⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 01
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 01
S#5
* * *
O ar dentro do carro silencioso estava mais pesado do que nunca. Nem o homem sentado no banco do motorista, nem o homem sentado no banco de trás — nenhum dos dois abria a boca. Em meio a um silêncio sufocante, o homem no banco do motorista deu uma espiada de relance no retrovisor.
—…….
—…….
A pessoa refletida do outro lado do espelho não era outra senão Ji Hyeon. De olhos baixos, boca firmemente fechada, encarando um ponto qualquer no vazio e com os braços cruzados. Se era pra ficar assim, que ao menos dormisse um pouco; já fazia dezenas de minutos que ele não se movia um centímetro naquela posição.
“Desse jeito ele ainda mata alguém.”
O homem que segurava o volante, o diretor Byeon, pensou consigo mesmo. Que, se Ji Hyeon fosse capaz de emanar sede de sangue, ele próprio já teria sido esmagado por ela e encerrado a vida havia muito tempo. Já era absurdo o bastante estar bancando o motorista naquela idade; ter ainda que ficar medindo o humor de um ator da própria agência deixava seu estômago em petição de miséria.
Mas o que se podia fazer? Aquilo também era o carma de ter acolhido Ji Hyeon. Se era pra descartá-lo, deveria tê-lo feito muito antes; mas foi contemporizando, acalmando, carregando junto, e acabou chegando até aqui.
Ainda assim, ultimamente as coisas andavam calmas… O diretor Byeon pensou nisso e relembrou o que acontecera no dia anterior.
—Diretor, aqui é Kwak Eunho.
Ele atendera à ligação mais ou menos na hora em que voltava pro escritório depois de um golfe de negócios. Estava justamente naquele impasse — será que ia direto pra casa, já que tinha suado tanto? — quando o celular de trabalho tocou. Do outro lado da linha estava o Manager Kwak, que falou com calma naquele tom seco de sempre.
—Tinha uma coisa pra falar com o senhor, vim até a empresa mas o senhor não estava, então liguei.
Um sujeito que normalmente avisava religiosamente antes de aparecer (aliás, se não fosse chamado, nem costumava fazer isso) — o que teria acontecido pra vir sem avisar? Contendo a custo uma inquietação sem motivo claro, ele chegou à empresa, e o assunto que Eunho puxou foi como um raio em céu azul.
—Surgiu uma situação da minha parte, então eu quero deixar de ser Manager do ator Ji.
—Como… o quê?
Ao ouvir aquilo, quanto ele se assustou? Então o desgraçado finalmente tinha aprontado. A ideia de que enfim chegara o que tinha de chegar deixou sua cabeça inteira em transe. Diante dos olhos tudo escurecia, mas, ao contrário disso, sua consciência também despertava de repente.
—Desculpe agir sem senso de responsabilidade.
Foram nada menos que sete anos. Sete anos em que Eunho, que dizia ser amigo de colégio de Ji Hyeon, ficou ao lado dele agradando seus caprichos. Já era espantoso que tivesse aturado aquele temperamento infernal por tanto tempo; ele ainda cumpriu, e por anos a fio, o papel de rédea que ninguém sequer pedira.
Não era uma situação em que se pudesse acusá-lo de falta de responsabilidade. E mesmo assim, com um rosto envergonhado, Eunho tirou do bolso a carta de demissão e a estendeu.
—Eu saio depois de terminar a passagem de cargo.
De certa forma, era natural. Não se podia colocar qualquer um ao lado de um ator do porte de Ji Hyeon, e entre as pessoas de confiança não sobrava mão de obra. Contratar alguém novo por entrevista também não dava, porque havia o problema imediato da agenda que restava ao ator Ji. Portanto, até arranjar um substituto, não havia outro jeito senão cumprir o trabalho restante.
—É… é… Eunho, você… sofreu muito, né?
Mas o diretor Byeon também tinha algo chamado consciência. Se nada menos que “aquele” Kwak Eunho ia largar o cargo de Manager, significava que Ji Hyeon tinha feito alguma coisa muito errada. E, diante disso, ele não podia dizer que ficaria em apuros se ele largasse agora e pedir que ficasse mais um mês.
—É… é, primeiro descanse bem…
O que fazer? Em toda a sua vida, sua cabeça nunca girara com tanta velocidade. Claro que isso não significava que a conclusão fosse igualmente brilhante. Quanto mais girava a cabeça, mais vontade de chorar dava, e no fim o único pensamento que restou foi “estou ferrado”.
—Bom, por enquanto eu mesmo acompanho o ator Ji, então…
E assim o diretor Byeon se agarrou a Eunho, implorando que ele repensasse só uma vez, que daria alguns dias de folga (quis falar do jeito mais profissional possível, mas no fim já estava praticamente suplicando). Chegou até a quase dizer que mandaria Ji Hyeon embora, então que ele ficasse, mas a muito custo recobrou o juízo e engoliu só aquela frase.
Porém, a resposta que Eunho devolveu foi apenas esta:
—Sinto muito. Eu não consigo mais.
—…….
De algum lugar veio o som do céu desabando. Ao mesmo tempo, as palavras que ele guardava pra usar no último dos últimos momentos esbarraram no muro da consciência. Coisas como: ele não sobrevive sem você. Ou: eu não sobrevivo sem você. Palavras que provocariam a culpa do Manager Kwak, que era frágil no afeto.
—Obrigado por tudo até aqui.
Sinto muito, obrigado. Como podiam ser tão desesperadoras palavras que ele nunca ouvira em vinte e cinco anos da boca do tal ator da agência. É até aqui que eu, como diretor, posso ir. Chegando a essa conclusão, o diretor Byeon, com o coração resignado, perguntou a última coisa que restava.
—…O Hyeon sabe que você vai sair?
—…….
Será que a pergunta lançada por acaso tocou uma ferida? Eunho não conseguiu responder por um instante. No intervalo em que a emoção que passou de relance não foi lida a tempo, uma voz seca respondeu com um compasso de atraso.
—Sim, ele sabe.
Se era assim, o que mais havia pra dizer? Afinal, quem trouxera Eunho pra ser Manager fora o próprio Ji Hyeon.
Dali mesmo Eunho devolveu todas as chaves de carro que tinha e saiu da empresa. E, no meio disso tudo, não se esqueceu de repassar minuciosamente, em forma de documento, a agenda restante do ator Ji. Não existe ninguém que trabalhe tão bem quanto esse garoto. Junto com essa lástima veio novamente a raiva dirigida a Ji Hyeon.
—Esse desgraçado, eu vou…!
Aquilo não era coisa de um ou dois dias, e havia um limite pra fazer vista grossa. Como diretor da agência ou como adulto, ocorreu-lhe que, mesmo tarde, precisava endireitar aquela falta de educação de uma vez. Ele tinha aprontado muitas e muitas coisas até ali, mas o Manager Kwak pedindo demissão era algo verdadeiramente irreversível.
E assim, hoje, o diretor Byeon foi buscar Ji Hyeon organizando mentalmente o que ia dizer. Que diabo você aprontou pra aquele garoto tão bom largar o emprego? Não falei pra você maneirar? Com a raiva erguida desde a boca do estômago e todos os preparativos feitos pra despejá-la, chegou em frente à casa.
Mas o que saiu da boca dele ao ver Ji Hyeon entrando no banco de trás foi isto:
—…Você tá bem?
—…….
Era uma expressão de quem, a qualquer momento, agarraria alguém e daria uma surra. Abaixo dos olhos, olheiras fundas e mortas; e o olhar, todo em pontas, de modo que, se o cutucassem errado, poderia haver uma grande desgraça. Pela experiência do diretor Byeon, em momentos assim bastava alguém encostar pra explodir um escândalo.
—Quer descansar hoje?
—…….
Ji Hyeon não respondeu e simplesmente virou o rosto, como se não quisesse falar mais nada. Agora que ele reparava, além do estado de irritação, a cor do rosto dele não estava nada boa. Seria por não ter dormido, ou seria só a condição física? Provavelmente as duas coisas, mas não era um bom sinal.
—Ou então vamos ao hospital.
O diretor Byeon perguntou num tom bastante preocupado, como se nunca tivesse estado com raiva. A ligação de Eunho fora no dia anterior, ou seja, bastou um único dia pra ele ficar naquele estado. Não, bom, com aquela beleza natural, não estava impossível de olhar; o problema era que parecia prestes a fazer alguma coisa impossível de mostrar aos outros.
Pensando bem, muito tempo atrás Ji Hyeon já ficara naquele estado. Quando é que foi mesmo…? Ah, sim, foi quando ele voltou de Hong Kong das filmagens do filme. Naquela época também ele cumpria a agenda sempre no fio da navalha, como uma bomba-relógio prestes a explodir.
—Tomei todos os remédios. Até os antidepressivos.
—…Hein?
Para o diretor Byeon, que redesenhava o passado, Ji Hyeon disse aquilo num tom despreocupado. Graças a todo o treino de projeção vocal e coisa e tal desde a infância, mesmo falando sem forçar a voz, a ressonância soava impressionante.
—Falei que tomei todos os remédios. Vou dormir, então não fala comigo.
—…….
Se ele realmente tomou tudo aquilo, vai ter que ir ao hospital fazer lavagem estomacal. Mesmo pensando isso, o diretor Byeon deu partida no carro em silêncio. Porque sabia que, se não houvesse resposta na primeira pergunta, no instante da segunda Ji Hyeon armaria um barraco monumental.
Mas… se disse aquilo, que ao menos fingisse dormir. Por que ficar o caminho inteiro até o set com os dois olhos escancarados encarando o vazio?
—…Hyeon.
Quando o carro parou no sinal, o diretor Byeon não aguentou mais e chamou por ele. Achou que naturalmente seria ignorado, mas Ji Hyeon apenas ergueu os olhos e o encarou pelo retrovisor. Era um olhar bem pouco amistoso, mas o simples fato de ter havido uma reação já era satisfatório.
—Não leva a mal o que eu vou dizer…
—Se acha que eu vou levar a mal, então é só não dizer.
—…….
Esse desgraçado, sério. O diretor Byeon, que teve um estouro momentâneo, se esforçou pra controlar o íntimo como um adulto. Pensou que ficar bravo agora não resolveria absolutamente nada. Ao menos não estavam num estado em que a conversa não fluía, então não havia outro jeito senão falar com calma.
—Se der, peça desculpas primeiro.
—…….
—O Manager Kwak dizer que vai largar o trabalho é porque vocês dois brigaram, não é?
Felizmente, o assunto puxado com cautela não trouxe nenhuma reação em especial. Ele virou o rosto de novo, mas isso não significava o corte da conversa.
—Ei, sinceramente, onde é que existe um garoto que se esforça igual ao Eunho?
O diretor Byeon também conhecia Kwak Eunho. Que tipo de infância ele teve, que dificuldades passou ao completar vinte anos, como era a situação familiar, por que não conseguiu ir pra faculdade. Não ouvira de Eunho; na maior parte, juntara os fragmentos que Ji Hyeon deixava escapar e deduzira mais ou menos.
—Sem ele, até administrar sua agenda fica difícil. Você acha comum um garoto que aguenta seus caprichos e fica grudado desse jeito?
De qualquer forma, fosse lá o que fosse, o erro devia ter sido de Ji Hyeon. Até onde o diretor Byeon sabia, na relação dos dois o problema era sempre Ji Hyeon. Não só na época do trabalho de Manager, mas abrangendo também os tempos de colégio, quando eram amigos.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna