Capítulo 01.6
1. Apple Crumble Cherry Pie 6
Um fundo fiduciário.
Como Yurij nunca havia se interessado pela vida privada das celebridades, é claro que não sabia que Cheriot Goodnight vinha de uma família com patrimônio para herdar. Ao ouvir o conceito de “fundo fiduciário”, algo que só conhecia de filmes ou livros, voltou a se dar conta de que aquele homem era um ser alheio que jamais deveria ter cruzado seu caminho. Quem dera tivessem vivido cada um do seu lado, separados por um muro invisível mas nítido, sem nunca se encontrar. Não sabia como um ser assim tinha acabado metendo os pés naquele lamaçal.
Por outro lado, pensando bem, não era algo tão estranho. Alexei já não estava na mesma situação que ele. Tinha um trabalho que fazia por gosto, e seu bom amigo, que era bondoso por natureza, havia ampliado sua influência graças à sua grande habilidade. Então era algo que mais cedo ou mais tarde ia acontecer. O problema era ele estar metido nisso.
—O caso é que, se eu pedir ajuda à polícia, posso acabar violando essa condição. Se tiver que explicar a eles por que isso está acontecendo, é óbvio que vai sair no noticiário. Só de ir à delegacia, os paparazzi já vão atrás de mim.
Enquanto Yurij estava imerso nos próprios pensamentos, Cheriot continuou sua explicação. Diante de uma explicação um tanto vaga, Alexei arqueou uma sobrancelha.
—Quer dizer que o senhor fez mesmo algo que “causa polêmica social”?
Cheriot ficou em silêncio um momento e depois pôs a mesma expressão de jovem inocente que havia mostrado antes. Parecia um cachorro grande.
—Eu juro, eu não sabia de nada.
—Isso não cheira bem.
—É sério. Se eu tivesse pisado feio na bola, uma pessoa reta como a Heather não teria me recomendado, não acha?
Heather, a conhecida em comum deles, era uma jornalista que expunha corrupção e crime, alguém que investigava com coragem até casos que colocavam sua vida em risco. Dado seu caráter íntegro, era pouco provável que tivesse trazido uma pessoa má, mas, por alguma razão, as palavras de Cheriot inquietavam bastante quem as escutava. Yurij, que estivera ouvindo em silêncio, falou.
—Fala.
Aquela palavra, pronunciada em voz baixa, tinha um peso ameaçador. Teria feito qualquer um recuar, mas Cheriot virou a cabeça para olhar para Yurij. Como se ficasse feliz por ele lhe dirigir a palavra, esboçou um sorriso e finalmente revelou o motivo de sua visita.
—Por favor, me escutem sem preconceito. Bom… acontece que a pessoa com quem eu saí durante vários meses acabou sendo o parceiro do líder de uma conhecida organização criminosa na Colúmbia Britânica. Basicamente, eu sou a pessoa com quem ele traiu o parceiro criminoso.
Um lixo.
Não era alguém com quem não se pudesse lidar, mas certamente não era de confiança. Até Heather podia esbarrar em gente indecente de vez em quando. Depois de avaliá-lo com indiferença, Yurij olhou de canto o velho despertador sobre a mesa. Ao pensar que havia desperdiçado vinte minutos escutando aquelas bobagens, sentiu fome de repente. Agora que pensava nisso, não tinha comido nada o dia inteiro.
—Meu ex me contou isso anteontem por telefone. Enquanto me confessava a verdade, disse que o parceiro dele tinha soltado gente para me matar. Aliás, hoje, antes de vir para cá, eu corri perigo. Fui correr um pouco e, quando voltei, havia vários homens com cara de bandido rondando o saguão do meu prédio. Por isso saí correndo sem conseguir pegar dinheiro para o ônibus.
Alexei, que havia escutado a história com o cenho bem franzido, descruzou os braços. Como se pensasse o mesmo que Yurij, também olhou as horas e depois, com um tom carregado de crueza que não usava fazia tempo, respondeu a Cheriot.
—Entendo que o senhor está numa situação perigosa. Mas… nós ajudamos pessoas realmente em apuros, não consertamos confusões idiotas que o próprio senhor provocou. Lamento pelo fundo fiduciário, mas com certeza o senhor tem muito dinheiro ganho como atleta. Por que não se contenta com isso?
Por sorte, parecia que Alexei também considerava que o caso não valia a pena. Aliviado, Yurij se levantou para se preparar para pôr Cheriot para fora, mas então ressoou uma voz fria e serena, muito diferente da anterior.
—Não quero proteger o fundo fiduciário por causa do dinheiro.
Seu rosto pálido, agora completamente sem sorriso, encarava fixamente Yurij e Alexei. Seus olhos verdes, antes gentis e brilhantes, tinham ficado frios como uma árvore perene num vendaval. Junto com sua voz grave, os feromônios de Cheriot, que até então envolviam o ambiente com sutileza, ficaram agressivos. O aroma, que estivera tênue por causa do neutralizante, se intensificou rapidamente.
Desconforto, uma raiva antiga, emoções pesadas que não combinavam com sua aparência… tudo se misturava e ondulava em seus feromônios. Cheirava como um vento úmido no meio de uma floresta açoitada por uma tempestade. Em Cheriot, agora sem sorriso, havia uma quietude animal avassaladora, como a de uma fera de pé em meio ao vendaval.
A faceta inesperada que mostrava aquele a quem tinham subestimado como frívolo criou uma tensão palpável na sala. A vigilância instintiva de alfa se eriçou e Yurij também endureceu a expressão. Seus olhos azuis sob as sobrancelhas espessas se fixaram em Cheriot, prontos para atacar a qualquer momento. Alexei, por sua vez, descruzou os braços e apoiou as mãos sobre a mesa. Pronto para qualquer imprevisto.
No crepúsculo, nem tarde nem cedo, um silêncio tenso se manteve por vários segundos. Quem quebrou o clima tão crispado foi o próprio Cheriot, que havia criado a situação. Inclinou o tronco para trás lentamente e se recostou na cadeira. Relaxando o rosto frio, esboçou um pequeno sorriso.
—Então, que tal vocês considerarem que eu também tenho as minhas razões? Garanto uma recompensa generosa. Como o Alexei disse, além do fundo fiduciário, tenho muito dinheiro ganho como atleta.
Ao relaxar a expressão de Cheriot, o feromônio denso que impregnava a sala também foi perdendo intensidade aos poucos. “Achei que ele tinha vindo aqui sem pensar, pelo comportamento frívolo, mas parece que tem lá suas circunstâncias.” Ainda que isso não mudasse drasticamente sua opinião sobre a jovem celebridade.
…Mas era melhor escutar a história até o fim.
Lembrando que na vida todo mundo tem seus motivos, Yurij refletiu sobre ter julgado o outro de maneira tão fragmentária. Embora, pensando bem, o próprio sujeito tivesse provocado aquela impressão.
—Hum.
Alexei pigarreou e lhe lançou um olhar rápido. Ao encontrar seus olhos, o amigo moveu o queixo na direção de Cheriot como se pedisse sua opinião. Yurij assentiu com a cabeça.
—Vamos escutar tudo primeiro e depois decidir. Mas por que o senhor procurou justamente a gente? Se o pagamento é bom, deve haver montes de pessoas disposta a resolver qualquer problema.
Alexei perguntou como se não entendesse, e Yurij pensava o mesmo. Ao ouvir isso, Cheriot sorriu suavemente e respondeu:
—É que a Heather disse que vocês são boas pessoas.
Diante da resposta inesperada, Yurij franziu o cenho.
—Não quero que ninguém saia gravemente ferido por um assunto meu. Os mercenários habilidosos não têm medo de sujar as mãos de sangue. Nem de matar gente.
O rosto sorridente de Cheriot enquanto explicava isso tinha uma frieza peculiar. Um lampejo de desdém cruzou seus olhos, e Yurij percebeu um ódio antigo em suas palavras. O desprezo que transparecia não parecia ser apenas uma rejeição àqueles que vivem no crime, mas surgia de uma razão mais pessoal.
De repente, suas mãos esfriaram. A palavra “bom” sempre lhe entalava na garganta como uma bala que não conseguia engolir. Ele tinha sido um pecador desde que nasceu e decidiu se arrastar pelo chão para sobreviver. Por isso, Yurij Kiselyov não era alguém que pudesse ouvir semelhante palavra, nem mesmo como uma piada sem sentido.
Apertou o maxilar. Fechou com força a mão que descansava sobre a coxa, formando um punho. As unhas, cortadas rentes, se cravaram na palma com uma dor pungente. A dor fria que se espalhou a partir da pele percorreu suas veias e atravessou seu coração com uma pontada de culpa. Sua alma lhe sussurrou que não negar aquelas palavras equivalia a enganar a si mesmo.
Mas quem Cheriot havia procurado era, em última instância, Alexei. Seu grande amigo, esse sim, era alguém que merecia ser descrito como “boa pessoa”, e Yurij não queria trair essa reputação se metendo onde não lhe cabia. No entanto, não conseguia continuar sentado, então abriu a boca em busca de uma desculpa para se ausentar um momento.
—Alyosha, vou trazer algo para beber.
Empurrou a cadeira para trás lentamente e ficou de pé. Ao se virar, Yurij pensou que, já que por ora o tratava como convidado, também devia lhe oferecer algo para beber. Com voz baixa, perguntou:
—Algo em especial?
Sabia que evitar o olhar dele de propósito pareceria estranho, então, ao fazer a pergunta, olhou brevemente para Cheriot. Aqueles olhos verde-claros, como se estivessem encerrados numa conta de vidro, o fitavam. Ao sustentar aquele olhar, sentiu como se suas mentiras estivessem sendo lidas, e isso lhe deu náuseas. Fazia muito tempo que não sentia aquilo: vergonha diante de pessoas comuns.
“Achei que já tivesse ficado descarado o suficiente.”
—Qualquer coisa que leve o coração do Yurij será bem-vinda.
Mas pelo visto não tinha chegado a esse nível de descaramento. Yurij apagou o pensamento autocrítico e torceu o canto dos lábios.
—Fala alguma coisa sensata antes que eu te sirva água sanitária.
—Isso é uma metáfora para café?
Alexei corrigiu o mal-entendido de Cheriot.
—Ao contrário de mim, o Yurij não diz coisas que não sente.
—A sinceridade é uma das virtudes humanas. Não é atraente?
Assim que pareceu relaxar um pouco, Cheriot voltou a soltar disparates. Yurij quase apontou que ele parecia ter esquecido a advertência anterior, mas concluiu que provavelmente era da natureza dele e optou por ignorar.
—Vou servir chá preto.
—Era justo o que eu queria.
Cheriot não sabia a hora de calar a boca. Yurij o deixou continuar tagarelando e disse a Alexei:
—Para você também, chá preto.
—Ótimo, se você puser um pouco de uísque…
—Você fala igual a um inglês.
Conhecendo bem o gosto de Alexei por acrescentar álcool a qualquer bebida, fosse café ou chá, Yurij lhe lançou uma brincadeira leve antes de sair da sala. A tranquilidade finalmente chegou quando entrou na cozinha no fim do corredor. O cansaço o alcançou tarde, e Yurij fechou os olhos com força soltando um suspiro exausto.
Esfregou o rosto asperamente com as mãos ressecadas várias vezes, depois esticou o braço e abriu a porta do armário. Ali havia uma velha lata de metal onde guardavam os saquinhos de chá. Seu pai sempre a usava para guardar coisas em vez de jogá-la fora, depois de terminarem os biscoitos russos de que sua falecida mãe gostava.
Olhando fixamente para a tampa com o desenho de uma boneca matrioska, Yurij sentiu de repente uma pontada de estranheza. Ao contrário do pai, cuja identidade de nascido na União Soviética era firme apesar de ter passado mais tempo na América do Norte, Yurij nunca havia sentido um senso de pertencimento a nada. Não era americano, nem canadense, nem russo.
E muito menos uma boa pessoa.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna