Capítulo 02.8
2. Cherry Whiskey Sour 8
E também não estava Cheriot.
Ao ver o banco do motorista vazio e a janela aberta, começou a lhe doer a cabeça. Como preço por ter dormido tão profundamente, Yurij enfrentava vários questionamentos. Onde estava agora, por que tinham desaparecido o cabo e Cheriot… Perguntas sem resposta imediata se acumulavam em sua mente.
Primeiro revisou o banco traseiro. O banco do passageiro estava reclinado quase 180 graus, então via diretamente a parte de trás. A mala de Cheriot ainda estava atrás do banco do motorista. Ao concluir que ao que parece ele não tinha fugido, viu a jaqueta sobre sua coxa. Era a jaqueta preta que Cheriot vestia.
“E isso o quê…?”
Se quisesse tirá-la, podia ter deixado no banco traseiro. Por que razão a colocou sobre seu corpo? Para que estivesse à vista? Enquanto franzia os olhos para guardar a jaqueta de Cheriot, Yurij divisou ao longe um homem de compleição robusta que se aproximava. Usava gorro e óculos de sol, mas só de olhar soube que era Cheriot.
Cheriot se dirigiu ao carro com passo leve, como se voltasse de um passeio. Nas mãos levava copos de papelão vermelhos e de seus pulsos pendia um saco de papel bastante grande que balançava. Para ser um tipo que há nove horas quase morreu de um tiro, tinha um ar demasiado despreocupado. Yurij secou as palavras.
Como se tivesse visto Yurij se levantar, Cheriot de repente agitou a mão que segurava o copo para ele. Não era uma relação tão próxima para se cumprimentar assim de longe, mas Cheriot, não contente com só cumprimentar, acelerou o passo. Com alguns movimentos de suas longas pernas, Cheriot chegou rapidamente ao carro.
— Acordou, meu príncipe adormecido?
Cheriot se inclinou de repente pela janela aberta do motorista para cumprimentá-lo. Ao estender o braço para lhe entregar o copo de café, Yurij o aceitou sem pensar. Ao ouvir o apelido de “príncipe adormecido”, Yurij caiu em si de que tinha dormido profundamente e que Cheriot o tinha visto dormir. Invadiu-o a frustração ao pensar que tinha exposto seu ponto fraco diante de um desconhecido como Cheriot, com quem nem sequer tinha uma amizade longa.
— …Não se esqueceu de que sou um criminoso que você detesta sobre todas as coisas, não é?
— No fundo, os membros da realeza são todos criminosos. No passado puniam as pessoas por coisas que nem sequer eram delitos.
Do café que segurava nas mãos erguia-se um aroma torrado e penetrante dos grãos. Após ter dormido e dissipado o cansaço, o cheiro do café o fez sentir que voltava à vida. Yurij conteve a vontade de beber um gole imediatamente. Não que desconfiasse de Cheriot, mas não podia se sentir tranquilo sem saber o que continha aquele copo.
“…Se quisesse me matar, certamente já o teria feito.”
Ao ver que Yurij franzia o cenho em silêncio após receber o café, Cheriot interpretou mal sua reação e corrigiu o que tinha dito.
— Não há mais opção. Se não gosta de “príncipe”, posso chamá-lo de “lobo”.
— O quê?
— É um apelido que me ocorreu porque age como um lobo solitário. Pensando bem, só você usará meu apelido em público, então senti que eu também devia inventar um para você.
— Me chame de Campbell.
Yurij mencionou o sobrenome que constava em sua identificação falsa. Cheriot soltou uma risada zombeteira, abriu a porta do carro e subiu.
— Mas se estou dizendo para usarmos apelidos.
No instante em que Cheriot se sentou, o carro balançou com um chacoalhar. O interior, antes vazio, de repente se sentiu abarrotado com sua presença. Ao mesmo tempo, o ambiente silencioso começou a se encher de barulho.
— “Wolfie” combina perfeitamente com você. Acontece que meu livro de contos favorito é “Wolfie the Bunny”. Devia lê-lo quando tiver oportunidade. É um livro realmente maravilhoso.
— Meu nome, Campbell, é suficiente.
— Wolfie, aqui está o café da manhã. Infelizmente não há carne vermelha, então por enquanto terá que se contentar com isso.
Cheriot ignorou a solicitação de Yurij, colocou seu próprio café no porta-copos e tirou de um saco de papel um muffin e um bagel.
— Como é cedo, era o que vendiam no Tim Hortons. Comprei muffin e bagel. Omiti os wraps porque são incômodos e grudam nas mãos.
Cheriot estendeu a comida para Yurij como perguntando qual preferia. Yurij esteve a ponto de insistir em sua solicitação ignorada, mas a fragrância que flutuava no ar o fez baixar o olhar para os alimentos. Como qualquer opção lhe dava igual, perguntou a Cheriot:
— Para mim dá igual, então você escolhe primeiro.
— Sério? Então fico com o muffin de bacon.
— Está bem.
Por que me pede opinião para isso se insiste em impor o apelido? Com um sentimento de incredulidade, Yurij pegou o bagel de sua mão. Cheriot, recuperando o muffin, cantarolou em voz baixa como tinha feito enquanto dirigia. Em seguida, tirou do saco uma hash brown. Suas mãos eram tão grandes que a hash brown parecia uma tater tot.
Yurij, que tinha observado em silêncio Cheriot devorar a hash brown em apenas duas mordidas, hesitou um momento e decidiu beber seu café primeiro. Ah, isso sim era vida. Ao deslizar a bebida até seu estômago, a cavidade vazia lhe produziu uma leve pontada, então em seguida mordeu o bagel.
Acreditava ter se acostumado à fome, mas ao que parece os anos relativamente suportáveis tinham reduzido sua tolerância ao sono e à inanição. Mal provou o bagel quando a fome o investiu com fúria e, num piscar de olhos, Yurij o devorou por completo. Ter passado o dia anterior sem comer fez com que nem mesmo um bagel conseguisse saciar seu apetite.
Já que tinham parado em uma área de descanso, Yurij decidiu sair para comprar mais comida. Enquanto dobrava com cuidado o saco do bagel para guardá-lo no de papel, seu olhar se encontrou com o de Cheriot, que o observava fixamente.
— O quê?
Sua voz, ainda rouca pela manhã, surgiu em um tom baixo. Diante da pergunta de Yurij, Cheriot, em vez de responder, lhe estendeu o muffin que segurava.
— Cedo a você, é um presente especial.
— Não precisa.
— Não, é que marcas baratas como Tim Hortons não me agradam muito. E isso que tinha acabado de devorar a hash brown de uma vez. Yurij soltou uma risada seca e voltou a afastar a mão.
— Deixa. Já compro mais.
Afinal, para alfas com compleição como a de Cheriot ou a sua, um ou dois muffins resultavam insuficientes.
— Ah, claro, essa era uma opção. Esqueci porque estava tentando reduzir ao máximo o tempo fora do carro.
Ao ouvir Yurij, Cheriot abriu os olhos bem abertos, como se tivesse tido uma revelação. Diante de sua expressão ingênua, Yurij experimentou de novo a mesma sensação do dia anterior. Ao ver Cheriot cantarolando como se nada tivesse acontecido, apesar de ter estado prestes a levar um tiro, vislumbrou nele uma candidez que resultava difícil ignorar. Fosse por seu temperamento inato ou porque as pessoas comuns eram assim, Cheriot parecia não compreender a gravidade de sua situação.
“Embora por outro lado, o fato de ter admitido ter medo sugerisse o contrário…”
Não é que carecesse por completo de percepção da situação, nem que não tivesse certa capacidade para lidar com crises, mas vê-lo agir desse modo dificultava avaliá-lo com clareza. Yurij decidiu adiar seu julgamento e abriu a porta do carro.
— Fique aqui parado.
Ia fechar a porta e ir embora, mas parou um instante e depois se aproximou de Cheriot, que o seguia com o olhar. Suas pupilas verdes se moveram inquietas, seguindo cada um de seus gestos.
— Feche a janela. Se a deixar tão aberta, qualquer um pode subjugá-lo com facilidade.
— Mas está calor. Além disso, ninguém me reconheceu.
— Então ligue o ar-condicionado.
— O ar-condicionado esfria demais e não gosto.
Cheriot resmungou. Yurij observou fixamente aquele tipo que o tinha tratado de lixo agora resmungando, e pensou que devia erguer de novo um muro entre eles. Entre alfas, era mais manejável estabelecer claramente uma hierarquia.
— Não sou sua babá. Se não quer morrer, faça o que digo.
Cheriot arqueou uma sobrancelha ao ouvi-lo.
— Não precisa falar como um delinquente, eu já sei muito bem que tipo de pessoa você é.
— Então, que tal mostrar um pouco mais de cautela? Sua atitude é excessivamente familiar.
Cheriot cravou o olhar em Yurij. Diante daqueles olhos verdes que brilhavam intensamente sob a forte luz solar, Yurij pensou que, para proteger aquela ingenuidade que ainda conservava, ele devia se mostrar firme.
— Confia demais nas pessoas. O do hotel foi um exemplo: sua identidade vazou por aquela conversa com aquele ômega. Sabia que ele postou sua foto nas histórias das redes sociais? Não aceite comida de qualquer um, nem deixe a porta do carro aberta assim. Há pessoas por toda parte que vão apontar uma arma para você, roubar seu carro ou ameaçá-lo, sem precisar que você seja uma celebridade.
Diante do aviso de Yurij, o gesto queixoso e juvenil de Cheriot se desvaneceu e ele apertou os lábios com força. Tinha se apressado tanto ao comer a hash brown que um pequeno pedaço de batata se grudou sob seu lábio. Talvez por isso parecia ainda mais jovem. Na verdade, era cinco anos mais novo que Yurij. Ou melhor, quatro. Sua idade pública era um ano a menos que a real.
No entanto, Cheriot ser jovem não significava que não fosse um adulto. Yurij tinha começado a trabalhar entre adultos desde os doze anos, e então aprendeu que os criminosos cometiam seus delitos sem se importarem em absoluto com que classe de pessoa tivessem à sua frente. Para eles, o peso da vida que carregavam suas vítimas não tinha importância. O único que importava era se podiam explorá-las.
Portanto, as gangues que perseguiam Cheriot não se preocupariam em absoluto com o tipo de pessoa que ele era. Só o veriam como um alvo a eliminar.
Yurij desejava que Cheriot repensasse sua própria situação. Acreditava que só se ambos mantivessem a tensão, e não só ele, poderiam minimizar os perigos.
— Você… pensa em me matar?
Assim que Yurij terminou de falar, Cheriot lançou uma pergunta inesperada.
— O que diz de repente?
— Pergunto se pensa em me matar.
— …Estou com você agora para protegê-lo.
— Certo. Você é meu guarda-costas. Embora tenha rescindido o contrato, devido à minha situação, está aqui a pedido de Heather. Ah, bem, em qualquer caso, trabalha para mim, então é claro que pagarei você.
Cheriot fez uma pausa. A expressão em seu rosto pálido, que sempre parecia despreocupado, foi se desvanecendo até ficar impassível, absorto em seus pensamentos. Baixou o olhar, que antes estava fixo em Yurij, e falou em voz baixa.
— Como Heather disse, odeio criminosos com toda a minha alma…
A luz do sol projetou sobre suas bochechas as sombras de seus cílios, seguindo seu contorno.
— …mas ao mesmo tempo, tenho medo deles.
Seus cílios longos e finos, de um vermelho cobre, tremeram. Ao ouvir a palavra “medo”, Yurij se sobressaltou por um instante.
— Essas pessoas fazem sem hesitar coisas que eu jamais poderia fazer. Não importa o quão forte eu seja ou o quão bem possa lutar, há um limite que nunca cruzaria.
Tudo o que Cheriot dizia era verdade. A fronteira entre uma pessoa comum e um criminoso era tão fina como uma linha. A diferença entre ser humano e fera residia em se esforçar para não transpor essa linha tênue ou se render e optar pelo caminho fácil.
— Então não se preocupe. A razão pela qual falo sem cessar é simplesmente uma tentativa de mantê-lo ao meu lado, não porque me sinta atraído como na primeira vez que nos conhecemos. Dado que você e eu terminamos por nos acompanhar inevitavelmente, o que quero é que, enquanto estivermos juntos, estejamos um pouco mais confortáveis.
Cheriot tinha aliviado a preocupação desnecessária de Yurij. Não é que não estivesse tenso. Sentia medo em seu interior, mas não o deixava transparecer.
Yurij tinha se enganado. Pensou que era inocente e jovem, que não entendia o perigo, mas talvez a pessoa perigosa para Cheriot fosse ele mesmo.
Nesse caso, era um alívio.
— O quê? Por acaso tem pena de que, sendo um alfa, não esteja à altura da minha compleição?
Se tinha lucidez para estar consciente de como Yurij era, certamente não se deixaria levar dócilmente por tipos perigosos. Parecia que Yurij o tinha julgado apenas por sua atitude aparente.
— Não.
Embora tivesse aprendido por experiência própria que nunca se deve julgar as pessoas pelas aparências, tinha cometido esse erro com Cheriot. Yurij negou com a cabeça e se desculpou.
— Se for por isso, peço desculpas.
Que Cheriot não cumprisse com os padrões que Yurij desejava não significava que não estivesse dando o melhor de si.
— Não entendi sua postura e o julguei com meus próprios parâmetros.
Não tinha mais nada a dizer a alguém que, confrontado com uma situação fora do comum, se sentia inquieto. Yurij também não desejava essa situação, mas se medissem a escala de desconforto, Cheriot sem dúvida a levava pior.
Decidiu ceder um pouco por ele. Afinal, não estariam juntos por muito tempo, e se adaptar a Cheriot não lhe suporia nenhuma perda.
Quando Yurij se desculpou, Cheriot ergueu a cabeça lentamente. O piscar de seus longos cílios denotava um toque de surpresa. Yurij sustentou seu olhar deliberadamente. Lembrava que sua mãe lhe disse que o contato visual ajuda a tranquilizar as pessoas. E que, quanto mais ansiosa estiver a outra pessoa, mais sereno deve se mostrar quem a tranquiliza.
— Será melhor que limpe os lábios.
Yurij indicou os lábios de Cheriot com o olhar e depois bateu na carroceria do carro com a palma da mão.
— Deixe a janela entreaberta. Voltarei em menos de dez minutos, não se mova daqui.
Se algo fosse acontecer, certamente já teria acontecido. Tinha estado inconsciente e dormido por muito tempo, tempo mais que suficiente para ocorrer uma desgraça. O fato de ainda estar ileso indicava que o julgamento de Cheriot não estava errado. Já era suficiente que ele mesmo estivesse sempre alerta.
Enquanto Yurij, após terminar de falar, se virava e se dirigia à área de descanso, Cheriot o observou e depois levou a mão lentamente aos lábios. Ao contemplar o pedaço de hash brown que se grudou em seus dedos, uma expressão de desconcerto, difícil de decifrar, cruzou seu rosto.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna