⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 02
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 02
Excetuando apenas uma única vez: aquela em que Eunho sumiu sem dizer nada.
—Por enquanto eu não vou processar a demissão dele, então, se der, liga primeiro e…
—Tio.
Foi um chamado de arrepiar a espinha. O diretor Byeon, que quase pisou no acelerador, agarrou o volante com força. Bem nessa hora o semáforo mudou pra verde, e ele acalmou o coração assustado e pôs o carro em movimento.
Sem saber se percebia ou não que a vida do outro quase se perdera, Ji Hyeon apenas perguntou com uma voz baixa:
—O que ele te disse?
—…….
Esse moleque só chama de tio quando precisa.
Se tivesse perguntado “O que ele disse pro senhor, diretor?”, ele pretendia ignorar; mas, perguntando assim, não tinha a menor confiança de conseguir fingir que não sabia. E, mesmo sem isso, Ji Hyeon sempre foi o ponto sensível do diretor Byeon. Era por isso que, mesmo jurando que ia se irritar, ele nunca conseguia dar uma bronca de verdade.
—Você não conhece o feitio dele…? Ele só disse que surgiu uma situação e que ia sair. Nem perguntei em detalhes.
Mesmo que perguntasse o motivo, não teria ouvido uma resposta decente. O Manager Kwak, calado por natureza, não se dava ao trabalho de se justificar se não fosse necessário.
—Ele não falou mal de você, então não esquenta com isso e…
—Ele não falou mal de mim?
De repente, Ji Hyeon cortou a fala. Ouviu-se também um som de riso curto, mas que definitivamente não era um riso de alegria. E, claro, o que veio em seguida também não era.
—Porra, esse desgraçado até o fim…
Era um tom em que não se sabia se ele estava irritado ou se sentindo injustiçado. Em vez de se alegrar porque não falaram mal dele, estava ali de cara fechada, como se dissesse “por que diabos ele faz isso?”.
—…Como é que vocês brigaram, afinal?
O diretor Byeon perguntou, com um suspiro fino, a parte que mais lhe dava curiosidade. Realmente, em briga de criança tem que entrar um adulto. Foi um pensamento que veio sozinho, mesmo tratando-se de dois sujeitos de vinte e nove anos. Se fosse possível mediar, queria mediar antes que ficasse tarde demais.
—Eu, pra ele…
Ji Hyeon abriu a boca imediatamente, como alguém que esperava por aquela pergunta. Mas, diferente do começo que saiu com facilidade, o resto não veio por um bom tempo. Mexendo os lábios e depois franzindo o canto dos olhos, Ji Hyeon soltou mais uma frase de estourar o fígado.
—E o que o tio vai fazer sabendo disso?
—Ei, moleque! Não tá vendo que eu estou dirigindo desde a madrugada por sua causa? No mínimo eu preciso saber o motivo!
No fim, o diretor Byeon não aguentou mais e gritou. Não estava zoando com ninguém; se era assim, por que puxou o assunto como se fosse contar? A atitude de chamar de tio, criar clima e depois agir como se aquilo não fosse da conta dele era absurda.
—Hyeon, qual é o seu problema, sério…? Com certeza você falou alguma coisa errada de novo. Ou fez alguma coisa abdurda.
Ele achava, com alta probabilidade, que tinham sido as duas coisas, mas por ora ofereceu as opções. Havia também, pela metade, a esperança de que ele tivesse errado em apenas uma delas.
Mas Ji Hyeon respondeu com uma voz afundada:
—Eu não sei o que eu fiz de errado.
—…….
Sentiu um déjà-vu. Parecia que já tinham tido essa conversa antes. Quando é que foi mesmo…? Já fazia mais de dez anos?
—Por que você tá aqui na sala do diretor?
Devia ser quando Ji Hyeon estava no terceiro ano do colégio. O garoto que normalmente nem dava as caras, assim que voltou da escola, se enfiou na sala do diretor e começou a ler um roteiro. Depois de olhar e olhar, incomodado, ele perguntou o que estava havendo, e Ji Hyeon, sem sequer olhar pra ele, puxou assunto.
—Tio.
—…….
Naquele momento, o diretor Byeon, que bebia café, quase cuspiu o líquido da boca como um borrifador. Porque ele chamar de “tio” era coisa que não acontecia a não ser em situações razoavelmente sérias.
E, de fato, Ji Hyeon pôs na boca um problema bem grande como se nada fosse.
—Eu briguei com um colega de sala.
—O quê, moleque?
Naquele instante o céu ficou realmente amarelo. A única coisa que ele pedira ao mandá-lo pra escola era, por favor, não arrumar confusão. Sendo ele um artista, Ji Hyeon não podia desconhecer que até um pequeno deslize de fala grudaria nele como uma etiqueta.
—Você tá louco? Como é que um ator briga com um amigo?
—…Amigo?
Diante do berro, Ji Hyeon franziu a testa e devolveu a pergunta. Opa, era o sinal de que ele ia se enviesar todo dizendo por que raios ele seria amigo de um cara daqueles. Enfim, aquele gênio horrível. No momento em que o diretor Byeon ia corrigir dizendo que não era isso, inesperadamente Ji Hyeon baixou os olhos, dócil.
—Amigo…
Foi uma reação um pouco diferente do esperado. E o mesmo valia pro novo começo de frase.
—…Eu briguei com um amigo.
—…….
Como foi mesmo a emoção que ele sentiu naquele momento? Foi parecida com a de segurar no colo o Ji Hyeon recém-nascido. Meu sobrinho finalmente fez um amigo! Pois é, crianças brigam mesmo entre si. Pensando assim, tudo parecia apenas uma travessura fofa.
—Certo, e como foi que você brigou com o amigo?
Então o diretor Byeon perguntou não como diretor, mas como tio de Ji Hyeon. Ji Hyeon franziu a testa diante daquela atitude de quem trata uma criança, mas logo moveu os lábios devagar, num tom brando.
—Ele apanhou do dono no trabalho e voltou assim…
—O quê? Que filho da puta bateu num moleque de colégio?
Bater em qualquer pessoa já renderia xingamento, e diziam que bateram num estudante do ensino médio. Diante da pergunta que o diretor Byeon devolveu num rompante, Ji Hyeon ficou um instante sem dizer nada. Depois, de repente, rangeu os dentes e amassou o roteiro que segurava.
—Porra, é o que eu digo.
O ímpeto foi tão brutal que até o inocente diretor Byeon se encolheu. Só então ele baixou a voz com calma.
—Primeiro se acalme… e aí?
—Mas ele disse que aguentou porque o cara é quem paga.
—…Aiai.
Só de ouvir por alto já era de partir o coração. Quanto aquele garoto novo deve ter se magoado. Se, nessa idade, ele engolisse até esse tipo de coisa, acabaria adoecendo por dentro. Como estariam se sentindo os pais daquele amigo? Isso também era difícil de sequer imaginar.
Ligando ou não pro estalar de língua do diretor Byeon, Ji Hyeon continuou com o rosto emburrado.
—Aí eu perguntei se ele ia vender o corpo também se pagassem, e ele me agarrou pelo colarinho.
—…….
Ah… o que eu faço com esse moleque precioso?
Ele achava que, no máximo, tinham discutido um pouco por causa da tristeza; mas o garoto tinha jogado uma bomba enorme e estava ali daquele jeito. Deu vontade de xingar perguntando onde ele aprendeu a falar assim, e ao mesmo tempo a origem era tão evidente que ele nem conseguiu perguntar.
—…Hyeon.
Então o diretor Byeon chamou seu sobrinho, esforçando-se pra manter a calma. Pensando por dentro, como adulto, em que palavras seriam boas de dizer.
Mas a resposta que o tal sobrinho lhe deu foi esta:
—Por que o senhor fica me chamando desse jeito irritante, porra?
—…….
E não dava nem pra dar um cascudo nele. Aos nove anos, ainda daria pra brigar de algum jeito; mas ele tinha, inutilmente, dezenove anos e um corpo do tamanho de uma montanha. Bom, na verdade, se fosse aos nove anos, a relação entre eles seria ainda menos propícia pra esse tipo de conversa.
—Vá lá e peça desculpas direito pro seu amigo. Diga que sente muito por ter falado errado.
Se errou, deve pedir perdão. Foi com esse pensamento que ele falou. Achava que até isso, obviamente, Ji Hyeon saberia.
—Eu não sei o que eu fiz de errado.
—…O quê?
Então, quando Ji Hyeon disse aquilo, o diretor Byeon o encarou com um rosto sinceramente perplexo. Porque, por mais que fosse um garoto carente de habilidade social, ele nunca imaginara que faltasse nem sequer esse senso comum. Por mais que não fosse à escola, não… por mais que não tivesse amigos.
—Você não sabe o que teve de errado nessa frase que você disse?
—Ah, tá me achando com cara de idiota? Acha que eu não sei que falei uma merda?
Felizmente, Ji Hyeon rebateu na hora, com ar irritado. No instante em que o diretor Byeon se aliviava, ele passou a mão pelos cabelos e soltou um suspiro profundo. Como se não soubesse como explicar.
—Não é isso… eu não sei a partir de que ponto exatamente eu errei.
Era uma fala que se entendia e não se entendia. O diretor Byeon primeiro esperou que ele organizasse os pensamentos. Não muito depois, Ji Hyeon falou num tom lento.
—Se o erro foi eu ter dito aquilo… ou se o erro foi eu ter ficado bravo com ele. Ou então se o erro foi eu ter ficado bravo ali, em si.
Ele ia dizer que a última parte não era erro, mas Ji Hyeon não deu brecha e continuou.
—E se tudo for erro, então o que diabos eu deveria ter feito ali?
—…….
—Ficando remoendo isso, vem esse pensamento. Quem apanhou foi ele, por que eu é que fico com raiva?
Era um tom de quem se sentia sinceramente injustiçado. O rosto contorcido de repente era algo difícil de ver, salvo quando ele estava atuando.
—Ele me disse a mesma coisa. Perguntou se eu ia falar merda daquele jeito. Que quem apanhou foi ele, então por que eu estava surtando. Que ele mesmo ganha dinheiro vendendo a cara, e que se acha demais pra soltar essas asneiras.
—…….
Esse amigo também tem um gênio e tanto. Bom, considerando que chegou a agarrá-lo pelo colarinho, não devia ter ficado só apanhando. Ao menos pelo fato de não ter dado um soco, ele achava que o garoto se segurara bem.
—Eu sei que falei igual a um cachorro, mas, mesmo se eu voltasse, acho que falaria a mesma coisa. Eu simplesmente fiquei puto da vida, o que eu ia fazer? Ia dizer o quê ali, “nossa, mandou bem”, é isso?
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna