Capítulo 02.2
2. Cherry Whiskey Sour 2
Cheriot vestia apenas o roupão de banho fornecido pelo hotel. Talvez pela umidade, seu cabelo vermelho-dourado, agora mais avermelhado, grudava em suas pálidas bochechas e testa criando uma atmosfera muito peculiar. A abertura do roupão deixava ver seus firmes músculos peitorais, o que lhe dava a aparência de alguém que acabara de fazer sexo.
— …Com certeza eu disse para você ficar quieto no quarto.
Estupefato com o fato de ele ter saído ao corredor naquele estado, Yurij, sem saber o que dizer, limitou-se a apontá-lo.
— Só ouvi que o elevador chegou e quis ver se era você. Me deixou sozinho tempo demais.
— Entendo. Mas primeiro entre no quarto. Eu tenho que terminar de falar com Heather.
O olhar de Cheriot se dirigiu então a outro lugar. Observou fixamente a mão de Yurij que segurava Heather, levantou a comissura dos lábios e perguntou:
— Eu me pergunto que tipo de conversa exige se dar as mãos.
— Hã? Isso soa estranho, Cheriot.
— É natural.
Cheriot manteve a vista fixa na mão de Yurij.
— Pensei que Yurij odiava contato prolongado com outros.
Enquanto as bochechas de Heather se ruborizavam de vergonha, Yurij soltou seu pulso. Não entendia por que soltava essas bobagens, mas neste ponto parecia melhor falar na frente dos dois.
— Chega. Entre no quarto. Falaremos lá.
— Tem certeza, Yurij?
Heather perguntou novamente, visivelmente preocupada, mas Cheriot, como se tivesse esperado, rodeou suavemente o ombro de Heather e a guiou para a suíte.
— Não falemos lá fora, entremos. Embora não pareça, estou em perigo.
— É verdade. Mas você tem ótima aparência para alguém em apuros, Cheriot.
— Você vai mudar de ideia quando ouvir o que aconteceu comigo.
Tendo desviado facilmente o interesse de Heather, Cheriot entrou primeiro na suíte conversando animadamente com ela. Enquanto os seguia, Yurij deu uma olhada ao redor para ver se alguém estava escutando. Não havia barulho de portas se fechando nem pessoas escondidas…
Finalmente, Yurij olhou fixamente para a câmera de segurança em frente ao elevador, conteve um suspiro e lhes deu as costas. Incomodava-o ter mostrado seu rosto tão claramente naquele estado, mas com mudar de hospedagem amanhã bastaria.
Ao abrir a porta e entrar, viu que Cheriot tinha sentado Heather em uma área separada como sala de estar e agora tirava uma garrafa do minibar. Enquanto se aproximava, observou o minibar de relance. Viu garrafas em miniatura como modelos em escala e snacks. Eram coisas que nunca tinha visto nos hotéis baratos da estrada. Seriam caras. Só a tarifa de hospedagem aqui superava em muito o aluguel mensal que Yurij mal conseguia pagar no passado.
— Passei por um momento difícil, mas estou bem, Heather. Você devia ir para casa, é perigoso ficar fora tão tarde. Quer que eu a acompanhe?
— Está bem, vim de carro. Devo ir dormir porque trabalho amanhã, mas antes tenho que te contar algo. Descobri sobre o grupo que está te perseguindo.
— Sério? Que ganho inesperado.
Cheriot respondeu rindo, contente, e serviu o whisky depois de colocar primeiro a taça na frente de Heather. Ao ver sua taça cheia, Heather também soltou uma risada de incredulidade.
— Pensei que você estaria assustado, mas vejo que até tem tempo para beber?
— É que tenho aquele homem impressionante, bonito e competente que você me apresentou como meu guarda-costas.
Então, os olhares de ambos se dirigiram a Yurij. Heather, talvez ainda envergonhada pelo episódio de antes, se ruborizou de repente e afastou o cabelo da orelha.
— O senhor Yurij é realmente competente. Lembra do que te contei? Derrotou vários brutamontes que o atacaram de uma vez, como em um filme de ação.
Cheriot, que tinha estado olhando fixamente para Heather enquanto brincava com seus óculos, se deixou cair pesadamente na cadeira em frente à dela. Sentado com suas longas pernas esticadas e cruzadas, olhou para Yurij com expressão interessada.
— Você é amável com as mulheres, Yurij? A mim torceu meu braço assim que me viu.
— Ah, é mesmo?!
Heather os olhou alternadamente com surpresa e depois apontou para Cheriot.
— Aposto que você o provocou primeiro!
— Agora você está do lado dele e não do meu?
— Conheço você há muito tempo, por isso digo que sei como é seu caráter.
Ambos pareciam se dar melhor do que o esperado. Tanto Heather, que não parecia se incomodar com a pele exposta sob o roupão e o decote visível, quanto Cheriot, que reclamava que ela não o defendia, agiam com naturalidade, como se estivessem acostumados com aquela dinâmica.
— …Já é tarde, por que não nos focamos no que temos que fazer?
Yurij sugeriu educadamente a Heather e depois deixou a mala que Alexei lhe entregou com um baque seco no chão.
— Suas coisas estão aqui. Heather, fiquei sabendo que investigou sobre o grupo que está perseguindo esta pessoa. Seria bom que compartilhasse um resumo.
— Ah, é verdade! Estar com Cheriot me distrai e às vezes termino assim. Desculpe.
— Não se preocupe.
Heather se endireitou e se desculpou, Yurij negou com a cabeça. Cheriot, ouvindo sua conversa com postura desleixada e pernas esticadas, mostrou seu descontentamento quando Yurij terminou de falar.
— Esta “pessoa” o quê? Devia ter me chamado de “Cherry” como antes.
— Isso foi por necessidade.
— Haverá muitas situações assim no futuro, então melhor ir se acostumando.
Ele tinha razão. Mas não haveria tal ocasião com ele. Yurij guardou silêncio um momento e decidiu que era melhor revelar sua verdadeira identidade agora, em vez de perder tempo. Uma vez resolvido, moveu os lábios pensando como dizer.
Sinto muito, mas…
Não, talvez não precisasse se desculpar. Desde o início não tinha intenção de aceitar este tipo de serviço. Mas a Heather devia desculpas. Afinal, ela acreditou que Yurij era uma boa pessoa e o recomendou. Embora não tenha sido ele quem criou essa confiança, se deu essa impressão então também era responsável.
Ao não haver resposta de Yurij, os olhares de ambas se voltaram para ele. De repente, achava agonizante sustentar o olhar inteligente e castanho de Heather, que denotava uma criação honesta, e os olhos verde-transparente de Cheriot que pareciam não esconder nada. Invadiu-o aquela vergonha que sempre sentia ao se confrontar com cidadãos “comuns” que viviam em um mundo completamente distinto do seu. Ardia-lhe o estômago.
— Heather, há pouco no elevador você mencionou algo. Que Cheriot odeia pessoas de má índole.
— Ah, sim.
Heather respondeu com expressão desconcertada. Cheriot, embora tenha inclinado a cabeça pela mudança repentina de assunto, entrecerrou os olhos e sorriu.
— Falaram de mim? Se tinham curiosidade, podiam me perguntar diretamente.
— Não. Me pareceu que o senhor Yurij estava desconfortável, então eu puxei o assunto.
— Ah sim? Heather, sempre tão atenciosa.
Sim, isso parecia. Por isso, antes de causar mais problemas a uma pessoa realmente boa como Heather, devia revelar rapidamente com suas próprias palavras.
— Se essa foi a razão para me recomendar, me parece que não sou um candidato adequado.
Yurij considerou que era melhor não mencionar Alexei. Esse era um assunto entre Alexei e Heather, e o problema imediato era sua própria presença ao lado de Cheriot. Além disso, Alexei… era uma situação diferente da sua.
Yurij simplesmente tinha suportado o trabalho sujo que lhe atribuíram para sobreviver, enquanto Alexei era alguém forçado a se juntar a uma organização criminosa porque tinham algo contra ele. Os pais de Alexei tinham tentado fugir da organização para não ter que matar pessoas inocentes, e foram executados no processo. Alexei foi também quem destruiu a organização com suas próprias mãos. Que Yurij pudesse estar agora neste país era graças ao seu amigo. Devia muito a Alexei.
— O quê? O que quer dizer?
— Yurij, você já decidiu aceitar o serviço há um tempo. Em vez de só recusar, às vezes você deve ceder um pouco para que eu não saia machucado.
Cheriot, como se não levasse a sério, continuou com seus disparates. Heather parecia um pouco inquieta, mas mais do que preocupada com a verdadeira identidade de Yurij, parecia pensar que ele estava se culpando. Yurij decidiu se definir com clareza para que não houvesse mais confusão.
— Sou um criminoso. Cometi inúmeros atos vis no passado.
Sua própria voz soando em seus ouvidos lhe pareceu tão estranha e assustadora que apertou os punhos. Ouvir seu passado pronunciado em voz alta era horrível.
Um silêncio pesado caiu naquele instante. Heather, consternada, cobriu a boca com a mão. Cheriot, que olhava para Yurij, piscou, com seu rosto ainda congelado em um sorriso. Suportando com impassibilidade o silêncio que lhe oprimia a garganta, Yurij respirou muito suavemente. Tão baixo que nem ele mesmo podia ouvir o som de sua respiração.
— …É uma piada?
Após um silêncio curto, mas eterno, Cheriot separou os lábios. Ainda tinha rosto sorridente, mas diferente de antes, seus olhos estavam frios e duros.
— Não. Você não parece do tipo que brinca. Mmm…
Murmurou para si mesmo e depois estendeu a mão para a taça sobre a mesa. Heather observava o rosto de Yurij, tentando calibrar suas palavras. Yurij esperou em silêncio que assimilassem o problema.
Cheriot apoiou a taça em seus lábios rosados, mais escuros que os de um alfa comum, mas não bebeu, só umedeceu seus lábios com o líquido. Absorto em seus pensamentos, soltou depois uma risada zombeteira.
— Que desconfortável.
Sua voz, sempre tingida de uma leveza risonha, tinha desaparecido, substituída por um tom monótono e seco. Após falar, bebeu o whisky lentamente. O pomo de Adão em seu pescoço branco se moveu para cima e para baixo e o som de engolir ressoou alto.
Heather ainda não podia falar. Yurij sentia uma profunda pena por colocá-la nesta situação, mas decidiu não cometer a estupidez de abrir a boca para consolá-la. Toda aquela fachada de ser educado, amável, atencioso… tudo isso perdia sentido uma vez revelado o que era.
— Delitos menores? Ou seja, algo como… dirigir embriagado… não é bom, mas é isso, não é? Ou roubo?
Cheriot perguntou sobre a natureza de seus crimes, como tentando entender. Ao ouvir a pergunta sobre seu passado, Yurij recordou em silêncio as coisas que tinha feito.
“Nunca… me meti com gente comum.”
Era verdade que sua organização se dedicava a fornecer drogas a pessoas comuns e endividá-las, mas esse não era o papel de Yurij. Sua mãe tinha caído em desgraça com Igor Volkov, o chefe, e devido a certos incidentes que se seguiram, Yurij foi marcado. Não sabia por que aquela escória, o mais baixo entre os baixos, se dava ares de classe, mas Yurij se tornou o mais desprezível entre eles.
Igor nunca encarregou Yurij de lidar com dinheiro. Em vez disso, o fez fazer todo tipo de trabalho perigoso. Se tivesse que definir seu papel, era um cão de ataque. Arriscava o corpo por seu amo e em troca recebia carne podre. Então Yurij não cometeu crimes especificamente para ganhar dinheiro. Simplesmente tinha uma coleira posta.
Geralmente, Yurij enfrentava outros grupos criminosos que ameaçavam seus interesses. Ou montava guarda do lado de fora durante negociações para algum acordo. Quando não fazia isso, administrava o clube de seu chefe e expulsava os imbecis que causavam problemas bêbados.
Ninguém podia igualá-lo no uso da força física, mas Yurij, diferente dos demais, sempre foi tratado como inferior por ser de “sangue traidor”. Sempre foi pobre e sobreviveu com o dinheiro que Igor lhe dava ocasionalmente, como quem joga uma esmola. Nem mesmo Alexei conhecia esses detalhes. Eram os melhores amigos e camaradas, mas não compartilhavam cada miséria. Porque uma ferida só serve para infectar outras.
Mas tudo isso não passava de desculpas miseráveis. Só pensar nisso lhe parecia hipócrita e lhe dava asco, até lhe davam vontade de rir. Quando via algo muito repugnante, Yurij frequentemente soltava uma risada zombeteira em vez de se irritar. Às vezes ria assim quando se olhava no espelho.
— Não.
Interrompendo seus recordações inúteis, Yurij negou com firmeza. Só bebia quando tinha que permanecer no mesmo lugar durante horas no frio, e mesmo isso estava estritamente proibido em missões que envolviam dirigir. Houve tempos em que passou tanta fome que teve que comer comida descartada dos latões de lixo, mas nunca roubou.
No entanto, tinha feito coisas muito piores do que tudo isso.
— …Coisas piores do que isso?
A voz de Cheriot se tornou gradualmente mais grave. Qualquer vestígio de benevolência ou tentativa de vê-lo favoravelmente tinha desaparecido por completo, substituído por uma expressão ao mesmo tempo estranha e familiar que agora flutuava em seu rosto. Distância desconfortável. Não restava nenhum vestígio da pessoa que implorava que o chamassem por um apelido carinhoso ou brincava. Cheriot tinha franzido o cenho e endurecido sua expressão.
— Não tenho por que dizer isso a você.
A resposta de Yurij pôs um ponto final na situação. Diante de seu tom frio, que deixava claro que não daria nada que pudesse ser usado como confissão, Cheriot fechou a boca.
Então, o ar na sala mudou. Como quando antes falou do fundo fiduciário, os feromônios de Cheriot se tornaram infinitamente pesados e densos. Embora seu rosto não mostrasse expressão, seus feromônios, agora afiados e agressivos, denunciavam que seu estado de espírito tinha tocado o fundo. Heather, sendo beta, não parecia notar por não poder senti-los, mas Yurij sentiu uma náusea instantânea pela hostilidade e rejeição que se erguiam em seu interior.
“Sim, é assim que os alfas normalmente se sentem entre eles. Não é sorrir tolamente e se agarrar com afeto, este é o sentimento correto.”
Ninguém se movia. Em meio ao estagnamento, Cheriot deixou a taça que segurava sobre a mesa com um baque seco. Seguindo essa ressonância, seus feromônios se derramaram abruptamente, acuando Yurij. Uma acusação silenciosa ressoou no ar.
— Entendo.
Cheriot recolheu suas longas pernas esticadas e se sentou com a postura reta. Fechou seu roupão aberto em silêncio e depois, apoiando-se lentamente nos braços da poltrona, se levantou. Yurij ergueu ligeiramente a cabeça para seguir a altura que agora o superava. Cheriot caminhou até ele e o olhou de cima. As sombras caíam ao longo de seu nariz comprido, e seus olhos verdes sob os cílios loiros o fitavam.
Após alguns segundos de silêncio…
— Então você era lixo, Yurij.
De seus lábios finos, que pareciam incapazes de dizer algo ruim, fluíram palavras cortantes. Embora não fosse agradável de ouvir e fosse muito mais suave do que esperava, naquele momento os lábios de Yurij secaram. Um pequeno pânico o invadiu e depois se afundou.
É sempre assim.
As críticas de pessoas que não eram desprezíveis o enchiam de vergonha. A intensa emoção que o oprimia por todos os lados o atormentava mais que o medo ou o terror. Tinha aprendido muitas formas de superar o medo, mas não conseguia encontrar a maneira de não sentir vergonha.
Só havia uma coisa que podia fazer agora. Suportar em silêncio as críticas de Cheriot. Embora não acreditasse ter lhe feito algo de errado especificamente, era natural ser repreendido por ser quem era.
— Cheriot!
Mas foi Heather quem interveio por Yurij. Tinha observado a situação e escolhido suas palavras, mas ao ouvir Cheriot, se levantou imediatamente. Com rosto claramente consternado, se aproximou, tomou o braço de Cheriot e o puxou para trás.
— Como pode dizer isso de repente? Mesmo assim, o senhor Yurij…
Heather hesitou, fazendo contato visual com Yurij. Seus olhos, procurando palavras enquanto o olhavam, pareciam extremamente pesarosos, o que o fez sentir-se desconfortável. Não queria que Heather se sentisse envergonhada por alguém como ele, por isso tinha mencionado antes, mas no final terminou assim.
— Desculpe, Heather. Não quis assustá-la. Mas se Yurij é realmente um criminoso, então para mim isso é uma grande merda, não é? Escolhi um caminho complicado para evitar justamente esse tipo de gente.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna