Capítulo 04.9
4. Wolfie, The Bunny
Yurij encarou fixamente Igor, que mencionava a única pessoa que lhe restava, com tal intensidade que parecia que suas veias iam estourar. O ômega, que nem sequer se alarmou ao ouvir que morreria, voltou a se arrastar até Yurij como um cachorro. Quanto mais o homem se aproximava, uma fragrância floral fétida, como se fosse sintética, se elevava nauseante.
Finalmente, quando o ômega se aproximou até bem diante dele e se prostrou com as nádegas levantadas, Yurij fixou o olhar no alto da cabeça do homem. Estendeu a mão lentamente e agarrou um punhado de seu cabelo castanho. Contendo a fúria de querer agarrar aquela cabeleira e empurrá-lo, Yurij, com os olhos injetados de sangue, presenciou diretamente o que lhe acontecia.
«Aconteça o que acontecer, não vou perder a razão.»
Para não se comportar como uma fera, como Igor desejava, Yurij mordeu o interior da boca vez após vez. A carne de sua boca ficou em farrapos como um trapo e o sangue não parava de escorrer. Só depois de engolir saliva misturada com sangue dezenas de vezes o espetáculo terminou. Mas Igor não perdoou Yurij por ter resistido de um modo diferente da intenção dele.
O que veio depois ele apagou da memória. Yurij não se lembra de tudo o que aconteceu em sua vida.
Para sobreviver, tinha que ser assim.
No entanto, quando chega a época de seu rut ou quando vê outro alfa passando por isso, a primeira coisa de que Yurij se lembra é a grande caixa de ferro que o trancava e aquela doçura que poderia vir de um perfume barato.
***
De algum lugar chegou o aroma penetrante e doce de panquecas. Seu corpo reagiu ao cheiro apetitoso com um sobressalto e se remexeu várias vezes; depois, o rangido de um galho que tinha descido perto da janela, balançando com o vento e batendo no vidro —toc, toc— ressoou, e então ele abriu os olhos.
A luz do sol se infiltrava suavemente atrás de uma cortina azul-celeste, projetando a sombra da janela sobre a cama. Será que ele tinha caído num longo sono inconsciente sem nem sequer tomar comprimidos para dormir? Diante da paisagem onírica que parecia irreal, Yurij contemplou a cena durante vários minutos.
A luz do sol era serena. Não ofuscava como o sol do meio-dia, mas tinha uma cor tranquila que convidava a uma sensação de paz. Yurij, com os olhos secos e rígidos, piscou e virou lentamente a cabeça para observar o ambiente. Estava num quarto com um guarda-roupa velho de jacarandá, um criado-mudo antigo e um abajur de pé de design elegante.
Seu olhar parou no criado-mudo, colocado a pouca distância da cama. Havia um porta-retratos com um casal abraçando um menino de beleza quase irreal, sorrindo felizes diante do fundo de um lago esmeralda encravado entre vastas montanhas.
O homem loiro adulto se parecia muitíssimo com Cheriot. Embora tivesse os traços um pouco mais marcados e uma imagem mais masculina que o Cheriot atual, todos os seus traços faciais, exceto a linha da mandíbula e o cavalete do nariz, lembravam Cheriot.
Em seus braços estava uma mulher muito mais baixa; de cabelo ruivo cacheado, ela olhava de frente com uns olhos verdes de uma profundidade misteriosa. Embora não sorrisse tão radiante quanto o homem, a leve curva de seus lábios e o modo como envolvia o braço dele bastavam para saber o quanto ela era feliz.
O menino que abraçavam era, sem dúvida, Cheriot. Seu cabelo ruivo-dourado, herança perfeita dos pais, e seus olhos verdes penetrantes que olhavam fixamente para a frente confirmavam sem margem de dúvida que ele era filho dos dois. Era uma foto que inspirava espanto diante do fato de que duas pessoas completamente distintas pudessem se encontrar e criar uma bela vida misturando seu sangue.
Yurij, sem conseguir desviar o olhar da foto de família, mergulhou em seus pensamentos. Agora que pensava nisso, sabia muito pouco sobre Cheriot. Que era um jogador de hóquei com enorme popularidade e renda, que sua idade pública e sua idade real diferiam em um ano, e que vinha de uma família tão abastada que tinha o próprio fundo fiduciário, era tudo o que Yurij sabia.
Mas… não era só isso que ele sabia.
Cheriot nada bem. Tem resistência para dirigir a noite inteira e continuar tagarelando, e se você lhe comprar um doce, ele come com gosto. Quando o tempo está bom, seu humor melhora e ele se alegra como uma criança e, além disso…
Disse que seu tipo ideal de aparência é como a de Yurijj…
Ficava emburrado por ele ter conversado com outro ômega, para depois se animar de novo com um simples elogio; tinha uma consideração espantosa para perceber o que Yurij queria mesmo sem ele dizer.
E também é terrivelmente forte. Seu vigor sexual é quase repugnantemente abundante.
Yurij esboçou uma risadinha diante do último pensamento. Soltou um suspiro de satisfação e lentamente ergueu o tronco, inclinando o pescoço dolorido para os lados para relaxar os músculos. Ao começar a se mover, a sensação voltou a todo o seu corpo e ele foi percebendo gradualmente seu estado.
Embora não tivesse apanhado, não havia um só canto do corpo que não doesse. Seu corpo, maltratado por ter aguentado Cheriot por quase três dias, gritava de dor. O mais incômodo era a cintura. Ao se mover lentamente e pôr os pés no chão, surgiu a sensação de desfalecimento que tinha experimentado antes. Desde então não tinha precisado descer da cama, então tinha esquecido por um instante.
«Por mais rut que seja, isso é loucura.»
Aos poucos assimilou a realidade de ter passado dois dias inteiros dedicados só ao sexo. Embora ele estivesse em abstinência havia mais de três anos, Cheriot, que tinha parceiros e liberava seu rut periodicamente, tinha agido como uma fera faminta. Embora, sem dúvida tivesse havido momentos em que poderiam ter parado se ele quisesse, ele gostou de vê-lo desejando sem parar e, por aceitar até o fim, tinha acabado assim.
«Então a gente pulou mais de dois dias de refeições.»
Assim que pensou nisso, seu estômago faminto protestou com uma pontada. Bem nesse momento, o aroma de panquecas que vinha de fora da porta estimulou seu olfato e Yurij sentiu uma fome intensa. Normalmente não colocava xarope de bordo porque achava doce demais, mas hoje queria panquecas encharcadas de xarope com manteiga derretida por cima. Fazia tanto tempo que ele não desejava um alimento de forma tão concreta que ele mesmo se surpreendeu.
Deixando escapar um leve gemido, levantou-se procurando pôr o máximo de força possível na parte inferior do corpo, como a experiência lhe tinha ensinado. No momento em que ficou ereto, tanto as nádegas quanto as coxas latejavam, e ao mesmo tempo sentiu um ardor pungente atrás. Mal apoiou um pé, algo escorreu dentro do buraco ligeiramente aberto.
A sensação estranha e arrepiante de que algo escorria continuamente, como se lhe tivessem introduzido líquido, o fez olhar para baixo: sêmen corria por suas coxas. Não parou com uma só vez, mas continuou escorrendo até alcançar seus tornozelos. Yurij lembrou que tinham tido um acidente sem camisinha. É uma sorte não ser ômega, mas…
Enquanto Yurij inclinava a cabeça e observava com incômodo as marcas deixadas por Cheriot, a porta do quarto se abriu de repente.
—Oi, Wolfie!
O homem que apareceu com voz animada carregava na outra mão uma mesa dobrável de tampo redondo. Ao abrir a porta com energia, parou surpreso ao ver Yurij de pé, e depois dirigiu o olhar para sua nudez. Seus alegres olhos verdes adquiriram um brilho lascivo e seu olhar desceu lentamente do peito de Yurijj para baixo.
Sentindo como se o tocassem com os olhos, Yurij ergueu ligeiramente uma sobrancelha. Não só ele, mas Cheriot também não devia ter mais sêmen para espremer, mas ao ver aquela expressão, Yurij compreendeu que ele estava relembrando a noite anterior.
“—Yurij, ah, por dentro você está incrivelmente quente. Acho que meu pau vai derreter, o que eu faço? Sua pele é tão fresca, mas por dentro ferve feito lava. —Para, Cheriot, chega… Já não sai mais nada…”
Veio-lhe à mente a cena em que, com ele completamente sem forças e flácido, Cheriot o empurrava por trás enquanto afundava o membro no buraco ardente. Originalmente, Cheriot o mantinha com os braços para trás, segurando-lhe os pulsos enquanto empurrava, mas quando Yurij perdeu a força nas coxas e não conseguiu manter nem essa postura, ele o colocou de bruços e, afundando-o quase até enterrá-lo na cama, balbuciou aquelas palavras.
Naquele momento ele estava aturdido demais para sentir vergonha nem sequer da enorme cicatriz em suas costas, incomparável à do peito. Sua vergonha se tornou insignificante em sua concentração no ato com Cheriot e, depois de expor assim o corpo todo, agora lhe parecia bom se mostrar daquele jeito diante dele.
—Não faz essa cara. Não confio no meu autocontrole.
O aviso sincero chegou a Yurij, que também vinha relembrando a noite anterior por causa de Cheriot. Surpreso ao perceber que ainda poderiam fazer de novo, Yurij olhou em seus olhos e Cheriot, pigarreando, entrou caminhando no quarto.
—Isso é sério. Yurij, você poderia vestir alguma roupa? Se eu te olhar mais alguns segundos, acho que a gente vai ter que fazer outra rodada de verdade.
—Minha roupa está no meu quarto.
—Veste a minha roupa.
Dito isso, Cheriot, se esforçando para não olhar para Yurijj, apontou para debaixo da janela, onde tinha deixado a mala separada. A mala aberta ainda continha bastante roupa. Depois de observá-la um instante, Yurij caminhou lentamente até lá e pegou primeiro a camiseta branca de manga curta que estava por cima. No entanto, dado que era óbvio que se sujaria de sêmen, ele não podia vestir peças de baixo.
—Vestiu?
Perguntou Cheriot enquanto desdobrava a mesa dobrável que tinha trazido do lado oposto. Yurij esticou de novo o tronco, franzindo ligeiramente os olhos diante da dor generalizada, depois apagou a expressão e assentiu.
—Vesti.
—Adoro quando você fala “vesti”.
Depois de um elogio inesperado, Cheriot dirigiu rapidamente o olhar para Yurijj. Sua expressão ansiosa, como de quem mal conteve a vontade de vê-lo, fez Yurij soltar uma risadinha sem querer. Como Cheriot tinha uma compleição maior que a de Yurijj, sua camiseta lhe ficava um tamanho maior, suficiente para cobri-lo mais ou menos até os quadris.
—Não, espera.
Apesar de ter obedecido ao pedido e vestido a roupa, Cheriot agora parecia desconcertado.
—Por que você não vestiu a parte de baixo? Isso é realmente provocante de um jeito escandaloso…!
Levou as mãos ao rosto para se cobrir, mas entreabriu os dedos disfarçadamente para observar Yurij pelo vão. Ao ver Cheriot se comportando de forma tão esquisita, Yurij só o achou adorável. Deu alguns passos e se aproximou dele. Estava com vontade de tocar Cheriot.
—Yurij, não vem. A gente tem que comer.
—Fiz o que você pediu, qual é o problema?
—Se você não veste a parte de baixo e só usa a camisa é como se estivesse me tentando!
—Não posso sujar a sua roupa.
Yurij se aproximou do flanco do homem grande que se dirigia a um canto e estendeu com cuidado uma mão para roçar de leve seu cabelo. Depois de ver antes a foto de família, ele vinha desejando tocar o cabelo de Cheriot. Assim que a sensação macia chegou às suas polpas, um sorriso se desenhou em seus lábios.
—Para de fazer gracinha e abaixa as mãos.
—…Você só está escolhendo fazer coisas que me deixam louco.
Cheriot, que tinha esfregado o rosto com brusquidão, finalmente baixou as mãos como Yurij lhe disse. Encarou-o fixamente com os olhos avermelhados, como se quisesse atravessá-lo. Olhando para aqueles olhos verdes que mal piscavam, Yurij perguntou:
—Eu não fiz nada.
—Por que você é tão carinhoso?
Não parecia ser o caso, mas Cheriot parecia bastante sério.
—Por que você sorri tão fácil? E por que sua voz é tão suave? Além disso, depois de se vestir de um jeito indecente desses e chegar perto pra tocar no meu cabelo, isso não é um sinal de que você quer transar?
Quando faziam sexo ele quase não falava, mas agora que voltava ao estado habitual, sua tagarelice tinha retornado. Sentindo que tinha descoberto uma certa brecha nele, Yurij sorriu em silêncio, erguendo só um canto dos lábios, e depois baixou o olhar.
—Você não vai me contar o que é essa mesa?
—Primeiro você tem que me responder!
—O quê?
—Você costuma ser assim com alguém com quem transou uma vez? Hein? Sorrindo, tocando e tudo isso.
Cheriot perguntou com uma expressão que parecia dizer que se sentiria muito magoado se a resposta fosse afirmativa. Talvez até ficasse com raiva, como tinha ficado na cafeteria. Yurij soltou um suspiro sorridente e negou com a cabeça.
—Não.
Diante da resposta concisa, a expressão de Cheriot voltou a ser adorável. Ao ver o lampejo de alívio em seus olhos, Yurij não conseguiu evitar rir de novo.
—Nunca fui assim com outra pessoa.
—…Que bom, então.
Bom por quê? Cheriot tinha dado uma resposta que o confundia. Queria perguntar o que aquilo significava, mas temeu alimentar falsas esperanças por conta própria, então engoliu. Podia ser só um desejo possessivo temporário depois de dormirem juntos.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna