Capítulo 03.16
3. Cherry and Smoke
Ao que parece Alexei finalmente tinha se infiltrado entre os Guardiões do Inferno. Pensando que antes de contar a Valery deveria falar também com Heather, Yurij, para responder a Alexei, ficou parado segurando o telefone com o olhar fixo na tela.
“E você?”
A companhia de um homem que desprezava pessoas como ele estava se tornando, surpreendentemente, cada vez mais confortável. Mais bem, com o passar do tempo Cheriot estava se tornando aterrorizantemente familiar, e como se tivesse se contagiado dele, Yurij também estava se tornando um pouco estranho.
Há pouco, o fato de que Cheriot o tocou não lhe resultou desagradável.
Para alguém como ele, que nunca tinha sentido nenhuma simpatia por outro alfa, era algo muito estranho. Que nem mesmo com um amigo de toda a vida se tivessem contatos frequentes como abraços ou apertos de mão era uma característica dos alfas, e Yurij era um alfa mais conservador que ninguém nesse aspecto.
Yurij observou fixamente a mão que segurava o telefone para responder. Talvez porque ainda restava umidade, toda classe de sensações se estendiam desde sua mão direita. Seguindo o rastro que tinha deixado o polegar que pressionou com força o centro de sua palma, subiu uma sensação de calor. Yurij arqueou as sobrancelhas franzindo os olhos como se lhe doesse, olhou sua mão direita durante um bom tempo e finalmente enviou uma resposta a Alexei.
[Não acontece nada ◀] “De verdade não acontece nada”, sussurrou Yurij para si mesmo mais uma vez.
A voz que repetia, como se tivesse que ser assim, era profunda e confusa.
* * *
Na bolsa esportiva preta de Cheriot havia uma toalha de praia grande, uma garrafa de água e a caixa de gomitas que Yurij lhe tinha comprado. A bolsa era de um material leve de poliéster, as alças para os ombros eram finas e se puxasse pela abertura se transformava em forma triangular e se fechava. Era um design que nunca tinha visto, mas ficava bem em Cheriot.
Para sair, pôs uns óculos de sol Ray-Ban e um boné de beisebol branco. Suas costas ao se afastar, com uma camiseta cinza-claro que deixava os braços pálidos e firmes à mostra e jeans, pareciam exatamente as de um jovem de sua idade. O cabelo de Cheriot ao sair de casa se tingiu com a luz do sol e ondeou como chamas douradas. Seu rosto transbordava vivacidade, com as sobrancelhas franzidas enquanto olhava para o céu mas com as comissuras dos lábios levantadas num sorriso.
— É um dia em que não seria estranho se apaixonar.
Cheriot, que levava a bolsa pendurada longa nas costas, soltou um estranho suspiro de admiração. Yurij, que fechava a porta e verificava várias vezes mais o estado do seguro, girou a cabeça para olhá-lo. Cheriot continuava olhando para o céu. Era um dia em que o sol que caía era tão intenso que mesmo com óculos de sol deslumbrava, mas ele sorria como se não lhe importasse ficar cego.
— O que quer dizer com isso?
Embora não precisasse insistir, Yurij terminou perguntando. Na verdade, com certeza não passava de um monólogo sem significado.
— Faz tão bom tempo que só de cruzar olhares alguém poderia se apaixonar.
No entanto, como o perfil de Cheriot contemplando o alto capturava excessivamente sua atenção, Yurij não pôde evitar tirar a pergunta. Cheriot parecia uma criatura saída de um mito. Por seu queixo liso erguido e seu pescoço reto fluía um brilho dourado, e quando exalava suavemente o alento seu amplo peito e o pomo se moviam com beleza.
Sem perceber, Yurij observava Cheriot, e só ao fim de um tempo percebeu e desviou o olhar. Conteve a vontade de voltar a olhar, verificou que a porta estava fechada com chave, tocou mais uma vez as janelas para garantir que estivessem bem fechadas e depois girou o corpo.
Cheriot o esperava não muito longe, a uns passos de distância. Como se tivesse ouvido o som de Yurij se movendo, Cheriot voltou o olhar. Com os óculos de sol postos, não se viam seus reluzentes olhos verdes. Yurij olhou com desagrado as lentes negras como o azabache e falou em voz baixa.
— Segundo sua lógica, esse amor desaparecerá assim que o tempo piorar.
— Mas pelo menos será válido durante três meses.
— Três meses?
— O prazo mínimo de validade do amor.
Diante dessas palavras que ouvia pela primeira vez, Yurij ergueu as sobrancelhas. Diferente de Cheriot, Yurij não levava óculos de sol e sua expressão se refletia integralmente em Cheriot.
— É essa cara de não acreditar?
— Porque a maioria do que você diz não tem base.
— Mas é um fato cientificamente comprovado!
Cheriot, ofendido, se aproximou a grandes passadas de seu lado. Talvez porque o dia estava aberto e soprava o vento, ao se mover Cheriot seus feromônios se sentiram junto a ele e Yurij ficou imóvel sobressaltado. Diante da sensação de um aroma denso e doce que se aproximava com peso, surgiu uma rejeição instintiva, mas ao reconhecer que o dono daquele aroma era Cheriot, logo esteve bem.
“Hoje o aroma é especialmente intenso.”
Durante os dois dias anteriores não se tinha sentido seu feromônio de maneira tão descarada, mas hoje, com só se mover, o aroma vinha com ele. Era como um alfa prestes a entrar no rut, decidido a enfeitiçar o ômega que se aproximasse.
[— Mas a verdade é que se continuarmos assim no mesmo espaço vamos ter um acidente. O que será, estarei no “rut”? Não, não pode ser. Ontem ao voltar antes de dormir tomei inibidores, então não devia ser isso…]
O monólogo de Cheriot cruzou fugazmente por sua mente. Yurij, ruminando as palavras que o tinham empurrado a se arriscar e sair para fora, perguntou a Cheriot para se assegurar mais uma vez.
— Você, tomou os inibidores, verdade?
— Tomei. Ontem à noite, e esta manhã.
Embora o método de administração varie segundo a farmacêutica, com qualquer medicamento costumava bastar tomá-lo só um dia antes do rut para ter certo efeito. Se seu rut chegasse hoje mesmo, como ontem já tomou a medicação, devia estar bem.
Esteve a ponto de perguntar a Cheriot quando era exatamente seu rut, mas por alguma razão se sentir incômodo falando desse tema o fez calar. Incomodava-o agir como um ômega tímido e envergonhado, mas mesmo assim não queria perguntar. Temia que se trouxesse o assunto, o ocorrido pela manhã revolvesse sua cabeça.
…Quase beijei um alfa.
Não foi um beijo nem uma tentativa real, mas foi o ato mais similar a um beijo que Yurij tinha experimentado. Era ainda mais incômodo porque podia contar com os dedos as vezes que tinha visto o rosto de alguém tão de perto como há pouco.
Pensando bem, embora Yurij tivesse feito sexo cada vez que estava no rut, podia contar com os dedos as vezes que tinha beijado. Se a pessoa com quem se deitava se aproximava para beijá-lo, ele respondia, mas nunca tinha misturado línguas profundamente nem se tinha concentrado no beijo. Não lhe apetecia. Para ele, beijar era um ato demasiado emocional, algo que não enquadrava numa relação de mútuo acordo só para satisfazer um desejo. Como lhe resultava incômodo e embaraçoso, Yurij tinha muito pouca experiência em beijos.
Seu sexo, tendo um objetivo claro, costumava ser bastante direto. Movia-se unicamente com o fim de ejacular, e as carícias só as realizava por obrigação para relaxar suficientemente o corpo do ômega, sem encontrar prazer nelas. Embora gostasse de ver como gemia e se retorciam ao tocar-lhes, era só um estímulo primitivo.
Enfim, por todas estas razões, Yurij não queria falar do rut com Cheriot. Se trouxesse o assunto, sentia que algum estranho sentimento que havia em seu coração se balançaria e se filtraria.
— Mas por que o assunto dos inibidores?
No entanto, Cheriot insistiu num tema do qual Yurij já não queria falar. Yurij, apertando os lábios, respondeu com silêncio à pergunta de Cheriot e começou a caminhar. Não sabia para onde ir, mas primeiro queria se afastar.
— Wolfie, por que perguntou?
Mas, infelizmente, Yurij não estava em condições de deixar Cheriot para trás. Cheriot, que se tinha grudado estreitamente por trás, não deixou passar o tema e voltou a perguntar.
A luz do sol era tão intensa que o deslumbrava. A luz que caía ardente e seca era tão forte que suas pálpebras se fechavam por reflexo. Yurij fechou com força os olhos e respondeu a contragosto.
— Porque você disse aquela bobagem de que ia se apaixonar.
Felizmente, Cheriot se deixou convencer pela desculpa de Yurij.
— Vamos, não é bobagem, mas um fato científico, te digo.
— Acho que é mais acertado considerá-lo uma superstição.
— Você se surpreenderia com quantos estudos científicos há sobre o amor.
Como seja. Yurij deixou-o falar à sua vontade. Contrariamente à sua vontade, incomodava-o que as pálpebras quisessem se fechar para evitar o sol, então pensou que realmente devia comprar uns óculos de sol. Pela primeira vez, Yurij experimentou que a razão pela qual as pessoas usam óculos de sol não é para ocultar sua identidade, mas para se proteger do sol. Até então, como quase nunca saía de dia, não o tinha sabido.
— O tempo que se leva para se apaixonar é de apenas sete segundos. Os cientistas demonstraram que num instante que nem sequer chega a dez segundos, a gente pode amar intensamente alguém.
Cheriot, sem deixar de falar sobre pseudociência, se grudou ao seu lado. Depois, de repente, estendeu a mão para o rosto de Yurij. Antes de Yurij, que tinha franzido o cenho e o descobriu tarde, poder jogar a cabeça para trás para esquivá-lo, Cheriot pôs primeiro a mão na testa.
— Essa é a primeira etapa do amor.
Cheriot, com a palma estendida reta, fez sombra na testa de Yurij. Quando a sombra se projetou seguindo a forma de sua mão, o sol ficou bloqueado. Yurij, ao ver finalmente o rosto de Cheriot que aparecia em seu campo de visão recuperado, ficou imóvel sobressaltado.
Outra vez.
Outra vez, perto demais.
Cheriot, com a cabeça inclinada, examinava o rosto de Yurij. Inclinando ligeiramente o tronco para observá-lo, seus olhos verdes abrigavam uma preocupação carinhosa. Já tinha tirado os óculos de sol e com a outra mão os oferecia a Yurij.
— Isso não vai funcionar. Use meus óculos de sol.
— …Não preciso deles.
— Não é algo que deva dizer quem nem sequer pode abrir os olhos. Não aja como um lobinho recém-nascido.
Diante do absurdo, Yurij entrecerrou os olhos. Embora desta vez não fosse pelo sol abrasador, Cheriot, como se o tivesse interpretado mal, pegou os óculos de sol com ambas as mãos e os aproximou suavemente de seu rosto.
— Com certeza há gente que te reconhece, então não faça bobagens e pegue-os de volta.
Era uma rejeição firme, mas Cheriot não recuou.
— Por agora, como estou de gorro, está bem. Já que saímos, compremos seus óculos de sol. Os meus você me devolve depois.
— Se por casualidade descobrirem sua identidade…
Cheriot tapou-lhe a boca colocando-lhe os óculos de sol. Yurij parou um instante diante da sensação estranha das hastes tocando suas têmporas. Tudo lhe parecia alheio, desde a sensação das hastes apoiadas na ponte do nariz até a cor escura das lentes que cobriam sua visão. Como as tinha usado Cheriot, desprendem um tênue aroma. Era como se todo seu entorno estivesse rodeado pelo feromônio de Cheriot.
— Mmm, ficam bem em você. Suponho que como você é bonito, tudo lhe fica bem.
Quando Yurij aceitou os óculos de sol sem relutar, Cheriot sorriu satisfeito com os olhos. Ao ver seus bonitos olhos verdes, que antes não se viam porque estavam cobertos, sorrirem plenamente, Yurij também se sentiu estranhamente satisfeito. Para ocultar sua identidade era correto colocar óculos de sol, mas por alguma razão não queria cobrir os olhos de Cheriot.
— …Será melhor irmos primeiro a uma loja.
Como gostava dos olhos verdes de Cheriot sob o sol, Yurij decidiu ter paciência com aquele ato atrevido só por um momento. Sem saber que lhe estava fazendo um favor, Cheriot soltou uma risada triunfante.
— Haha, vê que confortáveis são?
Ele respondeu com silêncio. Como as lentes bloqueavam os raios UV, realmente era mais confortável abrir os olhos, mas Yurij tinha vivido bem sem isso. Por muito confortáveis que fossem, uma vez passado este período provavelmente não voltaria a usá-las.
Mas como durante os dez dias que estiver com Cheriot talvez as precise, será melhor comprar umas embora baratas.
Ah, já não são dez dias.
Como já passou um dia, são nove. Depois do fim de semana, restaria uma semana. De repente sentiu que o tempo de dez dias, que lhe parecera bastante longo, passava rápido.
Yurij ergueu silenciosamente a mão e tocou a armação dos óculos de sol que Cheriot lhe tinha posto. O plástico que roçava suas pontas de dedos se sentia morno pelo sol.
Como se quisesse dizer algo, de novo uma emoção se agitou dentro de Yurij. Após engolir a ansiedade e a incomodidade que varriam o interior de suas costelas, começou a caminhar. Cheriot o seguiu ajustando o passo. Parecia que Yurij ia na direção correta, porque Cheriot caminhava a seu lado guardando um espaço de um palmo. Ao andar, suas mãos em movimento quase roçavam.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna