Capítulo 02.1
2. Cherry Whiskey Sour
Diferente de Saratov, onde alguns lugares ainda ficavam abertos depois da meia-noite, o centro de Vancouver ficava em silêncio após as dez da noite. A maioria das lojas estava fechada e não havia carros nas ruas. Exceto por algum morador de rua intoxicado ou desordeiros bêbados, todos já tinham voltado para suas casas, então Vancouver à noite era tranquila.
Enquanto Cheriot tomava banho, Yurij saiu do hotel por um momento para fumar. Embora fosse junho, já perto do verão, a noite ainda era fresca, pois neste país a diferença de temperatura entre o dia e a noite é grande até chegar julho.
A fumaça do cigarro se dispersava levada pelo vento seco e fresco que roçava suas bochechas. Yurij gostava daquele ar gelado. Odiava o pequeno vilarejo fronteiriço onde nasceu, mas gostava do clima frio onde nevava mais da metade do ano. Alexei e seus outros amigos viviam reclamando do quanto odiavam o frio… mas por mais estranho que parecesse, ele gostava do inverno.
O vento cortante que gelava sua pele lembrava a dor de estar vivo, e as roupas que escondiam seu corpo cheio de cicatrizes lhe eram confortáveis.
Enquanto observava em silêncio o distrito comercial fechado, terminou seu cigarro. Meditava se acenderia outro quando viu um carro parar do outro lado do hotel. Era um carro conhecido. Parecia que Alexei tinha revistado a casa de Cheriot de cima a baixo.
Sem conseguir se livrar do costume de Saratov, Alexei estacionou em diagonal e saiu do veículo empurrando a porta com brusquidão. Yurij sorriu levemente ao ver a cena. Depois jogou a bituca no cinzeiro da entrada do hotel.
— Sabia que eu vinha, mesmo sem ligar?
Alexei o viu instantaneamente ao descer do carro e o cumprimentou com a mão. Atravessou a rua em linha reta pela calçada, sem usar a faixa de pedestres, carregando uma mala de viagem. Yurij, que vigiava o trânsito pelo amigo, gritou brevemente:
— Alyosha, o carro.
Embora visse os faróis do carro que se aproximava, Alexei não se intimidou. Yurij caminhou em sua direção enquanto ele subia na calçada com passos largos. Alexei lhe estendeu primeiro a mala.
— São as coisas do seu seguidor. Pediu tanta coisa que no final esqueci de embalar. Diga a ele que compre sua própria roupa íntima, não quero tocar na roupa íntima de um alfa. A carteira e o telefone estão dentro.
— Seguidor, diz?
— Não conseguia tirar os olhos de você nem por um segundo. Isso tem que se chamar seguidor.
Yurij pegou a mala e soltou uma risada zombeteira. Claro, Alexei não viu como aquele homem começou a flertar com um ômega na sua ausência.
— Tudo bem no caminho?
— Por enquanto. De agora em diante terei que investigar.
Assim que terminou o assunto, Alexei se virou para atravessar a rua, mas parou e deu mais uma informação.
— Heather decidiu passar um momento. Eu disse que você estava aqui e ela quis vir para ver como Cheriot está. Diz que investigou algo sobre aquele grupo problemático, então escute o que ela tem a dizer.
Yurij assentiu com a cabeça brevemente.
— Mais ou menos quando ela chega?
— Vamos ver.
Alexei tirou o telefone.
— Parece que chegará em alguns minutos.
— Então a esperarei aqui.
— Posso dar seu número a ela? Caso se cruzem.
Desde que Alexei resgatou Heather no passado, ele tinha trocado contatos com ela, mas Yurij só se comunicava com ela indiretamente através do amigo. Para alguém que evitava ampliar suas relações, os contatos não eram algo para se trocar levianamente.
A pergunta de Alexei provocou primeiro rejeição, mas Yurij assentiu em silêncio. Este assunto estava relacionado a Heather, então provavelmente era necessário. Além disso, ela não parecia do tipo que o incomodaria sem necessidade.
— Vou indo. Te ligo amanhã.
Em vez de apontar que a data já tinha mudado, Yurij disse outra coisa.
— Coma algo primeiro. Você só tomou álcool até agora.
— É a primeira vez em muito tempo que você me repreende e, para ser sincero, não me desagrada. Mas não se preocupe, Valery deve ter deixado algo pronto em casa.
Ah, certo. Passou por sua mente que havia feito uma preocupação desnecessária, pois seu amigo tinha um companheiro que cuidava dele como nunca cuidaram de Yurij. Alexei, que tinha respondido em tom de brincadeira, piscou um olho para Yurij e foi embora sem nenhum reparo.
Só depois de ver Alexei se afastar até que o motor pegasse, Yurij entrou no hotel. Alguém parado na rua à noite com uma mala chamava a atenção, então era melhor esperar dentro.
O saguão estava silencioso, diferente de antes. Assim que chegou meia-noite, o bar do hotel fechou e não havia ninguém exceto o funcionário da recepção. Em silêncio absoluto, Yurij se sentou no sofá e fechou os olhos por um momento. Tinha acordado às cinco da manhã e estado ativo quase o dia inteiro. Seus olhos estavam secos e a fadiga o dominava.
Pensando bem, o lugar para dormir era um problema. Não podia se separar de Cheriot, talvez devesse ter reservado dois quartos desde o início. Não, as tarifas de hospedagem aqui eram caras demais para o orçamento.
Como era a primeira vez que fazia este tipo de trabalho, não pensou direito. Embora tivesse protegido muitos chefes de organizações, os guarda-costas designados costumavam fazer guarda rotativa sem dormir, fora da porta ou no saguão do hotel. Nunca tinha estado tão grudado a alguém como agora, então não teve tempo de considerar bem a hospedagem.
Enquanto pensava no que fazer com os olhos fechados, o sono começou a se apoderar dele. Considerou massagear a nuca e comprar um café antes de entrar, quando ouviu uma voz que o chamava por trás.
— Senhor Yurij?
Era uma voz feminina que guardava na memória. Não a ouvia com frequência, mas tinha familiaridade suficiente para reconhecer de quem era. Supôs que a visitante que esperava tinha chegado. Ao se levantar do sofá, viu uma mulher se aproximando. Uma beleza simples, com o cabelo castanho preso e óculos redondos, igual da última vez que a viu. Heather Parsons, jornalista da CTV.
— Já chegou.
Fez um esforço para soar o menos assustador possível. Costumava tentar ser mais amável com mulheres e ômegas do que com alfas, mas por sua natureza, um tom suave lhe soava forçado. Não acreditava que houvesse necessidade de se esforçar tanto.
— Sim! O senhor me esperou muito? Lamento que esteja cansado.
— Não, não importa. Me preocupo mais que você saia a esta hora.
— Vim de carro, então está tudo bem. Finalmente passei no exame de direção e posso me movimentar sozinha.
Fazia quase dois anos que não a via, mas Heather conversava com naturalidade e sem nenhuma timidez. A informação não era particularmente relevante, mas mesmo assim Yurij assentiu com a cabeça.
— Fico feliz.
— Obrigada por dizer isso.
Heather tinha uma impressão muito diferente de quando se encontraram pela primeira vez. Quando pediu ajuda enquanto se infiltrava sozinha em lugares perigosos investigando um caso ilegal, estava desesperada e cheia de rancor. Embora fosse de compleição pequena, pensou que aquela mulher beta transbordava coragem e lhe pareceu admirável. Mas ao que parece em sua vida cotidiana era uma pessoa alegre e vivaz.
— Mas senhor Yurij, o senhor está aqui sozinho?
— Sim. Meu cliente queria se ducharr.
— Mmm, então devo esperar mais um pouco?
— Não. Podemos subir.
Como ele tinha ficado fora uns trinta minutos, era mais que suficiente. Após dizer isso, dirigiu-se ao elevador tomando a dianteira. Ao ouvir Heather o seguindo com passos miúdos, reduziu gradualmente a velocidade para igualar seu ritmo. Logo caminhavam lado a lado.
— O senhor deve ter se surpreendido quando apresentei Cheriot do nada. Desculpe. Na minha vida, só conheci duas pessoas que se lançam em situações perigosas sem pedir nada em troca. Por isso pensei que o senhor era a pessoa que Cheriot procurava. Além disso, Cheriot tem dinheiro de sobra e pagará um bom preço, então pensei que seria de ajuda.
Yurij, que tinha escutado em silêncio e pressionado o botão do elevador, decidiu perguntar algo que vinha querendo saber desde o início. Era algo que o inquietava desde que aceitou o serviço.
— Uma pessoa pode ajudar outra sem pedir nada em troca sem precisar ser bondosa. Se acredita que por isso alguém é bom, me parece um pensamento muito ingênuo.
— Mas eu tenho bom olho para pessoas! Talvez porque conheci todo tipo de pessoa. Há pessoas que, embora tenham boas maneiras e falem bonito, transmitem uma estranha sensação de frieza, e outras que, embora suas palavras e ações sejam rudes, são amáveis e sinceras. Não se pode julgar tudo pelas aparências, mas eu confio na minha intuição. Afinal, sou jornalista!
Quanto mais ouvia as explicações de Heather, mais desconfortável Yurij se sentia.
— A senhora sabe o que eu faço para dizer isso?
— Isso é privado, não posso saber. Mas é necessário saber?
— Sim.
A resposta de Yurij foi firme.
— Quando se procura alguém que se responsabilizará pela vida de outra pessoa, não se investigam seus antecedentes por capricho. É crucial verificar seus antecedentes criminais e que tipo de passado viveu. Não se pode saber à primeira vista se é alguém que trairia por mais dinheiro ou se abandonaria o cliente para salvar a própria pele.
— Mas isso não é algo que ninguém sabe até que aconteça?
A réplica de Heather o deixou momentaneamente sem palavras. Justo então o elevador chegou. Yurij parou mesmo ao ver as portas abertas. Heather entrou primeiro e fez um sinal para ele.
— Eu… talvez seja uma otimista, mas acredito que há muitas coisas que não se podem saber apenas com um passado escrito em papel. Ao entrevistar as pessoas, descubro que há muitas histórias escondidas. Mesmo pessoas que sempre agiram de maneira coerente às vezes tomam decisões emocionais diferentes devido a algum gatilho. Por isso confio no que vi.
Heather deu uma resposta clara à sua pergunta. No entanto, ouvir sua explicação não dissipou suas dúvidas, mas se transformaram em ceticismo e rejeição, perturbando-o ainda mais.
— Pode me julgar com apenas ter me visto uma vez há dois anos?
— O senhor só me viu aquela vez, mas vi o senhor Alexei em várias ocasiões desde então. Além disso, ele é bastante conhecido em comunidades como o Reddit por ajudar pessoas em problemas por preços absurdamente baixos. Também sei que não trabalha como solucionador para ganhar dinheiro. O senhor é amigo dessa pessoa. E além disso, um amigo de toda a vida.
Yurij calou, sentindo que se falasse mais seu ânimo se enredaria ainda mais. Depois pressionou o botão do 12º andar. Ao ver que não acendia, meteu a mão no bolso de sua jaqueta. Encontrou o cartão-chave. Fez como lhe ensinaram antes: passou o cartão pelo sensor e pressionou o botão. A luz se acendeu. De repente, uma imagem de Cheriot esticando o braço atrás dele lhe cruzou a mente. Era uma reminiscência estranha.
— Isso a incomodou?
— Não.
Deu vontade de dizer que, diferente de Alexei, ele não era desse tipo de pessoa, mas pensou que seria uma loucura fazer uma confissão ridícula a uma desconhecida.
— Só continuo acreditando que para a segurança do senhor Goodnight serão mais úteis pessoas competentes do que simplesmente bondosas.
— É possível. Mas Cheriot…
Heather hesitou e ficou absorta em seus pensamentos. Yurij a deixou em silêncio. Antes que o elevador chegasse ao 12º andar, ela, como tomando uma decisão, falou com cuidado.
— Ele odeia especialmente pessoas de má índole. Pelo que ouvi, parece que sua situação familiar foi bastante complicada. Entre seus guarda-costas há alguns que trabalharam como mercenários. Gente do tipo criminoso.
Quanto mais Heather falava, mais frio Yurij sentia no peito. As pontas de seus dedos esfriaram e sua garganta se apertou. O som de seu coração batendo de forma instável ressoou em seus ouvidos fora de ritmo e por um momento sentiu tontura. E isso que seus pés estavam firmes sobre o piso estável do elevador.
— Ah, chegamos! Saímos?
Enquanto isso, as portas do elevador se abriram ao chegar ao destino. O silêncio do hotel que fluía de fora se abateu como um fantasma estrangulando o pescoço de Yurij. Os espectros do passado, que sussurravam que aquele não era um lugar para ele, pairavam como sombras a seus pés.
Devia recusar este serviço agora mesmo. Se procurasse, certamente encontraria alguém mais que pudessem recomendar. A condição que pensou ser um simples assunto de caráter resultou ter um critério claro. Cheriot não queria simplesmente uma “boa” pessoa, mas alguém que não fosse um “criminoso”. Yurij era exatamente o oposto desse critério.
— Heather, um momento…
Yurij agarrou com urgência Heather quando ela tentava sair. Ele nunca tocava em uma mulher sem seu consentimento, mas sua cabeça girava como enlouquecida e sua mão saiu sem que ele controlasse. Sua mão era enorme e firme comparada ao pulso de Heather, e só de agarrá-la ela cambaleou.
— Ah, sim?
— Tenho que lhe dizer algo. Antes de entrar no quarto.
Ela o olhou com olhos surpresos. Com expressão desconcertada, Heather baixou o olhar para seu pulso uma vez e seus lóbulos se enrubesceram sem razão. Enquanto movia os lábios e assentia para voltar ao elevador, naquele exato instante, o som de uma porta se abrindo ressoou com um baque no corredor.
— Heather?
Ao escutar a voz do homem que já lhe era familiar, Yurij franziu o cenho. Ao ouvir seu nome, Heather voltou a cabeça e o cumprimentou com expressão alegre.
— Cheriot!
— O que faz vindo a uma hora tão tarde?
— Vim para ter certeza de que você está bem. Me disseram que hoje foram pessoas estranhas até seu apartamento! O senhor Alexei me contou.
— Por enquanto estou bem. Veio me ver pessoalmente, Heather, que gentileza a sua.
Seus passos, talvez por estar usando os chinelos do hotel, ressoaram sobre o carpete do corredor. Em questão de segundos, Cheriot se aproximou de Heather, inclinou ligeiramente o tronco e localizou Yurij dentro do elevador.
— Yurij, o que você está fazendo que não sai?
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna