Capítulo 03.7
3. Cherry and Smoke
No centro comercial havia exatamente uma loja de roupas. Além disso, atendia a turistas abastados, por isso seus preços estavam muito longe da faixa que Yurij costumava frequentar.
Após comprar duas camisas pretas, calças e roupas íntimas, visitou uma loja de ferragens prestes a fechar. Cheriot tinha dito que a casa tinha câmeras de segurança. Mas isso não bastava para impedir a entrada de intrusos, então pensou que seria bom preparar alguma armadilha simples com pregos e arame. Queria evitar usar a arma o máximo possível. Não só porque Cheriot podia se assustar, mas também por como ele mesmo era quando empunhava uma arma…
Enquanto Yurij ficava paralisado pelo passado que o assaltou, uma vibração soou em seu bolso. Sobressaltado, recuperou a consciência, tirou o telefone e viu um nome que lhe alegrou a vista. Ao ver a letra “A” que significava “Alyosha”, Yurij apertou o botão de chamada.
[— Kiselyov!]
Mal atendeu, uma voz irritada ressoou baixa do alto-falante. O som, lúgubre em seus tímpanos, fez Yurij erguer uma sobrancelha. Fazia muito que Alexei não se irritava de verdade.
— Acalme-se, Alyosha.
[— Você se acalmaria? Se o telefone está ligado, mas você não responde, que outra coisa posso pensar senão que aconteceu algo com você?]
Após a pergunta irônica, Alexei soltou um impropério em russo e depois exalou um suspiro. Como normalmente era Yurij quem se preocupava e irritava, esta situação lhe parecia estranha. Reanudou seus passos e começou a selecionar com cuidado as ferramentas das prateleiras.
— Estive em movimento constante e não havia sinal. Ia ligar ao chegar, então não se altere.
[— Em que gastam os impostos neste maldito país, que não colocam cabos nas rodovias?]
Alexei, que parecia querer continuar irritado, culpou as rodovias antes de perguntar com voz mais calma:
[— Você está ferido?]
Por sua mente passaram o braço roçado pela bala e seu próprio rosto arroxeado no espelho, mas Yurij respondeu com indiferença.
— Não.
Como a regra entre eles era que enquanto não houvesse um buraco no corpo ou algo quebrado, estava bem, Alexei não costumava perguntar por essas coisas.
[— Pela forma como fala, parece que é assim.]
— Então entenderá que não há necessidade de se irritar.
[— Não. Terá que pagar o preço por ousar me fazer preocupar.]
— Se vamos fazer contas assim, será difícil comparar com os erros que você cometeu no passado.
Embora Alexei costumasse ser prudente por causa de Valery, houve um momento em que esteve disposto a arriscar sua vida quando as coisas iam mal. Diante da alusão àquele tempo, Alexei guardou um breve silêncio e depois mudou de assunto com descaramento.
[— Segundo Heather, no hotel apareceram pessoas suspeitas. Eram esses caras, os Guardiões ou como se chamam?]
Yurij sorriu apenas com os lábios e decidiu seguir o jogo.
— Pelas circunstâncias parecia que sim, mas não é seguro. Não tinham tatuagens visíveis e a forma como trabalhavam em equipe e se escondiam os fazia parecer mais sicários profissionais.
— Hmm.
Alexei emitiu um som pensativo em vez de se surpreender. Deixando Alexei absorto em suas reflexões, Yurij comprou um martelo, uma pistola de pregos, pregos e arame fino e grosso. Eram ferramentas comuns, então não chamariam muita atenção.
[— Já estava investigando o dia inteiro e algo não batia. Em vez de se moverem para pressionar pedindo dinheiro como pensávamos, estavam mais ocupados procurando Goodnight.]
— Parece que não buscam um resgate.
Yurij se aproximou do caixa enquanto explicava com calma.
— Assim que viram Cheriot, tentaram matá-lo.
[— O quê?]
A voz de Alexei, que finalmente se acalmara, tornou-se áspera.
[— Está me dizendo isso agora?]
— Estou dizendo agora.
De novo se ouviram palavras em russo do outro lado da linha. Enquanto pensava que, após viver entre gente comum, mais bem parecia que seu repertório de insultos tinha aumentado, a voz de Alexei se aproximou. Parecia ter colado o telefone à orelha.
[— Você realmente não está ferido?]
— Assim é.
[— Yurij, seus padrões são diferentes dos outros, com certeza você viu sangue.]
As palavras de Alexei deixaram Yurij sem fala por um momento. Sentiu uma forte dissonância ao ouvir Alexei, entre todas as pessoas, dizer que seus padrões eram “diferentes”. Alexei era quem, enquanto lhe enfaixava o flanco roçado por uma bala, sorria para Yurij quando este dizia que não exagerasse por algo assim.
Ver sangue era parte do seu cotidiano, nada estranho. Mais bem, os dias que passavam sem feridas compartilhavam um cigarro dizendo que tinham tido sorte. Mas ao ouvir esse mesmo Alexei falar assim, Yurij sentiu por um instante que ficava sozinho. Embora sempre tivesse estado sozinho.
Yurij deixou a cesta com as ferramentas no caixa e esfregou a testa em silêncio. Como se lhe tivessem jogado areia na garganta, as palavras não conseguiam sair. O que tentava dizer ficou enterrado em seu esôfago, que ardia e se tensionava.
“Já vejo.
Alexei já não está no mesmo mundo que eu.”
Embora soubesse, embora claramente acreditasse assim, só agora, três anos depois de chegar de Saratov, Yurij compreendia de verdade.
Alexei tinha alguém que o amava profundamente e se preocupava com ele. Sem perceber, tinha deixado de ser alguém para quem ver sangue não importava, e agora era consciente do senso comum ordinário. O vínculo que Yurij acreditou eterno por ter nascido no mesmo mundo e levar vidas igualmente miseráveis tinha se transformado em algo distinto.
Para Alexei, Yurij era mais um camarada. Não um companheiro que ainda compartilhasse o mesmo ambiente.
O dedo indicador de Yurij, que esfregava a testa rígida, deslizou lentamente por sua bochecha até tocar seus lábios secos. Pressionou com força seus lábios pálidos e escamados, depois ergueu as comissuras com o polegar e abriu a boca devagar.
— Estou bem de verdade.
Para tranquilizar Alexei, apagou todo vestígio de agitação. Só ao ouvir sua voz serena e segura, Alexei deixou de suspeitar completamente.
[— Da próxima vez que algo assim acontecer, diga-me isso primeiro. Entendido?]
— Sim.
Yurij sorriu com secura. Depois baixou a mão que tinha ficado imóvel e começou a passar os códigos de barras um por um no caixa automático. Seus olhos se sentiam irritados e de repente estava exausto. Parecia que o que tinha comido nesses dois dias não tinha sido muito substancioso.
[— Ao ouvi-lo, agora sim estou seguro. Os Guardiões não buscam algo econômico de Goodnight. Aqui não há organizações tão radicais a ponto de cometer um assassinato por vingança em um simples drama passional. Se esperassem dinheiro como pensávamos, seria diferente.]
— Heather contou que no passado também mataram um famoso jogador de hóquei.
[— Isso também ouvi. Mas esse senhor era um jogador aposentado há tempo e não tinha o valor de Goodnight. Além disso, a razão de sua morte esteve ligada a conflitos internos, então é diferente do motivo pelo qual perseguem Goodnight agora.]
Alexei falava com voz dubitativa, e a Yurij também inquietava algo que não lhe tinha agradado desde o tiroteio. Além disso, Cheriot só tinha se transferido para Vancouver, mas sua nacionalidade era americana. Não parecia que a razão para tentar matar abertamente uma figura tão proeminente — suficiente para que se envolvessem organizações além da polícia — fosse simples.
— Há algo que Cheriot não sabe?
[— Algo maior que qualquer recompensa potencial que Goodnight possa oferecer. Isso se complica mais do que o esperado. Como é difícil saber sem se infiltrar, terei que agir diretamente.]
— Alyosha, não se arrisque a esse nível.
Yurij intuíu que tinha chegado o momento de lhe contar o que acontecia entre Cheriot e ele.
— O que quer dizer?
[— Cheriot não tem intenção de nos confiar este trabalho até o fim. Lembra? Disse que veio nos procurar pela recomendação de Heather. Que veio porque somos “gente boa”.]
Quando Yurij terminou de falar, só se ouviu a respiração de Alexei. Yurij explicou de novo a situação para não ferir seus sentimentos.
— Vivemos uma maldita vida, mas você, Alyosha, nunca viveu de maneira vergonhosa. O problema sou eu. Cheriot disse que não quer encarregar isso a um criminoso…
A parte posterior de suas pálpebras se irritou até doer. Seus nervos se tensionaram e sentiu como se marcavam suas veias. Após engolir saliva, Yurij murmurou em voz baixa.
— Sou de má índole, Alyosha. Não sou como você.
Alexei, que tinha guardado silêncio, refutou com aspereza.
[— Você e eu vivemos uma vida de merda sem ter opção, Yurij. Não havia outra maneira senão morrer ou sobreviver. Por que de repente me separa de você? Ambos temos as mãos manchadas de sangue e ajudamos o pai e o filho Volkov a viver com dinheiro sujo. Somos iguais.]
— Não.
Imediatamente depois que Alexei disse que eram iguais, Yurij negou com voz que parecia afundar no chão.
— Você e eu somos diferentes, Alyosha.
“Eu fiz coisas que você não poderia fazer.”
[— Que bobagens está dizendo, Yurij?]
“Você não sabe que somos pessoas fundamentalmente distintas. Tomara que não soubesse.”
— …Em todo caso, por isso Cheriot não quer seguir com nosso contrato. Após o ataque, tirei-o daí por enquanto, mas dentro de dez dias chegarão dos Estados Unidos pessoas em quem ele confia. Nosso trabalho é até ai, então não se arrisque desnecessariamente.
“Se soubesse o quão terrível eu sou, você e Timac também me abandonariam.”
A mão que segurava o telefone apertou com força, e o dorso se pôs branco. Seu estômago se retorceu como se fosse vomitar, e sentiu náuseas. Reprimindo os engasgos, terminou de pagar com os olhos injetados de sangue. A culpa de toda uma vida, que tinha esquecido enquanto estava com Cheriot, agora o atormentava.
Tinha se enganado. Yurij nunca tinha estado em paz. Só tinha reprimido uma culpa tumultuosa e fingido tranquilidade. Nunca tinha afastado a vista de seu pecado, e tinha construído um muro ao seu redor para ocultar seu sórdido pecado original, esperando que os que o rodeavam não o vissem.
[— Você… está estranho.]
— Não é assim.
[— Por acaso aquele filho da puta do Goodnight te disse alguma estupidez?]
A voz de Alexei carregava hostilidade. Ver seu amigo, que se preocupava sinceramente com ele, fez Yurij sentir uma opressão no peito por uma melancolia insuportável. Ao sair do território em que tinha se encerrado, percebeu quão longe estava de uma vida ordinária.
— Não.
Respirou fundo. Ao expirar e inspirar longamente, sentia as batidas de seu coração e pensava que por agora o importante era estar vivo. Isso costumava acalmá-lo.
Mas desta vez a escura e úmida melancolia não se ia. Yurij olhou em silêncio para a pistola de pregos e depois desviou a vista para a tela do caixa.
— Cheriot está se comportando bem. Disse que embora a compensação não seja como a inicial, pagará o correspondente ao trabalho realizado. Então você fique aí.
Alexei guardou silêncio enquanto respirava de maneira uniforme. Yurij também ficou quieto, observando apenas a tela do caixa com os números. Como não houve movimento contínuo, apareceu uma janela vermelha indicando o fim da transação. Yurij, um pouco tarde, tirou seu cartão e completou o pagamento. Após um breve —bip—, Alexei falou.
[— Você costuma dizer que sou teimoso como uma mula, Yurij.]
— Assim é.
[— Às vezes você é pior.]
— O quê?
[— Eu não sou alguém que você precise proteger. Na verdade, você não se machuque levianamente pensando em morrer. Entendido? Porque eu tenho que vê-lo envelhecer e chegar até a pintar a parede de merda quando tiver demência.]
— Alyosha, não diga bobagens…
A chamada se cortou de repente. Yurij franziu o cenho e ligou imediatamente para Alexei, mas ele rejeitou a chamada como se dissesse que o ignoraria descaradamente. Irritado, Yurij enviou-lhe uma mensagem.
[Valery sabe que você planeja fazer algo perigoso?]
Então, como se rejeitar a chamada não tivesse adiantado, chegou uma rápida resposta de Alexei.
[▶ Você não tem o número de Lerusha]
[Meu pai o tem ◀]
[▶ Se contar a ele, não vou te perdoar]
[Se não quiser ver seu namorado chorar de novo, pare por aí◀]
[ ▶ Então você quer que eu fique parado recebendo o dinheiro que você ganha trabalhando em vão num lugar que nem sei onde fica? Nem sonhe]
Yurij lembrou que não tinha dito sua localização. Também lembrou o telefone descartável que tinha esquecido.
[No banheiro masculino do posto perto do Parque Nacional Yoho, no compartimento inferior do lixo ao lado da pia, escondi um telefone descartável. É dos caras que nos atacaram, então tente encontrar algo aí ◀]
[▶ E sua localização?]
[Vou te dizer quando você estiver pronto para atender o telefone ◀]
[▶ Que engraçado você é]
Ao trocar mensagens rapidamente, Alexei parecia ter se acalmado um pouco. Diante do comentário a meio caminho entre piada e seriedade de Yurij, ele respondeu com uma risada seca em maiúsculas: HAHA. Depois acrescentou uma mensagem estranha.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna