⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 07
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 07
Ele achava confortável. Porque, estando junto, não precisava se tensionar à toa. Porque não precisava tratá-lo sempre como se atuasse, com medo de que surgisse algum boato ruim. Porque, desde o início, ele não esperava nada dele, e por isso, mesmo mostrando-se como era, nunca havia decepção.
—Tio, adia minha agenda um pouco. Amanhã tem prova bimestral, eu tenho que ir pra escola.
Quando Ji Hyeon disse isso, o diretor Byeon fez uma cara sinceramente feliz. A ponto de embrulhar montes de chocolates caros dizendo pra ele ir bem na prova. Disse pra não comer muito, porque ele precisava cuidar do corpo, mas, como de qualquer forma os chocolates todos iriam parar nas mãos de Eunho, tanto fazia.
—Que chocolate é esse?
—Dizem que se come essas coisas na hora da prova. Não é?
—É verdade, mas… você nem estuda, e ainda traz uma coisa dessas.
O rosto que abria um risinho era melhor que o de qualquer ator, ele acha. Da próxima vez que pintar um papel bacana, eu sorrio assim. Foi pensando nisso que ele observou o canto da boca dele se erguendo. Kwak Eunho, que tinha a boca grande e generosa, formava uma caverna profunda dentro da boca só de sorrir um pouco.
—Valeu, vou comer bem.
Pra ver aquele sorriso mais uma vez, ele arrumava tempo do nada só pra ir à escola. Quando havia algo gostoso, trazia à toa; quando havia algum objeto bacana, comprava dois e dava um pra Eunho. Lapiseiras, cadernos, fones de ouvido, garrafas térmicas — coisas simples, mas que pra Kwak Eunho eram meio esquisitas de comprar com o próprio dinheiro.
—Você anda vindo bastante pra escola.
—…E aí, tá incomodado?
—Não, se você vem sempre eu gosto.
Ele não teve uns cinco NGs no dia em que ouviu isso? Foi por isso que ele não conseguiu perguntar depois o que aquilo significava. E ainda mais porque tinha a lembrança de ter dito com toda a confiança que ele não dava NG.
—Eu moro só com a minha avó.
Quanto mais o tempo que passavam juntos aumentava, mais coisas ele ia sabendo. Sabendo mais, via mais; e, vendo mais, começaram a surgir dúvidas. Por que ele estudava com tanto empenho, como era a situação da família dele, quantos bicos ele tinha e que tipo de tratamento recebia neles.
—…Você é estudante, por que trabalha tanto assim?
Dinheiro — será que eu não posso simplesmente dar? Ele nem sabe quantas vezes teve esse pensamento. Quando ele se machucou trabalhando, quando ele apanhou daquele desgraçado do dono e voltou sem conseguir fazer nem uma cara de injustiçado, quando ele se corroía mais por causa do salário atrasado do que por um cliente escroto que aprontou.
—E você?
—Eu o quê.
—Você também é estudante e trabalha pra caramba.
Mas eu não sou estudante, sou ator. Ji Hyeon quase disse isso, mas fechou a boca com força. Porque, se dissesse aquilo, Kwak Eunho responderia que ele também não era estudante, era funcionário de meio período. As palavras dele não tinham contradição, mas, se Kwak Eunho falasse assim, ele sentiria o estômago virar do avesso.
Assim o tempo passou e eles chegaram ao terceiro ano do colégio. Por sorte ficaram na mesma sala e, por serem altos, puderam mais uma vez ser parceiros de carteira. Brigaram feio no começo do semestre, mas, depois de uma reconciliação milagrosa, pareciam ter voltado à relação original.
Só que, mais ou menos aí, surgiu um problema. Depois de terem brigado uma vez, apareceram várias partes difíceis. A atitude ao tratá-lo, o jeito de falar, a expressão ao olhar pra ele e, por fim, até o modo mais banal de chamá-lo.
—Ji Hyeon.
Kwak Eunho era difícil. Tão difícil que depois virava até motivo de insegurança. Ele me chama com aquela ternura, e eu posso chamá-lo de Kwak Eunho? Ele faz tudo bem, e eu posso ser bom só em atuar? Ele vai pra faculdade depois, e, quando a gente se formar, onde é que vamos nos encontrar?
—Gravação de filme?
—É.
Foi nesse meio-tempo que surgiu uma agenda no exterior. Uma filmagem em Hong Kong, e disseram que o período passaria de no mínimo três meses. Como ele ouviu isso em outubro, mesmo terminando no prazo mais apertado, talvez nem conseguisse participar da formatura.
—…Acho que eu não volto até a formatura.
Diante da frase lançada de leve, Eunho não mostrou nenhuma reação especial. Apenas disse, com aquele tom sereno de sempre, pra ele ir com cuidado. Houve tempos em que ele gostava daquela placidez, mas naquele dia, por que ela o desagradou tanto?
Na verdade, depois de conhecer Kwak Eunho, a maioria das emoções ficou difícil. Havia sentimentos demais que ele descobria pela primeira vez, e ele não tinha a menor noção de por onde e como começar a compreendê-los. Mesmo tendo interpretado inúmeras emoções que os outros nunca sentiram, resolver os pequenos problemas com que esbarrava na realidade não era nada fácil.
Pois é, atuar era, no fim, uma habilidade. Atuar era o processo de expressar de forma convincente as emoções e personagens fictícios criados por um roteirista. Quantos corações se comovem com isso — dava pra usar isso como medida do talento de atuação.
Nesse sentido, Ji Hyeon era alguém que vivera apenas atuando desde uma época de que nem se lembra. Diante das câmeras e também na realidade. Receber a atenção das pessoas com uma imagem bem enfeitada era extremamente fácil.
Era simples. Assim como não é preciso ter sido médico pra fazer o papel de um médico, não é preciso ter passado fome pra atuar como pobre. Em certo sentido era quase uma fórmula matemática: quando surgia uma emoção desconhecida, bastava procurar material ou dissecar personagens parecidos e encontrar a resposta.
E, se mesmo assim não desse, bastava procurar o roteirista e perguntar isso e aquilo.
—Que colar é esse?
—Presente de aniversário.
Então, se existisse um roteirista, ele queria perguntar. Que emoção era essa que ele sentia ao olhar Kwak Eunho, essa sensação de estômago todo revirado. Por que motivo, toda vez que encarava o rosto dele, até respirar ficava antinatural.
E também qual era o nome daquela dor que apertava a região do peito diante de uma frase que ele lhe dizia.
—Achei que você ia ficar bonito de colar.
—…….
Colar, uma coisa pela qual ele nunca tivera o menor interesse. Acessórios pendurados por aí ele achava incômodos e nada práticos.
—É muito baratinho, então, se não precisar, pode jogar fora…
—Você tá louco?
Aquela palavra, “baratinho”, conseguiu deixá-lo furioso. Quem falou aquilo foi o próprio Kwak Eunho, e ele não gostou de Kwak Eunho chamar de barato algo que o próprio Kwak Eunho comprara. Ele nem conseguia receber, com medo de que aquilo sumisse ao ser tocado, e, ao ouvir que podia jogar fora, foi como se tudo escurecesse diante dos olhos.
—Por que eu jogaria isso fora?
Ele nunca dera importância ao aniversário. Porque, no instante em que marcasse o dia 4 de outubro, sentiria que teria de lembrar também da data da morte da mãe. E também porque não queria mais lembrar daquele dia em que engoliu gás em vez de bolo. E, no entanto, sobre aquela memória bolorenta, um simples colar de metal sobrepôs outra memória.
—Filma bem o filme.
—…….
—E não se machuque à toa gravando cena de ação.
No instante em que ouviu aquela voz seca, a garganta se fechou sem remédio. Filme, nada disso importava; ele só queria ir à escola com Kwak Eunho. Queria ficar na sala de aula, e não no set; queria decorar o conteúdo do livro didático, e não do roteiro.
—…Ei, você tem boa memória, né?
Mas Ji Hyeon era ator, e foi por ser ator que ele pôde chegar até ali. A única coisa em que podia confiar era o rosto herdado da mãe, e o pai não dissera que, se ele nem soubesse atuar, não serviria pra absolutamente nada? Ele vivia como ator sem nenhum objetivo específico, mas, se ao menos fosse bom em uma coisa e por isso não passasse vergonha diante de Kwak Eunho, isso já bastava.
—Decora. 010…
Eunho, mesmo confuso com a fala repentina, decorou com aquela cabeça inteligente os onze dígitos sem problema. Era um sujeito de memória absurdamente boa, então ele não achava que fosse esquecer o número. Além disso, sendo os últimos dígitos “1004”, seria estranho, ao contrário, se ele não decorasse.
—Você vai direto pro aeroporto?
—É, é voo noturno…
Como tinham saído aproveitando o horário do almoço, eles voltaram logo pra escola conversando bobagens. Os passos ficavam cada vez mais pesados, mas Ji Hyeon deixou Eunho pra trás com esforço e entrou no carro que o aguardava. Vendo Eunho parado por um bom tempo diante do muro, ele também pensou sozinho que talvez ele estivesse se sentindo parecido com ele.
—Ei, se existia um garoto desses, você devia ter falado antes!
Parece que o diretor Byeon, sentado no banco do motorista, escaneou Eunho da cabeça aos pés naquele breve instante. Perguntando de onde tinha saído um garoto daqueles, ele deu partida e continuou olhando pra trás. Naturalmente, Ji Hyeon respondeu com um rosto entediado, como se nada fosse.
—Eu falei. Que o cara sentado do meu lado é mais bonito que os garotos que aparecem hoje em dia.
Ele já tinha dito não sei quantas vezes, mas o outro é que não dera a mínima. Ele não dissera que não existia garoto desses na escola dele, e que, se existisse, alguma agência já o teria levado? E ainda soltara um monte de asneiras dizendo que ele só achava bonito porque era o primeiro amigo com quem se aproximara.
—Vamos fazer dele ator.
—Não pode.
Ji Hyeon recusou com firmeza e olhou distraidamente pela janela. A escola já estava tão longe que não se via nem sinal dela. Provavelmente a essa altura Kwak Eunho já tinha pulado o muro de volta pra sala de aula.
—Ele não pode porque estuda bem.
Escola é pra garotos como Kwak Eunho. Garotos de bom caráter, boas notas e que se esforçam em tudo. E não caras como eu, de caráter ruim, notas ruins e que não sabem fazer nada.
—E ele disse que não tem TV na casa do Kwak Eunho. Aí a avó dele não ia poder ver ele.
Ele dissera que o motivo de estudar tanto era exclusivamente a avó. Que, entrando numa boa faculdade e conseguindo emprego, queria viver em harmonia com ela. Mas, se ele fosse ator, não ficaria sem tempo nenhum pra ficar com a avó?
—…Aquele ali é o Kwak Eunho?
—É, Kwak Eunho.
Ji Hyeon respondeu com indiferença e encostou a cabeça na janela do carro. O colar que segurava na mão ele já pusera no pescoço assim que entrou no carro. Os sintomas de pânico costumavam piorar quando ele pegava avião, mas naquele dia teve o pressentimento de que, por algum motivo, ficaria tudo bem.
—Meu amigo.
O primeiro amigo que fez e o primeiro amigo com quem brigou. Um sujeito decente que não tratava seus defeitos como defeitos e não o rebaixava sem motivo. Aquela existência única que, ao longo de um ano e meio, lhe criara as memórias mais nítidas de todas.
Eu devia ter ficado até as aulas da tarde. Ji Hyeon pensou nisso e ficou brincando com o colar. Depois, com medo de que enferrujasse, nem ousava mais tocá-lo. Nunca achara uma pena um objeto se desgastar, mas sentia uma pena terrível de um objeto que nem sequer se desgastara ainda.
—Tio, a avó dele também vem na formatura, né?
—Deve vir. É a formatura do neto.
Que a filmagem terminasse cedo e que ele pudesse ver também a avó de Kwak Eunho no dia da formatura. Porque seria bom cumprimentá-la da forma mais educada possível e irem comer algo gostoso juntos. Não, talvez se intrometer entre família fosse estranho, então talvez tivesse que se contentar em apenas dar as caras.
Teria sido um milagre realizado por aquele desejo fervoroso? Após cerca de três meses de filmagem, Ji Hyeon conseguiu um tempo pra voltar brevemente à Coreia. Vestiu o uniforme depois de muito tempo e, mesmo sendo ele próprio um formando, comprou animado até um buquê e foi à formatura.
Mas, até que toda a formatura acabasse, Kwak Eunho não apareceu na escola.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna