Capítulo 01.5
1. Apple Crumble Cherry Pie 5
—Por quê?
—Isso eu ia explicar aos poucos.
Yurij pensou um momento. Embora Alexei tivesse mencionado Heather, não gostava da situação. Sem dúvida, porque o primeiro encontro tinha sido suspeito demais. Além disso, aquele jeito impertinente de chamá-lo de “gato” a toda hora já vinha irritando ele fazia um bom tempo.
Depois de refletir brevemente, Yurij olhou fixamente para Alexei para confirmar mais uma vez.
—É um assunto que exige até a minha participação? A ponto de ter que expor este lugar?
—Sobre isso, sinto muito. Tentei levá-lo até meu escritório, mas é que esse homem chama atenção demais para ser recebido no centro.
Alexei tinha o mesmo tom que havia insinuado quando perguntou antes. Uma atitude que sugeria que muita gente conhecia aquele homem. Como o motivo não era ilógico, Yurij assentiu lentamente com a cabeça.
“É verdade que o rosto dele é… atraente.”
Será que era modelo? Ou ator? Fosse o que fosse, isso só fez com que ele o detestasse ainda mais. Porque alguém tão chamativo só trazia mais complicações.
Yurij cruzou os braços e apertou os lábios, como se essa postura expressasse sua relutância. Se não fosse por Alexei, já teria posto o cara para fora fazia tempo, mas, como as coisas tinham chegado a esse ponto, decidiu que pelo menos devia escutar o que eles tinham a dizer.
—É um assunto tão difícil de resolver sozinho?
—Parece que sim.
—Para um caso dessa envergadura, a taxa deve ser considerável. Mas, como eu já disse, esse cara nem sequer tem vinte dólares e fica pedindo emprestado.
Quando o tom seco de Yurij adquiriu um travo de sarcasmo, Alexei curvou o canto dos lábios com ar de surpresa.
—Parece que vocês tiveram um primeiro encontro bem intenso. É a primeira vez que te vejo demonstrar tanto desagrado.
Então o homem soltou um suspiro que soou alegre e, como se quisesse que ele olhasse para si, sacudiu o braço de Yurij enquanto se remexia inquieto ao seu lado.
—Você já sente algo tão intenso por mim?
O homem tinha o dom de dizer só coisas incompreensíveis. Yurij franziu levemente o cenho e advertiu Alexei:
—Você não detestar esse cara me parece ainda mais estranho.
—É verdade que ele fala muito.
Alexei concordou. Mas não parecia sentir aquilo com a mesma repulsa que Yurij.
—Mas, Yurij, fica tranquilo. Dinheiro para pagar a taxa é o que sobra para esse cara. Pode ser que ele não tenha outras coisas, mas não vai nos dar problema em questão de dinheiro.
Pelo contrário, Alexei parecia dar as boas-vindas ao homem.
—Com base em quê?
—Ora, porque…
Alexei sorriu mostrando os dentes, como se achasse a situação engraçada. Olhou alternadamente para Yurij e para o homem e, com um sorriso malicioso, como se estivesse observando a reação de Yurij, disse:
—Esse cara se chama Cheriot Goodnight.
Yurij, que ia lhe perguntar por que sorria daquele jeito, se deteve e fechou a boca ao ouvir o nome. O nome que acabara de escutar lhe era excessivamente familiar. Então o homem, que estivera observando-o, se aproximou do seu lado e, como antes, inclinou a cabeça para ficar na altura dele. Quando Yurij, que o tinha ignorado friamente, voltou o olhar inconscientemente, seus olhos se encontraram. Um rosto sorridente e radiante ficou gravado em suas pupilas.
—Isso mesmo. Sou eu.
Cheriot Goodnight.
Um atleta que aparecia nas notícias pelo menos uma vez por semana. Alguém que qualquer canadense amante de hóquei, ou até qualquer americano, não podia deixar de conhecer. Uma celebridade bonita, de quem até quem não acompanhava esportes já teria ouvido falar alguma vez. Parecia que aquele cara era o mesmo Cheriot Goodnight do rádio.
—Por esse olhar ardente, vejo que você conhece meu nome, gato. Isso me deixa feliz. Desde que fiquei famoso, não tinha encontrado nada de bom nisso, mas hoje finalmente vejo algum sentido.
Enquanto escutava aquelas palavras que quase dava pena classificar como disparates, Yurij sentiu duas emoções. O alívio de que, sendo uma celebridade daquele calibre, ele provavelmente não representasse um perigo tão grande quanto havia pensado…
—Já que nos apresentamos, posso te chamar de Yurij, gato?
…e um leve ressentimento contra Heather e Alexei por terem trazido como cliente uma pessoa que lhe causava tamanha rejeição.
Yurij detestava esse tipo de gente. Gente eloquente e sem inibições para se aproximar dos outros. Aquelas personalidades sociáveis que invadiam a distância de segurança que ele estabelecia com firmeza por seus próprios motivos e depois o mortificavam com palavras que dificultavam recusá-las categoricamente. Sem dúvida, era o tipo de personalidade que menos combinava com ele.
—Já que o Yurij é tão bonito, vou te conceder o privilégio de me chamar de “Cherry”. É um apelido que eu só permito às pessoas de quem gosto.
Ah…
“Isso é o cúmulo.”
Ao olhar para Cheriot sorridente, uma emoção forte, que ele não sabia se era desconcerto ou rejeição, se agitou dentro dele. Conhecer bem alguém exige muito tempo, mas certos aspectos cruciais podem ser reconhecidos no instante mesmo do encontro. E, a julgar pela conversa que tinham tido até ali, Cheriot não era o tipo de pessoa com quem ele conseguiria se dar bem.
Gente como Cheriot, que elogiava sem pudor a aparência física e apresentava apelidos íntimos a desconhecidos logo de cara, pertencia a uma classe com a qual Yurij preferia não lidar. Um coração que se conquista facilmente se perde com a mesma facilidade. Ele detestava essa frivolidade.
—Chega.
Yurij repreendeu com firmeza Cheriot, que se aproximava sorrindo. Os olhos dele, que antes se curvavam com um sorriso de quem sabe muito bem que é atraente, se arregalaram de surpresa. Cheriot, com as sobrancelhas arqueadas como um jovem inocente, perguntou de novo:
—Hã?
—Já chega dessas bobagens. Você ser uma pessoa famosa não é motivo para aceitarmos o trabalho. Eu…
…não tenho por que aceitar.
Yurij engoliu a última parte. Embora sentisse um forte desejo de expulsar imediatamente de casa aquele homem que o esgotava só de tê-lo conhecido, ao ver os olhos azuis de Alexei fixos nele, se conteve. Reprimindo o impulso, advertiu Cheriot com sinceridade:
—Se você voltar a dizer bobagem sobre apelidos ou sobre o quanto eu sou bonito, eu me desligo desse assunto. Alyosha, você também deixa isso claro. Pode ser que você tenha trazido ele aqui porque a minha participação é necessária… mas está ficando insuportável para mim.
Alexei, que havia escutado de braços cruzados, assentiu com a cabeça. Inclinando levemente o pescoço grosso e firme, disse a Cheriot com um olhar de canto:
—Ouviu isso, não é, senhor cliente?
Alexei, que estivera observando Yurij e Cheriot, finalmente interveio para colocar ordem. Cheriot, que até então os tinha olhado piscando como se não entendesse nada, ergueu as sobrancelhas quando ele terminou. Em seguida, ouviu-se murmurar com genuína perplexidade:
—Mas todo mundo gosta que eu fale assim…
Yurij ficou em silêncio, recusando-se a entrar no jogo dele, e Alexei soltou um riso debochado.
—Gente comum, imagino. Mas nós não somos gente comum, tanto que o senhor está aqui, senhor cliente.
—Que pena. Eu falei sério.
Cheriot inclinou a cabeça de lado como um cachorrinho, um gesto que não combinava com sua corpulência, e depois recuou. No mesmo instante soltou o braço de Yurij. Ao notar o olhar frio de Yurij sobre sua mão, Cheriot apagou o sorriso dos lábios e se desculpou.
—Peço desculpas se te incomodei. Mas, antes de recusar, vocês não deveriam pelo menos ter a cortesia de escutar qual é o meu pedido? Nem que seja por respeito à nossa conhecida em comum, a Heather.
Depois de dar um passo atrás e endireitar as costas, Cheriot mudou o clima na hora. Seu rosto parecia naturalmente sorridente e os olhos curvados lhe davam um ar simpático, mas o tronco ereto, os ombros largos e os lábios firmemente cerrados transmitiam uma seriedade sutil. Era completamente diferente da imagem quase etérea e leve que projetava antes.
—Bom, e se a gente se sentasse? Conversar de pé me traz más lembranças.
Alexei disse isso fazendo um sinal para Yurij. Essas “lembranças” a que se referiam eram da época deles em Saratov. Os dias em que, com a cidade inteira controlada pela máfia, todos se viam obrigados a participar de crimes, grandes ou pequenos, por vontade própria ou alheia.
Yurij e Alexei tinham sido peões dedicados a delitos graves dentro desse sistema. Seus pais foram forçados a entrar na organização, e os filhos acabaram seguindo o mesmo caminho… Eram esses tempos.
Os peões, a menos que fossem chefes mafiosos ou próximos deles, nunca tinham o luxo de se sentar para conversar tranquilamente. Houve uma época em que até parar num beco para acender um cigarro, protegendo-se do vento cortante que entrava nos ossos, era um luxo.
—É de praxe ser tão indelicado com seus clientes, senhor Alexei?
—Com os que não são mulheres, em geral, sim.
Cheriot, que havia se dirigido às cadeiras da sala de jantar seguindo a indicação de Alexei, lançou uma pergunta que não se sabia se era de brincadeira ou a sério. Alexei assentiu confirmando as próprias palavras, e Yurij os seguiu de má vontade. Achava estranho se sentir como um convidado na própria casa. Hoje, desde o almoço, o dia estava cheio de más vibrações.
—Ah-hã. Então o senhor prefere as mulheres? Independente do fenótipo?
—Minha preferência é uma só.
Diante da pergunta desnecessária de Cheriot, Alexei deu uma resposta firme. Yurij sabia a quem ele se referia. Havia muito tempo, existia uma única pessoa crucial na vida de Alexei. Um homem que agora era seu parceiro.
—E o fato de o senhor perguntar sobre fenótipo me faz pensar que o senhor, senhor cliente… será que é do tipo “livre”? Isso explicaria também esses comentários repelentes que faz para o Yurij.
Yurij franziu o cenho ao ouvir o termo “tipo livre”. Era um conceito que, por mais que escutasse, nunca conseguia entender; uma espécie de preferência respeitada abertamente em grandes cidades como Vancouver. Referia-se àqueles que desejavam alguém do mesmo fenótipo, ou até fenótipos considerados incompatíveis, como um beta que desejasse um alfa ou um ômega.
—Mais do que “tipo livre”…
Cheriot elevou o canto dos lábios diante da pergunta de Alexei.
—Digamos que eu sou da opinião de que isso não importa.
—Dá no mesmo.
Alexei soltou um resmungo debochado e se sentou. Depois, com a perna comprida, afastou a cadeira ao lado e fez um sinal para Yurij vir se sentar. Como havia dito antes, por respeito a Heather e por Alexei, Yurij decidiu que pelo menos escutaria a proposta.
—Acho que já chega dessa conversa fiada. Vamos ao que interessa.
Yurij, sentado ao lado de Alexei, recuperou a compostura. Agora que Cheriot havia parado de falar bobagem, sua cabeça começava a clarear e, assim, ele se deu conta de que estivera perdendo tempo desnecessariamente com Cheriot. Deveria ter ignorado as palavras dele como se fossem latidos, mas, em vez disso, as processou mentalmente, se esgotando. Tinha sido um erro seu.
—Certo. Foi isto que eu soube pela Heather. Como já te disse, o cliente é Cheriot Goodnight. Capitão do Red Maple de Vancouver e, como você sabe, uma pessoa famosa.
—Ah, e eu tenho vinte e oito anos. No meu perfil público consta um ano a menos, por causa da imagem.
Cheriot respondeu a uma pergunta que ninguém tinha feito e piscou o olho direito para Yurij. Um breve lampejo de irritação cruzou a testa branca e impassível de Yurij. Ao se aborrecer de repente, justo quando recuperava a tranquilidade, seus feromônios ondularam. Como se tivessem sentido, os olhares dos outros dois se voltaram para ele.
—Por acaso também não é permitido piscar o olho?
—Não é comum um alfa gostar que outro alfa pisque o olho para ele.
Alexei falou por Yurij.
—Mesmo que seja um alfa tão bonito quanto eu?
Alexei ignorou o comentário descarado e continuou com a explicação.
—Segundo a Heather, o senhor cliente enfrenta um perigo grave. Ela diz que ele arrumou como inimigo um grupo muito poderoso e que a vida dele está em risco.
Cheriot assentiu com uma expressão que não correspondia em nada a alguém em situação de perigo.
—Isso mesmo. Por isso eu estava procurando alguém que resolvesse esse problema. A Heather soube da minha situação, que eu precisava encontrar um solucionador competente, e me falou de vocês.
—Hum.
Alexei, que havia se recostado no encosto da cadeira, cruzou os braços e perguntou:
—Não é um assunto para levar à polícia? Se é o caso de uma celebridade, com mais razão eles resolveriam bem. Ou o senhor poderia denunciar à imprensa.
—É que existe uma circunstância complicada…
Cheriot, que havia se inclinado sobre a mesa, apoiou o queixo. Bateu de leve na própria bochecha com os dedos longos e brancos enquanto falava.
—Eu tenho um fundo fiduciário. Ele tem condições muito rígidas e eu ainda não o herdei, mas uma dessas cláusulas é justamente não criar escândalos. Especificamente, escândalos que “perturbem a ordem social e prejudiquem a honra da família”.
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna