⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 06
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 06
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A primeira vez que Ji Hyeon viu Eunho foi nada menos que doze anos antes, quando ambos tinham dezessete anos. Ji Hyeon, que era uma celebridade desde que nasceu, originalmente iria pra um colégio de artes com curso de interpretação. Mas, por um capricho súbito do diretor Byeon, ele acabou entrando num colégio comum, desses que os estudantes normais frequentam.
—Você também precisa desenvolver habilidades sociais agora.
Sinceramente, era um absurdo. De que adiantava fingir cuidar dele tão tarde, quando já era tarde demais? Se era pra falar de habilidade social, deveria tê-lo mandado pra escola logo depois que o pai morreu.
Ji Hyeon não foi ao jardim de infância, e mal pôde frequentar o primário. Nos últimos anos do primário a mãe morreu, e depois disso ele teve que passar alguns anos trancado num hospital psiquiátrico. No ginásio ele teve um pouco mais de liberdade, mas o diretor Byeon, temendo que Ji Hyeon aprontasse, decretou que ele não dissesse uma palavra em nenhum lugar que não fosse o set de filmagem.
E agora, de repente, mandava que ele fizesse amigos. Não que ele desconhecesse a intenção do outro, mas era um fato que era absurdo não saber em que ritmo dançar.
Falando pelo resultado, o plano do diretor Byeon fracassou desde o começo. Primeiro, Ji Hyeon também mal ia ao colégio, e não havia como surgir um amigo pra alguém que só levantava muros e ficava girando por fora.
Além disso, pra estudantes numa fase tão sensível, um artista não teria como parecer só uma coisa bonita.
—O Ji Hyeon não é um mal-educado do caralho?
Era um dia em que ele fora à escola cedo e ia pra sala. Como Ji Hyeon era do 9º grupo do 1º ano, tinha que andar até a ponta do corredor que começava no 1º grupo. As vozes que escaparam pela fresta da porta entreaberta foram suficientes pra fazê-lo parar os passos.
—Pois é, porra, um cara que não aparece nunca na escola.
—E os professores puxam o saco dele pra caralho.
Era algo que acontecia com frequência. Ele não fazia nada e, do nada, era xingado. Os motivos também eram variados: que ele se achava, ou que trazia coisas caras à toa, ou então que não trocava palavra com ninguém e se fazia de difícil.
—Ué, eu acho ele meio digno de pena. Vocês não sabem que os pais dele morreram?
—Cara… com o tanto de dinheiro que ele tem, que pena o quê.
—É, sinceramente, quem é que não tem drama de família? Se eu tivesse dinheiro em casa, também aguentaria numa boa.
Ouviu-se um risinho abafado. Bom, não era um conteúdo que o ferisse muito. Que os outros falassem o que quisessem, era coisa que ele já ouvira até enjoar. Não ter os pais também era, pra ele, mais confortável do que vergonhoso.
Só que às vezes, muito às vezes, ele enjoava de tudo aquilo.
—Dizem que a mãe do Ji Hyeon morreu e ele ficou mudo. Não é por isso que a atuação dele às vezes fica estranha?
—Também tem o boato de que ele é retardado.
O último ele não sabia, mas o primeiro era definitivamente um boato. Não era mudez: em casa e na agência taparam a boca dele pra que não falasse. Diziam que era com fins terapêuticos, mas na verdade era pra não aumentar ainda mais o caso.
—Cresceu sem mãe, por isso ficou assim.
—Só a mãe? Pai também não tem.
Assim que ouviu isso, ele agarrou a porta da sala sem precisar pensar. Ia perguntar por que eles tinham crescido daquele jeito mesmo tendo pais. O diretor Byeon teria um treco se visse, mas, como sempre, cuidaria da limpeza depois, então tanto fazia. E, mesmo que isso gerasse um problemão, isso também não importava muito.
Mas, no instante em que ia abrir a porta, uma voz diferente de todas as anteriores entrou na conversa deles.
—Eu também não tenho mãe.
—…….
O palavreado empolado de bravata se interrompeu de vez. Aquela voz baixa e assentada era extremamente madura pra um estudante do ensino médio. Assim que alguém devolveu um “o quê?”, o mesmo garoto falou num tom seco.
—Eu também não tenho pais.
Não havia nuance de ironia. Apenas serenidade, sem nenhum abalo, como quem enuncia um fato. E, como se não bastasse, veio ainda a frase seguinte.
—Acho que não é certo xingar por causa disso.
Entre garotos existe uma hierarquia tácita. Ou seja, há caras que são ignorados mesmo dizendo a coisa certa, enquanto outros são venerados mesmo dizendo o errado. O garoto não disse nada errado, mas, de qualquer forma, claramente pertencia ao segundo tipo.
—Cara… a gente também fala tudo de brincadeira.
Surpreendentemente, depois disso o assunto da conversa mudou na hora. Chamando um nome como Park Eunho ou Kwak Eunho, ainda emendaram a desculpa de que não era com ele. No riso constrangido havia vergonha e humilhação misturadas, mas mesmo assim ninguém se irritou.
Até ali, Ji Hyeon não tinha nenhum pensamento especial sobre aquele estudante que tomara o seu partido. Não, na verdade, era até meio impreciso dizer que ele tomara partido. Porque talvez ele realmente só não gostasse daquele tipo de xingamento.
Só que, graças a isso, ele não aprontou, e o diretor Byeon se livrou de mais uma preocupação.
A vez em que Ji Hyeon voltou a se deparar com ele foi numa tarde em que ele estava especialmente mal. Era mais ou menos a época em que o simples fato de ter que entrar numa sala fervilhando de gente lhe causava uma repulsa excessiva e o estômago revirava.
Ele se escondeu atrás do prédio pra não encontrar ninguém, e alguém se aproximou dele sem hesitar.
—…Ei, você tá bem?
Ele soube assim que ouviu a voz. Que era aquele garoto. Aquela voz calma, diferente da dos colegas de idade, era difícil de esquecer mesmo tendo sido ouvida uma única vez.
—Se você tiver passando mal…
Ji Hyeon, tapando a boca com uma das mãos, apenas abanou a outra sem convicção. Queria dizer que não precisava e que fosse embora, mas, se abrisse a boca, parecia que vomitaria, então não pôde. Se tirassem uma foto, o diretor Byeon o encheria o saco. Até dizer que era porque estava passando mal parecia um incômodo.
Felizmente o garoto saiu logo do lugar, sem reclamar. Então ele não é do tipo que se mete à toa. Ele se aliviou intimamente com isso.
Sim, até o garoto voltar e deixar alguma coisa ao lado dele.
—Peguei isso na enfermaria, é um remédio pra quando o estômago não tá bem.
—…….
—Eu vou indo, então toma depois, nem que seja mais tarde.
O tratamento formal desajeitado mudou pra informal. Ele não sabe se o garoto o reconheceu ou se foi só uma simples mudança de humor. Quando olhou pra aquele lado tardiamente, só viu as costas dele desaparecendo em direção ao prédio.
Depois disso, Ji Hyeon ainda cruzou com aquele estudante muitas vezes. Seria coincidência ou seria brincadeira do destino? Era principalmente quando ele estava doente ou em mau estado, e o garoto o levava em silêncio até a enfermaria. E, mesmo assim, como ele nunca dava sinal de o reconhecer, Ji Hyeon concluiu sozinho que ele tinha um temperamento muito considerado.
—Você não me conhece?
—Não conheço.
—…Você não me conhece?
Quem diria que ele realmente não sabia quem ele era.
Devia-se dizer que o orgulho dele foi ferido. Mais do que ele não saber que ele era ator, foi mais absurdo o fato de ele não se lembrar dos cinco encontros anteriores. Por mais que não tivesse visto o rosto direito, por mais que ele estivesse de máscara, por mais que tivessem se cruzado sempre em lugares diferentes.
Enfim, ontem como hoje, era um sujeito realmente estranho. Kwak Eunho, que não tinha TV, nem computador, nem notebook. Kwak Eunho, que andava com um celular que parecia sucata e que, quando travava, resolvia outro exercício sem uma única reclamação. Kwak Eunho, que o chamava por aquele apelido ridículo de “Ji Hyeon” e que, mesmo depois de saber que era um tratamento errado, nem se esforçou pra mudar.
E o Kwak Eunho que, mesmo tendo descoberto os defeitos dele, apenas lavava as mãos com cara impassível.
—Não é nada de mais… você não tá prejudicando ninguém.
—…….
—Lavar as mãos com frequência é bom.
Era a primeira vez que ele confessava seu TOC de limpeza e ouvia uma coisa dessas. Porque, na maioria das vezes, as pessoas diziam que um ator não podia ser assim, ou que ele não demonstrasse isso diante dos outros, ou que aquilo era uma questão de força de vontade. De vez em quando, quando o estado dele variava conforme a condição física, sobravam até falas cheias de desconfiança dizendo que era tudo atuação.
—Ji Hyeon, o que houve?
Ele se lembra da reação que ele mostrou quando teve o primeiro ataque de pânico. Aquela imagem dele, com um rosto raramente perturbado, sem conseguir sequer tocá-lo, sem saber o que fazer. Franzindo a testa pela primeira vez diante de um celular em que nem dava pra pesquisar direito e, diante de um “não vá”, nem conseguindo chamar um professor, ficando ao lado dele naquele dia.
—Olha pra mim.
O uniforme de educação física que ele pôs sobre a cabeça dele era excessivamente aconchegante, e o olhar que encontrou logo à frente era gentil demais. Sem sequer saber o que era um ataque de pânico, ele achou agradável aquela voz que sussurrava um método de contenção que encontrara em algum lugar.
—Fala três coisas que você tá vendo.
Já fazia anos que ele carregava todo tipo de diagnóstico. Nunca o simples fato de alguém estar ao lado dele acalmara tanto o seu coração. E também foi a primeira vez que ele expôs, um por um, seus lados fracos, sem a preocupação de “será que ele vai me achar estranho?” ou “será que vai dizer aos outros que eu sou estranho?”.