Capítulo 01.3
1. Apple Crumble Cherry Pie 3
No instante em que o outro parou bem atrás dele para lhe falar, Yurij girou o tronco rapidamente e esticou o braço com ferocidade. Sua mão esquerda, lançada como um chicote, dominou de imediato o pulso do outro, que tentava lhe agarrar o ombro. Ao girar o corpo num instante e torcer o pulso esquerdo do sujeito, o desconhecido que se aproximava soltou um gemido de dor contido e se dobrou pela cintura.
—Ai, ai, aiaiai!
Depois de dominar o outro por hábito, a primeira coisa que Yurij notou foi que o pulso do homem era tão grosso e firme que mal cabia em uma mão.
—Caramba, droga, meu Deus!
A segunda foi que o homem era um civil fácil de subjugar, o que tornava inútil toda a sua tensão. Hum. Não tinha certeza de que fosse um civil. Era difícil encontrar, pelo bom senso, um alfa que se aproximasse de outro alfa chamando-o de “gato”.
Então, se não era um inimigo… era um louco?
—…
O homem, com o pulso torcido e forçado a inclinar o corpo, tinha um físico que por si só era intimidador, mas, pelos pontos vulneráveis expostos e pelos descuidos, era claramente um civil. Claro que também existiam sujeitos que fingiam demonstrar fraqueza para provocar que ele baixasse a guarda…
—Ei, gato, tá doendo muito… Não pensa em me soltar não?
A julgar pelo fato de que ele nem sequer tentava se soltar e continuava falando com o pulso ainda preso, isso parecia improvável. Seu jeito de se vestir também indicava isso. Usava jeans, uma jaqueta branca e um gorro de tricô branco, um traje que chamava a atenção facilmente, longe da roupa que usaria alguém tentando passar despercebido.
Yurij observou fixamente por um momento o pulso do homem que segurava. Não sabia por qual motivo ele tinha se aproximado, mas, se era um louco, o melhor seria soltá-lo mantendo distância. Justo quando Yurij, depois de tomar essa decisão, se preparava para soltar o braço e criar um espaço seguro, o homem falou.
—Bom, por mim tudo bem se você continuar me segurando assim. Saí de casa vestido de qualquer jeito e estava com frio, mas talvez porque suas mãos estão quentes, parece que o frio está passando.
Yurij não conseguiu processar imediatamente o disparate que chegou ao seu ouvido. Franziu levemente as sobrancelhas espessas, algo pouco comum nele, e o olhou com uma expressão perplexa. Seus olhares se encontraram. O homem acabou sendo mais alto que Yurij, mas, como estava com o tronco inclinado pela torção, seus olhos ficavam na mesma altura. Nesse instante, parte do rosto dele, que não dava para ver bem por causa do gorro enfiado até as sobrancelhas, ficou à mostra.
No momento em que se deu conta de que seus olhares tinham se encontrado, Yurij esqueceu por um instante de recuar e observou as pupilas do homem.
Uns olhos de um verde-limão surpreendentemente vibrante o encaravam. Embora tivesse visto inúmeros olhos verdes na vida, era a primeira vez que via uma cor assim. A íris do homem tinha uma clareza espantosa. Era um verde-limão tão intenso quanto a casca de uma maçã Granny Smith.
Eram olhos que não eram turvos nem de um verde-escuro e berrante, mas que transmitiam uma impressão avassaladoramente fresca. Yurij se sentiu impressionado por um momento. Eram tão puros que o fizeram esquecer que se tratava de um intruso que o havia abordado de repente e, por um segundo, sentiu um remorso parecido com o de ter machucado uma criança.
—Hum.
O suspiro do homem trouxe Yurij de volta à realidade.
—De perto você é ainda mais bonito, gato.
Os olhos verdes que o fitavam se curvaram num sorriso. Assim que viu os cantos dos olhos dele se erguerem formando meias-luas, Yurij soltou bruscamente o pulso e recuou. De cenho franzido, Yurij quis acreditar que as palavras do intruso não eram dirigidas a ele, mas, infelizmente, eram.
—Ei, por que você se afasta de repente? Até agorinha não me soltava. Ah, mas será que você não consegue falar? Ou será que eu te assustei?
Deu uma olhada rápida ao redor, mas não havia ninguém. O homem continuava se dirigindo a Yurij, o que significava que todos os disparates anteriores eram de fato dirigidos a ele.
“Parece que ele é louco mesmo.”
Já que o mundo define como loucos aqueles que dizem coisas incompreensíveis, Yurij chegou rapidamente a uma conclusão.
Então, sentiu muita pena do tempo perdido lidando com aquele indivíduo. Tinha examinado o sujeito com cuidado pensando que talvez fosse um resquício do seu passado, mas, se nesse tempo tivesse ido comprar o chocolate, seu querido amigo o teria aproveitado nem que fosse cinco minutos antes.
Como se sabe que ignorar é a resposta diante de alguém que não está no juízo perfeito, Yurij se moveu para cumprir seu objetivo original sem se importar com o que o homem dissesse. A chocolateria Thierry, que só tem duas lojas no centro de Vancouver, é tão popular que é preciso pegar fila para entrar, então, quanto mais tarde, maior seria o prejuízo.
—Ei, querido, aonde você vai?
Mas o louco não o deixou ir em paz. Chamando-o por um termo repelente, o homem grudou nas suas costas num instante. Para Yurij, que detestava chamar atenção, era uma situação que não dava para ignorar.
Yurij parou e se virou bruscamente para encará-lo. Ainda que estivesse diante de uns olhos azuis frios e inexpressivos, o homem se aproximou sem nenhum medo. Agora de pé, o olhar dele ficava um pouco acima do de Yurij. Voltou a ver aqueles olhos verde-limão surpreendentemente vibrantes que o examinavam. Agora notou que metade do rosto do homem estava coberta por uma máscara.
—O que você quer?
Não precisava ser educado com alguém que tinha se aproximado de forma tão indelicada desde o início. Yurij perguntou com a voz baixa.
—Uau, então você fala mesmo! E sua voz é tão incrível quanto seu rosto.
—Eu perguntei o que você quer.
Yurij ignorou por completo as bobagens do homem e repetiu a pergunta. O que gostaria de fazer era encaixar um soco na cara dele e seguir seu caminho, mas estavam no centro. Não podia causar uma cena onde houvesse tantas testemunhas.
—Ah, agora que você falou, fui muito abrupto ao te abordar. Desculpa. Te assustei?
—O seu assunto.
Cortando de vez o pedido de desculpas do homem, Yurij insistiu. O homem franziu as sobrancelhas espessas, ruivas douradas, num gesto pesaroso.
—Puxa, já ganhei sua antipatia antes de perguntar seu nome.
Três vezes já eram oportunidades suficientes. Yurij negou com a cabeça e lhe deu as costas. A apenas dez passos de entrar na loja, tinha literalmente jogado seu tempo na rua por causa desse louco.
—Tá, espera, só um instante!
Yurij continuou andando em silêncio. O homem se lançou ao lado dele num instante e, caminhando junto, foi direto ao assunto principal.
—Desculpa mesmo, mas você me emprestaria vinte dólares?
Ah… Era um mendigo? Sabia que em Vancouver havia todo tipo de figura, mas essa era nova. A aparência dele era bem apresentável e asseada, então não parecia um mendigo. Ao mesmo tempo que lhe escapou um riso debochado pelo absurdo da situação, sentiu um certo alívio. Porque pelo menos o objetivo estava claro.
—Eu estava com muita vergonha e sem graça de falar isso abertamente, as palavras não saíam. Mas prometo que devolvo! É que estou numa situação complicada, saí de casa sem conseguir pegar a carteira. Estou implorando! Faz de conta que está salvando uma pessoa!
Em silêncio, Yurij tirou duas notas de dez dólares do bolso. Chegaram em frente à loja exatamente nesse momento. Depois de dar uma olhada na fila de pessoas comprando doces, tal como esperava, Yurij estendeu as notas ao homem.
—Assim está bom?
—Uau, muitíssimo obrigado! Se não se importar, você poderia me dar seu contato? Assim eu poderia te devolver o dinheiro…
—Vai embora.
Yurij esquadrinhou o homem com um olhar cético, sem conseguir discernir com clareza as intenções dele.
Sua mão agitou as notas de forma ameaçadora. O homem voltou a franzir as sobrancelhas com um gesto lastimoso.
—Não vai me dar seu número?
Com que cara ele achava que Yurij concordaria com uma coisa dessas? Yurij decidiu não perder mais tempo com um rapaz sem-teto e largou as notas sobre uma mesa do pátio externo com um baque seco. Deixando para trás os sons de protesto do homem, entrou na loja.
Lá dentro, ao contrário do lado de fora, pairava um ambiente aconchegante impregnado de um aroma doce. Ao aspirar o cheiro adocicado e denso, franziu o cenho. Sua cabeça começava a doer.
Quando tirou o celular para ver as horas, viu que tinham se passado dez minutos. Um tempo curto, mas longo. As bobagens que tinha escutado davam voltas na sua cabeça e, sem perceber, dirigiu o olhar para fora. O homem da jaqueta branca já havia sumido. As duas notas de dez dólares também não estavam mais sobre a mesa.
Não sabia que circunstâncias o levavam àquilo, e não queria saber. Só desejava não voltar a se enroscar com esse tipo de pessoa. Nunca imaginou que na vida encontraria alguém que lhe soltasse tamanhos disparates. E ainda por cima um alfa. Seu mal-estar, já agravado pelo cheiro doce, se intensificou ao lembrar das palavras do homem.
Depois de vinte minutos de espera, quando terminou de comprar os chocolates, os macarons e o mocha para seu amigo Alexei, o ânimo de Yurij melhorou. Quando pegou o carro de volta para casa, chegou até a pensar que poder se aborrecer com um incidente tão banal, em vez de com questões de vida ou morte, era um verdadeiro luxo.
No entanto, a reflexão de Yurij não durou muito.
—Alyosha?
Ao ver o carro de Alexei já estacionado em frente à casa, abriu a porta apressadamente e entrou. O espetáculo que se desenrolou diante de seus olhos era algo que ele não havia previsto de maneira nenhuma.
—Estou aqui, Yurij.
Da sala veio uma resposta ao seu chamado. Ao escutar a voz do amigo depois de tanto tempo, o rosto de Yurij se serenou. Sobre sua pele pálida, fria como o vento do norte, aflorou um rubor tingido de alegria. Enquanto se dirigia até o amigo, ergueu a voz de propósito para perguntar.
—Que capricho é esse de chegar antes da hora combinada?
Seu amigo de infância costumava sempre chegar depois da hora marcada. O fato de ser meticuloso em assuntos importantes, mas um tanto relaxado em momentos menos cruciais, era um traço adorável de Alexei. Talvez por isso Yurij sentisse Alexei, apesar de terem a mesma idade, como um irmão mais novo. Por essa razão tinha cuidado dele quase a vida inteira.
Caminhando com passos comedidos para não estragar o formato do bolo que comprou de sobremesa, Yurij se dirigiu à sala. O barulho de seus sapatos ressoou no corredor. Como seu pai Vasili detestava “sapatos de dentro de casa”, ao contrário das pessoas de hoje em dia, eles usavam sapatos dentro de casa.
—Não é que eu tenha chegado cedo, é você que chegou excepcionalmente tarde.
A voz de Alexei se aproximava. Ao entrar na pequena sala que aparecia virando à direita logo depois do corredor da entrada, Yurij sorriu por dentro enquanto imaginava a expressão do amigo. “Sim, você sempre tem razão.” Engolindo a réplica que tinha preparada, entrou na sala e viu um homem bonito sentado no sofá com as pernas cruzadas com desenvoltura.
—Enfim chegou o nosso senhor Campbell.
Um homem que, embora tivesse a mesma cor de olhos e cabelo que Yurij, tinha uma aura e traços completamente distintos, o recebeu. O cabelo preto penteado com displicência e os olhos azuis podiam fazê-los parecer irmãos à primeira vista, mas seu amigo era um homem bonito e brincalhão que parecia um adolescente quando sorria. E, ao mesmo tempo, também era uma pessoa muito boa, ainda que seu jeito de falar fosse um pouco grosseiro.
—Toma, o que você queria.
Seu único amigo, aquele que o havia mantido vivo durante os tempos difíceis, era sempre uma visão agradável. Ia lhe estender os chocolates que ele tanto queria, com alegria, quando Yurij detectou uns feromônios desconhecidos e virou a cabeça bruscamente. Os feromônios alheios, que nunca antes havia sentido naquela casa, se aproximavam pelo corredor. Imediatamente depois, ouviram-se passos e uma voz.
—Suponho que nesta casa não se usa sapato de dentro de casa.
No mesmo instante, os olhos de Yurij se estreitaram. Ao contrário dos feromônios totalmente desconhecidos, a voz lhe parecia estranhamente familiar. Soava como se a tivesse escutado havia pouco. Mas, como Yurij tinha um círculo social extremamente reduzido e lembrava de todas as pessoas, observou a entrada da sala com desconfiança e suspeita. Instintivamente, seus feromônios ficaram agudos, e Alexei o acalmou por trás.
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna