⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 03
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 03
Ji Hyeon falou até ali e no fim arremessou o roteiro que segurava. O roteiro que rolou sobre a mesa estava tão amassado que já era difícil reconhecer o que era.
—O dono de lá no máximo é um velho caquético. E o cara, com aquele tamanho, apanha feito um imbecil e volta dizendo o quê? Que tem que aguentar porque o outro paga?
—…Seu amigo é grande?
—Não, ele é da minha altura!
Como Ji Hyeon tinha um e oitenta e cinco, o amigo era bem grande também. Ou seja, ao menos não era alguém que levaria surra fácil por aí.
—Mas o rosto dele tá roxo de hematomas… ah, porra. Só de pensar já fico puto de novo.
Puxando o ar com força pelas narinas, Ji Hyeon cobriu os olhos com uma das mãos. Os ombros que subiam e desciam lentamente pareciam mostrar o tamanho da raiva dele.
—…Sério, ele não é nenhum otário.
Sinceramente, era a primeira vez que ele o via com tanta raiva. Era um garoto sensível e infernal em tudo, mas isso em geral se aproximava mais da irritação do que da fúria. Ele apenas expressava um pouco grande demais um chiliquezinho leve, e não uma emoção incontrolável como aquela.
—Aguentar o quê… então quer dizer que da próxima vez ele vai aguentar de novo se pagarem. Porra, esse dinheiro miserável eu também posso dar.
—…Nem por acidente vá dizer isso pra ele.
O diretor Byeon, que num instante ficou tonto, tratou de detê-lo. Diante disso, Ji Hyeon tirou imediatamente a mão do rosto e o encarou. Um garoto que, mesmo sem expressão, tinha um rosto suave; e, quando endurecia a expressão de propósito, isso por si só tinha uma força e tanto.
—Por que diabos eu diria uma coisa dessas pra ele?
Era um tom de quem, tendo dito algo muito pior que “uma coisa dessas”, perguntava como ele podia falar tamanha besteira. Ji Hyeon fechou os olhos com força, abriu-os e mastigou baixinho cada palavra.
—Eu também sei. Que não se pode falar assim.
—…….
—Eu sei, eu sei, mas…
Por que ele conseguiu ouvir as palavras que não chegaram a sair? Então o que diabos eu deveria fazer? Com tanta raiva e tanta revolta, o que fazer com essa emoção?
—…….
Era um novelo emaranhado por um tempo longo demais pra ser medido. Pra que o diretor Byeon pusesse as mãos, o pano de fundo daquela infância era errado do começo ao fim. A um garoto que não sabia nem o básico, que palavras ele poderia dizer pra cumprir a responsabilidade de um adulto?
—Hyeon, você só estava preocupado.
—…….
—E chateado.
Quando ele disse isso, Ji Hyeon tremeu as pálpebras e franziu a testa. Fez até uma expressão desnorteada, como se não conseguisse compreender direito as palavras do diretor Byeon.
—Quando algo injusto acontece com alguém próximo, qualquer um fica com raiva e triste. Isso é natural.
Será que o problema era ele não ter tido com quem conviver? Talvez o problema fosse ter vivido, da infância até agora, apenas como ator. Aos meros dezenove anos ele já havia feito todo tipo de papel, e no entanto não conseguira sequer viver a própria vida direito, e por isso essa confusão acabara acontecendo.
—Mas ficar com raiva não te dá o direito de dizer qualquer coisa, não é?
Ele não achava que Ji Hyeon desconhecesse essa lógica óbvia. Ainda que fosse lento em somas, tinha boa cabeça; era um garoto que decorava um roteiro só de ler algumas vezes.
—Você disse aquilo porque achou de verdade que seu amigo ia vender o corpo?
—…A não ser que Kwak Eunho enlouquecesse.
Então o amigo com quem ele brigou é o Kwak Eunho. Era um nome que o diretor Byeon já ouvira algumas vezes. Aquele ali tem a mesma altura do Kwak Eunho; vi esse tênis, o Kwak Eunho também tem; o Kwak Eunho escreve bem; o Kwak Eunho não é assim, por que os outros caras fedem a suor — assim, de passagem, algumas vezes.
—Viu só, você também estava com raiva e ironizou como quem descarrega a raiva.
—…….
—Existem coisas que uma pessoa pode dizer e coisas que não pode. Você tem que ao menos distinguir isso.
Na verdade, era uma parte em que uns cinquenta por cento das pessoas do mundo não se saíam bem. Se alguém conseguisse manter a razão mesmo com raiva até a raiz dos cabelos, essa pessoa não seria Buda ou Jesus? Claro que nem por isso ele pretendia defender o deslize de Ji Hyeon.
—O que não se pode dizer na TV, na maioria das vezes também não se pode dizer na vida real.
Temendo que ele perguntasse como se distinguia isso, o diretor Byeon se antecipou. Como era um garoto que ficava diante das câmeras desde a infância, achou que ao menos isso ele conseguiria distinguir bem.
Claro, era um conselho que não levava em conta o ambiente em que ele havia crescido.
—Então eu vou ter que viver que nem mudo.
—…….
—Sendo que a única coisa que eu podia dizer na TV era elogiar meus pais.
Não era ironia, e também não era irritação. Aquela voz serena, como quem apenas enuncia um fato, era pro diretor Byeon uma espécie de culpa. Vendo o diretor Byeon calar-se sem perceber, Ji Hyeon perguntou com uma voz sem altos nem baixos:
—Quando algo injusto acontece com alguém próximo, qualquer um fica com raiva e triste?
Ele não conseguiu responder. Porque, antes que respondesse, Ji Hyeon deu um risinho e murmurou:
—Então por que, quando a injustiça era comigo, ninguém ficou?
—…….
—Não estou culpando, então não faz essa cara. É curiosidade de verdade.
Ji Hyeon passou uma das mãos pelo rosto e soltou um suspiro fino. Curvou o tronco pra frente e bagunçou o cabelo com irritação.
—Nunca tinha acontecido isso comigo, mas só com ele eu não consigo controlar as emoções. Parece que meus olhos viram e eu vou enlouquecer.
Não, ainda assim, isso não é meio perigoso? O diretor Byeon, sentindo tardiamente uma sensação de crise, perguntou por alto:
—Esse Kwak Eunho… por acaso não é uma menina, é?
—Tá de brincadeira? Já falei que é da minha altura.
Ora, pode existir uma menina da sua altura. Bom, se não fosse uma garota, não fazia muita diferença.
—É normal nessa idade. Você briga com frequência, fica bravo por qualquer coisinha, é assim mesmo. Mas o que fazer? São amigos, então têm que fazer as pazes de novo.
Falando com sinceridade, Ji Hyeon era um garoto quebrado em algum lugar. Ele não conseguia lidar com isso e por isso deixara pra lá até então; agora, já que o assunto surgira, apenas lhe ocorreu se não seria possível consertar nem que fosse um pouco. Pelo tanto que o diretor Byeon ousava reconhecer os próprios limites, não havia como curar Ji Hyeon perfeitamente por conta própria.
Se depois disso ele pediu desculpas ou não, o diretor Byeon não chegou a perguntar. Apenas, como depois disso ele ainda falou do “Kwak Eunho” algumas vezes, deduziu que de algum jeito eles tinham feito as pazes.
E, quando parecia que as coisas tinham se acalmado por um bom tempo, agora, dez anos depois, repetia-se um processo parecido.
—Faz sentido você não saber o que fez de errado? Você não tem dezenove anos, tem vinte e nove, moleque.
Pois é, naquela época ele era por pouco menor de idade, tudo bem. Mas agora ele não estava mais em idade pra isso, estava? Um sujeito que no ano que vem faz trinta não saber nem o próprio erro era um problema.
—Eu falei uma merda.
Inesperadamente, Ji Hyeon admitiu de imediato. Então dessa vez foi o lado do deslize de fala. Mal ele pensou isso, uma voz branda emendou o resto.
—Ah, e agi como um merda também.
—…….
Ele que rezasse pra ter errado só de um lado. Infelizmente, era um garoto que não frustrava as expectativas. Bom, se ao menos numa das duas coisas ele tivesse acertado, o Manager Kwak não teria chegado a largar o trabalho.
—Mas foi porque eu não sabia. Se eu soubesse, porra, no mínimo eu não teria dito a última frase.
As palavras cuspidas junto com o palavrão eram um descarrego de raiva em estado bruto. Ele não bufava como antes, mas a voz baixa e afundada soava, ao contrário, ainda mais sombria. Enquanto o diretor Byeon escolhia o que dizer, uma voz um pouco mais exaltada saltou.
—Por que ele nunca me conta nada?
—…….
—Por que eu tenho que desconhecer ele toda vez?
A pergunta carregada de revolta se aproximava mais de uma dúvida dirigida a si mesmo do que ao diretor Byeon. Uma sufocação a respeito do fato em si de ter que desconhecer Kwak Eunho.
Qual diabos teria sido aquela última frase, o que Ji Hyeon não sabia sobre Eunho — ele não fazia ideia de nada, mas havia uma coisa certa.
—Ei, dizer que não sabia não é um passe livre.
Se agir por ignorância não é erro, o que diabos existe de errado neste mundo? Em geral, quem diz esse tipo de coisa costuma usar a própria ignorância como instrumento pra racionalizar o erro.
—As pessoas que te xingam na internet também fazem isso sem saber. Se não sabe, não fala. Por que falar de qualquer jeito sem saber?
—Pois o senhor também está falando de qualquer jeito sem saber, diretor.
—Aaah, esse desgraçado, sério…!
O diretor Byeon estourou de raiva e franziu a cara. Se não estivesse dirigindo, talvez tivesse largado tudo e saído dali na hora. E logo hoje o trânsito estava daquele jeito; mesmo tendo saído cedo, o horário já estava no limite.
—…Conserta esse gênio, sério. Pra depois não se arrepender.
—Você fala igualzinho ao Kwak Eunho. Ele também disse pra eu parar de surtar pra não me arrepender depois.
Ah, ou será que era “fala direito”? Ji Hyeon acrescentou isso e falou com uma voz monótona.
—Eu sei. Sei que descarreguei a raiva, sei que não devia ter falado aquela merda, sei que Kwak Eunho aguentou muita coisa. Que eu agi feito um imbecil sem agir conforme a idade, isso eu sei perfeitamente, mesmo sem o tio falar.
Como não podia deixar de ser, sendo ator, tinha até pronúncia perfeita e boa entonação. Ouvindo sem pensar no conteúdo, dava até uma sensação suave, como se um rádio estivesse ligado.
—Pois é… o problema é que eu sempre sou o imbecil.
Seria impressão? Aquela frase soou bastante sutil. A emoção misturada, sem que se soubesse, aproximava-se de uma autodepreciação impossível de expressar. Mas, antes que ele apontasse isso, Ji Hyeon cobriu os olhos com uma das mãos e recostou as costas no encosto.
—Por isso eu não sei o que fiz de errado.
—…….
—Porque eu errei coisas demais.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna