Capítulo 02.6
2. Cherry Whiskey Sour 6
— Você evitou as câmeras do elevador?
“Contanto que ele não tenha olhado diretamente para as câmeras…”
— O quê?
Cheriot, que tinha guardado silêncio até agora, também falou. Ao ouvir sua voz baixa e contida, Yurij o olhou brevemente. Parecia ileso.
— Pergunto se você olhou para cima no elevador.
— …Não. Estou fugindo, sabe? Sei como evitar câmeras.
Seguindo o olhar de Yurij, Cheriot também voltou sua cabeça para ele. Seus olhos verdes, que antes refletiam constante desgosto após revelar sua identidade, agora tinham voltado a ser tão serenos quanto a primeira vez que os viu. Talvez parecesse um pouco assustado, um pouco ansioso. Era compreensível. Para um civil, esta não era uma situação comum.
Enquanto Yurij ponderava por onde começar a explicar, já que também não entendia bem a situação, Cheriot franziu o cenho. A mudança repentina em sua expressão fez Yurij hesitar. “O que o incomodará agora?”, pensou, quando Cheriot de repente inclinou seu tronco para ele.
“Vai me bater?”
Pessoas submetidas a situações de merda às vezes agem irracionalmente. De certa forma, Yurij também era responsável. Se tivesse controlado bem Cheriot desde o início, ninguém teria publicado sua localização nas redes sociais.
Mas as palavras que saíram da boca de Cheriot foram completamente diferentes do que Yurij esperava.
— Você está ferido.
Antes que Yurij pudesse reagir, a mão de Cheriot tocou sua maçã do rosto. O calor de sua pele se estendeu sobre a superfície fria do rosto de Yurij, e uma dor pulsátil surgiu tardiamente. No entanto, Yurij, mais surpreso pelo contato do que pela dor, agarrou o volante com força.
Fazia muito tempo desde que alguém o tocava assim. Desde que sua mãe, que o acariciava em um passado distante, faleceu, ninguém o tinha tocado daquela maneira.
“…Que maneira de fazer coisas embaraçosas entre alfas.”
Para Yurij, tocar seu rosto era um ato excessivamente familiar. Achava desconcertante que um estranho fizesse algo que nem mesmo sua família fazia. O calor corporal sem dúvida lhe trazia certa tranquilidade, mas a sensação em si era tão estranha que seu corpo se tensionou. Yurij desviou suavemente a cabeça, fazendo com que a mão de Cheriot escorregasse naturalmente.
— Não exagere.
Para os padrões de Yurij, “ferido” significava uma lesão grave. Se podia sentar e dirigir sem problemas, estava longe de ser grave, então não queria mencionar algo trivial.
— Melhor dormir. Temos um longo caminho pela frente.
Yurij tentou olhar para frente enquanto conscientemente relaxava a força em suas mãos que seguravam o volante. Mas Cheriot não o deixou em paz.
— A pessoa no banco do passageiro supostamente dorme, não é?
Após responder assim, Cheriot desabotoou o cinto de segurança de repente. Acendeu a luz interna do veículo e, ao ver o rosto de Yurij revelado pela luz, resfolegou.
— Que diabos aconteceu com seu rosto? Pare. Estou pedindo para você parar.
A mão da qual se libertara antes se estendeu de novo e desta vez lhe agarrou o maxilar. Yurij franziu o cenho diante da força de preensão, impossível de ignorar. Como notou desde antes, Cheriot, apesar de sua aparência delicada, tinha uma força física tremenda. Pensando que em força pura talvez pudesse superá-lo, Yurij torceu o maxilar.
— Não me encha o saco e me solte.
— Se visse seu próprio rosto, não diria isso.
Cheriot pressionou firmemente perto da maçã do rosto com os dedos que seguravam seu rosto. Uma dor pulsante se espalhou sob a pele fina, fazendo Yurij entrecerrar os olhos.
— Viu, dói.
Sem precisar olhar, sabia que a área golpeada estaria arroxeada e manchada. Pensou que era exagero para uma ferida sem cortes, mas preocupado com um acidente, decidiu parar.
— Entendo, então solte. Pararei quando vir um acostamento.
A rodovia 1 quase não tinha acostamentos e a maior parte do caminho estava escavada em escarpadas montanhas. Cheriot recuou com expressão desgostosa, cruzou os braços e começou a cravá-lo com o olhar. Incomodado por aquele olhar penetrante, Yurij dirigiu uns cinco minutos a mais e parou o carro momentaneamente em uma área aberta que encontrou.
Assim que Yurij desligou o motor, Cheriot se aproximou dele. Olhando-o fixamente com seriedade, perguntou:
— Você costuma levar um kit de primeiros socorros? Precisamos aplicar algo, nem que seja um ungüento.
Aplicar remédio por um hematoma? Yurij torceu a comissura dos lábios como se tivesse ouvido a piada mais ridícula.
— Já terminou de examinar?
— Não. Acho que se machucou em outros lugares também. Tire o casaco. Aquele maldito tipo antes…
Cheriot interrompeu e hesitou. Como se recordasse os disparos, suas pupilas se escureceram por um momento.
— …Disparou uma arma.
Cheriot calou. Olhou fixamente para Yurij com olhos pensativos e guardou silêncio vários minutos. Yurij, sentindo-se cansado, aproveitou a calma para relaxar seu corpo. Ao se recostar no banco do motorista, a fadiga o inundou. Ao conferir a hora no carro, viu que eram 3 da manhã. Tinha estado acordado o dia inteiro.
No passado tinha passado dois ou três dias sem dormir, mas após um tempo de vida relativamente tranquila, seu corpo agora sentia fadiga por isso. Decidiu que deviam dormir algumas horas e fixar um destino, então disse a Cheriot:
— Vamos partir de novo. Quando encontrarmos uma área de descanso, vou sacar dinheiro e você procura a pessoa que queria. Ficarei ao seu lado até a nova pessoa chegar. De qualquer modo, também é minha culpa por não me preparar exaustivamente e permitir que as coisas chegassem a este ponto…
Yurij engoliu em silêncio um suspiro cansado e passou a mão pelo cabelo. Seus olhos estavam secos.
— Tentarei que não haja mais momentos de perigo como o do hotel.
Considerou dizer que lamentava o ocorrido, mas calou, pensando que soaria hipócrita. Cheriot, que tinha ouvido em silêncio, respondeu assim que Yurij terminou:
— Por que seria sua culpa?
Sua voz baixa e contida ressoou suavemente no carro.
— A culpa é daquela escória que veio me matar.
Cheriot suspirou, reclinou o banco do passageiro e depois girou o tronco para a mala no banco traseiro. Devido ao seu grande tamanho, seu ombro bateu no teto do carro com um baque. Tirou uma garrafa de água e um lenço da mala, abriu a tampa e molhou o lenço com a água. Logo, o pano úmido tocou o rosto de Yurij, que o observava em silêncio.
— Quem decidiu fazer uma infidelidade foi o ômega dele, mas o pior foi o líder da gangue que tentou me matar. Pensei que só queriam me extorquir, não sabia que atirariam ao me ver. Não sei se é por amor ou por honra. Honestamente, senti medo.
Contrariamente ao que pensou, que não havia cortes, o lenço com que limpou seu rosto tinha sangue. Yurij, que tinha franzido o cenho mais pela vergonha do contato do que pela ardência, torceu o maxilar. Cheriot, em vez de agarrá-lo como antes, se aproximou seguindo o rosto de Yurij que tentava evitá-lo.
— Obrigado por me salvar. Independentemente de você ser uma má pessoa, devo agradecer o que corresponde.
Yurij, que esquivava o contato, parou e ficou rígido. Era um agradecimento inesperado. Ele só fez o que devia, mas surpreendeu-o que mostrasse modos para alguém como ele.
Enquanto parava de esquivar, Cheriot terminou de limpar o rosto de Yurij. Já fosse pela temperatura corporal de Cheriot, o lenço úmido não estava frio, mas morno, e sua sensação úmida não era desagradável.
Cheiro de amaciante de tecidos, feromônios de Cheriot, um tênue aroma de loção para a pele. Ao sentir de perto o odor corporal de outra pessoa, Yurij piscou rapidamente. Uma incomodidade desnecessária flutuava no ar, fazendo com que mexer-se fosse incômodo.
“Se há sangue, é melhor limpá-lo.”
Pensando que seria melhor deixar Cheriot fazer o seu, Yurij tentou ficar parado. Mas achava difícil suportar que outro limpasse seu sangue, então finalmente falou.
— Provavelmente não sou muito diferente dos tipos que te perseguiram.
Cheriot encolheu os ombros.
— Eu sei.
Sua atitude despreocupada deixou Yurij um pouco sem palavras.
— Você não disse que não queria tocar em pessoas más?
— Odiar você e tocar você são duas coisas diferentes.
Eram palavras que não podia entender. As pessoas odeiam a imundície e, por isso, a evitam.
— Se alguém te dá nojo, também não gostaria de tocá-lo.
— Como você é meu tipo, está tudo bem.
Cheriot mencionou novamente seu “tipo”. Yurij decidiu perguntar sobre sua estranha preferência.
— …Não entendo por que continua dizendo essas coisas a outro alfa.
— Só estava dizendo a verdade. Você não gosta de ouvir?
Diante da pergunta de Yurij, Cheriot o olhou e sorriu levemente. Parecia que sua guarda tinha baixado um pouco. “Baixa a guarda por salvar-lhe a vida uma vez? Os humanos podem apunhalar você pelas costas a qualquer momento.” Yurij se preocupou internamente com sua ingenuidade.
— Não é algo agradável de ouvir.
— É um elogio.
— Talvez eu gostasse de ouvir de um ômega, mas não de um alfa.
Se analisasse, também não era algo que quisesse ouvir de um ômega, mas em qualquer caso, que um alfa falasse assim estava fora do senso comum de Yurij.
— Alfa ou ômega, no final todos são pessoas.
— Alfas não se tocam assim entre eles. Com um ômega talvez, mas não assim.
Cheriot riu ao ouvir sua resposta obstinada e guardou o lenço.
— Haha.
Sua risada ressoou grave e baixa. Com apenas um leve sorriso nos lábios, jogou o lenço manchado de sangue no banco traseiro. Depois, abriu a porta do passageiro e disse:
— Parece que você não sabe o quão incrível pode ser a experiência entre alfas.
Diante da ação repentina, Yurij franziu o cenho e se incorporou. Cheriot saiu do carro e fez um sinal para ele.
— Vamos trocar de lugar. Eu dirijo. Não quero que você dirija estando ferido.
— …Bobagens. Volte para seu banco.
Cheriot, que até em momentos perigosos tinha sido algo obediente, já tinha voltado à sua atitude habitual de fazer o que queria. Caminhou até o banco do motorista, apoiou o braço no carro e inclinou o tronco para olhá-lo. Diante do sinal que o chamava, Yurij abaixou a janela.
— Eu ao menos descansei um pouco no hotel, mas você não parou. Provavelmente seria mais perigoso se você ficasse com sono ao volante. Não acha?
Era difícil refutar essas palavras. Mais do que ter sono, estava exausto demais, e a ideia de querer fechar os olhos nem que fosse por um instante surgiu de repente. Enquanto hesitava, sentindo que cedia ao desejo de descansar, Cheriot falou com calma:
— Honestamente, você está cansado, não está? Pode descansar.
Na rodovia silenciosa da rota montanhosa, sem tráfego, só ressoava a voz de Cheriot. Yurij, com as mãos ainda no volante, moveu os lábios. Pensou que devia recusar, mas as palavras não saíam. Finalmente, soltou o volante. Cheriot, como se tivesse esperado, abriu a porta do motorista.
Assim trocaram de lugar. Ao fechar a porta do passageiro, Cheriot ligou o motor. Tirou seu telefone e perguntou a Yurij:
— Então, para onde vamos?
Yurij, recostando seu corpo exausto no banco, esfregou as pálpebras. Tinha dirigido com a ideia de se afastar do centro, então não tinha um “destino”. Quase nunca tinha que decidir algo assim.
— Para onde você quiser.
Algo que Yurij não tinha. Algo que só alguém como Cheriot possuía.
— Kelowna?
— Há muita gente lá.
Cheriot franziu os lábios. Apoiando os braços no volante, olhou-o e perguntou:
— Então, que tipo de lugar serve?
— Onde haja pouca gente… e jovens que não postem coisas nas redes sociais mesmo que te vejam.
— Ainda existe um lugar assim?
Ao conversar, o cansaço o inundou repentinamente e Yurij calou. Ao vê-lo, Cheriot começou a dirigir em silêncio.
Cheriot não fechou totalmente a janela que tinha aberto. Deixou-a entreaberta para que entrasse um vento muito suave e dirigiu com notável estabilidade. Yurij, preparando-se por se ocorresse algum imprevisto, tentou não dormir olhando fixamente para o exterior.
Sob o céu noturno escuro, sem sequer postes de luz, só com os faróis do carro, onde quer que os faróis iluminassem, viam-se árvores grandes e dispersas. Seguindo o som do vento que sussurrava, os galhos das árvores dançavam, e os olhos de Yurij, que as observava fixamente, começaram a se fechar sem que ele percebesse. Além de sua visão que se escurecia gradualmente, podia ouvir Cheriot cantarolando uma canção em voz baixa.
“Que despreocupado.”
Parecia ter pensado, antes de dormir, que quem tinha escapado da morte mudava de humor rápido. O homem que parecia digno quando se irritava, que dava vontade de bater quando agia tolamente, e que se mostrava carinhoso e dizia coisas amáveis, tinha uma faceta colorida que Yurij nunca antes tinha visto em sua vida. Como uma cereja vermelha que, ao mordê-la, revela múltiplos sabores.
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🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna