Capítulo 04.10
4. Wolfie, The Bunny
—Então, e essa mesa?
—Achei que você teria dificuldade para sair da cama e queria preparar um almoço tardio para você aqui.
Cheriot limpou a voz baixa e lançou um olhar disfarçado para a parte inferior de Yurijj. Seguindo o relevo dos músculos duros de suas coxas, havia manchas roxas por várias partes. Eram marcas deixadas porque Cheriot tinha chupado com força com os lábios, deixando vestígios de beijos pelo corpo todo. Provavelmente também teria marcas de dentes nos ombros.
Sob o rastro daquele olhar secreto que chegava até a parte interna das virilhas, Yurij bateu na mesa —toc— com o dorso da mão. Francamente, se Cheriot voltasse a se lançar sobre ele, sentia que aceitaria. Por isso, lhe pareceu melhor dispersar antes aquela corrente de ar perturbadora.
—Não precisa a gente comer aqui. Vamos comer na mesa da cozinha.
—Você está bem mesmo?
—Estou.
Felizmente, Cheriot, talvez porque o rut tivesse terminado e ele tivesse recuperado o autocontrole, assentiu com a cabeça tardiamente e voltou ao assunto de que falavam antes.
—Então vamos pra cozinha. Um momento. Você não pretende sair assim, né?
Yurij deu de ombros.
—Sério?
—Cheriot. Você não entende mesmo?
Ao ver aqueles olhos verdes bem abertos, parecia que ele ainda não lembrava do que tinha feito.
—Seu sêmen continua escorrendo. Até sair tudo, eu não posso vestir nada.
—…Ah!
Cheriot arregalou muito os olhos e entreabriu os lábios. Com o olhar vacilante, dirigiu-o lentamente para o abdômen de Yurijj e, enfim, ao que parece descobriu o sêmen que escorria, e abriu e fechou a boca.
—Ah, merda, me desculpa mesmo.
Enquanto se desculpava, fixou o olhar na região das virilhas, mal coberta pela barra da camiseta, e nas coxas.
—Eu não trouxe camisinha, então não pude usar. Nem me passou pela cabeça sair para comprar. Acho que vou ter que me responsabilizar. Hmm… quer que… eu mesmo tire, raspando?
As palavras que se seguiram provavelmente eram uma proposta mistura de desculpa e boa intenção, mas por alguma razão soaram como um convite para fazer mais uma vez.
—Vou tomar um banho rápido e já saio. Come primeiro.
Yurij lhe deu as costas e saiu na frente, cortando as manhas de Cheriot. Ouviu-se um suspiro
de decepção e Cheriot saiu rapidamente atrás dele.
—Acho que, como eu tenho as mãos maiores e além do mais sou o causador do problema, seria melhor que eu cuidasse pessoalmente de você, não?
—Não.
A voz cheia de insistência o seguiu e Yurij sorriu sem se virar.
—Droga, Yurij. Cada minuto e cada segundo agora me parecem uma prova de paciência. Você é perigoso demais para mim.
Deixando para trás um elogio que não era um elogio, Yurij fechou a porta do banheiro e ouviu Cheriot soltar um suspiro incompreensível antes de voltar para a cozinha. Alguma vez ele tinha tido um dia que começasse com um ânimo tão leve quanto o de hoje?
Maravilhado por algo que nunca antes tinha experimentado, Yurij tirou a peça de cima por um instante. Antes de entrar no boxe, ao olhar o próprio corpo por acaso, em vez de reparar nas cicatrizes como costumava fazer, só pousou o olhar nas marcas que Cheriot tinha deixado. Seus olhos foram para lá naturalmente.
Desde as marcas de dentes nos ombros, havia vestígios de mordidas espalhados pelo corpo todo. Ao se perguntar até onde ele tinha mordido e chupado, afastou os olhos do espelho e olhou para baixo: havia especialmente muitas marcas vermelhas nos tornozelos e na parte interna das coxas. Eram beijos explícitos demais; se uma pessoa um pouco mais velha os visse, a densidade seria tal que os dois poderiam se sentir constrangidos.
Mas não lhe desagradavam.
Embora não fosse diferente de ser marcado por outro alfa, talvez fosse porque aquele ato não tinha a intenção de oprimi-lo. Parecia uma prova do quanto Cheriot o desejava. Enquanto se enxaguava de leve sob a água corrente, Yurij continuou examinando as marcas vez após vez. Era porque pensava que, se continuasse se lavando assim, elas logo desapareceriam. Embora com o tempo fossem sumir naturalmente, ele, como alguém que se apegava, observava as marcas e baixou a cabeça para tocar o flanco esquerdo.
A cicatriz onde Cheriot tinha pousado os lábios pela primeira vez. Ali, em vez de várias marcas, havia só uma marca escura. Talvez porque ele a tivesse deixado repetidamente no mesmo lugar, parecia um hematoma tênue. Ele não sabia que em sua pele, sempre pálida e sem vida, pudesse ficar uma cor daquelas.
Imerso nesse sentimento estranho, acariciando absorto a cicatriz, Yurij voltou a si bruscamente ao ouvir a voz de Cheriot chamando-o lá de fora. Já tinha se lavado, mas por um momento
tinha perdido a noção.
Ao terminar o banho e sair, Cheriot o recebeu tendo espalhado uma quantidade abundante de comida sobre o balcão-ilha. Como da vez anterior, ele tinha um olhar ligeiramente preocupado, mas ao ver Yurij sair ileso, fez uma expressão de alívio.
—Vem logo, Wolfie. Panqueca fria é pecado.
O som de bater no prato com descontração ressoou alegremente. Yurij passou por ele, entrou no quarto, vestiu uma calça e a peça de baixo, e se dirigiu à cozinha enquanto ouvia Cheriot reclamar e chamar seu nome de novo.
Yurij gostava bastante da distribuição daquela casa. Por não ser dividida em dois andares, era uma forma retangular com cozinha e sala de estar no térreo e quartos dos dois lados, o que tornava fácil saber onde o outro estava.
Ao se sentar ao lado de Cheriot, que o esperava, enfim estava pronto para o almoço tardio, ou talvez um jantar cedo.
—Você tinha comprado ingredientes para fazer tudo isso?
Em cada prato havia uma pilha de quatro panquecas. Ao lado do prato de panquecas com manteiga em cima, havia uma salada feita com sementes de romã, amêndoas, couve e alface. O prato principal era um filé com macarrão com queijo. Ele lembrava de ter comprado carne, mas o resto lhe era estranho.
—Usei a mistura para panquecas que já tinha aqui.
Cheriot, que talvez estivesse com muita fome, assim que Yurij chegou cortou um pedaço grande do filé, espetou-o com o garfo e, depois de olhá-lo com cautela, confessou o segredo.
—Na verdade, a data de validade estava um pouquinho vencida… Vai dar tudo certo, né?
Só havia uma forma de comprovar. Yurij estendeu a mão para as panquecas que fazia um tempo desejava comer, cortou um pedaço grande e, olhando para Cheriot, levou-o à boca de uma vez. Cheriot, esquecendo até de comer seu filé, observou-o mastigar em silêncio. Ao encontrar seus olhos ligeiramente tensos esperando uma avaliação, Yurij soltou uma risadinha e baixou o garfo.
—Quem disse isso? Parece feito com farinha recém-comprada.
Enfim um sorriso radiante apareceu nos lábios de Cheriot. Ao ver aquele riso florescendo esplendidamente como uma peônia, surgiu em Yurijj o desejo de vê-lo sorrir um pouco mais,
muito mais. Queria fazer aquele homem sorrir. Fazer o que fosse para consegui-lo.
—Ainda bem. Está gostoso?
—Muitíssimo.
—Quer que eu ponha xarope?
Se fosse o Yurij do passado, teria recusado, mas agora ele queria a versão carregada de xarope.
—Quero.
O sorriso de Cheriot ficou mais intenso. Pegou pessoalmente o frasco de xarope e traçou círculos sobre as panquecas de Yurijj. Fez dois pontos redondos com o xarope e depois desenhou uma curva embaixo para formar uma carinha sorridente. Ao ver aquilo, Yurij acabou rindo alto.
—Que é isso?
Feito criança. Ao acrescentar isso em voz baixa e rir apertando até os olhos, Cheriot também soltou uma risada alegre —hahaha—. Até Yurij dizer chega, chega, Cheriot continuou despejando xarope à vontade e depois lhe passou o frasco. Seguindo o gesto que parecia pedir que fizesse o mesmo com ele, Yurij, diferente de Cheriot, espalhou o xarope de forma densa e uniforme.
E durante alguns minutos ficaram em silêncio, ocupados comendo com pressa. No entanto, embora não houvesse muita conversa, com frequência trocavam olhares e sorriam, e Yurij terminou logo as quatro panquecas. Depois de alternar entre o filé e a salada e esvaziar aproximadamente a metade, sentiu que tinha mais tempo. Ao encher um pouco o estômago, uma agradável sensação de saciedade o invadiu.
—Uau, eu vou engordar. É a primeira vez que passo tanto tempo no quarto sem comer nada.
Cheriot também largou a faca num momento parecido. Talvez por ser jovem e corpulento, já tinha terminado sua porção de filé e também tinha esvaziado a metade do prato de macarrão com queijo.
—Ainda bem que não aconteceu nada. A gente teve sorte.
Yurij refletiu sobre a própria negligência. Não queria lembrar da conversa que tivera com Alexei num momento como aquele, mas de todo modo precisava se lembrar constantemente de que Cheriot estava em uma situação perigosa.
—Se já se passaram seis dias desde que a gente chegou aqui e não aconteceu nada, não será que agora já está tudo bem?
«Não, Cheriot. Não é uma situação tão otimista. O Samuel está morto e tem um monte de caras te procurando.»
Em circunstâncias normais, ele lhe teria lembrado pela metade da verdade… mas em vez disso, Yurij lhe disse outra coisa.
—Parece que não descobriram esta localização.
—Ah, é?
Cheriot respondeu com o rosto corado e estendeu o garfo para a salada de Yurijj. Deixando que ele comesse voluntariamente parte de sua comida, Yurij mergulhou em seus pensamentos. Queria continuar conversando com o homem ao seu lado e, mais do que falar de assuntos que o inquietassem imediatamente, desejava perguntar sobre temas mais pessoais.
Finalmente, Yurij, que vinha hesitando, criou coragem. Fazer esse tipo de pergunta em si lhe produzia uma sensação incômoda, como de quebrar as regras que ele mesmo tinha estabelecido, mas seu desejo de saber mais sobre Cheriot era maior.
—A foto que tem no quarto é da sua família?
Cheriot, que vinha selecionando só as sementes de romã para levar à boca, parou ao ouvir a pergunta. Tinha sido um erro, afinal? Bem quando começava a se sentir desconcertado por ter feito uma pergunta desnecessária, Cheriot virou a cabeça e olhou em seus olhos.
—Parece que agora você ficou um pouquinho curioso sobre mim, né?
Felizmente, sua pergunta não tinha estragado o ânimo de Cheriot. Pelo contrário, ele parecia contente.
—Qualquer um diria que são seus pais.
—Acho que herdei só os melhores traços da minha mãe e do meu pai. Não serei eu o caso mais bem-sucedido de combinação genética?
Cheriot, que se lançou a se elogiar, começou a falar sobre si mesmo como Yurij esperava.
—O Wolfie tem razão. Foi quando meus pais me levaram para visitar o Lago Louise. É uma foto que a gente pediu pra um transeunte tirar, mas ficou tão boa que eles fizeram várias cópias e
guardaram. Quando meu pai ainda era vivo, nossa família costumava vir todo verão, passando de Boston a Calgary pra percorrer os arredores de Banff e depois chegar até aqui.
Naqueles olhos verdes que retrocediam no tempo, Yurij viu flutuar a nostalgia. Era uma sombra de perda profunda, reconhecível apenas por quem já perdeu alguém.
—Foi assim até eu completar treze anos.
Depois de engolir lentamente uma semente de romã, Cheriot ficou em silêncio. Ao observar aquele olhar que o via, mas que na verdade contemplava um lugar distante, Yurij estendeu a mão com lentidão. Depois a pousou sobre a mão de Cheriot, que descansava em sua coxa.
Cheriot, que encarava fixamente um lugar distante para além de sua consciência, se sobressaltou, baixou a cabeça e observou suas mãos. Yurij hesitou um instante antes de falar em voz baixa.
—Se você não quiser, não precisa continuar falando.
Com um significado de “não é necessário falar de coisas desnecessárias”, deu-lhe uns tapinhas breves no dorso da mão e, bem quando ia retirá-la:
—Não.
Cheriot o deteve enquanto se retirava. Em vez de agarrar-lhe o pulso como costumava fazer, dessa vez foi de uma forma um pouco diferente.
Virou a palma para cima e entrelaçou os dedos com os de Yurijj, apertando com força. Os dedos entrelaçados o sustentaram com firmeza. No instante em que palma e palma se encontraram, seu coração começou a bater descontroladamente. As batidas eram tão rápidas que parecia que a febre subia. Yurij apertou os lábios. Sentiu-se como se tivesse voltado a ser um adolescente desajeitado.
—Eu… quero que você saiba sobre mim.
Olhando para suas mãos entrelaçadas, Cheriot falou. Só o fato de terem os dedos entrelaçados já o fazia tremer de uma maneira incrível e, ao ouvir aquelas palavras, sua mente ficou nublada. Inconscientemente, Yurij buscava alguma pista. Uma pista que lhe desse esperança de que sua relação com Cheriot não terminaria sendo um mero encontro passageiro como com os outros.
Será que Cheriot já tinha contado essas coisas a outra pessoa antes? Talvez estivesse apenas compartilhando com ele uma história que todos já conheciam. Mas esperava que não fosse assim.
«Porque tudo o que aconteceu comigo nesses dias foi dolorosamente especial, eu queria que para você também não fossem momentos comuns.»
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna