Capítulo 01.10
1. Apple Crumble Cherry Pie 10
E assim continuaria sendo.
Os ômegas com quem tinha se relacionado até então não eram de boa qualidade. Nunca havia se envolvido com pessoas comuns. Na situação dele, em que podia levar um tiro e morrer a qualquer momento, não queria arrastar uma pessoa normal como parceira e lhe causar dano. Os únicos que o desejavam eram ômegas que vendiam o corpo ao virem comprar drogas, ou aqueles que se relacionavam com gente de má índole e curtiam o prazer.
Todos compartilhavam o traço de perambular pelos submundos, então não temiam alguém como ele. Só quem já havia perdido muito conseguia isso. Como Yurij Kiselyov.
Mas aqui era diferente. Nesta cidade grande, comum e confortável, as pessoas que ele conhecia eram normais demais e não deviam se misturar com ele. Desde o começo… fugiriam assim que vissem seu corpo nu.
—Yurij.
Enquanto estava absorto nos próprios pensamentos, tinham chegado ao 12º andar sem que ele percebesse. Ao ouvir que o chamavam, piscou sobressaltado e Cheriot o examinou com uma expressão preocupada.
—Você está muito cansado? É que você não respondia quando eu te chamava.
Ao ver aquele rosto bonito inclinado na altura de seus olhos, sentiu-se estranho. Aqueles olhos verdes vívidos, como se não soubessem de nada, e aquele olhar cheio de preocupação pertenciam ao tipo de pessoa que Yurij havia mantido deliberadamente à distância.
—…Vamos descer.
Engolindo o desconforto de estar num lugar onde não devia, com alguém com quem não devia se relacionar, Yurij saiu primeiro. Por hábito, esquadrinhou rapidamente os dois lados do corredor, mas não havia ninguém. Graças ao fato de ter escolhido o quarto mais próximo do elevador, o 1201 ficava bem ao lado. Depois de checar e fazer um sinal, Yurij se aproximou primeiro do quarto e passou a chave. Mesmo depois de ouvir o som do trinco se abrindo, esperou alguns segundos antes de girar a maçaneta. Abriu a porta com cuidado e revistou primeiro o banheiro e o armário, mas não havia ninguém.
Ou seja… embora achasse que não era necessário chegar a esse extremo, os hábitos eram inevitáveis. Era por ter vivido tempo demais num mundo onde, se você baixa a guarda, não sabe o que pode acontecer.
—Uau, agora sim você parece um guarda-costas de verdade.
—Não foi para isso que o senhor me contratou?
—É que o Yurij é diferente dos guarda-costas que eu já tive. Agora que penso nisso, você também é solucionador, como o Alexei? Devem ser colegas, imagino.
Cheriot só agora fazia uma pergunta que deveria ter feito fazia tempo. Ele não sabia nem a que se dedicavam as pessoas a quem foi pedir o serviço.
…Mas também não tinha como saber.
—E agora? Se você queria verificar nossos antecedentes antes de nos contratar, não deveria ter vindo nos procurar.
—É que quase nunca acontece de alguém como a Heather recomendar com tanta segurança, então isso me passou confiança.
Ah, sim. Ele disse que queria que lhe recomendassem uma boa pessoa. Uma boa pessoa, não alguém confiável e discreto.
Desde que ouviu aquelas palavras, sentia que um espinho cravado em seu coração afundava cada vez mais. Não sabia o que exatamente seria a “boa pessoa” que Cheriot imaginava, mas certamente não era uma descrição que combinasse com ele. Nem mesmo seu amigo de toda a vida sabia o que Yurij Kiselyov tinha feito para sobreviver.
—E como o senhor conheceu a Heather?
—Conheci depois que me transferiram para Vancouver. Um amigo da Heather é jornalista esportivo e ficou meu amigo, e assim conheci a Heather também. São todos gente boa, então, saindo para beber juntos, ficamos próximos.
Parecia algo corriqueiro para Cheriot conhecer gente por indicação e expandir relações que poderiam expor seus pontos fracos. Para Yurij, acostumado a se esconder em relações fechadas, aquilo soava estranho.
Sem mais nada a dizer, Yurij fechou a boca. Conversa fiada sempre esteve longe de ser o forte dele. Mesmo com os amigos de toda a vida tendia a ser calado, e no dia a dia quase não falava.
—Você não tem nenhuma curiosidade sobre mim?
Impossível. O que ele desejava era que Cheriot fechasse a boca, não satisfazer curiosidade alguma. Como não estava com ânimo para continuar conversando, decidiu ignorá-lo, mas de repente lembrou do que tinha acontecido no bar. Seria melhor adverti-lo claramente sobre isso agora.
—Não beba o que te oferecerem, como antes. Você não sabe o que pode ter dentro.
—Mas nunca tive problema até hoje.
—Então você teve sorte.
—Se acontecer alguma coisa, você me protege.
—Se você se afastar por conta própria como fez antes, vai ser difícil.
Cheriot franziu o nariz e fez beicinho num gesto de reprovação. Quando um alfa corpulento faz essa expressão, bem que poderia ficar repulsivo, mas surpreendentemente nele era tolerável. Ao contrário da compleição, seus traços delicados evitavam que aquilo parecesse discordante. Antes que Cheriot soltasse mais disparates, Yurij mencionou outra advertência.
—E aquilo de antes…
Como não conseguia pronunciar a palavra “querido”, se expressou por rodeios.
—Para de usar esse apelido repulsivo.
—Você está falando de “querido”?
Era uma palavra que, só de ouvir, lhe revirava o estômago e causava rejeição. Yurij franziu o cenho e assentiu.
—Sim. E para também com esse tom estranho.
—Já que você me chamou de “Cherry”, você devia aguentar um pouco.
—Foi porque o nome Cheriot Goodnight é peculiar demais. Se você tivesse sido descoberto, isso só teria chamado atenção, então não tive escolha. De agora em diante vou usar um nome falso.
—Hum…
Cheriot soltou um resmungo de descontentamento e, ao passar da entrada em direção à cama, tirou e jogou o gorro e a máscara. Embora mal se visse o rosto dele, era impressionante que um ômega tivesse dado em cima dele.
—Se você me chamar por um nome falso, talvez eu não reaja tão rápido. Eu sou péssimo para atuar, não me dou bem com esses arranjos.
—Pelo visto você se dá bem em grudar de repente fingindo que somos um casal. E em me tratar por você também.
—Ah, isso era meio a sério.
Chegado a esse ponto, Yurij se perguntou quão superficial seria o “a sério” de Cheriot.
—Para ser a sério, parece que você dá em cima de qualquer um. Aquele ômega de antes você também elogiou sem pudor.
—Isso também foi a sério. Ele tinha altura de sobra para caber nos meus braços, usava um perfume que combinava com o feromônio dele e cheirava bem.
Rá.
Como estava cercado de alfas que trocavam de parceiro diariamente, Yurij não era alheio a esse tipo de situação. Mas normalmente, para esses caras, o objetivo principal era só aliviar o desejo sexual, não alongar a conversa soltando floreios. Pagavam um drinque e, se tivessem intimidade, tinham e pronto.
Mas Cheriot lançava cantadas a cada respirada, a ponto de Yurij se perguntar se ele não se cansava. Como há relativamente poucos alfas que saem com outros alfas, pensou que talvez seu físico realmente fosse do gosto dele, mas agora parecia que os critérios dele para gostar de alguém eram bem amplos.
Já tinha ouvido falar desse tipo de gente. Gente que se apaixona fácil, sai com alguém e depois esfria. Uma classe que ele não conseguiria entender nem que morresse e ressuscitasse.
—Que “a sério” mais leve.
—Ah-hã, também já me disseram isso.
Embora fosse um comentário indelicado, Cheriot riu com leveza e deixou passar. Ao se espreguiçar, bocejou e deixou o casaco sobre o gorro que havia jogado na cama. Ao tirar a jaqueta, ficou à mostra uma camiseta preta de manga curta que revelava sua compleição: um peito largo e firme, ombros robustos e as curvas dos músculos visíveis aqui e ali.
—Mas não se preocupe. É verdade que eu flerto porque gosto de você, mas não sou do tipo que gruda pedindo um relacionamento.
Yurij, que o olhava inconscientemente, ergueu a vista. Ao se encontrarem os olhares, Cheriot curvou os cantos dos olhos e explicou com tom sereno:
—Eu não tenho intenção de namorar ninguém. Se houver conexão, uma relação em que a gente se vê periodicamente é o ideal.
Eram palavras incompreensíveis. Ver alguém várias vezes de maneira periódica implicava formar uma relação e, se além disso houvesse intimidade, era inevitável que surgissem sentimentos.
O “a sério” de que Cheriot falava era, desde a definição, diferente do de Yurij. No mundo de Yurij, se importar sinceramente com alguém era como uma promessa. Significava não priorizar o próprio desejo e buscar formas de fazer o outro feliz. Um sentimento de satisfação só de ver sorrir e ser feliz a pessoa de quem se gosta de verdade.
O amor que Yurij tinha visto era assim. O amor que lhe mostraram Vasili, que só amou uma mulher na vida, Yekaterina, e a própria Yekaterina, que se agarrou com tenacidade a um mundo perigoso pelo marido, tinha essa forma.
—Vou tirar a roupa agora, quer olhar?
Cheriot perguntou de brincadeira a Yurij, que ruminava aquelas declarações com as quais não conseguia se identificar. Embora fosse uma pergunta, Cheriot já tinha começado a tirar a camiseta. Em contraste com seu rosto bonito, um abdômen definido entrou em seu campo de visão. No instante em que o viu, Yurij virou o corpo por um desconforto inexplicável. Porque o abdômen que vislumbrou estava liso, sem uma única cicatriz.
Por causa das cicatrizes que tinha desde pequeno, Yurij costumava não se despir na frente dos ômegas com quem se envolvia, a menos que fosse necessário.
Talvez por isso se sentisse estranho. Achava incômoda… aquela pele branca, sem vestígio de cicatrizes, tão alheia quanto uma estátua.
—Vou sair.
—Ei, você devia ficar comigo!
—Estarei no corredor. Me chame quando terminar de tomar banho.
Ao terminar de falar, Yurij abriu a porta e saiu. De pé diante da porta do quarto fechada com um baque seco, apertou os olhos com força, desfrutando enfim da tranquilidade que havia chegado. O cansaço o inundou. Notou tarde a secura rígida das pálpebras, e seu estômago, vazio o dia inteiro, estava dormente e ardia.
Diante da dor que sentia no estômago abaixo das costelas, Yurij ergueu a mão lentamente e a pressionou sobre a região afetada. Enquanto pressionava com força o abdômen duro, parou ao notar sob os dedos a textura irregular da pele. Através da camisa fina, podia sentir as cicatrizes brancas que começavam na borda das costelas e se estendiam até o umbigo.
Seu corpo tinha muito mais cicatrizes do que aquelas, a ponto de causar repulsa. Depois de acariciar em silêncio as marcas, baixou a mão e se dirigiu ao fim do corredor. Ao se encostar na parede do corredor, sombreada pela quina, deu-lhe vontade de fumar. Mas, numa cidade reluzente e limpa, algo como fumar em ambiente fechado devia ser evitado a todo custo.
Assim como naquele dia, fazia três anos, quando se deu conta de que um ato que lhe era familiar desde sempre era considerado uma barbaridade na sociedade comum, Yurij pensou que era um ser diferente dos outros até a medula.
Porque para ele palavras como “bonito” ou carinhosas como “querido” eram termos sublimes que não podia pronunciar à toa, a menos que fossem dirigidos a alguém que amasse de verdade.
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Notas
[1] Merda.
*Alyosha nome Russo / Alexei nome adotado no Canadá
N/A: Jurij é a versão escrita, Yurij é a falada do mesmo nome. Assim, optamos por padronizar Yurij/Yuri para melhor entendimento.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna