida?
Pensou em, depois que aquele dia passasse, ao menos conversar com o diretor Byeon. Perguntar o que ele achava de, em vez de pausar as atividades, largar de vez. Que não criasse um cara como ele e fosse descobrir um novato obediente. Que ele pagaria a multa contratual no valor que quisesse e que, se precisasse, o tio ficasse com todo o patrimônio restante.
Não era uma conclusão tomada num rompante. Ji Hyeon tinha uma oscilação emocional menor do que se pensava. O problema é que ele se mantinha num estado predominantemente negativo, mas raramente fazia escolhas precipitadas por impulso.
Pois é, então agora era realmente hora de acabar. Foi no instante em que, pensando assim, ele ergueu a cabeça.
—…….
Sempre havia muitos fãs que vinham ver os anúncios, mas a pessoa diante do painel eletrônico chamava especialmente sua atenção. Seria porque a pessoa era, raramente, um homem? Ou porque era mais alta que os outros? Ou então porque, de algum modo, sentia uma sensação de já ter visto aquilo antes?
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna