Capítulo 02.3
2. Cherry Whiskey Sour 3
Cheriot se desculpou com Heather com calma, com seu rosto como um papel em branco, sem expressão.
— Eu entendo isso. Mas o senhor Yurij também deve ter suas razões.
— Por acaso existe alguém no mundo sem razões?
Uma careta zombeteira se formou na comissura dos lábios de Cheriot diante da cuidadosa defesa de Yurij por parte de Heather.
— Isso não passa de uma desculpa.
Cheriot olhou fixamente para Yurij, desafiando-o a refutá-lo. Seus cálidos olhos verdes, que até pouco tempo brilhavam, agora estavam completamente frios. A ira em seu olhar se intensificava com o tempo. Yurij pensou que já era suficiente e decidiu ir embora.
Justo quando, após tomar sua decisão, ia se desculpar e se despedir de Heather, Cheriot falou novamente. Parecia que lhe desagradava enormemente que Yurij continuasse ali de pé sem dizer nada. Franzindo seus belos olhos, Cheriot se aproximou dele novamente com passos largos. Inclinou seu grande tronco, aproximou seu rosto ao de Yurij e perguntou com tom ameaçador:
— Está me ouvindo? Estou dizendo para você cair fora, não me interessam suas razões. Se tivesse um pouco de tato, já teria ido embora. O que espera ficando aqui?
Cheriot não lhe deu oportunidade de responder e acrescentou com sarcasmo:
— Será que por acaso espera que eu agradeça por ter sido honesto, mesmo que seja agora?
“Parece que já é suficiente.” Yurij decidiu dar a resposta que ele queria a este jovem arrogante, antes que armasse mais escândalo.
— Isso seria impossível.
— Então vá embora. Não fique aqui.
Yurij girou sobre seus calcanhares com indiferença. Queria se desculpar separadamente com Heather, mas pensou que o mero ato de fazê-lo poderia ser inapropriado, então reprimiu seu desejo pessoal. Justo quando se virava para sair da suíte, Cheriot o chamou.
— Um momento.
Embora não quisesse responder, para evitar problemas, Yurij conteve sua relutância e parou. Cheriot, com os braços cruzados, o olhou um momento, depois girou e agarrou de um puxão a mala que Yurij tinha deixado junto à mesa. Parecia ter bastante peso, mas seu movimento foi leve, como se levantasse um saco de papel.
— Esqueci de te pagar.
Depois, um som surdo ressoou na sala. Enquanto Heather observava a cena pisoteando ansiosamente, Cheriot abriu o zíper da mala e tirou uma carteira. Abrindo uma carteira de couro que parecia cara, tirou um maço de notas de seu interior.
— Toma. Leve isso. Pelo hotel.
“Ah, com que gastos”, pensou Yurij. Referia-se ao custo do hotel que ele tinha pago. Yurij olhou fixamente para o dinheiro que Cheriot lhe estendia. Era evidente que continha mais de vinte notas marrons e transparentes de 100 dólares. Era uma quantia muito acima do que Yurij tinha pago pela estadia, mesmo descontando o que ele havia colocado.
Como se sentisse seu olhar, os dedos pálidos com veias azuladas agitaram as notas com um movimento sedutor, como instando-o a pegá-las.
Observando em silêncio o gesto zombeteiro, Yurij compreendeu a verdade nas palavras de Heather. Tinha se perguntado até que ponto ele odiava pessoas de má índole, e ao que parece realmente lhe dava um profundo asco. Embora parecesse uma pessoa sem conceito de distância e frívola, não tinha sido tão descortês antes.
Ao ver como ele apagava imediatamente qualquer simpatia que tivesse mostrado antes e mudava por completo ao saber o que ele era, parecia ter muitos assuntos pessoais pendentes. Bem, também não era uma reação particularmente estranha. Era natural que uma pessoa normal sentisse aversão por Yurij.
Também não era novidade que o chamassem de lixo.
Pior que um cachorro. Sangue sujo que devia ter morrido ao nascer. Um desgraçado que faria um bem sendo decapitado e abandonado na floresta como comida para feras. Um demônio. Uma pessoa horrível. Um ser frio e cruel sem uma lágrima. Alguém que nem merece ser chamado de humano.
Ao longo de sua vida, o chamaram de muitas formas. Entre todos esses insultos, “lixo” podia ser considerado até educado.
— Fique com o troco.
Como quase nunca o trataram como a um ser humano, os atos de desprezo não o provocavam. Pegou o dinheiro que Cheriot lhe oferecia sem se abalar. Desviou o olhar daqueles frios olhos verdes que agora zombavam dele como se tivessem esperado, e contou as notas lentamente.
Uma, duas, três… Vinte.
Não era demais para um pagamento feito só por despeito? A tarifa do hotel tinha sido uns 700 dólares. Yurij passou as notas, pegou as 7 que lhe correspondiam e as guardou em seu bolso interno. Cheriot, como se perguntasse o que ele tramava, franziu um olho ao olhá-lo. Isso lhe pareceu um pouco engraçado. Por mais que tivesse dito coisas duras, até há pouco não tinha pestanejado, mas agora fazia essa expressão embora Yurij só respirasse.
— Parece que é bom para o exercício, mas fraco em somas. Aqui deixo o troco.
Se fosse outro, teria atirado as notas na cara dele, mas por consideração a Heather, Yurij decidiu se conter. Em vez disso, passou por ele, que parecia não ter intenção de aceitá-las, e deixou o dinheiro sobre a mesa. Com esse movimento leve, sua relação com Cheriot Goodnight ficava resolvida.
Em seguida, Yurij saiu da sala deixando para trás Cheriot, que o fulminava com o olhar. Sozinho, de pé em frente ao elevador, Yurij pôde respirar enfim. Ardia-lhe o peito por dentro e sentia que o calor subia, como se tivessem arrancado um espinho cravado perto do coração.
“Que nojo.”
Essa repulsa não era por Cheriot nem por Heather, mas puramente por si mesmo. Uma forte sensação de humilhação, que não tinha experimentado em um tempo ao viver evitando as pessoas comuns, saía aos poucos. Era como uma sanguessuga impossível de expulsar; em momentos como este, se agarrava à sua consciência e o atormentava.
Deu vontade de ir para casa e beber pela primeira vez em muito tempo. Com o ânimo um tanto impaciente, Yurij pressionou o botão do elevador. Justo quando se abriam as portas do elevador que seguia no mesmo andar, a porta da suíte de Cheriot se abriu de repente. Era Heather.
— Yurij, desça ao saguão um momento. Preciso falar com você.
Heather, que se aproximou rapidamente, entrou no elevador antes que Yurij pudesse recusá-la. Após meditar um momento, Yurij a seguiu ao elevador sem dizer nada. Assim que as portas se fecharam, Heather falou.
— Essa foi uma declaração explosiva demais, Yurij. Nem eu soube como lidar com aquela situação.
Heather, que ajustava os óculos, olhou diretamente para ele e sussurrou. Diferente de antes, paralisada entre Cheriot e Yurij, agora parecia bastante audaciosa.
— Não precisa me defender, Heather. Lamento ter escondido isso, embora não tivesse planejado me encontrar de novo com ele.
— Não, é que… o senhor não tem que se desculpar. Pelo contrário, me ouviu e… disse a verdade. Mas!
Heather mexeu no cabelo com sentimentos contraditórios. Por isso, seu rabo de cavalo, antes arrumado, se desgrenhou.
— O Yurij que eu vi não é alguém que faria mal a Cheriot…
Murmurou com voz desanimada enquanto se despenteava.
Yurij, ao vê-la, torceu a comissura dos lábios em um gesto mudo e no instante apagou sua expressão.
— Você me viu lutar no dia em que nos conhecemos. Quem pode subjugar outros dessa forma não tem um passado comum.
Yurij lembrou do dia em que conheceu Heather, dois anos atrás. Naquela época, ajudava seu pai, Vasili. A loja do benfeitor que ajudou Vasili a se estabelecer em Vancouver estava sendo ameaçada por brutamontes, e enquanto Yurij e Alexei rastreavam quem estava por trás, encontraram Heather em apuros. Descobriu-se que ela estava investigando quem tinha contratado os brutamontes, e a resgataram quando, após segui-lo imprudentemente, terminou em perigo.
Mesmo então, Heather, em vez de se assustar ao vê-los bater em pessoas, agradeceu por ajudá-la e perguntou se podiam ajudá-la mais. Por isso às vezes pensava que talvez ela suspeitasse de suas verdadeiras identidades.
— Eu… pensei que fossem algo como militares reformados. Ou talvez aspirantes a policiais.
“Como o olho de um civil não distinguiria qual arte marcial praticava, é possível”, pensou. Riu zombeteiramente para si ao pensar em uma identidade tão distante da sua.
— Mas Yurij, você não é um fugitivo, verdade?
Ao ver que Yurij não respondia, Heather perguntou novamente com cuidado.
— Se fosse, por dever cidadão teria que denunciá-lo. Pergunto suplicando que não seja assim.
— Não há mandado de prisão contra mim. Negociei com a polícia.
Como não precisava explicar todos os detalhes de seu passado, Yurij terminou sua explicação ali. Ao saber que não era um fugitivo, Heather pareceu bastante aliviada e sua expressão se iluminou.
— Então você também tem suas razões. Se me explicar pelo menos um pouco sua situação, tentarei falar de novo com Cheriot.
— Já se quebrou a confiança, será impossível. Também não é algo que eu deseje. Há concorrência de sobra, não há necessidade de usar meus serviços.
— É verdade. Mas não há garantia de que esses caras não vendam a informação de Cheriot.
— Eu também não a ofereço.
Heather o retinha insistindo em um assunto que já não tinha caso. Enquanto isso, o elevador chegou ao saguão e Yurij, para não perder mais tempo, falou com firmeza.
— Heather, você deve afinar mais seu critério para julgar as pessoas. O fato de eu, em quem acreditou ser boa pessoa, ter resultado ser um criminoso, corrobora isso. Então é melhor voltar. Você veio até aqui para dar a Cheriot a informação que ele precisa.
Após dizer isso, Yurij saiu ao saguão deixando Heather para trás. O cansaço e a fome que tinha esquecido o dominaram de repente e sentiu um desejo real de descansar. Queria ir embora dali imediatamente.
Mas…
Ao atravessar o saguão para sair, seu olhar se pousou na recepção. Havia um homem de cabelo loiro curto com uma jaqueta de cores neutras que falava com um funcionário do hotel, talvez tivesse chamado o pessoal do turno noturno. Poderia ter sido uma cena para ignorar, mas Yurij revisou por hábito a cintura e uma das mãos do homem.
A mão direita do homem estava dentro do bolso de sua jaqueta. Usava botas com sola rígida e em sua cintura… não conseguia distinguir o contorno com clareza.
Parando de repente, Yurij fingiu procurar algo dentro de sua jaqueta enquanto inclinava a cabeça. Ao girar rapidamente e dar uma olhada ao redor, viu que havia outro homem sentado nos sofás do saguão. Um homem de cabelo castanho com jaqueta cáqui e boné preto parecia estar usando seu telefone confortavelmente recostado no encosto do sofá, mas seu olhar estava fixo na recepção.
Como se sentisse o olhar de Yurij, o homem ergueu lentamente a cabeça e o olhou. Yurij, fingindo não notar seu olhar, voltou para o elevador e disse a Heather, que o observava de baixo:
— Chelsea, você me deu as chaves do meu carro?
Heather abriu os olhos arregalados ao ver que Yurij a chamava de “Chelsea” do nada. Antes que ela pudesse responder, Yurij fechou rapidamente a distância, colocando seu corpo para bloqueá-la da vista do saguão, depois inclinou a cabeça e sussurrou em seu ouvido:
— Poderia, por favor, seguir minhas instruções a partir de agora? Explico lá fora.
— Hã? Ah, sim, de acordo.
Felizmente, Heather captou rápido. Embora estivesse desconcertada, olhou para ele com olhos que pediam instruções. Yurij sorriu levemente. Depois estendeu a mão e puxou seu rabo de cavalo para soltá-lo. Seu cabelo castanho caiu despenteado.
— Uh.
Heather encolheu os ombros com o rosto ruborizado, surpresa pelo contato repentino. Lamentava ter assustado alguém que devia proteger, mas não havia opção.
— Desculpe o incômodo.
Mal terminou de falar, Yurij rodeou a cintura de Heather com o braço. Ela, com os olhos bem abertos, tremeu e foi atraída para seu lado. Em seguida, Yurij começou a andar de volta pelo saguão.
Heather caminhou ao lado dele com movimentos rígidos. A diferença de altura era tanta que Yurij quase a carregava enquanto andava, e suas passadas longas e descoordenadas faziam com que ela tropeçasse ao segui-lo.
Ao passar em frente ao sofá do saguão, Yurij despenteou mais o cabelo de Heather com a mão. O homem que o tinha observado antes os olhou fixamente, mas após alguns segundos, como se perdesse interesse, baixou a vista.
Sem parar, Yurij saiu diretamente. Ainda com o braço em volta de Heather, que estava tensa pelos nervos, perguntou:
— Onde você estacionou?
Heather, que tinha os lábios rígidos sem se mexer, apontou com o dedo para a extremidade esquerda da avenida em frente ao hotel.
— Ah, ali!
— Iremos juntos até lá.
Caminharam em silêncio alguns minutos. Só quando chegaram ao carro de Heather estacionado perto da faixa de pedestres, Yurij soltou o braço que a rodeava. Ao voltar a vista rapidamente, não havia ninguém os seguindo.
— Ei, Yurij, o que foi isso?
— Havia pessoas suspeitas no saguão. Definitivamente não eram hóspedes, o mais provável é que viessem por Cheriot. Tomara que tivessem outro alvo lá dentro, mas melhor garantir.
— Ah…
Heather o olhou atordoada e assentiu. Yurij revisou os arredores mais uma vez e disse:
— Entre no carro.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna