⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 05
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 05
Ele só descobriu tarde demais que aquilo era inveja. Porque a avó de que Eunho falava de vez em quando era, aos ouvidos de Ji Hyeon, uma família irreal demais. Kwak Eunho tinha ao lado dele uma pessoa gentil e calorosa daquele tipo que existe apenas em novelas ou filmes.
—…É mesmo?
Ele engoliu por pouco o “que bom pra você”. Foi orgulho, foi a razão mínima, e foi porque ele tinha consciência de que aquilo poderia ser visto como falsidade. As pessoas diziam que ele tinha tudo; nessa condição, como ousaria dizer a alguém que sentia inveja?
—Vou usar bem o remédio.
Pra esse Ji Hyeon, Eunho falou de leve, abrindo o livro didático. E acrescentou como se nada fosse, sem sequer olhar pra ele:
—Desculpa por ter te agarrado pelo colarinho.
—…….
Ele tinha pensado e pensado e trazido apenas uma pomada. Diante de um pedido de desculpas tão natural que parecia impregnado no corpo, tudo aquilo pareceu miserável. Eu também sinto muito. Por não conseguir soltar essa única frase, ele apelou pra desculpa ridícula de que era a primeira vez que fazia um amigo — e isso era realmente cômico.
Mas o que fazer? Ele era feito desse jeito. Como nunca aprendera nada desde que nasceu, não havia como saber como se considera e se cuida de alguém. A única coisa que ele sabia fazer era ferrar com a vida daquele desgraçado do dono.
Ele podia afirmar com certeza: não pretendia usar o próprio gênio como arma. Não pretendia humilhar Kwak Eunho, nem quis de verdade deixá-lo com raiva.
É meio esquisito dizer isso da própria boca, mas depois disso ele realmente tomou cuidado. Porque, se repetisse o mesmo erro, dessa vez Kwak Eunho talvez ficasse de fato farto dele. Porque não daria pra usar a desculpa de ser inexperiente por ser a primeira vez com um amigo duas ou três vezes.
—Hyung, desculpa, mas…
Pois é, ele passou dez anos tomando cuidado assim, mas…
—Você poderia me dar seu número?
Porra, o problema eram esses caras que não conheciam o próprio lugar. Só porque ele tinha sido um pouco gentil, logo criavam afeto e queriam expressar esse sentimento. Kwak Eunho é gentil com todo mundo, e o fato de eles depositarem expectativas nessa gentileza o irritava a ponto de revirar o estômago.
—Porra, que nojo, sério…
Era uma sensação estranha, nunca sentida até então. Como se tivesse engolido uma bola de fogo, o interior queimava e diante dos olhos tudo parecia tingir-se de preto. Como naquele dia em que Eunho apareceu com o rosto roxo, ele não conseguiu suportar a raiva que subia num instante.
—Gostar de homem não é motivo de orgulho…
No passado, correram boatos de que ele mesmo era gay. O motivo era nunca ter tido um único escândalo amoroso; era um boato ridículo, mas lhe causava um estresse sutil. E era ainda pior porque, de vez em quando, uns caras que acreditavam no boato vinham dar em cima dele sem noção do próprio lugar.
Então Kwak Eunho também não ficaria igualmente incomodado se algo parecido acontecesse com ele?
—Cuidado, Eunho. Para de ser bonzinho com qualquer um, sem critério.
Não… ele admite. Que não devia ter falado daquele jeito. Sabendo perfeitamente que uma frase soltada como se fosse por bem, mas em tom irônico, não passava de um descarrego de raiva. Ainda assim, sem conseguir conter a emoção que o varria, ele acabou tagarelando qualquer coisa.
—Ouvi dizer que aquele cara é gay. E se ele grudar em você dizendo que gosta de você?
Só de imaginar, o ar faltava. Por que ele ficou com tanta raiva? Até hoje ele não sabe direito o motivo.
Pra ser só medo do boato de ser gay, achava que a direção da raiva estava um pouco torta. Chegou a achar que fosse uma repulsa que ele guardasse sem saber, mas, quando de fato soube que Kwak Eunho era gay, não sentiu o menor desagrado.
Era insegurança. Mais precisamente, um senso de crise. Aquela sensação de que o chão desmorona sob os pés, que ele sentia quando aparecia um novato meteórico, ou quando o desempenho de uma obra ia mal.
Aquela obsessão que sentia quando Kwak Eunho, infinitamente indulgente com ele, tratava outra pessoa exatamente do mesmo jeito.
—Se fosse pra descrever Kwak Eunho em uma frase…
—…….
—Uma existência única.
Por que eu não sou o único pra você?
Ainda que fosse uma dúvida absurda, ele nunca a esquecera por um único instante. Havia momentos em que sentia uma revolta profunda pelo fato de que, pra ele, Kwak Eunho era o único, mas pra Kwak Eunho ele não era. Mesmo tratando-o como se nada fosse, quando ele traçava uma linha, uma emoção sem motivo lhe subia de repente.
—Eu sou seu Manager. Falei aquilo porque me preocupo com seu estado e porque me importo se vai atrapalhar o trabalho.
Um sujeito que age com uma doçura tal que parece capaz de entregar o fígado e a vesícula. Que teve até o zelo de comprar sempre um tipo diferente quando ele disse que não gostava de creme de mãos perfumado. Que, quando ele estava mal, ficava ao lado dele em silêncio, e que, ao menor sinal de manha, virava as costas friamente e ia embora.
Ele deveria agradecer pelo fato de ele ser seu Manager, ou deveria se magoar por ele permanecer apenas como um Manager?
Ele era ator desde uma infância de que nem se lembra. A estreia oficial foi aos quatro anos, mas antes disso ele já aparecia em vários programas junto com a mãe. Até a época em que era recém-nascido ficou eternizada nas redes sociais, então isso já dizia tudo, não?
Portanto, havia muita gente que o via como ator. O que quer dizer que nem Kwak Eunho precisava fazer isso.
—Olá, sou… Kwak Eunho, Manager do Ji Hyeon.
Ji Hyeon assistiu a “AME” de novo e de novo, sem parar. Assim que a reprise terminava, ele punha o replay; quando o replay acabava, voltava mais uma vez pro começo. Eunho dirigindo o carro, Eunho terminando de estacionar e entrando no elevador, o processo de entrar em casa e preparar a comida.
—Como o senhor quer o cabelo?
—O comprimento não corta muito…
Agora a TV mostrava a cena em que eles passaram no salão. Ao contrário de Ji Hyeon, que ficava com cara vazia e ausente, Eunho discutia seriamente o estilo com o cabeleireiro. No fim, Ji Hyeon, sem aguentar o tédio, disse pra fazer de qualquer jeito, mas foi ignorado com um “fica quieto e espera”.
「P. Você tem namorada?」
—Não… não tenho. Como o Manager precisa estar sempre ao lado do ator, não sobra tempo nem pra conhecer alguém. Quando começa uma produção, a agenda fica realmente sem brechas, e mesmo nas folgas eu passo a maior parte do tempo com o Ji Hyeon.
Era uma resposta perfeita como Manager. Porque, se ele não tinha tempo, Ji Hyeon também não teria. Ele se lembra de ter pensado, com interesse, que Kwak Eunho dava entrevistas melhor que ele. Claro, esse interesse acabou se quebrando com a resposta seguinte.
—Mas tem alguém de quem eu gosto.
—…….
Como chamar a emoção que sentiu naquele momento? Traição, ou decepção. Ou então a revolta diante do fato de que ainda havia coisas que ele não sabia sobre Kwak Eunho. Ou o ressentimento pelo fato de ele não ter contado.
Se ele arrumar outra pessoa, será que não vai me deixar? Ji Hyeon sempre teve medo disso. Sentia que, se não o prendesse sob o pretexto de ser seu Manager, ele desapareceria sem deixar rastro, como já acontecera um dia no passado. Nem mesmo o reencontro daquele dia foi intencional, foi acaso; se ele fosse embora de novo, talvez nem essa chance lhe fosse dada.
—Você tá com ciúme?
Não, por que eu faria uma coisa dessas? Que sentido faria sentir uma emoção defeituosa dessas, própria da infância, e ainda por cima por Kwak Eunho, e não por outra pessoa?
—Escute a mamãe, Hyeon. Essas pessoas só falam isso porque têm inveja de você.
—Ah…
Parece que ele tomou remédio demais. A cabeça girava, e memórias que não deviam vir enchiam a cabeça sem parar. Vozes que não deviam ser ouvidas ecoavam nos ouvidos e, ao mesmo tempo, o estômago revirava como se ele tivesse comido algo estragado.
—…….
—Respira, devagar.
Ji Hyeon cobriu os olhos com uma das mãos e respirou fundo. Esse tormento que o visitava toda noite costumava melhorar surpreendentemente depois que o sol nascia. Ou bastava alguém estar ao lado dele pra ficar tudo bem — e essa pessoa era exclusivamente Kwak Eunho.
—Ji Hyeon, olha pra mim.
Então eu falei pra não ir.
Ele perguntou não sei quantas vezes se ele não podia dormir ali, e as vezes em que esse pedido foi atendido dá pra contar nos dedos. Que graça tinha aquela casa vazia pra ele voltar teimosamente e não retornar até o dia seguinte?
Nessas horas, Ji Hyeon se deitava no sofá da sala e ficava esperando Eunho infinitamente. Mesmo pensando que aquela era uma espera anormal, ficava o tempo todo com o ouvido atento ao som da porta que não se abria. Suportando noites que pareciam eternidades, até o momento em que não estivesse mais sozinho.
—Eu vou deixar de ser seu Manager.
Mas, ainda assim, e se ele não vier? Se aquela porta não se abrir por mais que ele espere? Se essa chance nunca mais lhe for dada? Se Kwak Eunho nunca mais voltar?
—Porque eu sou um viado dos que você odeia pra caralho.
Ele sabe que tem que pedir desculpas. Que precisava dizer que nunca mais faria aquilo, que ele o perdoasse só uma vez, e implorar de joelhos se preciso, pra segurar Kwak Eunho.
Mas um pedido de desculpas vem, por princípio, acompanhado de arrependimento e responsabilidade. Dizer que errou nessa parte e que dali em diante não faria isso, que numa mesma situação agiria diferente.
Desculpa. Eu não sabia que você era gay. Não vou mais falar desse jeito. Da próxima vez…
—…….
Da próxima vez eu faço o quê?
—Eu não falei pra você parar de surtar?
O pensamento, engatando um no outro, no fim não chegou a nenhuma conclusão. Ele precisa saber por que fez pra não fazer de novo. Não dá pra falar a besteira de que foi porque simplesmente ficou de mau humor, dá? Se pedir desculpas ele até vai aceitar, mas Kwak Eunho não é otário e não perdoaria o mesmo erro duas vezes.
「P. Se fossem descrever um ao outro em uma frase?」
—Se fosse pra descrever o ator Ji em uma frase…
Ji Hyeon fixou os olhos vazios no Kwak Eunho da TV. Aqueles olhos nítidos sem pálpebra dupla, o nariz másculo e reto, e os lábios especialmente inexpressivos. E até a voz serena que saía dali.
—Ele é meu benfeitor.
—…….
—Porque foi quem mais me ajudou no momento mais difícil.
—…Benfeitor uma ova.
Um risinho escapou. Kwak Eunho provavelmente não sabe, mas a gentileza que ele ofereceu naquela época definitivamente não foi boa-fé. Podia ser qualquer coisa, menos isso: era uma ganância qualquer, brotada de um coração egoísta. Um improviso que lhe ocorreu porque sentia que precisava segurá-lo de algum jeito, porque achou que se o perdesse ali se arrependeria.
—Ji Hyeon.
A cabeça latejava de dor. Ele queria tomar mais um sonífero, mas sabia que nem assim o sono viria. Numa hora dessas seria bom tomar uma bebida. Mas, desde que Kwak Eunho ficou sério e explodiu com ele, a mão não ia mais nisso.
Ji Hyeon deixou a TV ligada e se deitou esticado no sofá. Na TV rolava mais uma vez a fala de abertura de “AME”.
Uma existência indispensável pras estrelas, aquela que fica sempre ao lado como um pilar de apoio. Nunca uma fala tão banal doeu tanto até os ossos como naquele dia.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna