Capítulo 03.17
3. Cherry and Smoke
O vento soprou travesso, enrugando por um instante a água do lago antes de fugir. Seguindo seu rastro, as árvores se balançavam e o feromônio de Cheriot roçou a ponta de seu nariz. Era tão intenso que parecia que o ar se impregnava de seu aroma. Engolindo o feromônio denso como para se embriagar, Yurij abriu a boca. Ficar parado lhe dava vertigem demais.
— …Então.
— Sim?
— Como é a segunda etapa do amor?
— Você acredita no que digo?
Cheriot sorriu radiante, como se estivesse sinceramente contente. Yurij, que ia responder que não exatamente, calou ao ver seu sorriso. Não queria que aquele sorriso se desvanecesse.
Com um sorriso branco desenhado sobre seu rosto brincalhão, Cheriot apontou o lago junto ao caminho.
— Não é nada de outro mundo. É tão simples como se atirar lá dentro.
Seguindo o braço branco e longo que apontava, o olhar de Yurij também se dirigiu para o lago. Embora a paisagem não pudesse mudar de um dia para o outro, o lago brilhava com um azul mais reluzente que ontem. A água longa do lago, que fluía como um rio, era tão profunda que não se via o fundo, mas por alguma razão provocava em quem a olhava um impulso de se atirar.
Seria porque fazia bom dia.
Como dizia Cheriot, hoje realmente fazia muito bom tempo.
— Mergulhar por completo. Até se empapar todo o corpo.
Assim, junto ao ouvido de Yurij, que contemplava o lago, ressoou um sussurro. Diante da voz que recitava como se tivesse percebido seu impulso, Yurij o olhou.
Cheriot, observando um ponto distante, mantinha as comissuras erguidas em silêncio. Sua expressão, como se pensasse profundamente em algo, era como a de alguém que tinha voltado ao passado. Seu pai também punha essa cara quando recordava sua mãe. Por alguma razão, aquele perfil de Cheriot não lhe agradava.
— Você fala como alguém que já se apaixonou.
Diante de suas próprias palavras, cujo propósito nem ele mesmo entendia, Yurij franziu o cenho mesmo com os óculos de sol postos. Cheriot soltou uma risada baixa e deu um passo leve com os pés calçados em sandálias.
— Parece?
— Sim.
Yurij fechou a boca lentamente, recuperando sua expressão habitual. Disse que não sai com ninguém a sério. Que só consegue parceiros e pronto.
E com tudo, se atreve a falar assim.
O processo do amor descrito por alguém que não ama era tão convincente que por um momento Yurij acreditou que talvez Cheriot sim tinha experimentado esse amor. Sentia uma leve irritação diante da imagem contraditória de Cheriot.
— Infelizmente, não houve nenhuma ocasião assim. O amor verdadeiro é algo que só podem fazer as pessoas valentes.
Com suas seguintes palavras, o mal-entendido se dissipou. A emoção que se tinha enredado por um momento, como as alças da bolsa retorcidas em espiral, voltou ao seu lugar. Que Cheriot tivesse amado apaixonadamente alguém ou não, não tinha nada a ver com ele…
— Mesmo assim, será melhor que você tenha cuidado.
Yurij acrescentou um pequeno aviso.
— Se você se apaixonar por um ômega à primeira vista, lhe dará muitas dores de cabeça.
Embora não tivesse acontecido no passado, ao lembrar o que Cheriot tinha dito antes, não sabia quando estouraria um incidente. Diante da reprimenda de Yurij, Cheriot bateu levemente com o dedo indicador na ponta de seu boné de beisebol. A cobertura se balançou suavemente ao contato de sua mão.
— Então terá que me vigiar bem para que eu não me distraia.
Yurij soltou uma risada forçada. Embora soubesse muito bem que não há nada tão impossível como controlar as emoções humanas, a atitude de Cheriot pedindo que o cuidasse não lhe desagradava totalmente.
— Contanto que você seja obediente.
— Que estranho. Não tenho me comportado muito bem até agora?
— Não tenho certeza.
Diante da resposta descarada, Yurij encolheu os ombros.
— Acho que você fez o que lhe deu na telha.
— Parece?
— Sim.
— Então parece que nos damos bem. Para ter feito o que me deu na telha, os resultados não foram ruins até agora.
Não tinha esperado essa resposta. Os passos de Yurij diminuíram a velocidade por um instante. Embora tivesse pensado que Cheriot já não lhe teria medo, acreditava que esse era precisamente o limite de sua relação. Porque, embora Cheriot chegasse a estar seguro de que Yurij não o mataria, isso não significava que Yurij Kiselyov deixasse de ser do tipo de pessoa que Cheriot detestava.
Mas Cheriot falava como se sua relação pudesse avançar além de um simples nível de não-hostilidade.
— Vamos, Wolfie. Há um lugar onde quero te levar.
Cheriot, que tinha avançado alguns passos, caminhou de costas enquanto olhava Yurij. Diante da extravagância de caminhar para trás, Yurij ergueu as sobrancelhas, e Cheriot soltou uma risada baixa fazendo um gesto com a mão.
— Vamos!
E sem dar a Yurij mais tempo para pensar, começou a correr como uma criança. Como Cheriot não parava de se virar e fazer-lhe gestos, Yurij no final também alongou o passo. Suas passadas longas tinham se convertido numa corrida lenta sem que percebesse. Mas Yurij não sabia porquê estava correndo.
Big Fox na tarde de sábado parecia realmente um vilarejo de conto. Havia gente por todas as partes, mas não estava abarrotado como um lugar turístico, e graças aos arbustos de lavanda e alecrim plantados aqui e ali, cheirava bem. Ressoavam os risos cristalinos das crianças correndo e da padaria prestes a fechar saía um cheiro delicioso.
Cheriot tagarelou sobre tudo o que via a seu passo. Desde explicar que o jardim da igreja onde ainda se celebrava missa aos domingos era um bom lugar para encontros, até o menu especial de café da manhã de uma cafeteria com pintura azul descascada em alguns pontos, ou os tomates que vendiam no mercado agrícola que se montava na praça; eram coisas triviais, quase insignificantes.
Após caminhar vinte minutos, chegaram à cafeteria de Big Fox. No caminho tinham passado junto a outros dois cafés, mas Cheriot, embora disse que queria tomar café, insistiu em vir aqui em vez de ir a um próximo. Era um capricho incompreensível, mas Yurij o seguiu em silêncio.
A cafeteria que Cheriot queria estava situada justo em frente ao lago. O terraço já estava cheio de gente que bebia café ou comia contemplando a paisagem do lago.
— Fique sentado aqui um momento.
A cafeteria era muito maior por dentro do que parecia por fora. Não só vendiam café e doces, como no interior parecia que também vendiam bugigangas e coisas como livros. Era uma espécie de bazar.
— Não será que você pensa em sentar para tomar café?
— Isso não, mas… por quê? Não posso sentar para beber?
Claro que levar a bebida seria incômodo, mas Yurij não podia se imaginar sentado tranquilamente ali tomando café. Além disso, não queria atrair olhares desnecessários por ficar muito tempo.
— Pensei que íamos ao lago.
— Oh! Agora entendo. Você estava esperando algo.
Yurij torceu levemente a comissura dos lábios, depois tirou os óculos de sol que tinha usado todo o tempo e os deu a Cheriot.
— Se você vai andar onde há muita gente, use-os de novo.
— Não, não vou demorar muito. Vou ver se vendem óculos de sol dentro. Fique com esses.
— Se vamos comprar, não seria eu quem deveria comprá-los?
— Porque quero escolhê-los eu.
Cheriot montou uma cena como uma criança. Yurij, cruzado de braços, o observou com expressão de incredulidade.
— Por que você vai escolher meus óculos de sol?
— Porque se te deixar, com certeza traz algo apagado como a roupa que você veste agora. Enfim, volto já. Tudo bem?
Cheriot, que já tinha a decisão tomada, se moveu rápido. Recolheu os óculos de sol que Yurij lhe oferecia, os colocou de novo na cabeça de Yurij e depois entrou no interior. Diante do ocorrido num instante, Yurij franziu o cenho e levou a mão à cabeça. Era uma cena que teria feito rir a gargalhadas Alexei. Levar os óculos de sol pendurados assim.
Com o cenho franzido, Yurij olhou fixamente para o interior e observou a distribuição. Parecia que não havia uma porta de entrada separada e não havia muita gente. Não havia ninguém que parecesse suspeito de imediato, mas mesmo assim, com a intenção de ir buscá-lo se se demorasse mais de cinco minutos, Yurij lentamente dirigiu o olhar para o terraço do café. Desta vez avaliou as ameaças externas, mas por enquanto não havia ninguém como o sicário que tinham visto no hotel. Um ancião de idade avançada que lia o jornal pareceu-lhe algo suspeito, mas suas mãos rechonchudas pareciam suaves, como se nunca tivessem segurado uma arma ou faca.
Após terminar seu reconhecimento, Yurij por último deu uma olhada em sua própria vestimenta. Como sempre, levava calças pretas e uma camisa preta, com uma camiseta branca de manga curta por baixo.
“O que há de errado nisso?”
As palavras que Cheriot tinha deixado incomodavam-no um pouco, mas isso não mudava nada. Yurij preferia o preto, que não mostrava a sujeira mesmo que se manchasse. Seja sangue ou gordura, o preto ocultava tudo.
Como lhe parecia estranho ficar assim em pé esperando Cheriot, Yurij decidiu pedir o café adiantado. Graças a que durante todo o caminho Cheriot lhe tinha dito várias vezes que queria um Spanish latte, não lhe custou adivinhar o pedido que ele queria.
Ao se aproximar do balcão para fazer o pedido ao funcionário, Yurij lembrou que ainda tinha marcas visíveis em seu rosto. Não estavam tão marcadas como anteontem, mas em suas maçãs do rosto e têmporas persistia um avermelhado como de escoriações.
Enquanto hesitava um momento, o funcionário falou primeiro.
— Vai pedir?
O funcionário que tomava o pedido era um homem de aparência similar ou um pouco mais jovem que Cheriot. O barista, com uma camisa azul de manga curta e um avental marrom, ergueu a vista para Yurij com um sorriso afável nos olhos. Seu feromônio não era forte, mas definitivamente era um ômega. Sua pele ligeiramente bronzeada pelo sol e seu cabelo curto cor ouro pardo davam uma sensação fresca.
— …Um Spanish latte, por favor.
— Ah, isso não está em nosso menu. Mas posso fazer algo o mais parecido possível, está bem?
— Sim.
— Quer quente ou frio?
— Frio, por favor.
Após dar uma resposta breve, Yurij baixou a cabeça um momento. Justo quando ia sacar a nota que levava dentro da camisa, os óculos de sol se balançaram ligeiramente e caíram. Ao pensar “opa”, ia agarrá-los, mas o funcionário estendeu a mão primeiro e os apanhou. Como seus reflexos eram bastante bons, Yurij o olhou fixamente. Por via das dúvidas não era alguém do local, mas alguém enviado pelos Guardiões do Inferno.
— Os peguei.
O barista sorriu brincalhão e depois, aproximando-se de Yurij o máximo possível, disse em voz baixa:
— Se o seu namorado os colocou, seria uma pena que arranhassem as lentes.
— …Como?
As sobrancelhas grossas de Yurij se franziram com perplexidade, e o barista abriu os olhos de par em par. Agora viu que seus olhos também eram verdes. Não era nada surpreendente, os olhos verdes são comuns, mas depois de ver os olhos de Cheriot, ao ver uns olhos verdes com mistura de marrom não lhe pareceram um verde autêntico.
— A pessoa que estava com você antes não é seu namorado?
Ia dizer “que bobagem”, mas ao que parece havia assumido por conta própria a relação entre Cheriot e ele. Sem entender como podiam dar essa impressão, Yurij perguntou com um pouco de seriedade.
— Não sei por que pensaria isso.
— Não é comum ver dois alfas tão perto colocando os óculos de sol. Ah, não é com má intenção. No meu entorno também há muitos de tipo livre. Só queria dizer que pareciam carinhosos.
— …Ah.
Yurij torceu levemente a comissura dos lábios diante de umas palavras tão inverossímeis. A palavra “namorado” lhe soava efêmera demais.
— Não é essa nossa relação.
Negando uma palavra que, embora Cheriot não o soubesse, nunca teria relação com ele, Yurij tirou a nota. Como se lhe desse vergonha ter se enganado, o barista coçou a cabeça e se desculpou.
— Desculpe.
— Não se preocupe.
— São 4 dólares com 50 centavos. Com uma nota de 10 basta?
Yurij hesitou um momento. Fazia mais calor do que pensava e queria beber algo frio. Embora normalmente não esbanjasse dinheiro comprando essas coisas… hoje só de sair era uma exceção.
— Um americano com gelo, por favor.
— Então são 8 dólares com 25 centavos.
Seguindo um pequeno impulso impróprio dele, terminou de fazer o pedido e no momento em que estendia uma nota de 10 dólares, uma mão que veio de algum lugar o agarrou. Numa situação normal teria instintivamente afastado o braço, mas Yurij soube quem o agarrava sem sequer ver-lhe a cara.
Em vez de empurrar o intruso que tinha aparecido sem aviso prévio, Yurij voltou o olhar com indiferença. “Será que não tem capacidade de aprendizagem, ou que a força com que o empurro não lhe dói?” Cheriot não tinha medo e sempre o agarrava assim.
“Será que ao se repetir esta situação várias vezes me acostumei?” Só pela forma como agarrava seu pulso já sabia que era ele. “Talvez porque sei que é Cheriot é que permito que se aproxime assim.”
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna