Capítulo 03.6
3. Cherry and Smoke
Sobre o dorso frio de sua mão, Yurij sentiu a textura da palma robusta de Cheriot. Seguindo a pressão suave que cobria sua mão, o calor corporal de Cheriot se sobrepôs. Aquele calor, como se se filtasse sob a pele, se estendeu através dos vasos sanguíneos. Naquele momento surgiu uma sensação estranha. Seu coração se contraiu com desagrado e depois se relaxou, acelerando seus batimentos por um instante.
De repente, sentiu muito calor.
— Se não as soltar, não te soltarei.
O sussurro que murmurava perto de seu ouvido lhe produziu coceira. Yurij, sem perceber, franziu os olhos e os fechou. O som lhe chegava perto demais.
— Vou continuar assim mesmo que as pessoas nos vejam.
Cheriot inclinou a cabeça e sussurrou a uma distância ainda mais próxima. Como devia enfrentar esse chantagem ridícula? Talvez devia fazer saber a esse tipo, que se mostrava audacioso e se aproximava tanto a pesar de temê-lo, que se baixasse a guarda poderia morrer. Em circunstâncias normais, o modo de Yurij seria adverti-lo golpeando um ponto vital para que recuasse. Mas tinha decidido não assustar a esse impertinente cliente.
No final, Yurij afrouxou a força na mão que segurava os sacos. Cheriot, que cobria o dorso da mão de Yurij, sentiu o movimento e envolveu com cuidado os dedos de Yurij. Diferente do aperto forte que o imobilizava, o roçar das pontas dos dedos lhe produziu uma coceira insuportável.
— Deixe-me carregar os outros sacos também.
Cheriot sussurrou como se o felicitasse. Ao notar que sua voz séria continha um toque de riso, parecia que seu humor tinha melhorado. Yurij, consciente das batidas incômodas que persistiam em seu coração, exalou um longo suspiro. Talvez por ter sentido calor de repente, estava tonto.
— Já chega.
Embora estivesse sob a sombra de Cheriot, Yurij não pôde suportar o calor e se afastou dele. Só ao dar os sacos e recuar alguns passos sentiu que voltava a viver. Talvez porque o calor corporal que emanava Cheriot era intenso demais, ao soprar o vento o alívio foi ainda maior. Com sua mão esquerda agora livre, Yurij ajustou os óculos de sol. Como se com esse gesto tentasse manter Cheriot à distância.
“De agora em diante, não me trate dessa maneira.”
Essa frase subiu até sua garganta, mas Yurij não a pronunciou. Sentia que talvez estivesse reagindo de forma excessiva diante de um comportamento que para Cheriot poderia não ter significado. Além disso, ao dizê-lo em voz alta teria que admitir sem remédio que ele mesmo tinha sido consciente do ocorrido.
“Por acaso ele se comporta assim com todas as pessoas que estima?”
Yurij já não conseguia entender Cheriot. Já de si era alguém incompreensível, mas após o ocorrido agora o era ainda mais. Embora tivesse dito que gostava de contato físico e que por isso tocava frequentemente os que o rodeavam, o roçar de sua mão sobre o dorso de Yurij não era algo que se fizesse nem mesmo entre amigos próximos. E muito menos no mundo de Yurij.
Se alguém com quem você vê diariamente se comporta assim o tempo todo, então…
Não poderia dar margem a mal-entendidos?
Uma pergunta não desejada entrou não na mente, mas no coração de Yurij.
“Então por isso você só tem parceiros sexuais.”
Após a pergunta repentina, surgiu certa resposta. Cheriot, com descaramento, tinha lhe contado informação desnecessária na primeira vez que se viram: que ele só tinha parceiros e que na verdade não saía com ninguém a sério. Yurij, habituado a ver homens brancos abastados que evitam se estabelecer e agem com leviandade, não tinha dado maior importância. Mas agora parecia que a atitude de Cheriot também tinha algo a ver.
Se alguém que tem parceiro anda por aí tocando nos outros dessa maneira, é inevitável que surjam problemas.
Yurij franziu os olhos com um toque de desprezo. Depois, como se quisesse apagar a sensação que Cheriot tinha deixado, esfregou o dorso da mão esquerda com rudeza contra a calça sem motivo algum. Observou as costas largas de Cheriot, que se afastava balançando os sacos para o carro. Cada vez que o via balançar os sacos, parecia que tinha o costume de agitar qualquer coisa que tivesse nas mãos.
“Tem mau costume com as mãos.”
Acrescentou uma crítica mais à sua avaliação de Cheriot. Embora ele mesmo nunca tivesse tido uma relação séria nem pensasse em ter, nas relações comprometidas que tinha observado era natural não deixar espaço algum para ninguém mais. O coração humano é invisível e por isso é fácil manejá-lo com leviandade, mas segundo como o trate pode criar milagres ou consumir tudo como uma chama terrível.
“Bem… devido à sua situação atual, ele mesmo terá aprendido a lição.”
Yurij lembrou então, com atraso, que Cheriot estava metido em um drama passional. Também percebeu que seu plano de chamar Alexei assim que chegassem tinha se desbaratado por culpa de Cheriot.
— Wolfie, temos muito que fazer. Também temos que comprar roupas para você.
Cheriot tinha chegado primeiro ao carro e estava sentado na borda do porta-malas. Yurij, que revisou os sacos de comestíveis ordenadamente colocados, lembrou do saco escondido sob eles, no fundo. A pistola. A caixa de carregadores. A faca militar dentro do bolso de sua jaqueta.
Cheriot estava sentado sobre as coisas que sempre tinha levado consigo Yurij Kiselyov. Sem saber sequer o que havia debaixo.
Ao ver esse rastro que lhe lembrava a própria condição que por pouco esqueceu, a mente de Yurij também se serenou. Seu interior, confundido pelo assalto de momentos cotidianos, encontrou uma calma fria como se lhe tivessem jogado água gelada.
Devia deixar de se deixar levar. Agradar alguém era diferente de ser arrastado por ele. Podia permitir as brincadeiras ou os toques, mas não era necessário compartilhar tudo com Cheriot. Sua tarefa era só mantê-lo a salvo durante dez dias.
— Parece que já comprou tudo o que precisava, então fique no carro. Eu comprarei o resto.
Seus delicados olhos verdes se abriram muito e mostraram decepção.
— Eu também quero ir. Como você está ferido no braço esquerdo, devo ajudá-lo a carregar.
— Não vou comprar tanta roupa a ponto de precisar das duas mãos, então fique aqui.
— Mas o carro é chato.
Cheriot, que estava sentado no porta-malas aberto, se levantou e se aproximou de Yurij. Sua sombra voltou a se projetar sobre ele, e Cheriot inclinou o tronco para se encontrar com o olhar de Yurij. Seus cílios avermelhados e loiros piscaram seguindo o rabisco de seus olhos, que se curvavam suavemente para baixo.
— Vamos juntos, sim?
A entonação arrastada e infantil fazia Cheriot parecer estar fazendo um gesto coquete. O dorso de sua mão esquerda sentiu uma coceira repentina, e a zona do esterno se congestionou como se um fogo o obstruísse, sufocando-o por um instante. Yurij sentiu uma irritação inexplicável para com aquele alfa que se comportava assim com qualquer um.
— Não estamos aqui de passeio.
Sua voz soou fria, fazendo parecer inúteis todos os seus esforços por se mostrar amável até agora, só porque sabia que Cheriot estava assustado. Mas se continuasse com esse tipo, não poderia fazer seu trabalho corretamente.
— Entendo que queira sentir proximidade comigo e por isso age ao seu bel-prazer, mas é realmente necessário se grudar de forma desnecessária? Lembre-se de que não sou sua babá.
Cheriot piscou diante do aviso gelado. Seus olhos verdes se agitaram ligeiramente, tão transparentes eram ao revelar suas emoções. Vê-lo o pôs de mau humor. Não tinha ideia de como tratar essa pessoa.
— Você tem razão.
Suas longas pálpebras baixaram sem energia.
— Como você me recebeu com mais amabilidade do que eu esperava, acho que por um momento esqueci.
Cheriot endireitou lentamente as costas e recuou sem forças. Sua atitude, como a de um cachorro repreendido por seu dono, surpreendeu um pouco Yurij. Até agora, por mais que lhe tivesse chamado a atenção, Cheriot sempre replicava e refutava, então pensou que não lhe importava. Não esperava que de repente mostrasse esse lado.
— Devo ter cuidado.
Após esse pequeno murmúrio, um silêncio incômodo caiu entre eles. Embora fosse uma medida necessária, agora que Cheriot realmente levava a sério suas palavras, Yurij se sentiu ainda mais incômodo que antes. Se tivesse que escolher entre a irritação que sentia quando Cheriot agia com descaramento e o desconforto que lhe produzia vê-lo desanimado e calado como agora… infelizmente, preferia a primeira.
No entanto, um alerta interior lhe dizia que se continuasse cedendo ao que Cheriot quisesse, alguma regra que tinha construído ao longo de sua vida poderia se desmoronar. Então em vez de consolá-lo, Yurij mencionou o que devia fazer.
— Será melhor que informe mais uma vez sua localização e situação aos seus guarda-costas. Enquanto isso, eu também vou fazer um recado e volto.
Yurij tirou seu telefone para chamar Alexei aproveitando esta oportunidade, e se dispunha a ir quando a voz baixa de Cheriot ressoou atrás de suas costas.
— Quanto tempo vai levar?
Seus passos, que se afastavam sem hesitar, pararam diante de seu chamado. Quando Yurij se virou em silêncio, Cheriot tinha baixado um pouco a máscara com o dedo indicador e o observava.
— Diga a hora, como fez no posto. Assim não terei que esperar sem saber.
Media meio palmo mais que ele e, embora sua compleição fosse similar, sua força era descomunal. Mas ao vê-lo falar assim depois de deixar de fazer palhaçadas, Cheriot parecia quase um jovem frágil. Para Yurij, que só tinha conhecido como destruir e afastar o que se agarrava a seus tornozelos, Cheriot — que em vez de fugir se aproximava pedindo que o protegessem — era exasperantemente inocente.
Era como ver um animal que, se o deixassem sozinho, morreria sob o rifle de um caçador.
Igor costumava sair para caçar com seus subordinados. Para ensinar a seu filho Ivan a caçar animais, às vezes também chamava Yurij às florestas que possuía em Saratov. Lá ninguém mais podia portar uma arma; só o pai e o filho Volkov empunhavam rifles para começar a caçada.
A caçada que se realizava três vezes ao ano, como um ritual, às vezes era um dia dedicado unicamente a caçar animais. Outras vezes se convertia no dia de lidar com covardes que tentavam fugir ou com traidores. Nas florestas de Igor jaziam enterradas dezenas de esqueletos esbranquiçados que nem sequer puderam gritar. A mãe de Yurij também estava enterrada lá.
Cada vez que pisava na terra onde sua mãe estava sepultada enquanto atendia a Igor, Yurij via inúmeros animais incapazes de perceber a morte. Quando o cano do rifle apontava para essas criaturas que, após aguçar as orelhas, mostravam confiantemente seu lombo, Yurij sentia o impulso de gritar e afugentá-las.
Agora sentia o mesmo.
Ao fechar o punho com a mão esquerda, uma dor lenta ascendeu por seu braço ferido. A sensação aguda, como se lhe escavasse o músculo, despejou sua mente. Quanto mais Cheriot se aproximava dele sem reservas, mais desejava Yurij dizer-lhe que estava agindo mal.
— Trinta minutos.
“Mas como ele claramente disse que me odeia…”
Yurij lembrou de Cheriot no hotel, chamando-o de lixo e dizendo que nem queria falar com ele. Lembrou também que Cheriot tinha dito que, embora agora lhe falava sem problema, na verdade o fazia porque tinha medo; que só agia com proximidade porque queria se sentir seguro enquanto estivessem juntos.
Portanto, tudo o que Cheriot mostrava era um engano. Só era um adormecimento dos sentidos, como o açúcar. O desprezo por pessoas como ele, subjacente no fundo, não desapareceria. Ao pensar que até o próprio Cheriot se comportava assim para se enganar, a mente de Yurij se aclarou.
Assim deve ser. Ele mesmo age como se estivesse bem para sentir menos medo. Mesmo se trata assim as pessoas de seu entorno normalmente, comigo o significado deve ser diferente. Só age assim momentaneamente porque não tem ninguém mais em quem confiar.
“Então, só devo manter o centro. Posso aceitar, mas não preciso me aproximar. Depois, ele seguirá seu próprio caminho.”
Yurij anunciou o tempo com mais frieza que no posto. Fez como se não soubesse que era um prazo generoso para Cheriot não esperar em vão, passou por ele e colocou os sacos de comida restantes no porta-malas. O chão negro ficou completamente coberto. Só Yurij saberia o que havia debaixo.
— Entre no carro.
Cheriot brincou com as chaves do carro e depois pressionou o botão de destravar. Após o som mecânico das portas se abrindo, Cheriot ajustou a máscara. Ao ver que entrava no banco do motorista, Yurij desviou o olhar e dirigiu seus passos para o centro comercial. Ignorou que as costas de Cheriot, capturadas em seu campo visual antes de se virar, se viam especialmente lamentáveis.
* * *
Apesar de ter passado quase toda sua vida em solidão, ao se separar de Cheriot e entrar no centro comercial, Yurij sentiu pela primeira vez em muito tempo o que era ficar sozinho. Não sabia se era porque as situações que tinha enfrentado nesses dois dias só tinham sido experiências novas, mas não era um sinal agradável. Ignorando a sensação de solidão apesar do burburinho ao seu redor, Yurij se apressou a fazer o que tinha que fazer.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna