Capítulo 01.2
1. Apple Crumble Cherry Pie 2
Não criar vínculos com pessoas queridas era uma dessas promessas que quem pisava naquele mundo fazia para se proteger. Por “aquele mundo” se entendia o meio onde se reuniam os que se dedicavam a atividades ilegais. Os assassinos de aluguel que tinham talento para matar, as máfias que escolhiam explorar os outros para ganhar dinheiro, ou os intermediários e técnicos que os ajudavam em troca de dinheiro, todos conheciam essa regra.
Yurij Kiselyov era mafioso. Essa frase sozinha bastava para descrevê-lo. Estava muito longe de ser uma pessoa normal. Yurij Kiselyov era um criminoso e um sujeito ruim; todo o seu passado era uniformemente terrível e sórdido. Nem mesmo Deus poderia lhe conceder a indulgência, e os pecados gravados a ferro em sua alma não desapareceriam nem com a morte.
Por isso não saía com ninguém. Yurij não tinha esse direito.
—Yurij, o *Alyosha disse que vem hoje à noite.
Seu pai, que havia voltado por volta das cinco da tarde, lhe deu a notícia. Tinha ido fazer compras e pelo visto encontrou Alexei no centro.
Ao ouvir o nome do velho amigo, a expressão estoica de Yurij mudou. Seu cenho, frio e tenso, se suavizou, e seus olhos azuis mostraram um lampejo de alegria.
—Mais ou menos a que horas?
—Vai saber. Para aquele rapaz, “à noite” deve significar depois das nove.
—Então a gente janta nessa hora?
—Beleza. Ah, ele disse que traria um convidado.
Ao ouvir a palavra “convidado”, Yurij apertou os lábios por um momento. Embora fosse seu amigo, Alexei estava longe de ter um temperamento que se prestasse a levar convidados. Era algo estranho.
—Valery?
No fim, o que lhe ocorreu foi Valery, o amante de Alexei. Seu pai negou com a cabeça.
—Não. Ele disse que tinha a ver com o trabalho de vocês. Deixa eu ver, deixa eu lembrar. O rapaz disse pra eu te falar exatamente isto.
Seu pai, depois de dizer isso, imitou a expressão do amigo dele. Arqueou as sobrancelhas com arrogância e abriu um sorriso largo no rosto bonito enquanto ria às gargalhadas. Aquela imagem se sobrepôs ao rosto do pai.
—“Compra uns chocolates pra me oferecer.”
Seu pai riu numa gargalhada e em seguida trancou a porta do estabelecimento. Obedecendo à ordem brusca de que fosse descansar, Yurij saiu da oficina e se dirigiu ao carro, estacionado em frente. Ia partir imediatamente para comprar o chocolate como Alexei havia pedido, mas, ao ver seu reflexo no vidro do carro, com graxa no rosto e no pescoço, entrou um momento em casa.
Graxa não sai fácil. Tinha que esfregar com sabão até a pele arder para que as manchas ficassem apenas mais fracas. Depois de lavar o rosto na pia, vestiu uma jaqueta preta que parecia apresentável.
Deu a partida no carro e seguiu para o centro. Para ir ao centro a partir de North Vancouver, onde morava, precisava atravessar uma ponte. Os painéis indicavam que um trajeto que normalmente levava 20 minutos, naquele horário de saída do trabalho, levaria uma hora por causa do congestionamento.
Enquanto observava a fila interminável de carros, Yurij escutava em silêncio a música que tocava no rádio. Por hábito, tentou acender um cigarro, mas depois se deu conta de que era algo que podia chamar a atenção da polícia. A cidade onde havia passado grande parte da vida era um espaço sem lei onde o conceito de “ilegal” quase não existia, por isso às vezes cometia esses deslizes.
Já fazia três anos?
Fazia aproximadamente esse tempo que vivia com uma identidade falsa, misturado à sociedade fingindo normalidade. Seu sobrenome era Kiselyov, mas nos documentos constava como Yurij Campbell. Até a grafia de Yurij não seguia a forma russa, e sim a comum na América do Norte. Seu pai tinha passado de Vasili Kiselyov a Jeff Murray. Um nome realmente disparatado para alguém que falava inglês com um sotaque russo carregado.
Tanto seu grande amigo Alexei Sorokin quanto seu pai, todos eles na verdade tinham nascido e crescido numa zona de fronteira dos Estados Unidos. Um pequeno povoado chamado Saratov. Era um lugar árido onde tinham se reunido imigrantes que chegaram do continente durante o período turbulento do colapso da União Soviética.
Saratov era uma espécie de lixão. Um enorme depósito de lixo onde se aglomeravam aqueles que, pobres e desesperados, não conseguiam emigrar nem se exilar. Pessoas tão vulneráveis e abandonadas sempre atraem alguém querendo tirar proveito delas. Saratov era controlado por uma máfia de origem soviética que havia decidido usar aquela terra como se fosse seu reino. Foi assim que aquele pequeno povoado de fronteira do qual ninguém cuidava se transformou num ninho de criminosos.
Yurij nasceu num lugar assim. O destino das crianças nascidas numa cidade onde nem sequer podiam sonhar em ir à universidade era quase sempre parecido. Tornar-se exploradores para sobreviver, ou ser vítimas e morrer. A maioria dos corajosos que se recusaram a esse destino morreu, e os que tiveram sorte conseguiram fugir da cidade carregando cicatrizes profundas.
[… Parece que já falamos o suficiente sobre a nova política do primeiro-ministro que mencionávamos antes. E bem, temos uma notícia de interesse para Vancouver, não é?!]
[Isso mesmo. Trata-se da notícia sobre a lesão de Cheriot Goodnight, capitão do Red Maple de Vancouver.]
[Dizem que ele está fora da temporada por uma lesão no joelho durante o treino. Será verdade?]
[O motivo exato não foi divulgado, mas parece confirmado que ele está fora da temporada por causa da lesão. A temporada mal começou e as expectativas em cima do Red Maple este ano são altíssimas, então dá pra ver uma grande decepção entre os torcedores.]
[Levando em conta que é um atleta com uma das maiores torcidas de toda a América do Norte, é compreensível…]
Absorto em cismas desnecessárias, a música tinha parado sem que ele percebesse. O programa mudou e Yurij escutava distraidamente a conversa quando o nome de Cheriot Goodnight ficou por um momento em seu ouvido. Um nome tão ridículo quanto Jeff Murray. Fosse ou não acertado segundo a opinião pública, para o critério de Yurij era um nome medonho.
No entanto, aquele nome peculiar, que talvez fosse falso, tinha, entre outras coisas, o dom de ficar na memória. Embora ele não se interessasse muito pelo que acontecia no mundo, era por isso que lembrava daquele nome. Não conhecia o rosto dele, mas era um jogador que inevitavelmente era mencionado entre gente tão fanática por hóquei que bastava ir ao pub num dia de jogo para o nome dele ficar gravado.
Cheriot Goodnight.
Depois de murmurar para si mesmo o nome peculiar sem pensar muito, Yurij terminou de estacionar. Por ser um começo de noite no meio da semana, felizmente havia uma vaga livre em frente à chocolateria. Algo impensável se fosse fim de semana.
Nesses pequenos momentos ele muitas vezes se dava conta de que vivia uma vida “normal”. Saratov era um lugar onde o conceito de ilegalidade praticamente havia desaparecido e, como a população era muito baixa, nunca tinha ouvido falar de falta de vagas para estacionar.
Ao descer do carro, olhou ao redor para tirar um tíquete de estacionamento. Ao avistar um parquímetro por perto, Yurij caminhou lentamente até lá. No instante em que suas botas pretas pisaram o paralelepípedo molhado pela garoa, sentiu uma presença atrás de si. Para ser exato, sentiu feromônios.
Embora quase não tivessem cheiro, como se a pessoa tivesse usado um neutralizador, sem dúvida eram os feromônios de um alfa. Ao notar que os passos se aproximavam e que os feromônios vinham em sua direção, Yurij fechou a mão que mantinha dentro da jaqueta.
Alguém se aproximar numa cidade onde quase ninguém o conhecia costumava ser mau presságio. Podia ser um inimigo do passado, ou alguém em quem tivesse se enroscado ao ajudar Alexei com o trabalho.
Fingindo não ter percebido nada e olhando fixamente para o parquímetro, Yurij esperou que o outro se aproximasse. Os passos ficavam mais apressados quanto mais perto chegavam e, pelo modo como denunciava a própria presença, dava a impressão de ser um amador. Mas não podia baixar a guarda…
—Ei, gato. Tem um minuto…?
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna