Capítulo 03.5
3. Cherry and Smoke
Diferente de seu costume de agir após pensar brevemente, sua mente estava tão revolvida que lhe custava dar os passos. Então Cheriot agarrou seu pulso com decisão. Yurij o olhou com intensidade diante do contato repentino, mas seus olhos estavam ocultos atrás dos óculos de sol.
— Vamos rápido, temos muito que fazer.
— Já entendi, então me solte.
— Se você não está se movendo.
Sem lhe dar oportunidade de negar, Cheriot começou a correr como uma criança, sem soltar seu pulso. Yurij tentou liberá-lo, mas Cheriot o segurava com força e não era fácil. Em poucos passos chegaram à entrada do supermercado. Cheriot pegou um carrinho perto das portas automáticas, virou-se para Yurij e disse:
— Esqueci de te dizer uma coisa.
— Por acaso é uma desculpa por seu hábito de tocar nas pessoas sem permissão?
— Não. Já te disse claramente que gosto de tocar. Por isso não vou me desculpar.
Cheriot se inclinou sobre o guidão do carrinho, apoiou seu longo tronco e sorrindo o olhou de baixo.
— Por que você tem a pele tão branca?
Sorrindo com malícia, Cheriot empurrou o carrinho adotando uma postura típica de adolescente e acrescentou:
— Por acaso você sabia que meu tipo ideal de infância era um lobo branco?
As portas automáticas do supermercado se fecharam de repente diante dos olhos de Yurij. Os fatos que o tinham irritado — desde o contato excessivamente íntimo até ter deixado os óculos de sol em seu carro sem permissão — desapareceram com o som das portas ao se fechar. Agora, em sua mente, só restavam as palavras que Cheriot lhe tinha lançado.
“Tipo ideal.”
Não era a primeira vez que ouvia esse termo. Os ômegas com quem tinha se encontrado sem sentido nos ruts sempre balbuciavam bobagens sobre que seu tipo ideal era “um cara mau”, e se penduravam em seu braço. Alguns ômegas com quem se encontrou algumas vezes mais, diziam que seu tipo ideal era alguém bonito e perguntavam qual era o seu.
Algumas pessoas tinham mostrado interesse nele ao longo de sua vida, mas dado que ele nunca pôde corresponder, Yurij pensava que talvez ele mesmo não tivesse um tipo ideal definido. Afinal, o tipo ideal era uma fantasia idílica, uma mera atração passageira que se evaporava sem força ao conhecer a realidade de uma pessoa.
“Mas um lobo branco…”
Aquela voz risonha que declarava como tipo ideal um ser que nem sequer era humano permaneceu nos ouvidos de Yurij. Com esse comentário, Cheriot tinha passado por alto a situação desconfortável que acabavam de viver. Não negava ter visto seu corpo, mas ao evitar falar da cicatriz, mergulhou Yurij numa sensação estranha.
Deve ter lhe parecido repulsivo.
Com certeza também sentiu que confirmava o que já sabia.
Lembrando dos olhos de Cheriot, que dizia odiar e temer os criminosos ao mesmo tempo, Yurij se perguntou por que teria dito isso. Era por educação? Não, não parecia isso. Se fosse no início, quando usava uma linguagem formal de maneira meticulosa, o teria considerado apenas palavras vazias.
“Você não sente horror?”
Yurij continuou se perguntando. A reação fora do comum que tinha presenciado fazia com que não pudesse deixar de pensar no comportamento de Cheriot. Mesmo os ômegas de Saratov que sabiam que ele era mafioso faziam cara de surpresa na primeira vez que viam seu corpo nu.
Todos eles, perspicazes, se cuidavam para não verbalizar, mas alguns, mais descarados, chegavam a estender a mão e tocar suas costas, para depois afastá-la tardiamente, talvez assustados. Outros, absortos na calma posterior ao ato, meio atordoados, lhe tinham dito coisas como “suponho que você viveu uma vida tão intensa como dizem os rumores”.
Yurij permaneceu quieto, segurando em suas mãos as ações que Cheriot tinha deixado para trás, sem saber o que fazer com elas. Embora pudesse considerá-las frivolidades e jogá-las no chão, as palavras que Cheriot lhe tinha dirigido pareciam uma fruta fresca e suculenta demais.
Assim ficou, imóvel, até que Cheriot — que tinha entrado no supermercado com o carrinho — voltou à sua proximidade. Aproximou-se da janela de vidro logo ao lado onde Yurij estava e tocou — toc-toc — bateu no vidro com os nós dos dedos. Ao dirigir o olhar para o som que provinha de seu lado, viu Cheriot lá dentro. Apoiado no carrinho, Cheriot o olhou de baixo como um garoto jovem, baixou a máscara um momento e com a forma de sua boca disse:
“Venha rápido”
Foi o que Yurij leu.
“Estou te esperando”
Não sabia se era correto.
“Wolfie”
Yurij observou o movimento de seus lábios, que pareciam sussurrar, e lentamente entrou no supermercado. As portas automáticas se abriram com naturalidade, como se tivessem esperado por ele.
— Ficou parado porque gostou demais do meu flerte?
Cheriot, que o esperava na entrada, subiu a máscara ao vê-lo, entrecerrou os olhos sorrindo e perguntou. Diante da brincadeira maliciosa e absurda, Yurij soltou uma risada irônica sem querer. Mais que vontade de batê-lo, só lhe pareceu inacreditável.
— Não se ache só porque estou te tolerando.
No entanto, Yurij lançou um conselho moderado porque intuía que se o deixasse, Cheriot escalaria até o limite de sua paciência. Cheriot franziu os lábios num gesto de despeito e girou o carrinho com um elegante —chrrrr— de meia-volta.
— Se fosse qualquer outra pessoa, estaria se ruborizando e grudando em mim.
— Você fala tanto que estraga até o que poderia funcionar.
— Como disse antes, diante dos outros sou diferente.
Enquanto cruzavam essa conversa, começaram a percorrer o supermercado. Já na seção de frutas e verduras, localizada no extremo esquerdo da entrada, Cheriot reduziu seu passo. Apesar de parecer alguém com gostos seletivos, examinava com cuidado e colocava no carrinho abacates, tomates e demais. No carrinho foram parar coisas que Yurij jamais teria considerado comprar: couves-de-bruxelas, coentro, brocoli e similares.
— Você realmente vai comer tudo isso?
— Vou te ensinar que além do sanduíche existem outros alimentos, Wolfie.
Parecia uma alusão ao comentário sobre os sanduíches de antes. Como Yurij não via nenhum problema em sua dieta, sentiu uma leve rejeição diante das palavras de Cheriot. Pegou uma alface de coração comprido e a colocou no carrinho. Depois disse em voz baixa:
— Cale a boca.
— Oh, você ficou com vergonha porque zombei de você?
— Não. Disse para calar a boca porque você é barulhento.
— Ao fazer as compras precisa-se de uma discussão séria entre as partes.
Ignorando a ordem de calar a boca, Cheriot seguiu tagarelando.
— Em vez desta, a alface americana é mais crocante e tem melhor sabor. Serve também para salada, melhor comprarmos essa.
— Que alvoroço por comprar uma simples alface…
Justo quando Yurij ia dizer para ele não exagerar, a alface que ele tinha pegado ao acaso voltou ao seu lugar e em seu lugar entrou no carrinho uma alface romana verde e redonda.
— Há mais alguma coisa que queira comer? Vendo sua técnica para escolher alface, me dá a impressão de que vai precisar da minha ajuda. Se houver algo que queira preparar, eu escolho os ingredientes.
— Não há nada.
Yurij respondeu com expressão de desinteresse. Cheriot olhou ao redor como se decepcionado e finalmente moveu o carrinho para outro corredor.
Cheriot encheu o carrinho com tanta coisa que alguém podia se perguntar se precisava tanto para apenas dez dias. Cereais de arroz inflado sabor manteiga de amendoim, granola, leite, ovos, bacon, filé de boi, biscoitos salgados, pão de forma, bagels, Coca-Cola, água, etc.
Além de tudo aquilo, Yurij, que observava com um fastio interno como ele pegava detergente e até o pano de prato, dizendo que ia limpar a poeira, abriu a boca ao ver que parou no canto dos doces em vez de ir para o caixa.
— Não pense que pode adicionar mais alguma coisa, não é?
— As gelatinas e os chocolates são pequenos, com certeza cabem. Não acha?
Cheriot, que tinha pegado um pacote de batatas sabor ketchup, olhou para os sacos de batatas fritas e perguntou. Yurij enrugou a testa ao ver as batatas de cor vermelha.
— Você realmente come essa porcaria? Pensei que só compravam os que acabaram de chegar ao Canadá.
— Você não sabe o quanto são gostosas. Com três por dia, a perfeição é possível.
Cheriot pegou depois dois saquinhos pequenos de ursinhos de gominha como os que comia no carro, uma gelatina em forma de minhoca e caramel popcorn. Após uns trinta minutos que o deixaram mentalmente exausto, Yurij optou por calar e se desentender.
— Quanto dinheiro em espécie você tem? A olho nu parece custar o mesmo que seu quarto de hotel.
— Você não faz muitas compras, hein, Wolfie? A menos que vá a Whole Foods ou Costco, não sai tanto.
Ao ver a expressão cética de Yurij, Cheriot finalmente empurrou o carrinho para os caixas e afirmou com segurança:
— Acho que será um pouco mais de duzentos dólares.
Segundo o critério de Yurij, que nunca tinha gasto mais de cinquenta dólares em compras, a pilha de coisas no carrinho parecia superar em muito os quinhentos.
— Bem, eu diria que será mais.
— Me concede um desejo se eu acertar?
Yurij tensionou o entrecenho.
— Por que eu faria isso?
— É uma aposta.
— Eu não aceitei.
Cheriot sorriu só com os olhos. Embora a máscara o ocultasse, sem dúvida nas comissuras de seus lábios se formariam covinhas pelo sorriso. Sem perceber, Yurij já conseguia evocar mentalmente a forma como Cheriot sorria. Soube que seria assim depois de vê-lo sorrir o dia inteiro enquanto estavam juntos.
A aparência de Cheriot — com gorro e máscara — e a de Yurij — com óculos de sol — parecia um tanto suspeita diante de um caixa, então se dirigiram aos caixas de autoatendimento. A compra desmedida de Cheriot exigiu seis sacos de papel grossos, e o preço…
Foi de 223 dólares.
Yurij olhou para a cifra com expressão de incompreensão. Ao seu lado, Cheriot soltou uma risada baixa e depois lhe estendeu 300 dólares enquanto pedia:
— Agora que penso, esqueci de comprar inibidores. Desculpe, poderia pagar primeiro e me esperar na entrada?
— Vai andar sozinho?
— Quando estivemos juntos não havia nenhuma pessoa suspeita, não é?
Yurij pegou o dinheiro. Era verdade, mas também não havia razão para se separarem.
— Te espero aqui.
— Wolfie, esta é a primeira vez na minha vida que compro inibidores.
— E daí?
— Não quero que veja… algo que fira o orgulho de um alfa.
Era uma completa bobagem.
Diante de tamanho disparate que não merecia resposta, Yurij começou a pagar em silêncio. Cheriot, após agradecer, dirigiu-se à farmácia localizada no extremo oposto do supermercado. Yurij observou um momento como Cheriot se aproximava da farmacêutica que atendia perto da seção de medicamentos de venda livre e lhe perguntava algo, depois saiu do supermercado.
Cheriot saiu dez minutos depois. Yurij reprimiu interiormente o comentário de que levou muito tempo para comprar um simples inibidor, e se afastou da janela onde estava recostado. Cheriot se aproximou balançando um pequeno saco de papel branco e estendeu a mão a Yurij.
Pensando se por acaso tentaria agarrar seu pulso outra vez, Yurij franziu o entrecenho e recuou. Então Cheriot disse:
— Os sacos, vamos repartir a carga.
— …Não precisa.
Como já os carregava, não lhe parecia necessário o trâmite de passá-los. Mas Cheriot se aproximou de repente e se grudou ao seu lado. Talvez porque já passavam das três da tarde e a posição do sol tinha mudado, sua sombra caiu sobre Yurij.
— Você está ferido no braço esquerdo.
Diante do comentário inesperado, Yurij franziu os olhos atrás dos óculos de sol. Enquanto pensava a que se referia, lembrou a parte superior do braço onde a bala o tinha roçado. A dor que sentiu ao dirigir logo após o roçado da bala se atenuou sem que percebesse. Talvez por ser uma sensação familiar, a esqueceu com naturalidade.
— Como é que…?
Yurij começou a perguntar e depois calou. Claro, tinha mostrado o torso nu antes, então deve ter visto a ferida.
— Por que diabos você escondia isso? A julgar pela crosta que se formou, parece que sangrou muito.
Cheriot o olhou de cima e sussurrou em voz baixa. Seus olhos verdes, que tinham perdido o sorriso frívolo de antes, observavam Yurij com seriedade. Com uma sensação próxima à repreensão, Yurij ergueu o olhar por cima dos óculos de sol.
— Não é assunto seu.
Achava incômodo que alguém lhe falasse de suas feridas, pois fazia muito que não acontecia. Como Cheriot só parecia sentir vergonha ao ver seu corpo, Yurij não imaginou que tivesse notado os ferimentos. Agora compreendia que tinha feito como se não as visse. Tinha sentido que Cheriot era sincero ao expressar suas emoções, mas surpreendentemente também tinha talento para ocultar coisas.
— Como você se machucou por minha causa, claro que é assunto meu.
Cheriot refutou com firmeza e depois lhe tirou os sacos que Yurij segurava com o braço esquerdo. Yurij, que não queria dá-los porque se sentia tratado com condescendência, dobrou os dedos. Então Cheriot cobriu sua mão com sua palma grande e firme.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna