Capítulo 03.8
3. Cherry and Smoke
[▶ Parece que em um dia você se tornou muito amigo do cliente. Fazia muito que não ouvia você chamar alguém pelo nome]
Yurij, que tinha terminado de pagar, parou de guardar as coisas no saco e olhou fixamente para o telefone. Enquanto franzia o cenho se perguntando o que isso significava, chegou outra mensagem irritante.
[ ▶ Se é um tipo tão bonito e com tanto dinheiro, não seria ruim tê-lo por perto]
Yurij não respondeu e guardou o telefone no bolso. Ao ver a hora, já eram pouco mais das quatro da tarde. Como tinha saído deixando Cheriot sozinho antes de passarem quarenta minutos, parecia que até excederia o tempo generoso que lhe tinha dado. Pensando que tinha quebrado sua promessa, Yurij se apressou a terminar de guardar os sacos.
Ao sair após passar pelo caixa, a loja de ferragens já tinha terminado de se preparar para fechar. O homem que se dispunha a baixar a cortina de metal olhou para Yurij com expressão de descontentamento, mas Yurij levantou um pouco os óculos de sol e assentiu brevemente. Ao ver seu rosto descoberto, o homem apagou imediatamente o desagrado de sua cara e lhe devolveu um gesto de despedida.
Como tinha dito Cheriot, a partir das quatro da tarde todas as lojas do centro comercial fecharam. O mesmo aconteceu com a loja de bebidas contígua. Ao ter que adiar para amanhã a compra da cerveja que Cheriot queria, Yurij sentiu um pouco de culpa. Embora não tivesse nenhuma razão particular para se sentir assim, ao lembrar a imagem desanimada de Cheriot, deu-lhe pena não poder comprar a cerveja.
O estacionamento já estava quase vazio, pois os carros tinham ido embora. Ao se aproximar de seu veículo afastado, viu Cheriot com a cabeça enterrada e os braços apoiados sobre o volante. Ao se aproximar, Cheriot, que pareceu notar sua presença, ergueu seus olhos verdes e, ao descobrir Yurij, mostrou uma expressão claramente ressentida. Mas não abriu a boca como tinha feito no posto.
Yurij guardou silêncio e abriu a porta do acompanhante. Sentiu que Cheriot se incorporava lentamente e o observava fixamente. Talvez porque o tivesse estado levando consigo o tempo todo, o carro estava bastante impregnado com os feromônios de Cheriot, o que fazia sentir claramente que compartilhava um espaço com ele.
O doce aroma a uísque, mistura do cheiro açucarado que emanava do envoltório da barra de chocolate que Cheriot tinha comido e o aroma particular de Cheriot, enchia o ar. Embora não falasse primeiro, talvez porque estava de mau humor, assim que entrou no carro os feromônios que chegavam a cada parte de sua pele faziam sentir que Cheriot estava consciente dele. Sentiu uma coceira como se uma cauda se agitasse suavemente.
Yurij girou lentamente a cabeça para olhar Cheriot. No instante em que observou aqueles olhos verdes cheios de injustiça, a tensão que envolvia todo seu corpo se dissipou de repente. Um calor como se a luz do sol banhasse seu coração, úmido e escuro como se tivesse florescido mofo, brotou dentro dele. Sentiu como se pisasse descalço em um musgo suave.
Devia manter o centro.
Só devia aceitar, não havia necessidade de se aproximar.
— Parece que teremos que comprar a cerveja amanhã.
Contrariamente ao que Alexei tinha dito sobre o quão teimoso ele era, Yurij quebrou a decisão que tinha tomado trinta minutos antes e falou.
— Levou mais tempo do que o esperado.
Cheriot, como se não gostasse, agitou as pálpebras, entreabriu muito os olhos e olhou Yurij em silêncio. Seu silêncio não durou mais que alguns segundos. Embora ele ou Alexei pudessem guardar silêncio desde alguns minutos até um dia inteiro, Cheriot não parecia capaz de fazê-lo.
— Por que você continua me confundindo?
Yurij ouviu suas palavras em silêncio. Como pensava que era compreensível que Cheriot estivesse confuso, decidiu aceitar sua queixa sem dizer nada.
— Se vai me tratar bem, faça sempre. Não me afaste de repente como fez antes.
Ele tinha razão. Só devia manter o centro e aceitar, mas ao ver aqueles olhos cheios de reprovação, não pôde ficar calado. Ver aquele alfa ingênuo, que tinha vivido uma vida tão distinta da de Yurij Kiselyov, fez com que a dor que lhe picava os olhos desaparecesse, em vez de o mergulhar na melancolia como quando falava com Alexei.
Alguém pensaria que ver alguém oposto, que viveu uma vida ordinária, contrastaria o quão grotesca foi sua própria existência e o faria se sentir horrível…
Mas, estranhamente, mais bem sua vida passada se desfocou.
— Você tem razão.
Yurij deixou os sacos que trazia no chão do banco do acompanhante e fechou a porta do carro. Sem pensar em ligar o motor, Yurij olhou fixamente para Cheriot, que parecia se rebelar, e estendeu com cuidado a mão para sua cabeça. Cheriot se estremeceu e cravou o olhar nas pontas dos dedos de Yurij.
Sentindo o olhar intenso em seus dedos, Yurij tirou o gorro de Cheriot. O cabelo vermelho-dourado, que tinha considerado bonito desde o primeiro momento que o viu, era ainda mais macio do que imaginava. Temendo que seus dedos cheios de calos pudessem danificar seu cabelo, Yurij o acariciou com muito cuidado e se desculpou em voz baixa.
— Desculpe.
Cheriot piscou surpreso. Ficou tão comovido que nem se moveu enquanto Yurij retirava a mão e afivelava o cinto de segurança. Agoniado pelo peso do passado que lembrou ao falar com Alexei, Yurij se recostou no banco com um semblante algo cansado. Cheriot, que tinha estado calado, ligou o motor alguns minutos depois e de repente se virou para Yurij dizendo:
— Que mudança de humor é essa?
— Não há tal coisa.
— Mas você me tocou primeiro.
Yurij, ainda recostado, inclinou a cabeça para trás e depois baixou o olhar para observar Cheriot. O cabelo vermelho-dourado, que tinha estado oculto sob o gorro, ficou descoberto e sua aparência se via muito melhor. Yurij, com os olhos mal entreabertos, engoliu um suspiro.
— Você não disse que não queria sentir o terror de que eu o estrangulasse quando o tocasse?
Embora estar com Cheriot significasse barulho demais para seus ouvidos, não sentia vontade de morrer.
— Só decidi acompanhá-lo na sua prática de vez em quando.
— …Assim, sem aviso prévio?
— Se avisar, não terá efeito, não é?
Então o semblante de Cheriot se iluminou, diferente de antes. Embora o sol se pusesse lentamente e o céu se escurecesse um pouco, seu rosto sempre parecia banhado por uma luz.
— Então me toque mais uma vez. Me senti incrivelmente bem há pouco.
Cheriot inclinou o tronco para ele e lhe rogou que o tocasse. Yurij, atônito, inclinou o queixo e fechou os olhos. Enquanto ouvia como se fosse um rádio a voz de Cheriot, que balbuciava algo sobre fazer trapaça, Yurij baixou a janela do acompanhante pela metade. Fazia muito que não abria a janela sem razão, pois sempre a mantinha fechada exceto quando precisava tirar a fumaça do cigarro.
Logo Cheriot começou a dirigir. Cantarolou a canção que tinha começado no posto, e sua agradável voz de barítono encheu o carro ao seguir a melodia alegre. Talvez porque todos os elementos que rodeavam Cheriot vibravam com uma doçura intensa, Yurij teve a ilusão de que um sabor doce se estendia por sua língua, como a primeira vez que provou o medovik.
De repente, Yurij acreditou entender por que Alexei tinha querido proteger Valery. Aquele ato, que sempre lhe parecera um sacrifício desnecessário, talvez era o que mantinha vivo Alexei. Embora as criaturas nascidas no pântano pudessem se entender entre si melhor que ninguém, o que as motivava a sair para fora não era o nojo do pântano.
Às vezes, a paisagem serena que só tinham admirado de longe lhes dava uma razão para viver.
A sensação de responsabilidade que Vasha sentiu ao conhecer Katia, e os esforços constantes de Katia por carregar com a culpa de Vasha em seu lugar, devem ter sido precisamente por essa razão.
* * *
Cheriot era alguém que mudava de humor tão rápido quanto se irritava. Embora provavelmente o medo subjacente não tivesse desaparecido totalmente, parecia uma pessoa capaz de desfrutar o presente mais do que de continuar temendo uma desgraça que não podia resolver de imediato. Era uma imagem muito mais agradável do que vê-lo assustado e encolhido, embora ao observá-lo às vezes se pensasse que talvez era positivo demais.
— Wolfie, a água está mais fria do que eu pensava.
Cheriot, que tinha dito que queria nadar mesmo antes de chegar, mal voltou para casa, meteu os pés no lago para depois os tirar. Yurij o observou com inquietação, como quem olha para uma criança deixada à beira da água, mas ao não perceber de momento sinais de perigo próximo decidiu deixá-lo estar lá. Afinal não era uma criança de verdade, mas um adulto de mais de vinte e cinco anos; certamente saberia nadar por conta própria. Também tinha a vaga impressão de que, como atleta famoso, seria bom em qualquer coisa que fizesse com o corpo.
— Então por que não fica quieto em casa?
— Mas o lago está tão bonito.
Yurij começou a tirar dos sacos os alimentos que Cheriot tinha comprado em abundância. Não tinha feito tantas compras nunca e se sentia sobrecarregado pensando em como organizar tudo, quando Cheriot se grudou ao seu lado.
— Estou com fome, então vamos comer primeiro. O que você quer?
Yurij respondeu com um tom que sugeria que a pergunta era óbvia.
— Sanduíches.
— Sério?
Como dizia Cheriot, Yurij também estava com fome, e não havia nenhum prato que exigisse menos tempo de preparação que um sanduíche. Yurij encolheu os ombros e tirou o saco de pão de forma. Depois pegou a alface americana que Cheriot insistiu em comprar e se dirigiu à pia. Cheriot se apoiou com os braços sobre o balcão tipo ilha da cozinha, adotando uma postura inclinada, e o observou. Sentia um pouco da pressão daquele olhar fixo, mas Yurij procedeu a preparar a comida como sempre.
Por via de regra não costumava consumir outras geleias de frutas. De vez em quando misturava geleia de laranja e manteiga de amendoim, mas agora não via nenhuma à vista. Yurij tirou duas fatias de pão, pôs sobre elas a alface lavada, pegou ao acaso um prato do armário, o enxaguou com água e colocou em cima umas tiras de bacon.
Cheriot, que tinha observado todo o processo, deixou escapar um gemido de agonia. Quando Yurij colocou o bacon no micro-ondas e fechou a porta, Cheriot se aproximou quase gritando.
— Como você pode aquecer bacon no micro-ondas?
Ao franzir o cenho e se virar, Yurij viu a expressão de horror no rosto de Cheriot. Estava exagerando.
— Com um minuto e vinte fica bem feito.
— O que você está fazendo não é comida.
— Isso é o cúmulo.
Cheriot tirou o prato do micro-ondas e empurrou Yurij para fora da cozinha. Yurij, que estava com fome, estendeu o braço para tirar-lhe o prato.
— Por que não para de se intrometer e cuida da sua própria comida?
— O que significa isso? Se vou cozinhar, será para dois.
— Então me deixe fazer os sanduíches.
— Isso não se chama sanduíche, mas aberração feita com pão não torrado e bacon cru.
— O pão já está assado, para que vai torrar…?
Então Cheriot segurou seus ombros com ambas as mãos. O deteve com firmeza, baixou ligeiramente a cabeça para se encontrar com seu olhar e lhe advertiu com grande seriedade.
— Por favor, saia da cozinha só dez minutos. Prepararei nesse tempo.
“Bah, olhe só.”
A pressão sobre seus ombros era forte, como se tivesse usado bastante força, e não podia se libertar facilmente. Se o tirasse de cima com determinação, o ambiente ficaria tenso, então Yurij engoliu saliva e negociou.
— Dez minutos.
— Enquanto isso tome um banho ou algo assim. Diferente de mim, parece que não teve oportunidade de se lavar.
Yurij lembrou algo que tinha esquecido. Era certo que ao chegar pensou que queria se banhar, então, embora lhe desagradasse obedecer a Cheriot, girou em direção ao banheiro. Enquanto refletia se havia toalhas quando revisou o banheiro antes, Cheriot falou como se lesse seus pensamentos.
— As toalhas que estão aqui precisam ser lavadas, então use as que tirei. Estão no sofá.
Ao ouvir isso dirigiu o olhar e viu uma toalha de praia grande sobre o sofá. Duvidou se não a teria tirado para nadar no lago, mas seu desejo de se banhar era maior e no final a tomou.
Ao entrar no banheiro, Yurij tirou primeiro a camisa que Cheriot lhe tinha dado. Era de bom material e tinha se preocupado o tempo todo que a vestia; ao tirá-la viu que na manga esquerda havia manchas de sangue. Não tinha trespassado o tecido exterior, mas se espalhara pela entretela e se viam bastante desagradáveis. Ver isso o fez perceber de verdade que estava ferido.
Ao refletir seu braço no espelho, viu uma ferida longa e vertical rasgada ao longo da trajetória da bala. Pela forma como tinha cicatrizado durante a noite, parecia que não precisava de pontos, mas sim requeria tratamento. Como até agora não tinha tido febre, provavelmente não se infectou, então Yurij, após pensar, molhou primeiro a roupa de Cheriot em água morna.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna