Capítulo 01.7
1. Apple Crumble Cherry Pie 7
Apesar do rosto delicado, Cheriot parecia apreciar a bebida tanto quanto Alexei. Ele, que havia demonstrado um interesse enorme pelo chá preto com uísque, insistiu em pedir a Yurij que lhe preparasse um para conhecer aquele sabor terrível. Alexei, que tinha ficado de bom humor com o álcool, o incentivou. Ao cabo de uma hora, meia garrafa de bourbon já mostrava o fundo.
O caso de Cheriot Goodnight não podia ser classificado nem como difícil nem como fácil. A organização em que ele havia se enroscado era uma gangue de motoqueiros que operava em toda a província da Colúmbia Britânica, um grupo numeroso que tinha atravessado dos Estados Unidos. Embora uma investigação de grande porte tivesse reduzido seu tamanho, eles continuavam ganhando dinheiro com a distribuição de drogas.
Pedir ajuda à polícia seria, como já foi dito, a solução mais limpa. Mas, por causa de um ponto fraco, que não era exatamente um ponto fraco, pelo qual tinham pegado Cheriot, ele disse que preferia uma mediação. Cheriot afirmou que o que a gangue queria seria dinheiro, e Yurij e Alexei não pensavam muito diferente.
No entanto, como as intenções dos criminosos costumam superar qualquer expectativa, eles não se mostraram otimistas. As pessoas comuns não sabem o quanto pode ser voraz a escória que abandonou a moral. Os detalhes precisariam ser investigados.
—Até que valor você pensa em chegar na negociação?
Alexei pegou um chocolate da mesa e o comeu antes de perguntar. Cheriot pôs quatro torrões de açúcar em sua xícara de chá recém-preparada e depois a mexeu com uma colher.
—Quanto o senhor acha que eles vão pedir?
—Não sei. Ainda não houve nenhum pedido concreto. Vamos ver, o que exatamente disse a pessoa com quem você traiu?
Cheriot franziu o cavalete do nariz. Com uma expressão de reprovação, respondeu a Alexei.
—O Samuel? O Sam só me disse que era perigoso e que eu deveria buscar ajuda. Depois disso, não tive mais contato com ele.
—Você lembra o número?
—Lembro, decorei.
Alexei assobiou.
—Parece um amor do século. Decorar um número de telefone hoje em dia…
—Costumo dar o melhor de mim com as pessoas com quem estou.
Ao dizer isso, Cheriot passou o indicador pela testa.
—Embora, se eu soubesse que ele estava traindo o parceiro comigo, teria terminado há tempos.
—Se alguém está decidido a te enganar, não tem como você saber. Mas será que não se aproximava muita gente de você com intenções suspeitas? Você é um superastro e mesmo assim conhecia pessoas sem investigar os antecedentes… Você é ingênuo.
Com o álcool no corpo e com as defesas um pouco baixas, Alexei se comportava de forma mais gentil com Cheriot do que antes. Na verdade, Alexei tendia a ser mole com as pessoas comuns, e mais ainda com sujeitos inocentes como Cheriot, que parecia não conhecer os modos do mundo. Talvez fosse porque ele parecia refletir o amante que Alexei havia criado.
Yurij se limitou a escutar a conversa deles em silêncio. Quem dirigia a agência de soluções era, afinal de contas, Alexei. Ele mesmo era só um colaborador que ajudava quando faltava mão de obra. Aceitar ou recusar um caso era, em última instância, decisão de Alexei… Ele só estava ajudando um amigo. A recompensa não era o importante.
—Eu não queria conhecer as pessoas desse jeito. Afinal, não eram relacionamentos sérios, e sim encontros breves, então os antecedentes não importavam.
De fato, ele não parecia o tipo de pessoa que fica com alguém por muito tempo. Ficou evidente quando Yurij o viu se aproximar de repente de um desconhecido na rua e lhe dizer —de perto você é ainda mais bonito— enquanto dava em cima dele.
Alexei não comentou nada sobre a resposta ingênua de Cheriot. Deu um gole no chá com uísque, mergulhou nos próprios pensamentos por um momento, e depois pousou a xícara e falou.
—O caso…
Sentiu um olhar em sua bochecha. Ele, que estava olhando o teto da sala refletido no chá que esfriava, ergueu a vista e cravou os olhos em Alexei.
—Foi uma recomendação da Heather e, além disso, você diz que há circunstâncias atenuantes, então por mim tudo bem aceitar. Yurij, você poderia me ajudar? Por mais excelente que eu seja, é difícil enfrentar sozinho uma gangue de motoqueiros.
A resposta já estava decidida.
—Sim.
Diante da resposta curta, Cheriot perguntou de novo com a voz animada.
—Você decidiu me proteger?
—Não é por você, é pelo Alexei.
Yurij respondeu cortando-o pela raiz antes que ele soltasse mais disparates, e depois expôs o plano que já tinha em mente.
—Então, durante uns dois dias, o melhor é a gente descobrir como está a situação interna por meio dos nossos contatos. Enquanto isso, contrate um guarda-costas. Seu endereço também parece comprometido, então fique num hotel e evite sair o máximo possível. Até isso ser resolvido, o mais seguro seria você ir para outra cidade que não fosse Vancouver. Afinal, nesta temporada você está de folga, então não faz diferença se ausentar por um tempo, não é?
Assim que terminou de falar, Cheriot e Alexei olharam para ele ao mesmo tempo. Ele estreitou levemente os olhos e olhou alternadamente para os dois. Então Cheriot, com as pupilas verdes brilhando, perguntou:
—Como você soube que eu estou fora da temporada? Não mencionei isso em momento nenhum.
—É verdade, Yurij.
Alexei acrescentou com um sorriso debochado. Ele só lembrava de ter ouvido por acaso no rádio, mas as interpretações dos dois estavam exageradas. Em vez de responder e dar mais margem para eles, Yurij decidiu que era hora de encerrar a reunião.
—Na volta, vou chamar um táxi para você poder dormir num hotel esta noite.
—Mas e o guarda-costas? Não seria perigoso se eu voltar para a cidade?
Uma vigilância tão rigorosa costuma ser imposta em geral quando há intenção de assassinato, e o que Cheriot tinha feito não parecia motivo para pagar um preço tão alto. Mas, como ainda não tinham investigado, era arriscado baixar a guarda. Yurij pensou um momento e disse a Alexei:
—No caminho de volta, leva ele. No fim das contas, é o mesmo caminho, não é?
—Bom, isso não é difícil.
Alexei deu de ombros. Cheriot, que estivera observando o desenrolar da situação, empurrou o chão com as pernas compridas e reclinou a cadeira para trás. Depois franziu o cenho com um gesto de menino contrariado.
—Nunca antes contratei um guarda-costas para me proteger de uma coisa dessas.
—Liga para uma empresa de segurança. Suas conexões não são de sobra?
—Isso é verdade, mas, para este assunto, quanto menos gente souber, melhor. Ao meu redor tem muita gente que passaria informação se o preço fosse bom.
Yurij fez uma expressão de incompreensão.
—Então?
—Eu gostaria que um de vocês dois me protegesse. Até tudo terminar. Vocês disseram que a investigação vai levar uns dois dias, e, se a negociação for possível, só teriam que ficar comigo alguns dias, então não seria por muito tempo.
—Não.
Yurij recusou de imediato, mas Alexei era diferente.
—Ele tem razão. Afinal, ele veio até aqui para evitar um escândalo, não foi? E se, ao envolver outras pessoas, acontecer algo que esse cara não deseja?
Parecia que Alexei já tinha decidido firmemente ajudar Cheriot. Sabendo o quanto ele era teimoso e o quanto seria difícil fazê-lo mudar de ideia, Yurij precisava buscar outra alternativa.
—Então eu chamo o Timac.
—Você tá falando sério? O Timac?
Timac era outro amigo deles, um sujeito que tinha vindo junto quando deixaram Saratov. Chamavam-no de Timac por causa de Taylor McDonald e, ao contrário do que se esperava de um alfa, ele era bastante medroso e não tinha talento para brigas. Era uma pena, considerando o corpo que tinha.
Quando Yurij parou de falar por não encontrar mais ninguém para mencionar, Alexei estendeu a mão lentamente e lhe deu uns tapinhas no ombro. Ao franzir o cenho e encarar o amigo de infância, este lhe dedicou um sorriso constrangido.
—Mas eu ficar do lado dele… não acho que o Valery vá gostar da ideia. Além disso, parece que aquele ali gostou de você. Você aguentaria um pouco?
Era melhor que Yurij passasse a noite fora do que Alexei, que tinha alguém esperando em casa. Ele entendia isso racionalmente, mas, como não gostava nem um pouco da ideia, hesitou em responder. Ao ouvir aquilo, Cheriot arrematou a jogada.
—Cem mil dólares.
Cheriot, que havia apoiado os pés da cadeira no chão com um baque seco depois de se reclinar, inclinou o tronco para a frente. Sua longa sombra, projetada pela luz da sala, caiu sobre a mesa e chegou até Yurij.
—Como pagamento inicial, vou dar cem mil dólares para cada um. A recompensa final será negociada à parte. Dólares americanos, não canadenses. Em espécie, se preferirem.
Era uma quantia excessiva para um adiantamento. O homem dizia aquela cifra, que por mais que Yurij se esforçasse nunca conseguiria juntar, com uma candura que o fez enrijecer o rosto de desconforto. Mas, ao mesmo tempo, perdeu qualquer fundamento para continuar recusando.
Em termos puramente práticos, era um acordo com mais benefícios do que perdas. Yurij passou a mão pela testa com um suspiro e engoliu à força seu desagrado. Não há nada mais estúpido do que se deixar levar pelas emoções. Era hora de agir com racionalidade.
—Faça o que quiser.
A resposta, carregada de relutância, saiu de seus lábios. Cheriot, como se estivesse esperando por isso, inclinou-se ainda mais e estendeu a mão para Yurij. Sua mão branca e comprida era tão grande quanto o corpo dele, e estava cheia de calos, ao contrário do rosto delicado. Mas não tinha cicatrizes gravadas como as de Yurij. Só mostrava as marcas de um treino diligente.
—Conto com você, Yurij.
Yurij pegou de má vontade a mão que lhe estendia o intruso caído do céu. Seguindo o sussurro racional de que, sendo o cliente, devia tratá-lo com certa cortesia, ao agarrar aquela mão grande, uma força vigorosa a apertou com firmeza, como se estivesse esperando. Ao contrário da mão fria de Yurij, a de Cheriot estava tão quente quanto a cor de seu cabelo.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna