Capítulo 02.9
2. Cherry Whiskey Sour 9
Surpreendentemente, embora tivesse passado um tempo desde que chegou ao Canadá, Yurij nunca tinha visitado o famoso Tim Hortons. Às vezes tinha provado o que Timac ou Alexei lhe traziam, mas era só isso. Não sentia nem curiosidade nem desejo de viver experiências que todos provam pelo menos uma vez.
Yurij se limitava a realizar apenas os atos essenciais para sobreviver, em sua mínima expressão. Por exemplo, ia ao supermercado só quando acabavam os suprimentos e saía apenas para pegar peças de carro.
Eram seus amigos íntimos que o levavam para fora, mas cada um tinha sua própria vida e não se viam frequentemente. Se sentia saudades, se contentava em ouvir suas vozes por telefone. Esse era o entretenimento de Yurij. Vivia com uma austeridade extrema.
Era a primeira vez que via uma rede comercial desde que chegou àquela grande cidade. Saratov era um estado extenso, mas com uma população muito reduzida. O clima extremo, que chegava a -40°C no inverno, dissuadia os imigrantes, e naquela terra, precisamente, tinha se enraizado um impiedoso criminoso da União Soviética, o que manteve Saratov subdesenvolvido e submetido ao controle de Igor por muito tempo.
Embora, justo antes de ir embora, parecesse que em Saratov também tinham começado a surgir algumas coisas.
Diferente do mundo de Yurij, que sempre parecia estagnado, o exterior mudava com rapidez. Aquilo que parecia eternamente imutável às vezes se transformava de repente, e as pessoas que se acreditava sempre presentes, um dia desapareciam sem mais.
Yurij era daqueles que permanecem em seu lugar e observam o mundo mudar, deixando-o para trás.
O muro que o encerrava tinha apenas a largura suficiente para que seus amigos íntimos pudessem descansar e seguir seu caminho. Ele era um ser mau que não devia transpor esse muro, e até ele mesmo achava tranquilidade dentro daquele pequeno espaço. Trás seu muro estavam suas tarefas cotidianas, a comida para saciar sua fome mínima, os cigarros que fumava ocasionalmente e os livros que sua mãe costumava ler.
Tendo vivido assim… era a primeira vez que vinha a um lugar como este por sua própria vontade.
Yurij completou seu primeiro e desajeitado pedido no Tim Hortons, onde jovens funcionários de aparência infantil se moviam afanosos. Como não gostava de contato visual, inclinou a cabeça e recitou secamente o que queria. A caixa se surpreendeu ao ver seu rosto, mas disfarçou sua desorientação e preparou a comida com rapidez. Seu aspecto, marcado por vestígios de briga, parecia ter assustado a jovem, o que lhe produziu uma pontada de desconforto.
Após pedir o mesmo que Cheriot tinha comprado, Yurij passou por uma loja de conveniência. Ia comprar só água e cigarros, mas de repente pensou que talvez fosse bom comprar alguns snacks. Seria por Cheriot, que tinha dito ter medo? Sem querer, parou em frente à seção de chocolates, que estava prestes a passar direto.
A prateleira estava repleta de snacks. Havia gelatinas que só de vê-las pareciam doces, Twizzlers, diversas barras de chocolate, caramelos e mais, um desfile que mareava a vista.
“Não faço ideia do que é o quê.”
Como mal tinha provado guloseimas enquanto crescia, a Yurij era difícil imaginar o sabor daqueles blocos de açúcar. Em sua infância não tinha dinheiro para gastar em lojas, e o sabor do bolo Medovik que sua mãe preparava era a única lembrança de sobremesa que conservava.
Depois que sua mãe faleceu, até os doces russos desapareceram de sua vida. Assim, o sabor doce se tornou um gatilho para recordá-la, fazendo-lhe sentir a ausência daquela pessoa preciosa que já não estava ao seu lado. Em algum momento, a comida doce deixou de ser um prazer e se transformou em um símbolo que evocava a perda.
Incapaz de adivinhar os gostos de uma estrela do esporte cinco anos mais novo que ele, Yurij terminou agarrando ao acaso alguns pacotes de balas, batatas fritas e uma barra de chocolate com o rótulo de “proteína”. Enquanto pagava, duvidava se era adequado atulhar um corpo tão valioso com essas coisas.
Ao sair, o céu brilhava com força. O vento soprava de maneira fresca, apenas o suficiente para se sentir agradável, e o aroma da vegetação se impregnava no ar. O meio-dia da estranha rodovia, que encontrei depois de só ir e vir de casa para a oficina de carros, parecia linda até o ponto de ser um pouco aterrorizante.
Assim que teve esse pensamento, Yurij baixou o olhar que dirigia ao céu. Ao inclinar a cabeça, o saco de papel da loja que segurava balançou com desajeito. Contemplou o saco com incomodidade, e para voltar à realidade, meteu a mão no bolso esquerdo de seu casaco. Sentiu os dois telefones descartáveis que tinha recuperado dos intrusos na noite anterior.
Antes de chamar Alexei, Yurij ponderou onde escondê-los. Seria melhor deixá-los em um local onde Alexei pudesse encontrá-los antes de se afastarem mais. Originalmente planejava escondê-los ao sair do hotel…
Ao recordar os disparos, sua mente errante voltou à realidade. A um lugar impregnado não do fresco aroma a erva, mas do cheiro de pólvora misturado com gordura e o fedor de sangue seco em suas narinas.
Após refletir, Yurij desligou o telefone descartável e se dirigiu ao banheiro masculino. O banheiro, situado entre o Tim Hortons e o posto, estava bastante limpo, talvez bem cuidado. Aproveitando que não havia ninguém, revisou o interior com discrição e depois mexeu no compartimento para descartar toalhas de papel, onde colocou o telefone no fundo.
“Se Alexei recuperar isso e rastrear as informações de contato da outra parte, certamente surgirão algumas pistas.”
Após resolver o assunto urgente, Yurij parou em frente ao lavabo antes de sair. O homem de tez pálida que refletia o espelho vestia roupas tão lúgubres como a vida que tinha levado. O hematoma em sua maçã do rosto, fruto da surra, tinha escurecido enquanto dormia, tomando um tom avermelhado enegrecido. Que aspecto para andar por aí. Yurij sorriu com ironia e deixou o saco junto ao lavabo. Ao abrir a torneira, jorrou água fria. Ao introduzir lentamente os dedos sob o jorro, um arrepio o percorreu.
Terminou de lavar o rosto com a água fresca, que contrastava com o calor exterior, e saiu do banheiro. Uns quinze minutos, calculou. Incomodava-o ter superado os dez minutos prometidos, então apressou o passo. Por sorte, Cheriot estava a salvo dentro do carro. Não tinha fugido, nem estava conversando com algum desconhecido. Mais ainda, obedientemente tinha seguido suas instruções: subiu a janela quase por completo, deixando apenas um espaço mínimo por onde mal caberia um dedo.
Ao ver Cheriot, que o olhava com gestos enfadados, achou ao mesmo tempo estranho e engraçado. Era uma sensação que não podia explicar com lógica, similar a presenciar algo que não deveria estar em um lugar determinado. Era como ter um leão em um apartamento, ou como encontrar um balão rosa no meio de uma frondosa floresta. Resultava estranho que alguém tão alheio a ele estivesse em seu carro, embora não pudesse defini-lo com precisão.
E também se parecia um pouco com um cachorro grande chateado porque seu dono saiu sozinho.
Cheriot não tirou os olhos dele desde o momento em que Yurij apareceu em seu campo de visão. Assim que Yurij abriu a porta do acompanhante, a expressão de Cheriot se iluminou um pouco mais que antes e, com seu tom desagradavelmente jovial de sempre, soltou:
— Quase me asfixiei esperando você.
Exagera bastante, mas não ao ponto de não poder ouvi-lo. Ou talvez tenha se acostumado a ele em apenas um dia. Yurij respondeu com indiferença.
— Disse que podia deixar uma fresta para respirar.
— Eu tenho boa capacidade pulmonar, então com essa quantidade de ar não é suficiente.
Sim, assentiu Yurij levemente e fez um sinal.
— Vamos trocar de lugar. Daqui em diante dirijo eu.
— E sabe para onde vamos?
— O GPS não está ali de enfeite. Se me disser o destino, me mostrará a rota.
Cheriot soltou um “hm”, hesitou um momento e saiu do banco do motorista. Embora se queixasse, como começava a obedecer bastante bem, Yurij pensou que lidar com ele era mais fácil que antes. Após trocar de lugar, Yurij jogou o saco de papel na direção de Cheriot, que agora estava no banco do acompanhante. Ao ver o saco sobre seu colo, Cheriot se inclinou.
— Hã? Por que há tanto?
Ao inclinar a cabeça como uma criança e escrutinar dentro do saco, sua voz se tornou animada. Antes que Yurij pudesse explicar, Cheriot agarrou uma barra de chocolate e o olhou fixamente.
— Estava com tanta fome?
Yurij hesitou como explicar. Queria arrancar sem responder, mas pensou que devia encontrar também o cabo de carga e que Cheriot não se calaria até obter uma resposta. Não lhe restou alternativa senão dar uma olhada rápida no saco, fixar a vista à frente e murmurar:
— É para você.
— Para mim?
Cheriot, como um pouco desconcertado, remexeu nos snacks do saco e depois soltou uma risadinha.
— Tudo isso? Embora coma bem, não tanto para esta quantidade.
Tinha comprado demais? Como Yurij não comia snacks, não tinha como saber até que ponto uma barrinha de chocolate tão pequena enchia o estômago.
— Por acaso… comprou de tudo porque não sabia o que eu gosto?
Cheriot perguntou em tom de brincadeira. Yurij apertou o volante e hesitou alguns segundos. Achava desconfortável admitir, então Yurij confessou a maior parte da verdade que pôde.
— O doce acalma os nervos.
Era sua maneira de dizer “coma e cale a boca de uma vez”.
— …Ah.
Cheriot apertou os lábios como alguém surpreendido por um presente inesperado, e um silêncio incômodo encheu o carro. No ar carregado de quietude, Yurij permaneceu rígido, cravando a vista no inofensivo volante. Quando o silêncio se fez mais profundo, sentiu curiosidade por saber o que estaria fazendo Cheriot e, após hesitar, voltou a cabeça.
E seus olhares se encontraram.
Cheriot o observava fixamente com seus olhos verdes. Suas suaves pupilas, emolduradas por cílios avermelhados que pareciam um tapete aveludado, o faziam parecer mais inocente que o normal. Seus olhos transparentes, que brilhavam com o reflexo da luz, se moveram com lentidão ao notar que Yurij os olhava.
— Obrigado.
Ao contemplar aqueles olhos amendoados, a sensação que teve antes ao olhar o céu o invadiu de novo. Assim como aquela paisagem era bonita demais para que ele ousasse admirá-la, a imagem daquele homem agradecendo-lhe parecia uma paisagem de outro mundo que a ele era proibida.
Não esperava ouvir um agradecimento de alguém comum. E menos duas vezes.
Que lhe agradecesse por salvá-lo, isso podia entender. Tinham estado em uma situação de vida ou morte, então alguém comum como Cheriot podia se sentir em dívida. Mas agradecer por uns snacks insignificantes, isso era diferente. Sobretudo vindo de alguém que podia deixar algumas centenas de dólares sobre a mesa sem se abalar e esquecer-se deles.
E mais ainda, sabendo que classe de pessoa era Yurij.
Talvez porque estava recebendo um agradecimento que não devia dirigir-se a um criminoso, o interior de seus ouvidos lhe coçava com uma sensação insuportável e pulsante. Yurij desviou o olhar com brusquidão, girando a cabeça com lentidão, e respondeu com indiferença para restar todo significado especial às palavras de Cheriot.
— Afinal, agora sou seu empregado.
Essas palavras de gratidão ressoavam sem cessar em seus ouvidos, e queria silenciá-las.
— Preferiria que não me agradecesse de agora em diante.
Como alguém que sabia quão grande é o vazio que deixa algo quente e suave depois de desaparecer, não desejava permitir que nada parecido entrasse em sua vida nunca mais.
Embora a voz de Yurij soasse a sugestão, também tinha um toque de ameaça coercitiva. Se tivesse usado o tom que costumava usar com os brutamontes a quem lesava, teria dado apenas um aviso antes de passar à ação. Mas com Cheriot, isso era o mais longe que chegaria. Já tinha sido condescendente com ele por ser um civil, mas desde que viu o medo em seus olhos, achava um pouco mais difícil tratá-lo.
Yurij se sentia desconfortável com os seres débeis. A maioria teme quem é mais forte, mas para ele era justamente o contrário.
Como se segurasse as asas de uma borboleta que se desfaz ao menor toque, as pessoas comuns se machucavam com facilidade e temiam o ambiente que a ele lhe era familiar. Sua mãe lhe ensinou que o que ocorria cada dia em sua vida resultava muito incômodo para as pessoas normais. E depois, Katia repetiu-lhe uma e outra vez:
[Mesmo que nem todos os fracos precisem de sua ajuda, você deve respeitá-los sempre. Que você seja uma pessoa forte não se deve a ser melhor. É pela graça que Deus lhe concedeu, que lhe permite caminhar sobre a terra com seus dois pés.]
Yurij já não acreditava em Deus, e embora já não coincidisse cegamente com as palavras de sua mãe como antes, aqueles ensinamentos prolongados seguiam gravados em seu peito como um epitáfio.
Mas Cheriot era um caso ambíguo. Era um homem alfa, um atleta com um físico excelente que não precisava da ajuda de ninguém. Fisicamente não era para nada fraco, e tinha o temperamento para subjugar sozinho um criminoso que invadiu seu quarto de hotel.
No entanto, a lembrança de sua expressão ao dizer que lhe dava medo pessoas como Yurij, que tinha cruzado “a linha”, não saía de sua mente, e dificultava-lhe tratá-lo com a mesma severidade do início.
— Não.
E como se tivesse percebido seus pensamentos, Cheriot lhe deu justamente a resposta contrária à que queria ouvir. Ao recusar sem sequer pensar, o cenho de Yurij se franziu levemente.
— Como você disse, eu sou o empregador, então farei o que me apetecer.
Não satisfeito com essa resposta, Cheriot apontou a comida do Tim Hortons que Yurij tinha comprado e acrescentou:
— E também aproveitarei meu café da manhã. Obrigado.
Realmente…
Uma irritação subia-lhe pela garganta, como se tivesse engolido pelúcia que lhe causava coceira. Yurij compreendeu que seguir com o assunto só lhe traria problemas, então decidiu mudar de tema para algo prático.
— No porta-luvas havia um conector para carregar o telefone. Você usou?
E decidiu que, após essa troca necessária, seria melhor evitar misturar mais palavras. Embora tratasse Cheriot com cuidado, não tinha por que agradá-lo a cada vez.
— Sim, seu colega me deu uma bateria externa, mas esqueceu o cabo. Como você estava dormindo e não quis te acordar, procurei um e usei.
“Diz que tem medo, mas não teve problema em revirar meu carro.” A Yurij pareceu um tanto ridículo, mas não o mencionou.
— Me dê.
Ao ouvir o pedido, Cheriot assentiu e de repente se inclinou para o banco do motorista. Yurij, sobressaltado pelo movimento repentino, agarrou seu ombro com força.
— O que está fazendo?
A proximidade era tal que parecia que iam ficar em uma posição quase abraçados, e Yurij franziu o cenho. Cheriot, piscando com seus longos cílios, o olhou fixamente e indicou com o olhar além de seu ombro.
— Coloquei minha bateria no compartimento da porta. O cabo também está conectado lá. Ia tirar eu mesmo.
No instante, Yurij voltou a cabeça para a esquerda. Efetivamente, ali estavam a bateria e o cabo no compartimento inferior da porta. Como não tinha visto? Yurij repreendeu mentalmente sua falta de atenção e depois apertou mais sua mão no ombro de Cheriot. Era sua maneira de adverti-lo para se afastar.
— Não entendo por que tem que me dizer isso desta maneira, em vez de usar palavras.
— Já te disse antes. Quero que estejamos o mais confortáveis possível nesta situação.
— E isso…?
“É sua maneira?” Cheriot assentiu, como se tivesse lido a pergunta infantil nos olhos azuis de Yurij.
— Geralmente, gosto de contato físico. Todos os meus amigos sabem disso. Sentir o calor corporal me faz sentir vivo… e me dá uma sensação de proximidade. Ah, mas só com quem não se incomode, claro.
— Eu me incomodo.
Yurij deixou claro seu desagrado sem a menor hesitação. Mas Cheriot não recuou.
— Você é diferente. Quer que eu me sinta seguro.
— Quando eu…?
— Não é por isso que me comprou os snacks?
Yurij ficou sem palavras. Achava difícil negar que tinha parado em frente à prateleira precisamente por Cheriot.
— Os snacks estão bem, mas prefiro o contato.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna