Capítulo 03.18
3. Cherry and Smoke
— …O que você está fazendo?
Yurij, que ia usar o apelido com que o chamava fora, de repente calou ao ser consciente do que acabava de dizer o barista. Chamá-lo de “Cherry” era uma expressão que por muito que se visse só podia ser um apelido carinhoso, e não queria acrescentar mal-entendidos desnecessários. O melhor seria que não descobrissem quem era Cheriot, mas por via das dúvidas mais adiante se soubesse que tinham estado ali, também desejava que não se pegasse a Cheriot nenhum escândalo desnecessário. Uma pessoa como ele só podia ser uma mancha para Cheriot.
— Eu pago.
Ao olhar tranquilamente para seu lado, viu a mandíbula de Cheriot. Como levava o gorro muito baixo, seu rosto não se via bem. Sua tentativa de se ocultar de algum modo lhe pareceu admirável, então em vez de reprovar o contato não consentido, Yurij decidiu dar-lhe o braço a torcer.
— Terminou de olhar?
— Sim.
Cheriot respondeu lacónicamente e puxou Yurij para trás. Atrás das costas de Cheriot, que num instante se interpôs entre ele e o barista, Yurij ergueu as sobrancelhas. O feromônio que sentia de perto se eriçava de maneira instável, então podia notar que Cheriot estava bastante irritado, seja qual fosse a razão.
— Fique com o troco.
Cheriot, que tinha pago por Yurij, lançou um olhar para trás e o olhou. Quando seus olhos verdes, ocultos sob o gorro, se assomaram um pouco, Yurij pôde ver finalmente sua expressão com clareza. Suas bonitas íris verdes estavam cheias de descontentamento.
“Por que de repente?”
Sem poder entender a razão pela qual, em questão de minutos, o cara que tinha estado entusiasmado desde que saíram tinha mudado de humor, Yurij o observou com olhar perplexo. Cheriot virou a cabeça de repente, baixou o gorro de novo e depois estendeu a mão para o barista.
— Me dá os óculos de sol? São meus.
— Ah, desculpe.
A julgar por sua atitude habitual, poderia pelo menos fingir um sorriso para o ômega, mas Cheriot só disse o necessário com voz sem vestígio de alegria e recebeu os óculos de sol. Depois lançou um olhar ligeiro a Yurij, que o esperava em silêncio, passou por ele e caminhou para a mesa de café mais ao fundo. Com gesto ressentido, afastou uma cadeira, sentou-se, cruzou as pernas e apoiou o corpo no encosto. Yurij, observando com dificuldade um cliente que mostrava seu descontentamento com todo o corpo, dirigiu-se lentamente para ele.
Embora não pudesse estar seguro pelo gorro que lhe cobria o rosto, Yurij pensou que Cheriot o estava olhando. Podia ser uma ilusão, mas essa era a sensação.
Ao se aproximar da mesa e sentar-se tranquilamente na cadeira oposta, Cheriot, como se tivesse esperado, soltou uma frase.
— Quando disse que havia muitos ômegas bonitos, você fingia não se interessar.
— O quê?
— Estava correspondendo ao flerte daquele barista de há pouco.
“Flerte?” Antes de Yurij poder rebater, continuou a pergunta.
— Você gosta desse tipo? Qualquer ômega serve?
— …Cheriot.
— Não importa quanto eu olhe, não sou eu mais bonito? Mesmo se considerar do lado do bonito, continuo sendo eu mais bonito?
— Não sei por que pensa isso, mas não aconteceu nada.
Cheriot negou com a cabeça de um lado para o outro e depois deixou os óculos de sol que segurava sobre a mesa com um baque seco.
— Então, por que essa pessoa tinha meus óculos de sol?
— Só os pegou quando quase caíam.
— Então deveria tê-los recuperado antes.
Quanto mais falava, mais crescia o descontentamento de Cheriot. Ter dito que tinha medo era coisa de anteontem, e depois de só três dias já tinha acostumado tanto que lhe soltava essas coisas; não sabia se admirava sua coragem ou seu atrevimento.
Enquanto refletia se aceitar seu capricho incompreensível era uma das formas de tranquilizá-lo, Cheriot perguntou de novo.
— Você gostou de falar com um ômega bonito?
Sentia-se estranho. Nunca antes tinha tido uma conversa assim com ninguém, mas lhe veio à mente uma discussão que Alexei tinha tido com seu parceiro sobre esse tema. Era exatamente a sensação de estar nessa situação. Cheriot e ele não tinham esse tipo de relação em absoluto… mas o conteúdo da conversa era estranho.
— Não.
Embora a conversa que tivesse tido com o barista não fosse assunto que incumbisse a Cheriot, Yurij respondeu que não. Pareceu-lhe que era o melhor fazer assim, e era a resposta correta. Cheriot, que estava sentado com os braços cruzados de maneira um tanto rebelde, o olhou furtivamente e desfez o cruzamento de pernas.
— De agora em diante não quero vir a este café.
— …OK.
Que assim seja. Embora confuso, Yurij se adaptou a suas mudanças. Ao responder com docilidade, notou claramente que o feromônio de Cheriot ia relaxando. Por alguma razão lhe pareceu adorável, e Yurij mudou de tema para melhorar um pouco mais o ânimo de Cheriot.
— Suponho que você escolheu bem meus óculos de sol.
— Isso sim, mas,
Cheriot apontou os óculos de sol sobre a mesa com um gesto de queixo.
— Use os meus.
— Há alguma razão para isso?
— As que vendem aqui são óculos de sol mais como acessórios, não bloqueiam bem os raios UV.
Nesse caso, parecia ainda mais correto que Cheriot usasse os seus, mas Cheriot teimosamente lhe empurrou os óculos de sol e se levantou da cadeira. Como se seguisse um cachorro que não pode ficar quieto, Yurij se levantou atrás dele. Meteu no bolso os óculos de sol que Cheriot tinha deixado por conta própria. Agora viu que o café já estava pronto.
Cheriot, caminhando com passadas largas para o balcão, agarrou seus cafés com ambas as mãos e saiu do café. Ao sair, seu olhar se encontrou com o do barista, e ao ver Yurij, este sorriu radiante e fez o gesto de colocar a palma da mão na orelha. Franziu o cenho diante daquele sinal cujo significado não entendia, ao sair da loja as costas de Cheriot, plantado imóvel, o receberam.
— Cheriot, diga-me o que te incomoda.
Yurij não queria que continuasse nesse estado. Diante de sua pergunta direta, Cheriot suspirou e respondeu.
— Quando estiver comigo, concentre-se só em mim. Você é meu guarda-costas.
— Acho que já estou me concentrando o suficiente.
Como a situação era que sua atenção se centrava nele até transbordar, Yurij até sentiu um pouco de injustiça. Diante da resposta indiferente, Cheriot parou um instante e depois, com um gesto mais relaxado, ergueu o café diante do rosto de Yurij.
— Por que você é capaz de perceber outras coisas como um fantasma, mas disso não?
A resposta a suas palavras incompreensíveis chegou em seguida. Cheriot tinha erguido o café para que visse o número escrito no porta-copos. Provavelmente era o número daquele barista de antes. Só então Yurij compreendeu que o barista realmente tinha estado flertando e franziu os olhos com incomodo.
“Estranhei que perguntasse se estávamos saindo, mas ao que parece tinha outro propósito.” No entanto, Yurij não podia estar seguro de se aquela era uma sinalização dirigida a ele.
— Poderia ser um número para você, não para mim.
— Lembra que a pessoa com quem falou foi com você, não comigo?
— Não sei.
Yurij lembrou o que Cheriot tinha dito.
— Você foi quem disse que bastam alguns segundos para se apaixonar. Como me viu falando com você e depois se dirigiu a mim, não seria algo impossível.
— Eu levava o gorro, então não viu meu rosto.
Cheriot refutou agitando o café. Não era uma afirmação incorreta, mas a presença de Cheriot não desaparecia por cobrir os olhos com um simples gorro. Durante todo o caminho, Yurij tinha sido testemunha inúmeras vezes dos olhares que as pessoas dirigiam naturalmente para Cheriot.
O atrativo não saía só do rosto. Também se percebia em pequenos elementos como suas pernas longas e esbeltas, suas costas largas e curvilíneas, seu passo leve ou o sorriso fresco que pendia de seus lábios.
— Acho que seria fácil perceber que você é bonito mesmo sem ver seu rosto.
Assim como Psique chegou a se sentir atraída por Eros na escuridão, onde não podia ver nem uma polegada adiante, não será só o que se vê o que pode cativar uma pessoa.
No momento em que Yurij expressou com calma o que sentia, o café que se balançava parou. Cheriot, com os olhos abertos de par em par, só moveu os lábios como alguém a quem deram no ponto fraco. Após observar com indiferença a Cheriot, que tinha ficado imóvel de repente, Yurij estendeu a mão para o café que segurava. A mão de Yurij se introduziu entre os dedos de Cheriot, que seguravam o porta-copos. Sua pele branca, empapada de luz solar, estava cheia de calor. Era um calor tão intenso que a temperatura corporal morna de Yurij se sentia fria em comparação.
Quando Yurij pôs sua mão sobre a de Cheriot, Cheriot tardiamente deu um pulo e soltou a força da mão que segurava o copo de café. Yurij, que recebeu o café dele, lançou um olhar distraído ao número escrito no porta-copos. Embora fosse um tanto significativo que o barista, sem saber para quem tinha pedido que bebida, tivesse escolhido especificamente o americano, a curiosidade de Yurij não ia além. Tirou o porta-copos, se aproximou de Cheriot, que continuava petrificado, e o deixou cair dentro da abertura ligeiramente aberta da bolsa.
“Pensei em quebrá-lo e jogá-lo no lixo, mas como podem estar olhando, não é preciso ser tão cruel.”
— Vamos.
Yurij deu uma palmadinha no ombro de Cheriot e passou por ele. Cheriot, que tinha estado plantado imóvel e em silêncio todo o tempo, só então se apressou a segui-lo.
— O que foi isso?
Cheriot, que rapidamente se aproximou do lado de Yurij, perguntou. Como tinha corrido até seu lado e se grudado, por um momento o braço de Cheriot roçou o seu. A sensação dos músculos que pareciam duros, mais que firmes, e a pele suave era estranha. Consciente do braço que tocava o seu, Yurij dirigiu o olhar para lá e depois, franzindo o cenho, olhou para a frente.
— Por acaso estava flertando comigo?
— Não sei que bobagens você diz.
— Me disse que eu era bonito.
Yurij fechou os lábios com suavidade. Ao pensar depois, percebeu que podia soar assim, mas pareceu-lhe que se continuasse a conversa sairiam mais palavras desnecessárias.
— Droga, o que faço? Gosto tanto que me mareia quando você flerta tão descaradamente.
“Flertando com ele?”
Yurij nunca tinha feito algo assim nem a um alfa nem a um ômega, nem tinha intenção de fazer. Achava assombroso como podia dar tanto significado e interpretação a uma simples palavra.
— Não fiz isso.
— Então todo esse tempo você pensava que eu era bonito. Não tinha certeza se minha aparência funcionava com você, Wolfie, mas agora sei.
— Acho que já disse que não fiz isso.
— Ha, Wolfie. Você é perigoso demais. Com só uma palavra já controla e manipula meu estado de espírito.
Era inacreditável a atitude de Cheriot, que sem sequer fingir ouvir o que ele dizia, continuava tagarelando à sua vontade. Yurij observou Cheriot em silêncio, acelerou o passo um pouco mais e se separou de seu lado. Depois acrescentou um pequeno aviso.
— Parece que você já não tem medo de mim.
Assim que criou distância, Cheriot o alcançou imediatamente. Como se isso não fosse suficiente, Cheriot, que agarrou o pulso de Yurij como no café, sorriu amplamente.
— A direção para onde vamos não é esta.
Cheriot, que até então o tinha deixado ir para onde quisesse, desta vez puxou Yurij como se não pudesse permitir. Sem lhe dar tempo de se soltar, Cheriot o segurou com firmeza e começou a correr para uma pequena trilha que bordejavam árvores altas.
— Está brincando agora…?
O aviso de Yurij ficou abafado pelo som dos passos correndo sobre o chão. Embora estivesse irritado e franzisse o cenho pelo absurdo, Yurij se deixava levar pela força de Cheriot e corria.
“Se comportando bem? Que nada.”
“Age como lhe dá na telha e depois diz que se comportou bem.” Olhando as costas de Cheriot correndo à sua vontade, Yurij amaldiçoou por dentro. Mas não queria soltar aquela mão. Se o fizesse, parecia que deteria Cheriot, que corria cheio de alegria.
Seguindo Cheriot, que corria atropeladamente pela trilha, soprou o vento. O ar fresco que roçava a pele de Yurij estava misturado com o cheiro do bosque e o feromônio de Cheriot. Diferente de quando estavam trancados num espaço estreito, Cheriot correndo parecia em si um símbolo de liberdade.
Após passar junto a dezenas de árvores de diferentes formas, quando o chão da trilha começava a se cobrir de ervas silvestres, o sol lhes fechou o passo com um brilho ofuscante. Os fortes raios de sol que se estendiam como linhas pungiram seus olhos e Cheriot reduziu a velocidade. Seguindo Cheriot, que deixou de correr gradualmente, Yurij também parou.
— Olhe isto, Yuri!
O riso alegre de Cheriot se expandiu no ar. Cheriot, que soltou a mão de Yurij, avançou e deixou sua mochila no chão com um baque seco. Yurij, que tinha franzido os olhos um momento pela luz intensa, ergueu lentamente as pálpebras e observou a paisagem que se estendia diante deles.
…Ah.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna