⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 04
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 04
* * *
O homem na TV falou. Olá, sou Kwak Eunho, Manager do Ji Hyeon. Ouviu-se o grito da plateia e, em seguida, veio a piada de um dos apresentadores. A cena seguinte foi a de Ji Hyeon, enterrado sob o edredom, levantando-se e entrando no banheiro.
—…….
Ji Hyeon fixou o olhar em todas aquelas cenas sem sequer piscar. Sentado no sofá com o tronco inclinado pra frente, um cigarro fino na boca, a mente completamente ausente. Depois de sugar a fumaça até encovar as bochechas, tremia as pálpebras e soltava a fumaça esbranquiçada.
—O que você tá fazendo?
—Ovos mexidos com tomate.
Era algo que acontecera apenas alguns dias antes, e no entanto parecia remoto como se anos tivessem passado. Aquele dia em que Kwak Eunho cozinhou naquela cozinha, em que comeram juntos, em que foram juntos até o salão de beleza. Aquele Kwak Eunho que, mesmo fazendo cara de saco cheio diante do capricho absurdo de “só hoje eu vou te dar trabalho”, cedeu mais uma vez.
—Eu vou deixar de ser seu Manager.
—…….
O cinzeiro que ele deixara sobre a mesa já estava cheio de bitucas. Um maço vazio, um pote de remédio de plástico branco e, ao lado, um celular que não tocava de jeito nenhum.
Ji Hyeon batia as cinzas no cinzeiro e piscava os olhos secos. Já fazia algumas horas que ele terminara toda a agenda com o diretor Byeon e voltara pra casa. Como sempre, tinha terminado até o exercício e o banho, mas, apesar de claramente ter tomado o sonífero, não vinha um pingo de sono. Quando fechava os olhos, ao contrário, a consciência ficava mais nítida, e a única coisa que se sentia até os ossos era o fato de o entorno estar silencioso.
—Esse boné não é meu?
—Então seria meu?
—…Que cara de pau.
Por isso ele ligou a TV. Pra preencher de algum jeito, com qualquer som. Não é que, trocando de canal sem parar, ele esperasse que passasse a reprise de “AME”. E o fato de ter parado os movimentos, como que enfeitiçado, diante do rosto de Kwak Eunho preenchendo a tela também não foi de propósito.
—Tem algum gênero que você quer filmar da próxima vez?
Ele não tinha dito que ficaria bonito de roupa de promotor? Que, já que tinha feito advogado, fizesse promotor também — Ji Hyeon sabia que aquilo, dito como brincadeira, era sério. Porque Kwak Eunho, que era sério em tudo, jamais dizia coisas vazias.
—Porque eu sou um viado dos que você odeia pra caralho.
Então que tivesse falado antes. Se tivesse falado, ao menos ele não teria dito “nojento”. Não teria dito “não deixa espalharem que o Manager do Ji Hyeon é viado”, ao menos essas palavras não teriam saído da boca dele.
—…….
Não, aquilo era só besteira. Uma racionalização mesquinha, nada além de uma autodefesa absurda. Ao se dar conta, foi procurar desculpas e, na pressa, acabou jogando a causa nos outros. Como ele mesmo não compreendia o que tinha feito naquele dia, saiu por aí inventando esse tipo de desculpa em nome de encontrar um motivo.
—Eu não sei o que fiz de errado.
Dizer que não sabia o que tinha feito de errado não queria dizer que não tinha feito nada de errado. Era só que, de verdade, ele não sabia o quê e como tinha errado. Que jeito de falar teria evitado o erro — disso ele não tinha a menor noção.
—Você vai continuar falando essa merda desse jeito, porra?
Naquele dia também foi assim. No terceiro ano do colégio. Naquele dia em que aquele garoto que parecia um aluno exemplar apareceu com um hematoma enorme no rosto. Naquele instante em que, arrastado à força pra enfermaria, ele confessou com aquela voz serena característica que tinha apanhado do dono.
—Quem apanhou fui eu, então por que você é que surta, seu desgraçado!
Foi a primeira vez que viu Kwak Eunho com raiva. Foi a primeira vez que foi agarrado pelo colarinho e a primeira vez que recebeu por inteiro a fúria de outra pessoa. Se o lugar fosse a sala de aula ou o corredor, talvez tivessem tirado uma foto na hora e virasse polêmica na internet.
Pois é, por que eu fiz aquilo?
Ele nem sabia quantas vezes teve esse pensamento. Por que falei daquele jeito, o que eu deveria ter dito, qual era o motivo de eu ter sentido aquilo naquele momento? Será que, por eu ser um idiota de verdade, senti aquela raiva numa situação em que não devia?
—Hyeon, você só estava preocupado.
—…….
—E chateado.
Ele não compreendeu inteiramente as palavras que o tio dissera. A parte que menos compreendia era a de que qualquer um ficaria com raiva e triste numa situação daquelas. A voz que falava com calma, como se fosse óbvio, ainda ecoava em seus ouvidos.
Então por que, naquela vez em que apanhou do pai, ninguém ficou chateado? Quando ficou com um hematoma enorme no rosto, o “como é que se bate na cara de um ator” era na verdade preocupação? Quando a mãe se suicidou, aquele ato de enfiá-lo num hospital psiquiátrico talvez tenha sido a expressão de raiva e tristeza.
—Viu só, você também estava com raiva e ironizou como quem descarrega a raiva.
Aquela frase acertou o alvo com mais precisão que qualquer outra. Ele não conseguia negar que ficou com raiva e por isso explodiu, e que isso foi dirigido a um Kwak Eunho inocente. Nem que estragou tudo com uma única frase e agiu feito um estúpido por não saber como reverter.
—É normal nessa idade. Você briga com frequência, fica bravo por qualquer coisinha, é assim mesmo. Mas o que fazer? São amigos, então têm que fazer as pazes de novo.
Foi ouvindo o tio que ele se deu conta de que Kwak Eunho era um “amigo”. Só um cara da mesma sala, o cara sentado ao lado, o cara comum que era bonito, o cara altíssimo e, enfim… só Kwak Eunho. Porque até então era sempre assim que ele o chamava.
Tendo dito pra fazer as pazes porque eram amigos, o tio não ensinou como se fazia as pazes. Ele até disse pra pedir desculpas direito, mas, no entender de Ji Hyeon, aquele não era um método muito bom. Não que pedir desculpas fosse errado, mas sim a parte de “só” pedir desculpas.
Como seria bom se um “desculpa” perdoasse todos os erros. Então, quando a mãe morreu, o pai também teria ficado inocente com uma só desculpa. Não teria precisado ocultar todas as provas pra conseguir o veredito de inocência e nem sequer teria precisado calar a boca de Ji Hyeon.
Pensando e pensando e pensando de novo, um dia inteiro se passou num piscar. Não dormir era corriqueiro, então tudo bem; o problema era não ter encontrado uma solução adequada. E o pior de tudo era que à tarde ele tinha compromisso, então só poderia encontrar Kwak Eunho pela manhã.
—…Ei, você tá bem?
E então lhe ocorreu o momento em que conheceu Kwak Eunho pela primeira vez. Aquele primeiro encontro unilateral, do qual Kwak Eunho não se lembrava. E também aquelas costas que se afastavam depois de pegar remédio e água na enfermaria e deixar ao lado dele, que sofria com o estômago revirado.
No caminho pra escola ele comprou uma pomada. Do tipo que pode passar perto dos olhos e que faz o hematoma sumir bem. Como a farmacêutica disse que ele parecia um ator de que a filha dela gostava, ele respondeu que não conhecia esse tal alguém e saiu da farmácia sem olhar pra trás.
Felizmente, não havia ninguém na sala, e Ji Hyeon deixou o saquinho do remédio na carteira de Eunho e ficou apenas esperando que ele chegasse.
—…….
—…….
Eunho, que chegou atrasado, olhou o saquinho de remédio em cima da carteira e não disse nada. Chegou a olhar uma vez pra Ji Hyeon, mas era impossível saber que tipo de olhar era aquele.
Ji Hyeon ficou o tempo todo medindo a situação e só depois que Eunho se sentou é que o chamou, cauteloso.
—Ei.
—O quê.
Felizmente, Eunho não ignorou Ji Hyeon. Apenas respondeu como se nada fosse, tirou a pomada do saquinho e leu a bula. “Comprou até uma cara.” Ele ainda se lembra daquela voz murmurando isso.
—…Eu nunca tive nenhuma pessoa que eu pudesse chamar de amigo até agora.
Ji Hyeon puxou aquele assunto de repente, sem nenhum preâmbulo. Só então Eunho se virou, e o rosto dele continuava roxo de hematoma. Novamente a raiva subiu, mas ele a empurrou pra baixo com esforço e continuou com calma.
—Você é o primeiro… Amigo que eu fiz na escola.
Será que era certo falar assim? Mesmo pensando nisso, ele falou assim mesmo. Não era um pedido de desculpas decente, e o garoto certamente não interpretou aquilo como sinal de reconciliação. Na verdade o certo seria dizer “desculpa”, mas as palavras que subiram até a garganta não encontraram coragem pra sair.
Eunho ficou parado um bom tempo e depois respondeu com placidez, como quem já ouviu de tudo:
—Imaginei que fosse.
—…….
Enfim, era um sujeito realmente sem meias-palavras. Não dizia coisas vazias, não fazia charme e não falava por falar só pra agradar os ouvidos. O fato de aquela única frase crua o ter, ao contrário, tranquilizado, talvez fosse porque a serenidade característica de Kwak Eunho se contagiava.
Depois disso, Eunho, sem dizer mais nada, guardou a pomada na mochila. Ji Hyeon ia reclamar perguntando por que não passava, mas, antes disso, Eunho lhe disse:
—Minha avó passou remédio de manhã.
Então a avó dele passa remédio nele. Quando Ji Hyeon se machucava, quem passava remédio nele era, na maior parte das vezes, era a coordenadora de figurino. Ou, às vezes, a secretária do pai. E mesmo essas vezes eram tão poucas que dava pra contar nos dedos.
—…E o que a sua avó disse ao ver isso?
—Dizer o quê.
Diante da pergunta que fez sem perceber, Eunho respondeu um pouco seco. Era um tom em que se sentia, de algum jeito, culpa; e o mesmo valia pra frase que veio em seguida.
—Ela só ficou triste.
—…….
Então o que o tio falou era verdade. De fato, parecia que existiam mesmo pessoas que ficavam tristes e chateadas com a injustiça sofrida por alguém próximo. Uma família que, em vez de descarregar raiva feito ele, passava remédio com maturidade.
Engraçado que a emoção que sentiu naquele instante foi desagrado. Mais precisamente, o desagrado de perceber que jamais poderia voltar ao tempo em que desconhecia esse fato. Um pressentimento sombrio de que, ao sofrer alguma injustiça como antes, não conseguiria mais deixar passar como se nada fosse.
🎬 ∙ ∙ ∙ 🎥 ∙ ∙ ∙ 🎭
Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna