Capítulo 02.7
2. Cherry Whiskey Sour 7
Yura, minha bolinha de gude.
A mãe de Yurij o chamava com muitos apelidos carinhosos. Tantos termos usava cada vez que se dirigia a ele que, quando pequeno, Yurij frequentemente se confundia sobre qual era seu verdadeiro nome.
Também a família Kiselyov teve uma época feliz. A felicidade deles não era algo grandioso nem materialmente esplêndido como costumam dizer as pessoas, mas sim abrigava gratidão suficiente para dar sentido a cada dia. Eram felizes por ter uma família a quem amar. Embora a vida fosse miserável e cansativa lá fora, ao voltar para casa sua mãe os recebia com calor e isso lhes dava forças para continuar vivendo.
Se pensarem bem, a família de Yurij não foi infeliz desde o início. Depois que Katia e Vasha formalizaram sua promessa mútua e se tornaram esposos como qualquer casal que inicia uma nova vida, ambos alimentavam esperanças para seu próprio lar.
Seu casamento começou com as reformas de Gorbachev. Os dois jovens que até então tinham vivido cumprindo silenciosamente seu trabalho foram arrastados por uma corrente de mudanças repentinas. Um golpe de estado estourou e fracassou e, em meio ao caos e à confusão, o mundo se transformou. Era um mundo cruel para pessoas como Katia e Vasha, que sempre tinham vivido com honestidade.
O sistema de racionamento foi suspenso por completo e com o dinheiro que tinham não podiam comprar nada. Mesmo gastando todas as economias em meio a uma inflação que se multiplicava por centenas, só alcançava para alguns quilos de salsichas e pão. Os que não tinham nada saíam para a rua para se vender, enquanto os contrabandistas e uns poucos privilegiados acumulavam toda a riqueza.
Eles não viam futuro naquele país. Sucediam-se os dias em que, com sorte, comiam uma única vez, e tudo se conseguia apenas por contatos. Foi então que Katia concebeu uma vida preciosa.
Vasili pensou que não podia continuar vivendo ali por sua esposa. Só no dia anterior tinha visto como um vagabundo bêbado agarrava uma mulher na rua e abusava dela. Corriam rumores de que no orfanato do bairro as crianças abandonadas eram tantas que um recém-nascido tinha morrido congelado. Temia uma vida em que todas as noites, no caminho de casa, tivesse que se preocupar se alguma desgraça aconteceria a sua esposa.
E não era só isso. A cada dois dias chegavam notícias trágicas de que alguém do bairro, incapaz de suportar um futuro miserável, tinha decidido tirar a própria vida. Acumulavam-se sem cessar os rumores sobre novos grupos criminosos que apareciam na cidade para explorar as pessoas.
Pensando que naquela terra não havia esperança, Vasili decidiu abandonar o país. Por Katia e por seu filho. Para ser um bom pai.
Durante meses pensaram e procuraram um lugar para ir. Economizaram dinheiro e conseguiram informações para escolher o melhor para a criança. Dizia-se que muitos iam para os Estados Unidos. Que lá podiam ganhar dinheiro conforme trabalhassem e eram livres para fazer o que quisessem. Corria o rumor que entre os vizinhos que tinham cruzado já havia alguns que tinham comprado uma casa.
Katia pegou a mão de Vasha e disse que fossem para os Estados Unidos. Ela estava exultante com a expectativa de uma vida em que, em vez de esperar sua vez durante anos, poderiam trabalhar duro para comprar um carro. Cantou sobre um futuro em que poderiam comprar sua própria casa, plantar flores no quintal e fazer geleia com seu filho. Como era linda a mulher de cabelos negros que mostrava seus dentes brancos enquanto sorria! Vasha jurou em sua alma que faria qualquer coisa por ela.
Vasili conseguiu o dinheiro à custa de levar bofetadas de seu pai. Os pais de Katia se opunham a que ela fosse embora, então Vasili teve que fazer tudo isso sozinho, apenas com seu próprio esforço. O dinheiro que Katia tinha economizado trabalhando como enfermeira seria usado como fundo de estabelecimento. Assim se prepararam para a emigração e, sacrificando todas as suas posses, chegaram aos Estados Unidos.
Lá Vasili conheceu Mikhail, o pai de Alexei. Mikhail e sua esposa Nina, alguns anos mais velhos que Vasili, tinham chegado antes do colapso da União Soviética e, por isso, possuíam identidades falsas. Mas em troca, sua chegada antecipada lhes permitiu conhecer várias fontes de trabalho. Graças a esse encontro, Vasili conseguiu emprego em um açougue.
Casualmente, Nina tinha acabado de dar à luz. Katia, com seu parto próximo, sentiu imediata proximidade por Nina por ter um bebê da mesma idade. Assim as duas famílias se tornaram íntimas amigas. Por um tempo tudo pareceu se encaminhar. Tinham encontrado compatriotas em terra estrangeira e Mikhail, sendo mais velho, o ajudava como um irmão mais velho. Parecia que poderiam se estabelecer em Nova York, formar uma família comum que pudesse comprar suas provisões com dinheiro e viver bem.
— Já escolheu o nome, Katia?
— Ainda estou pensando. Não sei o que vai gostar minha pequena pérola.
— Não se deve colocar um nome muito especial na criança. Se os deuses repararem nele, não viverá muito.
O dia em que decidiram o nome de Yurij, Katia estava sentada nos degraus em frente ao apartamento de Nina. Como compartilhavam uma pequena casa de dois andares em Brooklyn alugada — o térreo para o casal de Katia e o primeiro andar para o de Nina, — frequentemente sentavam-se nas escadas para conversar.
A casa grudada na rua, movimentada pelos transeuntes, não tinha espaço para um jardim. Katia olhou para Alexei rindo com uma gargalhada clara nos braços de Nina. Ao ouvir suas palavras, caiu em profundo dilema. Contemplando o exterior com ar ausente, de repente Katia pareceu ter uma revelação e deu uma palmada.
— Será Yurij. Porque a família de Vasha era originalmente agricultores.
— Nossa! Tem certeza de que será menino?
— Não importa se for filha ou filho. Nos Estados Unidos os nomes não se distinguem muito. Se for filha, a criarei forte para que ninguém ouse tratá-la com leviandade. Se for filho, o criarei amável e afetuoso com todos.
A Nina essa ideia parecia peculiar, mas não quis pôr objeções a Katia. Só desejava dar bênçãos a uma grávida prestes a dar à luz. Katia sorriu radiante e acariciou com cuidado seu ventre protuberante e redondo. Embora o bebê se mexesse frequentemente, nunca deu um chute barulhento. Tempos depois Katia contaria a Yurij que tinha sido um menino muito bom. Nem mesmo teve os enjôos habituais e no dia do parto não deu problemas e saiu rápido. Dizia-lhe que desde que estava em seu ventre era uma criança silenciosa e tranquila.
— Yurij, você será a semente que nos guiará para começar uma nova vida nesta terra.
Ekaterina deu a notícia a Vasili quando ele voltou do trabalho. O homem prestes a ser pai se alegrou e sorriu com brilho ao ouvir o nome que sua esposa tinha escolhido. Inclinando-se para beijar o ventre de sua esposa, o homem sussurrou em seu coração ao feto.
“Farei qualquer coisa por você e por sua mãe.”
Alguns meses depois, devido a que o governo estadual começou a perseguir imigrantes ilegais, todos os migrantes nos arredores de Brooklyn partiram para Saratov sob a direção de Igor. Endividados com Igor Volkov desde que chegaram aos Estados Unidos, estes obedeceram por medo de serem deportados. Isolados em Saratov, logo se tornaram escravos de Igor sob os grilhões do dinheiro.
Vasili, que tinha conseguido trabalho no açougue de Igor graças à recomendação de Mikhail, também se viu implicado em fundos ilegais. Igor o advertiu que se revelasse esse fato, Vasili se tornaria um criminoso. Ironicamente, para evitar se tornar delinquente, o homem acabou se submetendo a um.
As pessoas que têm algo a proteger caem na armadilha com enorme facilidade. Vasili era diligente, mas não bastante astuto, e por isso tomou o caminho errado. O mesmo aconteceu com Mikhail. O mundo tratava a falta de inteligência como um delito, e na verdade o era.
Qualquer homem com consciência teria fugido assumindo os riscos, mas ele não podia fazer isso. Agora ao seu lado tinha um filho recém-nascido e uma esposa que acabava de dar à luz. Sentia o dever de mantê-los vivos a todo custo.
O homem cumpriu a promessa que fez a seu filho. Prolongou sua existência sujando as mãos com sangue humano em vez de sangue de besta. Para guardar seu último resquício de consciência, disse que não queria lidar com pessoas comuns. E desde então Vasili se tornou o cão de caça de Igor.
Começou a combater criminosos de outros grupos que ameaçavam Igor. Nos dias em que voltava ferido, Katia escondia seus olhos avermelhados na sombra e cuidava de seu marido com a experiência e os conhecimentos que tinha adquirido.
Foi desde então que Ekaterina começou a atender os feridos. Expurgando a culpa de seu marido, cuidava sem cobrar dos mais pobres. Cada vez que alguém saía ferido por Igor, visitava sua casa à noite para que a ajudassem a curá-lo. Naquela pequena cidade sem clínicas particulares, Katia era a única que tratava as pessoas sem fazer perguntas. Quando algum lugar do mundo se ilumina, em outro desce a escuridão. Saratov era um bairro à sombra, e quanto mais crescia a penumbra, mais se ocupava Katia. Quando a luz da lua que se filtrava pelas vidraças quebradas servia de lâmpada e Yurij ficava sozinho em casa, ela costumava deixar-lhe um medovik na mesa para ele.
Despedindo sua mãe que saía com o gorro de lã puxado até os olhos, Katia abraçava forte seu filho. Dava-lhe um beijo na cabeça e sussurrava assim:
— Se nos esforçarmos para viver com retidão, os deuses nos salvarão. Minha pequena pérola.
De seu colo emanava um cheiro de mel por fazer o medovik.
— Durma bem, Yura.
Yurij acreditava nas palavras de sua mãe enquanto aspirava aquele aroma doce e fragrante que fazia esquecer toda a dor. Algum dia os deuses ajudariam a apagar a tristeza que se aninhava no rosto de seu pai e sua mãe.
Também Yurij teve noites em que orou e voltou a orar.
Em troca de não conciliar o sono com facilidade, Yurij não costumava sonhar. Cada vez que Alexei se queixava de ter tido um pesadelo, ele se limitava a sorrir em silêncio. Experimentava de forma indireta, através de seu amigo, como era isso de sonhar.
Esses pesadelos de Alexei costumavam ter conteúdo feliz. Por exemplo, que se reconciliou com Valery — seu detestado irmão mais novo — e juntos fizeram um napoleão, ou que Igor foi pego pela polícia e morreu.
Como o conteúdo não soava mal, Yurij perguntava por que lhe desagradava. Alexei acendia um cigarro e dava uma resposta simples.
Porque ao despertar a realidade é miserável.
Tinha razão. Desde então Yurij não voltou a perguntar sobre seus sonhos e Alexei também não voltou a expressar em voz alta o futuro que desejava. Assim se tornaram um apoio mútuo. Em vez de pronunciar esperanças vãs, optaram por se compreender e apoiar na realidade que compartilhavam.
Também não sentiam desejos de explicar suas vidas a alguém que não fosse o outro. Sabiam que para os demais Yurij não passava de um simples criminoso.
Como se o tivessem submerso nas profundezas do mar para depois o puxarem à tona, Yurij despertou de repente. Sentiu depois a pontada da luz solar que feriu suas pálpebras e os sons que tinha bloqueado ressoaram em seus ouvidos. Ouviu o trinar dos pássaros e vozes de pessoas conversando ao longe.
“…Quando foi que dormi?”
Até há pouco estava em uma estrada escura e vazia, mas ao abrir os olhos se viu em um posto de gasolina iluminado por todos os lados. Sobressaltado, Yurij endireitou o corpo reclinado no banco e escrutinou rapidamente os arredores. Era um posto com loja e um Tim Hortons, com espaço de estacionamento tão amplo que caberiam até dez caminhões.
Era absurdo. Só queria fechar os olhos um momento, mas ao despertar já era dia. Embora dormisse, não costumava fazer mais de quatro horas seguidas. Pela posição do sol, era claro que já passavam das oito da manhã. Ao tirar o celular para conferir, viu que, de fato, acabavam de passar das nove.
Como esqueceu de carregá-lo, a bateria estava prestes a morrer. Conferindo o telefone que estava quase se apagando, viu duas chamadas perdidas de Alexei e algumas mensagens de Heather e dele misturadas. Contemplando a tela com ar ausente, abriu o porta-luvas para carregá-lo. Não encontrou o cabo que sempre deixava ali.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna