Capítulo 03.4
3. Cherry and Smoke
Naquele olhar havia desejo.
Tinha um matiz similar ao anseio que um alfa sente instintivamente por um ômega. A intensidade ao cobiçar alguém que se quer possuir, o puro desejo animal de se atirar sobre o outro… Através daquele olhar que misturava tudo isso, Yurij sentiu que este homem o percebia como um objeto “sexual”.
Os comentários sobre sua boa aparência desde o primeiro dia, o apelativo de bonito, o sussurro de que gostava, o constante tagarelar sobre que era seu tipo… por mais que ouvisse, não tinha sentido real até agora, até este instante em que lhe trespassou a pele.
No ar pegajoso que se aderia, Yurij agarrou a camiseta por reflexo. Mas Cheriot não soltou a peça facilmente. No instante, sua mão exerceu força; ao sentir a tensão de ambos puxando, Yurij sentiu arrepios nas costas. Sentiu um calafrio e veio coceira na coluna.
Um maldito alfa estava se atrevendo a olhá-lo com aqueles olhos.
Era óbvio que deveria sentir repugnância, uma rejeição instintiva a atacar.
Em vez de sentir isso, o corpo de Yurij se encheu de uma tensão inexplicável. Todos os seus nervos se puseram em alerta e os feromônios de Cheriot lhe chegavam com uma clareza inusual. No instante em que o percebeu, sentiu-se tão estranho que Yurij soltou a camiseta. Cheriot, ao mesmo tempo, também abriu a mão que segurava a peça.
Plaf. A camiseta caiu no chão emitindo um leve som de atrito. Ao desaparecer o fino tecido que separava ambos, o torso nu de Yurij ficou exposto por completo à vista de Cheriot. Por todo o corpo de Yurij se estendiam cicatrizes de todo tipo, e especialmente no torso as marcas branqueavam sobre a pele.
Eram cicatrizes antigas acumuladas, que nem mesmo por cortesia poderiam ser consideradas agradáveis à vista. Havia zonas onde a nova pele, que tinha crescido tardiamente, preenchia as marcas de branco, como se tivessem remendado e unido pedaços de pele feitos em pedaços. Sua tez era bastante pálida, então de longe poderiam passar mais despercebidas, mas de perto resultavam impossíveis de ignorar.
Eram a prova de que sua vida era uma sucessão de tempos forçadamente enfiados para prolongá-la.
Ao expor pela primeira vez diante de alguém as marcas de sua vida, o que primeiro surgiu foi uma vergonha insuportável. Mas, por mais estranho que parecesse, também sentiu uma libertação sutil e incompreensível. Afinal, Cheriot era alguém que já intuía que classe de pessoa era ele, e não ia se decepcionar agora por sua culpa.
— …Sujou. Vou te dar outra.
Enquanto Yurij, com indiferença, antecipava a repulsa que Cheriot devia sentir, este, que tinha guardado silêncio, falou. Sua voz, próxima do registro grave, desta vez estava mais baixa, diferente de antes, quando se elevara. Yurij piscou sobressaltado por aquele tom profundo e velado. Se sobrepôs com o olhar intenso que tinha sentido um momento antes.
— Não, vou usar assim.
— Não. Vou trocar.
Para impedir um ato desnecessário, Yurij se agachou. No instante em que se incorporou com a roupa na mão, sentiu que o olhar de Cheriot se pousava em suas costas curvadas. A ferida nas costas, que parecia uma cicatriz de queimadura, na verdade se criou ao chamuscá-lo parcialmente com fogo, e também havia feridas cortantes feitas com um facão seguindo a forma de uma cruz. Eram obras que Igor e Ivan tinham criado para ele com suas próprias mãos, como preço pelas crenças tolas que seus pais tinham abraçado.
De repente, suas mãos esfriaram. Alexei provavelmente nunca tinha visto essas cicatrizes. Depois que sua mãe morreu e essas marcas apareceram em suas costas, Yurij nunca tinha mostrado seu corpo nu a ninguém. Devido aos inúmeros pensamentos enredados nas cicatrizes, que se atolaram em sua garganta como uma bola de pelo impossível de engolir, fazia muito que nem mesmo ele as olhava.
Mas Yurij apertou os dentes. No instante, o sangue lhe afluiu à cabeça até marcar-lhe as veias nos olhos, mas não era tão infantil para reagir a suas próprias recordações e mostrar suas emoções a outros. Quanto mais se alterasse, mais pareceria que admitia seus pontos fracos. Yurij fechou a boca com tanta força que doeu-lhe a mandíbula, e depois se endireitou lentamente, antecipando o olhar consternado de Cheriot, que o estava observando de cima.
— Vamos fazer as compras, então.
Ao mesmo tempo que se erguia e endireitava a postura, Cheriot falou. No rosto de Cheriot, que o olhava fixamente, havia uma expressão diferente da que Yurij tinha imaginado. Seus olhos mostravam uma consternação como se tivesse presenciado algo que não ousava nomear. Em seus lábios, que diziam “vamos fazer as compras”, desenhava-se um sorriso suave e tranquilizador.
Por um momento, Yurij não pôde dizer nada. Ao contrário do sereno Cheriot, foi o próprio Yurij quem sentiu que ia franzir o cenho e com dificuldade fechou a boca para eliminar toda expressão. Aquela emoção, que não era pena nem desprezo, mas algo além, tinha uma forma que Yurij via pela primeira vez em sua vida.
— De acordo.
— São 2 da tarde, então se nos apressarmos poderemos comprar roupa e fazer as compras. Neste lugar tudo fecha às 4.
— …De acordo.
Cheriot, sem se afastar, enumerou as tarefas pendentes enquanto olhava para Yurij. Yurij não pôde dizer nada mais que responder em voz baixa. Sentia a garganta obstruída. Parecia que era porque o interior da casa estava muito seco.
— Vou ligar o carro e prepará-lo. Troque-se devagar e saia.
Cheriot esboçou um sorriso e depois deixou Yurij a sós. Só quando viu que Cheriot, que se retirava com atitude madura, fechava a mala que tinha deixado aberta fora e a lançava para dentro com discrição, Yurij relaxou a tensão de seu corpo, que tinha ficado rígido.
Um suspiro leve se escapou. Com olhar confuso, contemplou a camisa de Cheriot que segurava em sua mão, e como não conseguia pôr suas ideias em ordem de nenhum modo, apertou os olhos com força.
“…Achei que ele fugiria.”
Devia ter sido um ano mais ou menos depois que as cicatrizes de seu castigo tivessem cicatrizado. Era verão, e fazia um dia inusitadamente quente para Saratov, com mais de 85 °F. Quando voltou depois de trabalhar, seu corpo estava manchado de sangue. Enojado com o interior do carro, que cheirava intensamente a sangue, Yurij o parou junto a um pequeno rio que via no caminho de volta a Saratov. Tirou a roupa e a lavou várias vezes na água, e o sangue fluiu rio abaixo seguindo a corrente.
O sangue em sua roupa e corpo foi se clareando até desaparecer, mas o cheiro de sangue que chegava ao seu nariz não fazia mais que se intensificar. Enquanto pensava que devia voltar, chegou aos seus ouvidos o som de passos. Parecia que uns jovens de um vilarejo próximo tinham vindo se banhar no rio.
Os rostos que encontrou ao girar a cabeça eram todos juvenis. Agora, olhando para trás, deviam ter uma idade similar à sua, uns vinte anos, mas naquele momento Yurij pensou que os jovens que apareceram na margem eram muito mais jovens que ele. Parecia que era porque todos eles pareciam carecer por completo de preocupações e mágoas. Embora, claro, quem no mundo não tem suas próprias circunstâncias?
Ao descobrir Yurij, os jovens no início mostraram expressões alegres e correram para ele, mas logo uma das garotas parou de repente. A alegria de encontrar alguém de idade similar desapareceu, e no rosto da jovem surgiu um pálido terror. O medo se contagiou no momento, e todos os que se aproximavam dele pararam no local. Seus olhares se dirigiam, unânimes, para as costas de Yurij.
Enquanto Yurij permanecia plantado olhando-os, os jovens deram meia-volta. As costas dos rapazes, que já tinham tirado a roupa pelo calor, diferente da de Yurij, eram lisas e lindas, sem uma única cicatriz. A luz do sol que se filtrava sobre sua pele reluzente e molhada brilhava como clarões sobre a água.
Até que aqueles rapazes desapareceram, Yurij ficou de pé contemplando fixamente aquelas costas imaculadas. Tanto tempo que o sol que caía a prumo se tornou tão abrasador que chegou a mareá-lo.
O cheiro de sangue ainda flutuava perto, e Yurij caminhou em silêncio para o carro que tinha deixado estacionado, e começou a se dirigir para a cidade à qual pertencia.
* * *
Dado que conhecia bem a zona, Cheriot dirigiu até o destino sem precisar de navegador. Cantarolava enquanto dirigia, com o braço esquerdo apoiado na borda da janela aberta. Sua atitude despreocupada harmonizava com a paisagem que se estendia à sua esquerda.
— Por estes bairros não há serviços como DoorDash ou Skip, então tem que cozinhar. Os restaurantes também fecham cedo, então tem que beber em casa. A verdade é que às vezes faz falta.
Cheriot continuou falando embora Yurij não respondesse. Era a primeira vez que Yurij pensava que sua loquacidade era uma sorte. A visão da cicatriz tinha revolvido sua mente mais do que previa, e isso o tinha deixado um tanto desequilibrado.
— Wolfie, você sabe cozinhar?
Cheriot perguntou de improviso, usando um apelido. Yurij franziu ligeiramente o cenho ao ouvir, mas não estava com ânimo para apontar isso.
— Mais ou menos.
— Mmm, é que cada pessoa tem seu próprio critério para esse “mais ou menos”. Diga-me quais pratos sabe preparar.
— Sanduíches.
A resposta concisa foi recebida com um breve silêncio por parte de Cheriot.
— E além disso?
Reanudou a pergunta após a pausa.
— Acho que com saber aquecer produtos instantâneos é suficiente.
Por via de regra, sua dieta se limitava a comprar comidas preparadas, preparar sanduíches com presunto e alface, ou passar manteiga de amendoim com geleia. Seu pai não tinha talento para cozinha, então quando comiam juntos sempre compravam comida. Ocasionalmente, quando Alexei lhe trazia algum prato preparado por Valery — quase como um presente — provava algo de comida russa.
Havia um único prato mais que sim podia preparar. A receita do medovik que fazia com sua mãe tinha ficado gravada em sua memória apesar do tempo transcorrido; mesmo agora poderia fazê-lo se pedissem. Mas os doces requeriam muito tempo, e o medovik em particular era tão delicado que não era algo que se pudesse preparar facilmente.
— Parece que vou ter que ser o cozinheiro designado. Isso é um assunto sério.
— Tão insuficiente é um sanduíche?
— Não fornece os nutrientes necessários!
— Contém carboidratos, proteínas e fibras. Não é suficiente com isso?
Cheriot soltou uma risada zombeteira pelo nariz. Bem, a comida não era um tema crucial para Yurij, então decidiu deixar Cheriot fazer o que quisesse. Enquanto isso, chegaram a um centro comercial onde havia um supermercado e uma loja de bebidas juntos. Tinham dirigido uns vinte minutos desde a cabana onde ficavam, então a distância não era pouca.
— Bem, chegamos. Vamos descer.
— Espere.
Yurij deteve Cheriot, que tentava sair correndo assim que o carro parou. Ao agarrar bruscamente o cinto de segurança, Cheriot se inclinou para trás e ergueu a cabeça. Ficou praticamente reclinado sobre Yurij, olhando-o de cabeça para baixo. Yurij franziu os olhos diante daquele olhar. A expressão inocente, com aqueles cílios bonitos piscando, lhe parecia absurda.
— O gorro. A máscara.
— Ah, certo.
Cheriot abriu muito os olhos como se tivesse esquecido completamente. Sem se incorporar totalmente, observou fixamente o rosto de Yurij e disse:
— Você também precisaria de uns óculos de sol, por causa dos hematomas no rosto.
— Não é necessário.
— Tenho um par, empresto.
Dito isso, Cheriot se incorporou de repente e estendeu a mão para o porta-luvas. Yurij franziu o cenho, perguntando-se o que estaria fazendo, e observou como extraía um estojo de óculos de sol. Pelo que lembrava, esse objeto nunca tinha estado ali.
— O que é isso?
— Deixei aqui para usar ao dirigir.
— E por que o colocou no meu carro…?
Yurij franziu o cenho, irritado por aquela intrusão em seu espaço. Mas Cheriot colocou-lhe os óculos de sol e tapou-lhe a boca com o gesto.
— Ficam bem em você. Claro, quando alguém fica bem com máscara, fica bem com qualquer coisa.
Cheriot colocou a máscara que tinha trazido e depois pôs um boné de beisebol. Um tufo de seu cabelo vermelho-dourado apareceu em sua nuca. A olho nu, ninguém poderia reconhecê-lo. Mas talvez porque aquela imagem do vermelho intenso já se tivesse gravado em Yurij como “Cheriot”, uma inquietação passageira o assaltou: alguém poderia reconhecê-lo só por ver aquele cabelo vermelho-dourado bonito. Embora mesmo se o fotografassem, nada seria seguro…
“Enfim, se eu estiver atrás, deve estar tudo bem.”
Os óculos de sol de Cheriot ficavam bem em Yurij, talvez porque tivessem um tamanho de rosto similar. Embora o tenha irritado que ele os tenha colocado à força, sua sugestão fazia sentido, então ambos desceram do carro. Assim que saíram, Cheriot, eufórico, se grudou a Yurij como querendo avançar rápido. Seus gestos despreocupados, como se já não lhe importasse em absoluto a terrível cicatriz que tinha visto antes, fizeram Yurij fechar a boca. Continuava confuso.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna