Capítulo 03.15
3. Cherry and Smoke
— Você está bem?
Então, Cheriot, que tinha estado calado todo o tempo, falou. Ao abrir os olhos, Cheriot se incorporou e o estava olhando. Em seus bonitos olhos verdes se desenhava com ternura um gesto de preocupação.
— Sim.
Sem saber a que se referia a pergunta, Yurij respondeu que sim.
— Te trago água?
…E que curioso, Cheriot perguntou como se soubesse o que Yurij queria. Ao entrecerrar os olhos e observá-lo fixamente, Cheriot se levantou do sofá e foi para a cozinha dizendo:
— Que livro você lê com tanta concentração? Estava tão absorto que não me atrevia a te incomodar.
Cheriot tirou dois copos de vidro, encheu-os com água da torneira e voltou para a sala. Yurij observou fixo como Cheriot punha os copos sobre um descanso que havia na mesa de madeira. Passou-lhe pela cabeça que era preciso um descanso para que a madeira maciça não se manchasse de água. Era a primeira vez que via alguém se preocupar com isso.
“Com razão não falava, para não me interromper enquanto lia.”
Olhando fixamente a água contida no copo, Yurij ruminou as palavras de Cheriot. Sentia-se estranho. Ao saber que Cheriot tinha sido consciente dele durante o tempo que não lhe tinha falado, picaram-lhe as pontas dos dedos.
Yurij hesitou, depois estendeu a mão para o copo e sussurrou em voz baixa com a garganta apertada.
— Eu pensei que você estava concentrado no vídeo de hóquei.
— Hã? Não. Só coloquei de fundo. Já vi esse vídeo centenas de vezes, até decorei. Também pensei centenas de vezes em que erros cometi e o que teria acontecido se tivesse tido outra vantagem. Este ano realmente acreditei que poderíamos ganhar a Stanley Cup…
Cheriot devolveu uma resposta próxima a um monólogo. Enquanto ruminava a palavra “centenas”, Yurij tentou calibrar o esforço de Cheriot que ele não podia sequer imaginar. Talvez porque não podia entender absolutamente, a Yurij deu um pouco de curiosidade saber como seria Cheriot jogando hóquei.
…Na verdade, talvez bastante curiosidade.
Yurij engoliu a água que Cheriot lhe tinha aproximado e dirigiu o olhar em silêncio para a tela do laptop. Como tinha deixado o laptop no sofá, agora de seu assento também podia ver o vídeo. Embora não distinguisse bem o uniforme ou o número, assim que viu no highlight da tela uma esplêndida cabeleira avermelhada passar, soube que era Cheriot.
Juro que não era sua intenção olhar o vídeo, mas quando viu a cena de Cheriot com o uniforme e o capacete azuis cruzando o gelo com frescor para lançar o disco, seu olhar foi para lá por si só. Após a cena na qual, com seu corpo alto e delgado, desviava com desenvoltura um jogador de compleição similar e empurrava o taco com leveza, aparecia Cheriot com expressão feroz enfrentando os jogadores que se atiravam sobre ele, gritando com as veias do pescoço inchadas.
Seu rosto, que só parecia branco, se ruborizou pela exaltação e em seu pescoço longo e firme as veias se marcavam pela fúria; o olhar de Yurij se fixou nessa imagem. Cheriot, mostrando os dentes como uma fera e protestando por algo, era ameaçador de um modo que não lhe agradava. Era estranho que um homem tão inocente e radiante como Cheriot pudesse pôr essa cara.
— Que é isso.
Então, soou uma voz justo ao lado de Yurij.
— Você acabou de perceber o quão bonito eu sou e se apaixonou ou algo assim?
Uma respiração quente fez cócegas em seu pavilhão auricular, por isso Yurij virou a cabeça de repente e por um instante suas pontas de nariz roçaram.
— O que está fazendo?
Não tinha ideia de quando se tinha movido, mas Cheriot estava atrás de Yurij agachado e a uma distância desnecessariamente próxima. Como se fosse sussurrar-lhe ao ouvido, estava tão perto que a distância entre eles se tinha reduzido até o ponto de que cada um podia ver o que se refletia nos olhos do outro.
Cheriot não recuou embora Yurij pusesse cara séria. Numa situação normal teria dito “tá, tá” e se afastado, mas naquele momento o olhava descaradamente.
Misturaram-se suas respirações. Um hálito entrecortado ressoou débilmente no ar. Não podia distinguir se era ele quem respirava ou se era Cheriot. Ao sentir como se seus alentos se entrelaçassem, Yurij olhou sem perceber os lábios de Cheriot. Como tinha notado a primeira vez que o viu, uns lábios com um rubor como se tivessem pintura que faziam honra a seu nome[5].
— Wolfie.
Com um tom baixo como se ressoasse desde o peito, Cheriot o chamou. Assim que ouviu a voz de Cheriot, notavelmente mais grave que o habitual, sentiu um arrepio indescritível em seu interior.
Só tinha que dizer-lhe que se afastasse ou empurrá-lo, mas estranhamente seu corpo se sentia rígido, então Yurij, sem motivo, apertou com força a mão que segurava o copo. Até o ponto de que os nós dos dedos de seus dedos pálidos se marcaram com nitidez.
— …O quê?
Como sentia que se não respondesse e ficasse assim acabaria se sentindo muito estranho, Yurij a duras penas aclarou a garganta e respondeu. Cheriot, sem recuar ainda, o olhava fixamente de tão perto que quase roçava seu nariz, e depois separou lentamente os lábios.
— Você sabe que há pouco nossos lábios roçaram?
Impossível. Yurij franziu o cenho apertando ainda mais a mão que segurava o copo.
— Bobagens.
— A sério.
— Não foram os lábios, só roçaram os narizes.
Então Cheriot, como se tivesse ouvido a resposta que esperava, entrecerrou os olhos com malícia.
— Você desgostou?
— Em primeiro lugar, isso foi por acidente…
Yurij tentou corrigir suas bobagens, mas calou. A mão que segurava o copo continuava apertando com força.
— Pare de fazer bobagens e volte para o seu lugar. Por que diabo você me fala por trás? O que teria feito se tivesse quebrado um osso do nariz?
— Hmm.
Cheriot finalmente deu a Yurij um descanso. Cheriot, como se estivesse pensando em algo, moveu os olhos e endireitou a postura. Depois, olhando Yurij de cima, perguntou:
— Wolfie, acho que estou um pouco estranho.
— Você sempre foi estranho.
Yurij, sem perceber, deu essa resposta e Cheriot, mesmo recebendo um insulto, riu.
— Então Wolfie também sabe fazer piadas?
— Não é uma piada, é a sério.
— Eu também digo a sério. Desde há um tempo me sinto um pouco estranho.
Yurij entreabriu os olhos e olhou para Cheriot. Não tinha ideia do que ia dizer, mas considerando que pela manhã tinha feito uma cena, era muito provável que fosse insistir em sair. Com a intenção de recusar de plano, Yurij respondeu:
— Em que sentido?
Mas Cheriot deu uma resposta que Yurij, com seu senso comum, jamais teria podido deduzir.
— Há pouco me deu vontade de te beijar de verdade.
— …
Yurij perdeu a fala por um instante e separou os lábios. Talvez porque, diferentemente de quando flertava, nunca imaginou que sairia uma declaração tão descarada de que o desejava. Antes de se sentir irritado, incomodado ou insultado, o primeiro que lhe veio à mente foi a suave sensação do roçar de suas pontas de nariz.
— Claro que costumo me aproximar sem rodeios das pessoas de quem gosto, mas não sou um desavergonhado que beija à primeira. No entanto…
A luz do sol que entrava pela janela atravessou as pálpebras de Cheriot e iluminou o centro de suas pupilas. Seus íris verdes, com as pupilas menores e mais negras que o habitual, observavam Yurij com tenacidade. Lembraram-lhe uma fera que o explorava. Por um instante passou por sua mente a imagem de Cheriot no gelo, mostrando os dentes e se chocando com os homens.
— Desde há um tempo não paro de sentir uma vontade enorme de te tocar.
Ressoou uma confissão em voz baixa. Se pensasse no Cheriot ligeiro de antes, essas palavras poderiam ser uma prolongação das brincadeiras anteriores, mas aquele suave sussurro que flutuava no ar agora lhe parecia de uma natureza distinta das bobagens de antes.
— Então olhei seus olhos.
Ou mais bem.
— Também pensei que suas pupilas eram incomparavelmente mais bonitas que o lago de fora.
“É possível que eu o tenha sentido assim.”
— Estarei ficando louco?
Felizmente, Cheriot tinha o senso comum suficiente para fazer com que a atmosfera, que parecia ir por um caminho estranho, voltasse ao seu curso. Yurij, que finalmente desviou o olhar de um Cheriot que inclinava a cabeça pensativo, sem perceber exalou débilmente o alento que tinha estado contendo. Sem perceber todo seu corpo estava muito tenso e os músculos rígidos. Como lhe vinha uma sede de um modo distinto ao de antes, Yurij aproximou de novo o copo que segurava.
Justo quando ia beber água para ordenar seus pensamentos, Cheriot soltou outra declaração descabida.
— Mas a verdade é que se continuarmos assim no mesmo espaço vamos ter um acidente. O que será, estarei no “rut”? Não, não pode ser. Ontem ao voltar antes de dormir tomei inibidores, então não devia ser isso…
Yurij apertou com força a mão que segurava o copo. Assim que ouviu a palavra “acidente”, uma cena estranha cruzou por sua mente. Cheriot olhando-o fixamente desde a distância em que roçar seus lábios não teria sido estranho; a cena da quadra onde lutava com as veias do pescoço inchadas; e Cheriot escrutinando seu torso com olhar penetrante antes de lhe dar a camisa; todas se combinaram para formar uma imagem de Cheriot numa situação que Yurij nunca tinha visto.
De repente, o copo de vidro se quebrou. Sentiu como o vidro, de uma espessura adequada, se partia e se desmoronava em sua mão, e Yurij desviou sobressaltado o olhar para o copo. A água contida se derramou do copo, molhando-lhe a mão e correndo até o peito do pé. Cheriot, que tinha estado dizendo coisas descaradas, também o olhou surpreso.
— Hã? Wolfie, você está bem?
Cheriot, mais alarmado que o próprio Yurij, se aproximou apressadamente de seu lado. Yurij franziu o cenho e com um gesto da mão o deteve.
— Está tudo bem.
— Mas o copo se quebrou!
— Está tudo bem, então…
Yurij apertou fortemente os molares e disse:
— Melhor se preparar para sair.
Mais que continuar num espaço tão estreito e fechado, sair um pouco seria preferível.
— O quê? De repente? Se pela manhã quando insistia você me disse que não sem piedade!
— Já vamos, então cale a boca e se prepare.
Yurij já não podia sustentar o olhar de Cheriot, então se levantou de seu assento. Felizmente o vidro não se fez em pedaços, mas se partiu em dois pedaços grandes, então não saltaram fragmentos e não seria incômodo limpar. Mas Cheriot, como sempre, não o deixava em paz.
— Tá, entendo. Primeiro me mostre a mão.
— Não me machuquei.
— Sério? E os pedaços de vidro?
— Não há.
Quando Yurij, após dizer isso, tentou se levantar, Cheriot de repente empurrou para trás o sofá onde estava sentado. Ao ser arrastado para trás enquanto permanecia sentado, Yurij o olhou com expressão perplexa e então Cheriot, com rosto sério, apontou o chão.
— Poderia haver pedaços de vidro, então não pise ali até passar o aspirador.
— Disse claramente que estava bem.
Embora não tivesse caído no chão mas se partido em duas metades exatas, Cheriot exagerava preocupando-se com ele. Mas Cheriot teimosamente recusou suas negativas, depois foram juntos à cozinha para jogar fora o copo e depois estendeu a mão a Yurij.
Ao receber um olhar de Yurij que dizia “que diabo é isso?”, Cheriot exigiu com descaramento.
— A mão.
— Por quê?
— Quero ver se se machucou. Pelo que vejo, parece que você passa por alto sem importância quando se machuca.
Foi tão inacreditável que lhe saiu uma risada forçada. Yurij girou as costas como dando a entender que já estava, mas Cheriot o deteve quando ia passar adiante. Cheriot pegou com suavidade sua mão direita, molhada. Enquanto pensava que esse comportamento cada vez mais insinuante se tornava irritante e Yurij ia repreendê-lo, Cheriot pressionou com cuidado o centro de sua palma com o polegar. Uma calidez morna se estendeu desde o centro e a palma ficou descoberta.
Não era diferente de seu torso: a palma de Yurij estava cheia de cicatrizes de armas brancas. Mas Cheriot acariciou suavemente com o polegar as cicatrizes da palma e, após confirmar que não sangrava, ergueu o olhar e sorriu.
— Aprovado.
Como se lhe restasse um pouco de sensatez, Cheriot soltou sua mão justo antes de Yurij lhe dar um golpe de verdade. Depois, dizendo que só passaria o aspirador e iriam embora, atravessou a sala com movimentos enérgicos, marcadamente distintos dos de antes. Até parecia que tinha criado de propósito esta situação como desculpa para sair. Se realmente tinha planejado assim, Cheriot seria um tipo mais mesquinho e inteligente do que Yurij supunha.
Observando Cheriot, que se preparava com ânimo fazendo com que a manhã desanimada e deitado de bruços parecesse coisa do passado, Yurij também entrou em seu quarto. Tirou a faca militar que tinha escondido debaixo do travesseiro e a guardou discretamente no interior do bolso da calça. Depois tirou o telefone para verificar mais uma vez se havia notícias de Alexei.
Felizmente havia uma mensagem.
[ ▶ Infiltração bem-sucedida. Estão me tratando bem, então não se preocupe. E você?]
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna