Capítulo 01.4
1. Apple Crumble Cherry Pie 4
—Yurij, calma. É o cliente.
Ah, é verdade, hoje havia um convidado. Alexei não era alguém que agisse sem pensar, então sem dúvida teria suas razões, mas Yurij se perguntou se era necessário trazer alguém até ali e expor a localização de sua residência. Justo quando ia dirigir outra pergunta cheia de dúvidas a Alexei,
—Ué?
A presença parou na entrada. Yurij dirigiu o olhar para a frente, seguindo a voz que se aproximava. Nesse momento, seus olhos se encontraram. Uns olhos verdes, tão vívidos que pareciam iluminar o campo de visão, o encaravam.
—Nossa, isso sim é interessante.
O homem que ele tinha à sua frente, ali dentro, parecia ainda mais corpulento do que quando o viu lá fora. Seus ombros excepcionalmente largos, que evocavam um atleta, suas pernas de um comprimento irreal, suas mãos e pés grandes… cada parte do corpo dele transmitia uma sensação avassaladora.
As palavras lhe escaparam. Esquecendo-se até de que ia falar com Alexei, Yurij abriu levemente a boca de incredulidade. O estranho, que observava sua expressão com os olhos sorridentes como os de uma criança contente, tirou a máscara com um dedo. Ao descer a máscara, finalmente ficou à mostra o rosto do homem.
Ao contrário do físico, que proclamava com orgulho sua condição de alfa, o rosto dele apresentava uma imagem contrastante. Dava para dizer que era mais “bonitinho”. Termos como “belo”, “elegante” ou “de traços delicados” também teriam servido. Mas nenhum deles o descrevia com precisão.
—Oi, gato.
O homem, que usava um gorro branco, tirou-o de um puxão com os dedos compridos. Uma linda cabeleira loira com reflexos avermelhados, que estivera escondida sob o gorro, caiu macia como seda, e seus lábios rosados se curvaram num sorriso alegre.
…Rá.
Por um instante, um riso seco e absurdo lhe escapou. Yurij, agindo fora de seu feitio, franziu levemente o cenho e cravou o olhar no intruso à sua frente. A suspeita que lhe gerava topar de repente com o mesmo homem com quem havia “esbarrado” por acaso na rua, somada ao sorriso dele, que parecia cumprimentá-lo com genuíno prazer, criou um nó de desconforto em seu peito. Talvez por isso as palavras tenham travado por um momento.
Nesse breve instante, sem se dar conta, Yurij se pegou observando o rosto do homem. Os olhos intensos que tinha visto na rua combinavam à perfeição, de um jeito até inquietante, com o rosto agora completamente visível. O homem parecia uma obra de arte perfeitamente esculpida. Finalmente entendia a metáfora que lia nos livros sobre o que significa sentir uma atração instintiva, independente da intenção. Era diferente da atração que sentia pelos ômegas. Aquilo era uma questão de essência.
O homem bonito de cabelo ruivo dourado que estava à sua frente lhe dedicava um sorriso radiante, com os olhos curvados de alegria. A franja de comprimento médio levemente úmida, a pele imaculadamente branca com um tom rosado, os lábios vermelhos e o nariz reto… tudo nele era excessivamente luminoso, como se tivessem transformado uma flor em pessoa. No entanto, a linha do maxilar, que sustentava esses traços, era afiada e masculina, o peito era robusto e os ombros, largos.
—Puxa, ele está mais dócil que antes. Será que gostou da minha cara?
Como se tivesse interpretado do próprio jeito o breve silêncio, o homem deu de repente um passo na direção dele. Reagindo ao encurtamento repentino da distância, Yurij recuperou a lucidez no mesmo instante. Esticou o braço com rapidez para subjugar aquele que se aproximava sem permissão, mas o homem, ao contrário de antes, agarrou o braço de Yurij e, em vez disso, chegou mais perto. Foi questão de um segundo.
—É atraente que a primeira coisa que você faça seja partir para cima, mas…
O homem, que agora o olhava de tão perto, sorriu com cumplicidade. Seus lábios vermelhos se curvaram de maneira fascinante.
—Fico com vergonha de pagar mico de novo na frente de uma beleza como você.
Fosse porque da vez anterior ele havia se aproximado sem pensar, a força do homem que agora o segurava era potente demais para ser ignorada. Ao notar que, ao contrário da atitude descuidada de antes, esse sujeito sabia usar o corpo, um alarme soou na cabeça de Yurij. Ele havia se distraído por um momento com a identidade inesperada do cliente, mas agora só tinha uma coisa a fazer.
—Alyosha, é melhor você recusar esse trabalho.
Esse cara é suspeito. Ter esbarrado com ele na rua justo antes de vir e depois voltar a vê-lo aqui… as probabilidades eram altas demais para atribuir aquilo a uma simples coincidência. Não sabia com que maquinação ele o havia abordado na rua para sondá-lo, mas para Yurij o assunto todo parecia turvo.
Então Alexei, que estivera observando em silêncio Yurij e o homem, inclinou a cabeça de lado. Sua expressão brincalhona desapareceu e seus olhos azuis adquiriram um matiz alerta. Aproximando-se lentamente até ficar ao lado dos dois, Alexei arqueou uma sobrancelha com ar de perplexidade e perguntou:
—Por quê?
Seu grande amigo sempre costumava escutar suas opiniões. Se Yurij realmente não quisesse, Alexei também não aceitaria o trabalho. Não, se fosse o Alexei de sempre, nem sequer teria aceitado lidar com um sujeito tão suspeito. Agora que pensava nisso, era estranho. Alexei não era do tipo que investigava com negligência.
Tendo crescido num ambiente onde um único respiro dado no momento errado podia custar a vida, os dois entendiam muito bem que um descuido podia acarretar consequências irreversíveis. Que Alexei tivesse cometido um erro desses hoje lhe parecia incompreensível.
Yurij refletiu um momento e depois, colocando-se lentamente à frente de Alexei, falou.
—Encontrei esse cara antes de vir. A aproximação dele foi suspeita demais para ser coincidência. E, mesmo que fosse, me pergunto se alguém que nem sequer tem vinte dólares e precisa pedir emprestado a um estranho vai conseguir pagar as taxas do trabalho.
Quanto mais repassava o encontro, mais se intensificava sua desconfiança. Se tudo, desde a atitude descuidada que demonstrava vulnerabilidade até as bobagens que dizia, era intencional, então esse cara não era uma pessoa comum. Entre toda a variedade de gente, não há ninguém mais difícil de lidar do que aqueles cujas intenções são impossíveis de decifrar.
O homem, com o rosto sorridente, escutou as palavras de Yurij como se estivesse avaliando sua reação e, quando elas terminaram, soltou uma gargalhada luminosa. Era impossível saber o que ele achava tão engraçado.
—Ei, gato, será que você não sabe quem eu sou?
Yurij o ignorou e continuou.
—Se não for estritamente necessário, recusa o trabalho. Eu me encarrego de botar ele pra fora.
A melhor estratégia é não se enroscar, para começo de conversa, com indivíduos suspeitos. Que sua residência ficasse exposta era um aborrecimento, mas vender a casa e se mudar não era algo tão difícil. Ele não sentia um apego particular por nenhum lugar de moradia.
Mas então Alexei, que havia escutado Yurij em silêncio, trocou um olhar com o homem e lhe perguntou com cuidado:
—Yurij, você realmente não sabe quem ele é?
Diante de uma afirmação que soava como se ele obviamente devesse conhecê-lo, Yurij franziu o cenho.
—Não.
Por acaso eu preciso saber? Enquanto essa expressão se desenhava em seu rosto, o homem soltou outra gargalhada.
—Uau, então você não me reconheceu mesmo! Isso é até melhor.
Yurij ignorou por completo as bobagens do homem. Sem sequer lhe dirigir o olhar, continuou falando com Alexei. O homem, com um gesto pesaroso, franziu as sobrancelhas e se inclinou para o lado onde Yurij havia virado o rosto, reclamando:
—Ei, gato. Olha pra mim também. Onde já se viu tratar um cliente assim?
—Não vamos aceitar o trabalho, então você também não é cliente. Cai fora.
Decidido, Yurij considerou por onde atacar para se livrar do homem que o segurava. Que ele o tivesse imobilizado era admirável, mas, se não o subjugasse por completo, reduzir a distância só criava uma oportunidade para um contra-ataque.
Como se tivesse percebido suas intenções, Alexei lhe agarrou o outro braço. Embora também fosse um alfa, os feromônios de Alexei sempre tinham o poder de acalmá-lo, como os de um irmão. Ao lhe lançar um olhar rápido, Alexei negou com a cabeça e explicou:
—Yurij, se acalma um pouco. Esse homem chegou até aqui por uma recomendação da Heather.
Ao ouvir Heather ser mencionada, Yurij fechou a boca. Heather era uma conhecida em comum, uma das poucas pessoas decentes que tinham conhecido em Vancouver. Era a jornalista que os havia ajudado com um assunto desagradável em que o pai dele tinha se enroscado, e também alguém a quem eles tinham ajudado. Não sabia que havia sido ela quem o recomendou. Ela tinha uma personalidade meio sem seriedade, mas Yurij não conseguia acreditar que Heather lhe apresentaria alguém assim.
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna