Capítulo 01.9
1. Apple Crumble Cherry Pie 9
Nesse momento, Cheriot abriu a porta do carona e entrou no carro. Talvez por sua altura e compleição, muito maiores que as de Yurij, sua cabeleira ruiva quase roçava o teto do veículo.
—Você costuma ir a algum hotel em particular?
Yurij deu a partida e seguiu para o centro, indo direto ao ponto. Cheriot, que sem colocar o cinto tinha empurrado o banco do carona para trás ao máximo, ergueu a vista com os olhos curvados.
—Que capricho deu em você nesses minutos?
—Que bobagem você está falando agora?
—Você se apaixonou por mim, não foi?
A mão que segurava o volante se retesou, mas Yurij lembrou que não devia dar mais margem a Cheriot.
—Vai ser melhor um hotel famoso com muitos hóspedes, onde haja muitas testemunhas. Assim não vão poder te esfaquear em plena luz do dia no saguão.
—Você prefere colchões macios ou firmes? Eu, pessoalmente, prefiro os firmes. Às vezes, se eu não controlo bem a força, a pessoa de baixo não consegue arquear direito as costas.
Yurij, que estivera olhando para a frente por um momento, optou por outro método. Aumentou o volume do rádio, que tocava baixinho, e decidiu que era melhor ir a um hotel conhecido perto da Thierry, que tinha visto várias vezes ao passar.
—Yurij, o rádio está alto demais, não escuto sua voz. Ah, e já posso te chamar de você, né? Se vamos ficar juntos tanto tempo, vai ser incômodo continuar com tanta formalidade.
A voz de Cheriot ressoou através da música do rádio que enchia o carro. Como ele não estava de cinto de segurança, um bipe irritante se somou ao som. Yurij, aguentando o barulho que lhe enchia a cabeça pelos tímpanos, pisou no freio de repente quando o sinal ficou vermelho e parou o carro. Infelizmente, Cheriot nem sequer piscou e se manteve bem grudado no banco.
—Vejo que o Yurij dirige um pouco bruto.
Em vez de responder, Yurij soltou o próprio cinto, virou-se para Cheriot e se aproximou até colar o tronco no dele. Cheriot, que não tinha parado de tagarelar, naquele instante fechou a boca. Yurij chegou tão perto que os troncos quase se tocaram, esticou o braço, puxou a tira e, com força, encaixou a fivela ajustando o cinto.
Finalmente os bipes cessaram. Quando Yurij ergueu a vista depois de se certificar de que a fivela estava bem colocada, viu os olhos verdes de Cheriot olhando para ele com uma expressão surpresa. Satisfeito por ver fechada aquela boca que não parava de se mexer, Yurij, sem perceber, torceu um canto dos lábios. O olhar de Cheriot pousou em seus lábios.
—Cala a boca.
Como o próprio cliente tinha dito que não se importava de ser xingado, Yurij sussurrou com sinceridade que ele calasse a boca. Como se a mensagem tivesse surtido efeito, Cheriot não disse nada, justo quando o semáforo mudou.
Yurij voltou ao seu banco, colocou o cinto e retomou a marcha. Graças ao fato de Cheriot finalmente estar calado, pôde baixar o volume do rádio.
Quando chegaram ao hotel, já era noite fechada. Como Alexei se encarregaria de trazer a carteira e o celular de Cheriot, Yurij alugou o quarto em dinheiro por enquanto. Disse a Cheriot que ficasse no saguão com o gorro de tricô e a máscara, como quando se conheceram. Depois da pandemia global, gente de máscara ficou comum, então, por sorte, Cheriot não parecia suspeito demais.
—Você já fez o check-in?
Assim que terminou o registro, recebeu uma ligação de Alexei.
—Fiz no meu nome. Quarto 1201. E você?
—Entrei com a chave que o Cheriot me deu. Como ele é um superastro, mora numa cobertura. Por enquanto não tem sujeitos suspeitos por perto nem sinais de invasão. Por precaução, vou continuar checando.
—Certo. Me avisa quando chegar.
—Combinado. E o senhor cliente está se comportando?
Yurij dirigiu o olhar para o saguão. Tinha pedido a Cheriot que ficasse sentado enquanto fazia o check-in, mas, ao contrário do esperado, não via em lugar nenhum o chamativo gorro branco.
—Droga.
—Parece que não.
—Desculpa, tenho que desligar.
—Vai logo.
Depois de desligar, Yurij atravessou o saguão do hotel com passos enérgicos. Esquadrinhou um por um os que estavam sentados nos sofás do lounge, mas Cheriot não aparecia. Não era uma criança; como podia um adulto sumir no instante em que ele desviava o olhar? Xingando entre os dentes, Yurij procurou em outra área. Para seu azar ou sorte, Cheriot apareceu logo.
O homem alto de gorro de tricô branco estava sentado no bar anexo ao saguão, de costas. Mas não estava sozinho. Ao seu lado, um homem de compleição magra se aproximava tanto dele que os braços dos dois quase se roçavam.
Isso é inacreditável.
Yurij parou de repente e ajeitou o cabelo. Mesmo à distância, dava para ver claramente que a pessoa ao lado de Cheriot era um ômega. Não podia acreditar que em tão pouco tempo ele tivesse seduzido um ômega. Enquanto Yurij engolia um riso amargo, o ômega se esforçava para demonstrar seu interesse por Cheriot.
Uma mão pequena e branca, carregada de curiosidade e desejo, tocou o braço firme de Cheriot. Ele permitiu o contato com naturalidade enquanto aceitava o coquetel que o homem ômega lhe oferecia. Yurij não podia ficar de braços cruzados diante de um ato tão imprudente quanto beber algo oferecido por um desconhecido, então, para cumprir sua tarefa, abriu a boca… e depois a fechou.
Não podia dizer o nome dele.
Fosse “Cheriot” ou “Goodnight”, seu nome e sobrenome eram tão peculiares que Yurij hesitou. Tinha colocado nele o gorro e a máscara para ocultar sua identidade ao máximo. Não podia entregá-lo por causa de um nome.
Enquanto isso, o estúpido do Goodnight estava prestes a beber o coquetel. Tinha baixado um pouco a máscara até o queixo e sorria olhando para o ômega, como se algo lhe causasse grande alegria. Logo, a taça tocou seus lábios, que esboçavam um riso leve. O líquido de aspecto doce se inclinou, balançando como se fosse transbordar. Yurij, contendo sua relutância, o chamou.
—Cherry!
O chamado breve e firme, como se chamasse um cachorro, ressoou no bar do hotel. O ômega grudado em Cheriot se sobressaltou e olhou na direção de Yurij. Os demais também voltaram o olhar instintivamente para ele. E o dono daquele apelido repelente, Cheriot, também girou o corpo para olhar para trás. Seus olhos verdes, arregalados, percorreram o entorno com surpresa até pousarem em Yurij.
Logo, um sorriso radiante se desenhou no rosto de Cheriot. Yurij franziu o cenho diante daquela expressão excessivamente alegre. “Ficou calado o caminho inteiro. Achei que finalmente fosse manter distância, mas, vendo a cara dele, tenho um mau pressentimento.”
—Você me encontrou, querido?
E o pressentimento desagradável de Yurij se cumpriu.
—…O quê?
Diante daquela palavra absurda que ressoou nítida em seu ouvido, Yurij franziu o cenho de maneira tão marcada que ficou quase feroz. “Ele acabou de me chamar de querido? Alguém que conheceu há algumas horas, e ainda por cima um alfa?” Embora achasse que Cheriot, por mais atrevido que fosse, não cruzaria esse limite, ao lembrar como ele lhe havia apresentado apelidos no primeiro encontro, aquilo lhe pareceu possível.
—Querido, não faz essa cara tão feroz. Esse cavalheiro tão bonito também é dos Estados Unidos, então eu estava batendo papo com ele, contente de conhecer um compatriota.
Sua previsão indesejada se mostrou correta. Cheriot ajeitou bem a máscara, levantou-se e se aproximou com um passo leve que não combinava com sua corpulência. Ao se colar totalmente em Yurij, segurou seu pulso com ar de bajulação.
O calor do corpo dele se propagou pela pele de Yurij. “Houve alguém recentemente que o tivesse tocado assim? Provavelmente não, desde que chegou ao Canadá.” Por isso, aquele contato íntimo lhe parecia estranho a ponto de dar arrepios.
O que ele queria era empurrá-lo assim que fosse tocado, mas a razão o deteve. Já tinha cometido a terrível façanha de usar um apelido para passar despercebido; não podia armar uma cena desnecessária. Era melhor aguentar um momento incômodo do que falhar na missão.
Mas ter que aguentar não significava que devia entrar no jogo daquele disparate.
—Tenho certeza de que eu disse para o senhor ficar no saguão.
Yurij apenas desviou o olhar e sussurrou em voz baixa. Sua voz era tão grave que soou quase como uma ameaça.
—Eu estava me comportando e te obedecendo. Mas é que você me deixou sozinho tempo demais. Minhas pernas dormiram de tanto ficar sentado, então dei uma voltinha.
O tempo que Yurij levou para fazer o check-in e voltar foi de uns quinze minutos. Diante da expressão “me deixou sozinho”, Yurij ficou sério e franziu o cenho.
—Se o senhor não consegue esperar nem dez minutos, tem menos paciência que uma criança.
—Isso mesmo. Por isso você tem que cuidar de mim, que sou uma criança.
Dito isso, Cheriot baixou os ombros e se aproximou do ouvido de Yurij para sussurrar:
—Se você não quer me deixar com aquele cara, paga o coquetel dele. É que eu ainda não recebi minha carteira das mãos do Alexei.
Surgiu-lhe uma réplica desordenada que subiu até a garganta, mas, para sair dali, Yurij decidiu acompanhar o ritmo do cliente. Apagando a expressão de desgosto do rosto, caminhou até o balcão e Cheriot o seguiu, grudento.
Yurij deu uma olhada rápida no ômega, que os observava com ar confuso, tirou quarenta dólares da carteira e os deixou com um baque seco ao lado da taça de coquetel recém-servida.
—Meu acompanhante foi indelicado. Eu pago o coquetel.
—Ah, escuta, então bebe você. Que tal se sentar com a gente?
Era impossível que ele bebesse algo oferecido por um completo desconhecido. Yurij cobriu os lábios com uma curva fria que mal podia ser chamada de sorriso e recusou com uma cortesia moderada, mas firme.
—Tenho assuntos a resolver, então vou me retirar.
Sem deixar espaço para réplicas, Yurij recusou de uma vez e, ao se virar, agarrou pelo braço Cheriot, que acenava para o ômega. Ao puxá-lo com força, Cheriot veio atrás dele soltando disparates como —Ai, querido, não está pegando forte demais?
Talvez porque o ocorrido naqueles escassos minutos estivesse longe demais da vida de Yurij, seu rosto, já naturalmente pálido, estava lívido quando saíram do bar e se dirigiram ao elevador. Preferiria montar guarda ou brigar o dia inteiro num frio glacial a suportar aquilo.
Finalmente o elevador chegou ao térreo e Yurij, levando Cheriot consigo, entrou de imediato. Com um gesto um tanto impaciente, apertou o botão do 12º andar, mas ele não acendeu. Enquanto franzia o cenho pensando se estaria com defeito, algo pesado pousou em seu ombro.
Ao virar a cabeça bruscamente, viu o nariz e a bochecha branca de Cheriot. Estavam tão perto que por pouco seus lábios não roçaram aquela bochecha. Aquele homem tinha o dom de se aproximar por trás sem nenhum pudor, sem respeitar o espaço pessoal.
—O que o senhor está fazendo?
—Yurij, você já está com a chave do hotel, não é? Tem que passar o cartão ali para poder subir.
A voz que sussurrava —me dá— fez tanta cócega em seu ouvido que Yurij se arrepiou. Empurrando-o com o ombro, Yurij tirou o cartão de registro que guardava no peito e o encostou no peito de Cheriot com um golpe seco.
Fez isso porque não tinha intenção de entregá-lo gentilmente, mas Cheriot baixou o olhar lentamente e, ao ver a mão de Yurij sobre seu peito, curvou os cantos dos lábios. Com os olhos sorridentes e radiantes, fingiu timidez e murmurou em voz baixa:
—Se você queria tocar meu peito, era só falar. Quando a gente subir e eu me lavar, principalmente…
Somando isso ao de antes, se tinha aprendido algo nessas horas, era que Cheriot era desses que soltam disparates faça o que fizer, e que precisava cortá-lo pela raiz. Antes de ouvir mais bobagens, Yurij o interrompeu.
—Quarto 1201. Sobe sozinho. Eu pego as suas coisas.
—Como pedi muitas coisas ao Alexei, vai levar um bom tempo. Você é meu guarda-costas, então tem que ficar grudado em mim.
Dito isso, Cheriot esticou o braço deliberadamente na direção de onde Yurij estava. Ao aproximar o cartão magnético do leitor com mão experiente e apertar o 12º andar, o botão acendeu, ao contrário de antes. Yurij o observou em silêncio. Embora fosse uma ação sem importância, um desconforto estranho o roçou.
Como descrevê-lo? Todos os hotéis que Yurij havia conhecido até então eram lugares velhos onde nem era preciso passar um cartão. Saratov era um território árido e remoto aonde nenhum turista iria, e havia só um hotel no povoado. Ele o visitou e nem sequer por vontade própria. Só concordou em satisfazer um ômega que conheceu para resolver seu rut.
Nunca tinha levado ninguém para casa. Só permitia que seu grande amigo Alexei ficasse por lá com frequência, mas, quando via ômegas, não se importava com o lugar. Encontravam-se em motéis dos arredores e depois se separavam, ou saciavam o desejo sexual em quartos de boates. Com aquela vida, não tinha motivo para ir a hotéis luxuosos.
Depois de deixar Saratov, cruzar a fronteira e chegar aqui… nem sequer tinha estado com ômegas. A última vez que visitou um lugar de hospedagem assim foi há mais de três anos. Durante esse tempo, tinha suprimido seu rut com inibidores. Quando até o dinheiro para o remédio lhe parecia um desperdício, muitas vezes bebia vodca barata e se trancava para aguentar.
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna