Capítulo 02.4
2. Cherry Whiskey Sour 4
Ao ouvir a instrução, Heather tremeu como um coelho e abriu rapidamente a porta do carro. Confusa, sentou-se no banco do passageiro para depois sair apressadamente. Ao contornar para o banco do motorista e abrir a porta, hesitou e perguntou a Yurij:
— Mas por que você rodeou minha cintura?
— Se saíssemos separados, chamaríamos a atenção. Mas se parecermos um casal voltando de passar a noite juntos, não nos prestarão muito interesse. Além disso, você é conhecida de Cheriot, e se a identificarem, pode se envolver.
Como a cobriu quase por completo, as probabilidades de reconhecerem Heather eram baixas. Embora fosse conhecida de Cheriot, não eram tão próximos, e se não se envolvessem muito no futuro, não deveria haver perigo.
Yurij se mergulhou brevemente em pensamentos para deduzir a identidade dos homens no saguão. Definitivamente não eram policiais. Distavam muito de serem policiais disfarçados, mais se pareciam com mercenários.
E isso era estranho. Não tinha dito que o grupo que perseguia Cheriot era uma gangue de motociclistas?
Esse tipo de sujeitos age de maneira direta. A maioria nessas organizações tem tatuagens visíveis como identificação, e não se aproximam tentando passar despercebidos. Mas o homem que perguntava algo na recepção parecia hábil em não chamar atenção. Suas roupas, sem traços distintivos, e sua aparência, que dificultava ver se estava armado, o denunciavam.
— Ah, claro. Faz sentido. Deve ter sido por isso, mas eu entendi mal sem razão…
Heather murmurou para si e depois subiu apressadamente no banco do motorista. Ouviu-se o som do motor pegando, e Yurij se perguntou o que fazer. Não precisava se oferecer para proteger Cheriot se este não o queria, então ir embora também era uma opção, mas…
— Yurij, você vai ajudar Cheriot, verdade? É impossível encontrar alguém para ajudá-lo agora mesmo.
Ao ouvir a voz de Heather através da janela abaixada, teve a resposta. Como não havia garantia de que não filtrassem informação na recepção, o correto era tirar Cheriot dali. Yurij, resignando-se a fazer algo que não lhe agradava, inclinou-se para a janela. Heather, que tinha soltado o volante e se inclinava para o banco do passageiro, o olhava com ansiedade.
— Você tem a visão muito ruim?
— Hã? A visão? Não é ruim, mas tenho astigmatismo, então costumo usar lentes.
— Pode dirigir sem elas?
— À noite, mais ou menos…
Yurij assentiu com a cabeça e depois estendeu a mão para Heather, que, embora desconcertada, respondia com sinceridade. Ela recuou instintivamente diante da mão que se aproximou rápido, mas parou, e Yurij tirou-lhe os óculos com cuidado.
— Então peço isso emprestado.
— Mmm?
— Porque se quem acabou de sair volta, vai chamar atenção. Digamos que é um disfarce.
Os olhos de Heather se abriram surpresos. Com uma expressão emocionada, como uma espectadora vendo um filme, exclamou em voz baixa:
— Senhor Yurij, agora mesmo parece o protagonista de um filme!
— Deixe as brincadeiras para depois e vá para casa agora. Por via das dúvidas, não pegue sua rota habitual, dê um rodeio, e se houver alguém que possa ir buscá-la, peça. Quando tirar Cheriot, entrarei em contato. Enquanto isso, seria bom que procurasse uma agência de segurança de substituição.
Heather assentiu repetidamente enquanto ouvia suas palavras. Quando ela ia arrancar como ele indicou, o deteve com um suspiro abafado enquanto ele se afastava da janela.
— Yurij, já que estamos, ia te contar isso. A gangue que persegue Cheriot se chama “Os Guardiões do Inferno”. São uma gangue de motociclistas, o contrabando e venda de drogas é sua principal fonte de renda. Mataram muita gente e estão há muito tempo estabelecidos em toda Vancouver, dizem que até têm conexões com figuras de alto nível. Apesar do nome infantil, são uma gangue extremamente temível, então diga a Cheriot para ter muito cuidado. Eu também vou investigar mais.
Heather mudou de marcha e acrescentou uma última coisa antes de ir:
— Há dez anos eles até mataram um famoso jogador de hóquei. Ou seja… não parece que deixem alguém vivo só por ser famoso.
Após deixar um conselho que teria sido melhor que ela mesma desse a Cheriot, foi embora. Yurij devolveu mentalmente a resposta de que Cheriot não daria nenhuma atenção ao que ele dissesse, e ficou em seu lugar até o carro de Heather desaparecer.
Finalmente, Yurij começou a voltar pelo caminho que veio. Caminhando rápido com passadas largas, parou onde tinha deixado seu carro. Estacionou na avenida traseira, a uma quadra do hotel. Após revisar os arredores de relance, abriu o porta-malas. Dentro, um casaco que levava como provisão de rotina estava dobrado ordenadamente.
Tirou a jaqueta preta que vestia e a trocou pelo casaco. Depois, olhou fixamente para o fundo do porta-malas. Sob aquele tapete que parecia normal à primeira vista, havia escondida uma pequena maleta tática. Ao pensar nos cartuchos e na pistola dentro, ponderou se realmente precisaria chegar a esse ponto.
“Uma arma no centro da cidade… Não é uma boa ideia.”
Um tiroteio no Canadá, que não é os Estados Unidos, e além disso em uma cidade tranquila como Vancouver, atrairia olhares. Tomara que esses “Guardiões” ou como se chamem tivessem autocontrole suficiente para não fazer algo assim em plena cidade.
Após refletir brevemente, Yurij só pegou o casaco. Em qualquer caso, a melhor situação era tirar Cheriot do hotel sem chamar atenção, então o correto era evitar conflitos ao máximo. Nesse processo, não devia criar uma situação que exigisse usar uma arma.
Após fechar e trancar o porta-malas, Yurij vestiu o casaco na esquina de um beco fora do campo visual das câmeras de segurança que tinha identificado antes de ir ao hotel. Meteu a mão no bolso interno, tirou a faca militar que escondia ali e a deslizou na manga. Depois, colocou os óculos que Heather lhe emprestou. Embora tivessem algum grau de graduação e lhe fossem desconfortáveis, não o impediriam de se mover.
Respirando fundo, Yurij bagunçou o franja, que usava parcialmente penteada. Tomara que tivesse um bloqueador de feromônios, mas como não costumava levar algo assim, não havia remédio. Em um lugar com tanto trânsito como um hotel, os feromônios se misturam e são difíceis de distinguir, então provavelmente estaria tudo bem.
Tudo estava pronto. Yurij decidiu se apressar para recuperar o tempo perdido. Ao voltar rapidamente ao hotel, escaneou o saguão assim que as portas automáticas se abriram. Felizmente, o homem sentado no saguão ainda estava ali, mas o que estava na recepção já não se via.
Um pressentimento desagradável percorreu suas costas. Yurij se dirigiu diretamente ao elevador sem olhar deliberadamente para os assentos do saguão. O olhar do homem sentado se dirigiu ao visitante que aparecia a altas horas da noite. Sentiu que seu olhar se pousava um pouco mais longo que antes. Caminhou alerta, preocupado que o seguissem, e justo então, um casal de turistas desceu do elevador para o saguão.
— Mas sabe o que, querido? Elizabeth acabou de compartilhar uma história dizendo que um famoso jogador de hóquei está se hospedando aqui.
— Cheriot Goodnight?
— Como você sabe?
— Se é um jogador famoso o suficiente para Elizabeth postar na história dele, no Canadá só pode ser Cheriot Goodnight. Além disso, ele é de Vancouver. Ah, e lembro que você mencionou várias vezes o quão bonito ele é.
— Haha, está com ciúmes? Só tenho olhos para você, então não se preocupe. Mas se o virmos, vamos tirar uma selfie juntos. Tomara que o vejamos no café da manhã!
— Um famoso assim não pediria serviço de quarto ou algo assim?
O casal que passava rindo não só distraiu a atenção do vigia, mas também forneceu informação útil. Embora esperasse que o forasteiro que chegava à meia-noite não tivesse Cheriot como alvo, ao ouvir isso, soube com certeza. Estava claro que tinham vindo sabendo que Cheriot estava aqui.
Como a informação vazou? Se Cheriot tivesse um rastreador, o teriam encontrado antes, mas até pouco tempo não havia seguimento. Então, a conclusão é que sua identidade foi descoberta depois que Cheriot chegou aqui.
Yurij fez o check-in e Cheriot estava com o rosto coberto. A única vez que tirou a máscara foi antes de entrar no quarto… quando recebeu e bebeu seu coquetel no bar do hotel. Embora tenha sido um instante breve, foi tempo suficiente para reconhecê-lo.
Ah.
Se ele não pôde esperar alguns minutos e ficou flertando com aquele ômega, devia ter sabido que isso aconteceria. Seu rosto não é tão comum a ponto de esconder sua identidade só com um boné, então, é claro, aquele ômega também o reconheceu. Yurij engoliu seu desgosto e subiu no elevador que o casal acabara de deixar. Enquanto pressionava silenciosamente o botão de fechar, ninguém mais entrou. Parecia que tinha enganado o homem que vigiava.
Assim que as portas se fecharam, quando ia pressionar o 12º andar, lembrou que precisava do cartão-chave. Franziu o cenho e ao tocar seu bolso, felizmente o tinha. Depois de pressionar o andar desejado, Yurij meteu a mão direita dentro do casaco e agarrou o punho da faca escondida em sua manga. O som da lâmina se desdobrando ressoou levemente dentro do bolso.
Olhando como mudavam os números do andar, Yurij esperou que Cheriot não tivesse aberto a porta para um estranho. Mas a maioria dos homens brancos, especialmente os alfas, carecem de senso de alerta. Um alfa privilegiado que nunca viveu como vulnerável raramente tem a oportunidade de aprender a ser precavido.
Logo, as portas do elevador se abriram. Antes de sair, escaneou o exterior, mas não havia sinais de ninguém. Uma sensação ominosa o invadiu.
Contendo a respiração, caminhou o mais silenciosamente possível em direção ao quarto de Cheriot. Ao aproximar o ouvido da porta, não ouviu nenhum som. Por um breve instante, Yurij imaginou Cheriot Goodnight sem vida. Mal tinham se conhecido há algumas horas e ainda por cima ele tinha sido grosseiro com ele, mas mesmo assim sentiu um frio nas pontas dos dedos.
“Não quero ver ninguém morrer.”
Embora tivesse presenciado inúmeras mortes desde que nasceu, Yurij nunca conseguiu se acostumar com aquela cena. Os tipos que o rodeavam eram lixo que merecia morrer, e ele mesmo também o era, mas o cheiro metálico do sangue que emanava dos cadáveres e o fedor de putrefação que surgia com o tempo não eram coisas que pudesse esquecer.
Cada vida é única. Por mais lixo que uma pessoa pudesse ser, sua existência foi, sem dúvida, um milagre no instante em que nasceu. Yurij acreditava firmemente que havia gente que merecia morrer pelo rastro que deixavam na vida, mas o momento em que se apagava a luz de uma alma vivente trazia uma miséria indescritível.
“Não quero ver essa miséria em alguém como Cheriot.”
Cortando pela raiz os sinistros pensamentos fugazes, Yurij começou a se mover. Ao passar o cartão magnético pela fechadura, soou um “bip”. Com a mão esquerda que segurava o cartão, agarrou a maçaneta, abriu a porta silenciosamente e se escondeu atrás dela. Ao confirmar que não vinham balas voando, entrou rapidamente.
— Heather? É você, Heather?
Ao ouvir a voz familiar chamando Heather, Yurij conteve a respiração e fechou a porta. Parecia que Cheriot, felizmente, não tinha cometido a estupidez de abrir a porta para um desconhecido. Aliviado, tirou a mão que tinha no bolso. A lâmina da faca tinha voltado ao seu lugar.
— Pensei que iam conversar só um momento, mas demorou muito. O que teria para falar com aquele tipo mau para me deixar sozinho e sair. Não, melhor assim. Na verdade, enquanto você não estava, aconteceu algo um pouco surpreendente. Quase chegou a me ver em um estado lamentável.
Cheriot continuava falando sozinho sem obter resposta e saiu andando da sala de estar. Enquanto pensava o que diabos seria aquilo “surpreendente”, Yurij também se dirigiu para onde ele estava. No instante em que cessaram os passos dos dois que se aproximavam, suas vozes soaram ao uníssono.
— Você o que faz aqui?
— E por que ele está assim?
Os dois, que se encontraram na entrada da sala, franziram o cenho ao se verem. Ao descobrir Yurij, Cheriot instantaneamente perguntou com frieza e voz alterada, enquanto Yurij, olhando para o chão, franzia a testa. No carpete da sala via-se as costas de um homem caído de bruços. Por sua imobilidade, ou estava inconsciente ou morto, uma das duas.
— Eu perguntei primeiro. O que você faz aqui? Cadê a Heather? E sua roupa, o que é isso? Não são os óculos da Heather?
Cheriot se aproximou ameaçadoramente. Yurij o escaneou rapidamente com o olhar. O roupão que antes estava bem fechado agora estava aberto, e sua pele mostrava marcas vermelhas de fricção. Parecia que tinha havido uma briga corpo a corpo.
— Matou ele?
— Acha que sou como você?
Sem dizer palavra, Yurij o esquivou e se aproximou do homem caído. Ao se inclinar e revistar a cintura do homem, encontrou uma pistola elétrica em vez de uma arma de fogo. Ainda bem que esses “Guardiões” ou o que sejam tinham sanidade suficiente para não causar um escândalo em um grande hotel. Parece que seu plano era sequestrá-lo e levá-lo em vez de matá-lo aqui.
— Responda. O que faz aqui?
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna