Capítulo 01.8
1. Apple Crumble Cherry Pie 8
Yekaterina Kozlova era uma devota fiel da Igreja Ortodoxa. Sua família acreditava em Deus havia gerações e, mesmo vivendo numa época de guerra e morte, nunca perderam a fé. A família Kozlova era pobre, mas de uma linhagem digna. Gostavam de ajudar as pessoas, e Katia, ou seja, Yekaterina, seguindo essa tradição familiar, tornou-se enfermeira.
Por isso ninguém ao redor esperava que Yekaterina se apaixonasse por um homem chamado Vasili Kiselyov. A família Kiselyov se dedicava havia gerações ao abate e, como Vasili não sabia fazer outra coisa, ganhava a vida esfolando animais e retirando suas vísceras. Embora se dissesse que não havia trabalhos superiores ou inferiores, o de açougueiro de abate não era uma profissão respeitada.
Quando começaram a correr rumores de que a bela e gentil enfermeira andava atrás do carrancudo açougueiro, no começo todos diziam que Katia devia estar no cio e que por isso havia tomado uma decisão equivocada. Como sempre existiu a atração entre alfas e ômegas jovens durante o cio, aqueles que secretamente admiravam Katia se consolaram pensando que era uma febre passageira.
Mas Katia não abandonou o lado de Vasili nem depois de meses, nem depois de meio ano, nem mesmo depois de anos. Em algum momento começou a levar Vasili à igreja de braços dados. O homem rude e sem fé decidiu tentar acreditar em Deus pela mulher que amava.
E a fé de Vasili Kiselyov continuou mesmo depois que a mulher a quem amou mais do que à própria vida morreu. Ele disse ao filho Yurij que no coração humano está sempre Deus, e que por isso, ainda que peque, Jesus, o Salvador, perdoará e restaurará quem se arrepender.
…Balela.
Yurij, que havia saído um momento de casa para fumar, contemplou as ruas silenciosas da noite. Amava seu pai, mas detestava a ingenuidade das pessoas de fé. A fé de que falavam lhe parecia apenas um pretexto conveniente. Dizer que se pode pecar, se arrepender e obter o perdão lhe parecia terrivelmente egoísta. Não seria só uma crença para aliviar a culpa profundamente enraizada?
O pecado deixa uma marca indelével no momento em que é cometido. É algo que aconteceu, um tempo que já não pode ser revertido. Se alguém transforma a vida de outro num inferno e depois se arrepende, o que acontece com a vida da vítima? Se os mortos não podem ser salvos, mas os assassinos sim, Yurij não queria acreditar num Deus assim. Ironicamente, entre os criminosos havia muitos crentes. Yurij tinha tanto nojo desse tipo de gente que às vezes sentia que só de vê-los podia morrer.
E assim, em algum momento, Yurij abandonou a fé.
Yurij Kiselyov é um pecador. É desde que nasceu em Saratov. Katia e Vasha, um casal comum, fugiram de um país que desmoronava e chegaram aos Estados Unidos. Para viver numa terra nova, precisavam de identidade e dinheiro.
Um homem chamado Igor Volkov se aproveitou desses refugiados: em troca de lhes dar os meios para sobreviver, impôs-lhes enormes dívidas que os acorrentaram. Saratov era uma cidade cheia de gente burra o bastante para cair na armadilha. Yurij, que nasceu num covil de mafiosos que cometiam todo tipo de crime para ganhar dinheiro, é claro que cresceu como mafioso. Não teve opção. Depois de ser obrigado a entrar na organização usando a dívida impagável de seus pais como ponto fraco, Yurij fez muitas coisas para sobreviver. Coisas que não merecem perdão.
—Yurij, você está pronto?
Quando a brasa do cigarro estava prestes a alcançar o filtro e tocar seu dedo indicador, Alexei se aproximou por trás e lhe dirigiu a palavra. Yurij exalou uma lenta baforada de fumaça acinzentada e depois, com um dedo, apagou a brasa num golpe seco. O ponto carmesim se dispersou no ar e desapareceu.
—Por acaso havia algo para preparar?
—Estou falando de se preparar mentalmente para ficar grudado no Goodnight.
Alexei expressou seu pedido de desculpas com uma brincadeira. Embora seu grande amigo não costumasse se importar com as opiniões alheias, às vezes tinha consideração pelas poucas pessoas que estimava. Como seus critérios eram bastante arbitrários, isso não acontecia com frequência, mas hoje parecia que a consciência estava pesando.
—Na verdade, não. Basta trancá-lo num hotel e levar o que ele precisar. Parece algo que vai se resolver em menos de dez dias.
Era verdade que a personalidade de Cheriot Goodnight lhe era muito incômoda, mas, de qualquer forma, o pagamento do trabalho era muito bom e, mesmo tendo assumido sua proteção, Cheriot não estava em condições de sair por aí, então o trabalho de Yurij se limitaria a vigiá-lo de fora enquanto ele descansava. Não passariam muito tempo juntos.
—Num mundo ideal, sim… mas os planos sempre saem torcidos.
—Se eu interpretar mal, vai parecer que você deseja que seja assim, Alyosha.
—Impossível.
Alexei franziu o cenho como se fosse negar categoricamente, mas, ao encontrar o olhar de Yurij, não conseguiu evitar romper o selo dos lábios e rir.
—Para ser sincero, hoje é a primeira vez que te vejo tão alterado. Você nem costuma prestar atenção nesse tipo de bobagem.
Parecia que ele se divertia muito ao vê-lo tão exasperado com os disparates de Cheriot. Yurij encarou o amigo sorridente, depois esboçou um riso debochado e enfiou a mão no bolso. Tirou um cinzeiro portátil, depositou a guimba e respondeu com indiferença:
—É que até agora não tinha ninguém que falasse comigo desse jeito.
Ao repassar aquilo, achava absurdo. Ele sempre havia sido uma figura intimidadora da qual poucos se atreviam a se aproximar. Mesmo quando os ômegas no cio grudavam nele, não se atreviam a elogiá-lo à toa. Todos tinham medo até de olhá-lo nos olhos.
“Será por isso que aqueles olhos verdes me impactaram? Quase ninguém nunca tinha olhado direto na minha cara antes.”
Desde que chegou a Vancouver, alguns ômegas o tinham convidado para sair, como hoje, mas eles também sentiam vergonha de olhá-lo nos olhos.
—Mas é fato que você é bonito, não é?
Enquanto Yurij ruminava as extravagâncias de Cheriot, Alexei lhe soltou um elogio. Yurij franziu o cenho e o encarou. Embora estivessem juntos desde que aprenderam a correr, era a primeira vez que ele mencionava sua aparência. Yurij também nunca tinha feito isso. Não sabia se era pelo ambiente hostil ou pela típica rudeza russa, mas elogiar não fazia parte da dinâmica deles.
Eles mudaram muito desde que vieram para cá.
De repente, Yurij se deu conta de que alguém que acreditava conhecer perfeitamente havia mudado sem que ele percebesse. Achava aquilo estranho, mas não era uma mudança ruim. Alexei, depois de se tornar parceiro da pessoa que amava havia tanto tempo, tinha ficado mais sincero. Seu amigo, que sempre priorizava os atos sobre as palavras e não dava importância às expressões, parecia ter aprendido a ser carinhoso.
Diante dessa revelação repentina, Yurij moveu os lábios por um instante. Hesitou entre dizer —obrigado— ou —você também—, mas no fim optou por outra resposta.
—Não quero ouvir esse tipo de comentário de um alfa.
—Você tem razão. Se fosse um ômega fofo, seria diferente.
Como se não fossem palavras de grande importância, Alexei deu de ombros assentindo. Yurij observou sua expressão e tirou outro cigarro. De repente, começou a doer a boca do estômago e ele se sentiu estranho. Será que era porque tinha acabado de perceber que seu amigo de toda a vida havia mudado tanto? Sentiu-se deixado para trás.
Yurij, que havia baixado levemente a cabeça para olhar o chão, inalou a fumaça do cigarro em silêncio. Sentiu como a fumaça densa que enchia seus pulmões embaçava suas veias, e se perguntou se merecia estar ao lado do amigo.
Cheriot Goodnight disse que queria contratá-los porque Alexei era uma pessoa “boa”. Heather provavelmente os considerava bons porque a ajudaram sem pedir nada em troca quando ela estava em apuros. Mas isso não podia ser o critério de bondade. O que importava era que crimes tinham cometido. Ao contrário de Alexei, que apesar de estar num covil de criminosos jamais cruzou certos limites, ele…
—Estou entediado. Quando é que vocês pensam em sair?
Seria porque estava absorto demais nos próprios pensamentos? Yurij, enfrentando os fantasmas do passado, não notou que Cheriot se aproximava por trás. Talvez também tenha baixado a guarda porque Alexei estava por perto. Como preço por sua distração, não conseguiu impedir que Cheriot o abraçasse de surpresa, envolvendo seus ombros com força.
Apesar da aparência delicada, a força com que ele lhe cercou os ombros num instante foi tão avassaladora que lhe cortou a respiração. Surpreso pelo contato e pela pressão repentinos, Yurij enrijeceu o rosto e ergueu o braço, mas, ao sentir os feromônios de Cheriot, conteve a duras penas o punho prestes a ser lançado.
—овно[1]!
Mas não conseguiu evitar que lhe escapasse um xingamento.
—Uau, o que você acabou de dizer? Fala de novo.
Sentiu o hálito de Cheriot em sua orelha. Ao contrário do tom de rapazinho alegre, a voz de Cheriot, que ressoava perto do seu pavilhão auditivo, era inquietantemente grave. Alexei, que observava a cena de lado, soltou um riso debochado.
—Na vida, é a primeira vez que vejo alguém implorando para que repitam um xingamento. Aquilo foi um xingamento, senhor cliente.
—Até os xingamentos do Yurij soam bem.
—E que tal o senhor se afastar antes que ele te bata de verdade?
—Se fosse assim, o Yurij já teria me dado um soco.
Cheriot soltou outro disparate enquanto observava Yurij se conter para não acertar um soco na cara dele. Yurij, mais do que perplexo, sentiu a irritação brotar e virou a cabeça para repetir o xingamento, mas, ao perceber que os lábios de Cheriot roçavam sua bochecha, torceu o rosto. Quase se tocaram.
—Me solta agora. Se me tocar assim de novo, saiba que desta vez eu te bato mesmo.
Embora a regra de Yurij fosse nunca pôr as mãos num civil, naquele momento estava tão furioso que quase se esqueceu dela. Diante do tom hostil de Yurij, Cheriot afrouxou a força como se fosse soltá-lo, mas voltou a se aproximar e perguntou:
—Então, tudo bem se eu avisar antes de te tocar?
—Você é louco?
Yurij, pessoalmente, repetiu em inglês para que Cheriot pudesse entender.
—É que eu gosto tanto da sua aparência que talvez tenha ficado um pouco louco mesmo.
—Parece que, sempre que gosta de um rosto, você poderia ir para a cama com qualquer um. Até um animal tem mais autocontrole.
—Não necessariamente. Para o sexo ser bom, a outra pessoa também tem que me agradar.
Por um instante, Yurij não soube o que responder e mexeu os lábios. Estava tão exasperado que lhe faltava o ar, mas pressentia que, se continuasse discutindo, acabaria enredado na lógica absurda de Cheriot. Yurij engoliu em seco e pôs as mãos sobre os braços de Cheriot para tirá-los à força. Enquanto ele se deixava levar em silêncio, Cheriot lhe sussurrou ao ouvido:
—Parece que te incomoda eu te tocar, mas você me tocar tudo bem. Será que você não detesta tanto assim o contato entre alfas?
—Cala a boca.
—Então vou mudar de estratégia. Vou fazer com que você me toque.
Em vez de responder que isso jamais aconteceria nem morto, Yurij conseguiu se livrar de Cheriot. Ao empurrá-lo para trás, Yurij decidiu que era melhor ir embora antes que Cheriot cometesse outra loucura.
—Alyosha, para de rir e vamos fazer o que temos que fazer. Eu levo esse cara para o hotel, você vai à casa dele e traz as coisas dele. Decidam entre vocês dois o que ele precisa.
Alexei, que tinha observado o bate-boca entre Yurij e Cheriot como quem vê a casa do vizinho pegar fogo, assentiu com a cabeça. Enquanto caminhava até o carro estacionado no beco, Cheriot ia passando uma lista das coisas necessárias e pequenas instruções para que Alexei pudesse entrar no condomínio. Nesse meio-tempo, Yurij deu a partida no carro e mergulhou na dúvida sobre onde deixar aquele problemão.
A primeira coisa era determinar o nível de perigo que Cheriot enfrentava. Julgando só pelo que tinha acontecido hoje, a situação era um tanto ambígua, sobretudo pelo modo como eles haviam aparecido abertamente num lugar com tanta gente. Como não convém aos criminosos chamar a atenção do público, se expor assim indicava que alguém estava disposto até a ir para a cadeia.
Mas quase ninguém comete uma burrice dessas por uma simples confusão sentimental. Além disso, tratando-se de alguém tão famoso, era muito melhor usar esse segredo para extorqui-lo e tirar dinheiro dele. Afinal, esse tipo de gente é capaz de qualquer baixaria por dinheiro.
Depois de refletir, Yurij optou por ir a um lugar movimentado. Como Cheriot, a começar pela corpulência, chamava atenção facilmente, decidiu que era melhor colocá-lo onde houvesse multidões, para dificultar sua identificação, do que escolher um lugar solitário onde o detectassem. Embora os planos pudessem mudar conforme a situação, por hoje queria deixá-lo no hotel que escolhesse e se livrar dele nem que fosse por um tempo.
—Já cheguei, Yurij.
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna