Capítulo 02.10
2. Cherry Whiskey Sour 10
Restava apenas o espaço de dois nós de dedos entre eles quando Cheriot sussurrou essas palavras. A excessiva proximidade atraiu seu olhar para os lábios do outro. Seus lábios tinham um tom rosado vibrante, incomuns para um alfa. Uma cor que não combinava em absoluto com palavras como “homem” ou “alfa”, até o ponto de perguntar-se se levaria algum gloss.
No entanto, não lhe resultava repulsivo. Ao contrário, era um tom tão peculiar que lhe provocava o impulso irracional de tocá-lo. Yurij desviou o olhar de repente e franziu o cenho. O que está acontecendo aqui? Como permitia que um alfa que acabava de conhecer há apenas um dia se aproximasse tanto?
Longe demais. Uma distância que nunca tinha permitido a ninguém. Nem mesmo a Alyosha, a quem conhecia há anos.
Talvez por aquelas palavras que lhe revolviam docemente a cabeça, a força se esvaiu da mão com que tentava afastar Cheriot. Ao notar, Cheriot baixou a vista para observar a mão de Yurij que o segurava, depois ergueu o braço com lentidão e sobrepôs sua própria mão sobre o dorso da de Yurij. A palma de Cheriot era cálida e firme. A textura de seus calos, forjados durante anos de treino, parecia falar de outra faceta sua.
A mão de Cheriot, que acariciava o dorso da de Yurij, desceu gradualmente até tomar-lhe o pulso. Embora seus pulsos não fossem para nada delgados, o de Yurij ficou facilmente aprisionado na mão de Cheriot.
Deixando-se levar, Yurij se viu com a mão apoiada sobre o peito de Cheriot. Através do tecido de seu moletom, de uma espessura moderada, podia sentir uns músculos quentes e firmes. A sensação tangível de outro corpo o perturbou. Achava estranho tocar outro alfa dessa maneira, e o fato de palpar precisamente a área onde se aloja o coração o pôs tenso.
Em que confiava para expor-lhe um ponto vulnerável assim?
Cheriot, que observava seus olhos hesitantes, baixou a cabeça com parcimônia. Olhou o pálido dorso da mão de Yurij sobre seu peito e sussurrou:
— Meu coração não parou de bater descompassado desde ontem à noite. Tanto quanto antes de um jogo. Tomara que fosse emoção, mas não é essa a sensação.
O hálito de Cheriot roçou o dorso daquela mão pálida e cheia de cicatrizes.
— Faça com que esses batimentos se acalmem. Faça com que eu não tema estar ao seu lado.
Quem no mundo pediria que o tratassem com doçura para não assustá-lo?
Cheriot parecia uma fera selvagem desnudando seu ventre. Era como presenciar um leão que, tendo perdido sua ferocidade, em vez de lutar preferia revelar seu ponto débil e pedir que o protegessem.
— Me dê a segurança de que, quando tocar meu corpo, em nenhum momento chegará a me estrangular.
Embora alguns, diante de tal cena, mergulhassem uma faca naquele ventre exposto, como se tivessem esperado a oportunidade, Yurij odiava a caça, detestava o sangue e não queria ser testemunha do sofrimento.
No final, não pôde empurrar Cheriot. Entrecerrou os olhos, cravou o olhar em sua mão sobre o peito de Cheriot e conteve a respiração, até sentir os batimentos do coração ressoando sob aqueles músculos robustos. Era um pulso tenso e encolhido, como o de uma criança assustada.
Sentiu pena daquele homem, que levava uma vida incomparavelmente mais valiosa que a de alguém como ele. Ah, sim, tinha se esquecido. As pessoas comuns temiam as situações sangrentas.
Por mais resistente que fosse um alfa, isso não significava que não temesse a maldade e a perversão.
— Embora só sejam alguns dias.
Cheriot acrescentou isso por último e o soltou. Yurij recolheu com lentidão seu pulso liberto, deu-lhe as costas e tirou a bateria externa do compartimento da porta. Desconectou o cabo, estendeu-lhe a bateria e, sem olhá-lo nos olhos, perguntou:
— A quanto tempo exatamente você se refere com “alguns dias”?
— Dez dias no máximo. Enquanto você dormia, entrei em contato com minha família nos Estados Unidos.
— …Mas você disse que, por causa do fundo fiduciário, este assunto não devia chegar aos ouvidos de sua família.
[— Em concreto, escândalos que “perturbem a ordem social e danifiquem a honra da família”.]
Era o que Cheriot tinha dito.
— Certo, no que se refere à família extensa. Mas minha família nuclear é diferente. Não queria preocupar minha mãe, tentei resolver sozinho… mas a situação se complicou, então não há remédio.
Yurij guardou silêncio um momento diante da menção de “mãe”. Seria porque Alexei, Timac e todos os que o rodeavam tinham crescido sem pais desde pequenos? Fazia muito que não ouvia essa palavra.
Felizmente, seu próprio pai ainda vivia, mas ele se referia a sua mãe como “Katia” e… raramente falava dela diante de Yurij. Talvez porque o dia em que sua mãe morreu deixou uma ferida profunda demais em ambos.
Yurij conectou o cabo à porta USB do carro, ligou o telefone, abriu a janela de destino no GPS e então falou.
— Suponho que, diferentemente de mim, são pessoas boas em quem se pode confiar.
— É claro.
A segurança de Cheriot foi imediata.
— Na minha infância foram meus guarda-costas, e depois que me transferiram para o Canadá, continuaram protegendo minha mãe. São como da família. São mais confiáveis que meus parentes de sangue.
Yurij assentiu sem aprofundar mais. Em algum lugar tinha ouvido que todas as famílias felizes se parecem umas com as outras; mas cada família infeliz tem um motivo especial para se sentir desgraçada.
— De acordo.
Dez dias no máximo. Isso não devia ser um problema.
— Durante esses dez dias, me adaptarei a você em certa medida. Mas será melhor que tenha cuidado ao se aproximar de repente como fez há pouco. Às vezes me custa controlar meus reflexos diante de um ataque surpresa.
— Já sei por experiência.
Como se a resposta afirmativa de Yurij o tivesse aliviado, Cheriot sorriu de novo com brilho, igual a quando recebeu o saco de snacks, e se recostou contra o banco do acompanhante.
— Mas por que demorarão até dez dias? Com um dia basta para cruzar desde os Estados Unidos.
— São… assuntos de adultos.
A resposta foi evasiva. Se se tratava de coisas das quais não queria falar, Yurij entendia por experiência própria, então não insistiu.
— Será melhor partirmos. Diga-me o destino.
Cheriot meteu a mão no saco de snacks, tirou uma barra de chocolate, mordeu a ponta do envoltório para desprender e respondeu:
— Ao paraíso.
— O quê?
— Vamos rumo ao Paraíso.
Era impossível que existisse uma cidade com esse nome no mundo. Ao cravá-lo com o olhar fixo, Cheriot soltou uma risada baixa.
— Tente Big Fox. Lá não haverá turistas nem vizinhos intrometidos.
Era uma cidade que nunca tinha ouvido. Pela forma como Cheriot falava, parecia um vilarejo pequeno. Ao introduzir o nome no GPS, apareceu um trajeto de aproximadamente uma hora e meia. Não faltava muito para chegar.
Após fixar o destino, Yurij ligou o motor e partiu sem hesitar. Assim que o carro começou a se mover, Cheriot baixou a janela por completo como se tivesse esperado. Uma rajada de ar violento varreu o interior. O vento despenteara seus cabelos, deixando completamente descoberta a testa branca de Yurij.
— Ah, certo. Há mais uma coisa que devo dizer.
Como nenhuma das notícias que Cheriot lhe tinha dado até agora eram boas, Yurij respondeu com silêncio.
— Conectei meu telefone ao Bluetooth do seu carro. Então, posso colocar música durante a viagem?
— …O quê?
— É que me dá sono se só dirigir, não tive opção. Na rodovia quase não há sinal, então o rádio não funciona.
Não lhe agradava que fosse a segunda vez que mexia em seu carro sem permissão, mas como também era culpa sua por ter dormido, podia passar por alto. Mas a música, não.
— Não.
— Tudo bem.
Contra todo prognóstico, Cheriot cedeu imediatamente.
— Então, em vez disso, cantarei eu todo o caminho.
Deus…
Yurij pisou no acelerador a fundo um instante. O carro disparou para frente e o corpo de Cheriot se inclinou para trás, batendo a nuca contra o banco. Mas em vez de reclamar, Cheriot começou a cantar rindo como uma criança.
Tastes like strawberries on a summer evenin’
And it sounds just like a song
I want more berries and that summer feelin’
It’s so wonderful and warm
Breathe me in, breathe me out
I don’t know if I could ever go without
I’m just thinking out loud
I don’t know if I could ever go without[2]
Embora a entonação não fosse perfeita entre risos, a canção que brotava de Cheriot era doce e suave. Era a primeira vez que Yurij via alguém cantar com tanta destreza, e por um momento se sentiu desconcertado. Achava estranho e até vergonhoso que alguém que não fosse um cantor profissional pudesse entoar tão bem.
Preferiria que fosse um cantor terrível. Assim poderia ter suportado. Mas seu aspecto, recostado no banco e rindo enquanto cantava, era tão convincente que lhe deu coceira por todo o corpo. Sentindo aquela irritação até na garganta, Yurij engoliu saliva seca e, com esforço, conseguiu abrir a boca para deter seu canto.
— Prefiro que coloque a música. Não suporto ouvi-lo.
— Ah, que pena! Justo ia chegar a parte espetacular!
Yurij voltou a cabeça para olhá-lo com seriedade, e Cheriot, com malícia, encolheu os ombros como lamentando.
— Bem, não há remédio. A função será para a próxima.
No final, Cheriot conseguiu o que queria. Manipulou seu telefone algumas vezes e depois estendeu a mão para o botão de volume. Seus dedos bem formados giraram o dial e a música começou a fluir dentro do carro. Yurij temeu que fosse uma canção pop melosa como a que acabara de ouvir, mas o que ouviu foi o som sereno e alegre de um violão acústico.
Almost Heaven, West Virginia
Blue Ridge Mountains, Shenandoah River
Life is old there, older than the trees
Younger than the mountains, growin’ like a breeze
Era uma música que lhe soava de algum lugar. O carro saía já da área de descanso e entrava na rodovia banhada por uma luz esplêndida. A paisagem da Rodovia 1 que viam de dia os recebeu com uma imagem que Yurij nunca tinha chegado a imaginar.
Imensas e frondosas montanhas guardavam ambos os lados da estrada como uma cerca. Após passar por extensos prados, as árvores coníferas se erguiam para o céu como se medissem a longitude de inúmeras horas, e ao longe, os gigantescos picos montanhosos que os aguardavam eram formados por rochas tão brancas e escarpadas que pareciam cobertas de neve.
Country roads, take me home
To the place I belong
West Virginia, mountain mama
Take me home, country roads[3]
Sob um céu azul intenso sem uma única nuvem, a luz do sol lhe feria os olhos. Diante do resplendor que lhe impedia mantê-los abertos, Yurij franziu o cenho sem perceber. A brisa fresca entrava pela janela que Cheriot tinha aberto de par em par, enchendo o carro. A música se misturava no ambiente, e o aroma doce da barra de chocolate flutuava ao seu lado.
Dez dias.
Enquanto absorvia a imponente paisagem diante de seus olhos, Yurij sussurrou para si mesmo:
“Se aguentar só dez dias, poderei voltar a ser eu mesmo.”
Seus olhos azuis, que repetiam essa ideia, tinham um tom transparente e bonito como o céu sobre sua cabeça, talvez pela luz do sol. Era a cor original de suas pupilas, uma que não podia ser vista sob a sombra.
Notas
[2] Watermelon Sugar de Harry Styles.
[3] Take Me Home, Country Roads de John Denver.
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Fim do volume 1
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna