Capítulo 01.1
1. Apple Crumble Cherry Pie (Torta de maçã e cereja com crumble)
Chegou uma visita inesperada.
Era pouco depois das duas da tarde. A vizinhança, já silenciosa por natureza, estava mergulhada em um silêncio absoluto depois da hora do almoço. Um cliente que havia deixado o carro durante a pausa do meio-dia já tinha ido embora, e Yurij Kiselyov ficou sozinho dentro da oficina. Deu uma olhada ao redor; havia aproximadamente quatro veículos que precisavam de conserto naquele dia.
A oficina mecânica, que já completava mais de três anos, era administrada por Yurij e pelo pai. Para ser exato, Yurij costumava ajudar no negócio do pai, mas, desde que começaram a receber mais clientes, os dias em que ele precisava estar presente tinham aumentado.
Hoje era um desses dias. Yurij se deu conta tardiamente de que não havia comido nada o dia inteiro e pensou que seria melhor preparar algo rápido.
Não tinha apetite. Mas sentia fome.
Tirou as luvas manchadas de graxa e sujeira, formando manchas pretas, e as deixou sobre uma prateleira. O dorso branco de suas mãos, que ficava à mostra, não era muito diferente das luvas. As veias azuladas que percorriam seus nós dos dedos proeminentes se misturavam com a graxa, deixando suas mãos um desastre.
Yurij olhou para as mãos em silêncio e depois decidiu voltar para a casa bem ao lado da oficina para almoçar um sanduíche de pasta de amendoim. Não havia nada mais absurdo do que perder muito tempo comendo, então um cardápio simples parecia o melhor.
Uma vez tomada a decisão, procurou um papel para deixar um recado avisando que se ausentaria. Ao abrir a gaveta debaixo da escrivaninha, cheia de ferramentas, encontrou um livro, um caderno e uma caneta colocados em ordem. Pegou o material de escrita, organizado conforme seu caráter meticuloso, e começou a escrever o bilhete. Seus dedos, que seguravam a caneta de um jeito um tanto peculiar, traçaram letras tortas sobre o papel.
Embora sua aparência pudesse ser considerada asseada, ele tinha uma caligrafia péssima, difícil de decifrar. Ficou sabendo que sua letra era ruim quando conheceu o amigo. Seu único companheiro e amigo de toda a vida sempre ria com deboche ao seu lado toda vez que o via escrever.
Depois de evocar em silêncio aquela risada que agora era difícil de ouvir, aproximou-se da entrada para trancar a porta da oficina. Foi justo nesse momento que chegou a visita inesperada.
Era um tipo de visita difícil de definir como cliente.
—Ei, olá.
Seguindo a vozinha que soou do lado de fora da oficina, Yurij fixou o olhar. Em seu rosto pálido e particularmente inexpressivo, uma severidade fria se condensou por um instante para logo se desvanecer. Ao confirmar a identidade da visitante, sua desconfiança recuou. A visita inesperada era a mulher que havia deixado o carro no domingo anterior.
Em vez de uma resposta calorosa, Yurij a observou em silêncio. Era um hábito inevitável. Fruto de uma vida inteira vivida assim, um costume arraigado que não se desprendia. Primeiro julgava se o outro estava armado, que intenções tinha ao se aproximar, e depois dessa análise básica sobre um desconhecido, decidia como agir.
Não era um comportamento comum, mas Yurij era assim.
—Em que posso ajudá-la?
Um cumprimento nada cordial fluiu de seus lábios. Não era a atitude cavalheiresca que se esperaria diante de uma mulher muito menor do que ele. Mas Yurij não conseguia ser um cavalheiro, então aquela era a máxima expressão de gentileza que podia demonstrar.
Ainda assim, era uma melhora. As fórmulas de cortesia social e o jeito direto de falar tinham se suavizado ao se misturar com a sociedade. Ao contrário dele, seu pai, que havia vivido muito tempo do próprio jeito, mantinha um tom não muito diferente do de antigamente. Os hábitos acumulados durante anos endureciam como camadas de rocha e eram difíceis de quebrar.
—É que… o senhor não se lembra de mim? Vim na semana passada. Foi num domingo.
Parecia que o cumprimento impessoal a havia intimidado, porque ela acrescentou várias palavras. A cada palavra, da mulher à sua frente emanava uma onda da suave e característica feromônio ômega. O cheiro corporal de cada pessoa é diferente, mas o feromônio ômega provocava um formigamento como o de uma brisa leve e dava uma sensação macia, como se fosse se esvair ao ser tocada.
Devido à afinidade natural, os alfas como Yurij sentiam uma simpatia básica pelos ômegas. Fosse agrado ou uma atração instintiva, os feromônios de alfa e ômega eram como ímãs que se atraíam.
Por isso, a maioria dos alfas costumava ser gentil com um ômega. A não ser que fosse alguém muito exigente com a aparência física, em geral era assim. Objetivamente, a mulher era bonita e podia atrair o olhar de qualquer alfa em qualquer lugar. Provavelmente por isso a atitude brusca de Yurij a havia desconcertado.
Ao vê-la revirar os bonitos olhos verdes para sondar sua reação, Yurij tentou descobrir por que ela visitava a oficina. Não lembrava o nome dela, mas lembrava do carro que havia deixado: um Subaru Forester do ano 22, de um azul pouco comum. Parecia que ela andava com frequência por estradas rurais, porque os pneus tinham barro e nos vidros havia pequenas marcas de pedras. O interior estava relativamente limpo, mas tinha uns pelos duros no banco, talvez de um cachorro, e, embora fosse incomum, levava uma câmera veicular instalada.
Parecia uma pessoa comum. Suas mãos, vistas de passagem, eram macias, sem calos nem rugas, o que indicava que ela estava longe de realizar trabalhos pesados. Isso era tudo o que Yurij lembrava dela.
Yurij, que estivera refletindo, assentiu levemente com a cabeça. Não era uma resposta calorosa, mas para a mulher bastou para que seu rosto se iluminasse.
—Então o senhor se lembra mesmo de mim! Que alívio. É que o carro deu problema de repente e foi a maior confusão. Vim porque era uma das poucas oficinas abertas no domingo. Muitíssimo obrigada por consertar tão rápido. E bom…
Quanto mais falava, mais os lóbulos das orelhas dela iam ficando vermelhos. Cuspiu as palavras como se estivesse sendo perseguida, prendeu um pouco a respiração e então estendeu algo a Yurij. Ao baixar o olhar para a sacola branca de compras que a mulher lhe oferecia com cuidado, um aroma doce surgiu lá de dentro. Um cheiro estranhamente enjoativo bateu em seu nariz com força suficiente para anestesiar suas narinas.
—Como agradecimento, preparei uma sobremesa para o senhor. É uma torta.
“Ah… Então era isso.”
Naquele ano Yurij completava trinta e dois. Nessa idade, tinha experiência de sobra para saber o que se esconde por trás de uma demonstração de gentileza, e, se era um flerte entre alfa e ômega, isso lhe era especialmente familiar. Achou incômodo vê-la carregando uma sacola de papel que parecia pesada, então estendeu a mão em silêncio. Seus dedos roçaram de leve os dela ao pegar a alça. A mão da mulher era tão pequena que caberia folgada na palma de Yurij.
Ao sentir o toque, ela ergueu o olhar, sobressaltada, para encará-lo. Yurij observou de canto de olho o rosto bonito dela, carregado de expectativa e emoção, para depois baixar a vista secamente e examinar a torta. A sobremesa que a cliente lhe entregava era uma torta de maçã e cereja com crumble, de base grossa e bem assada.
A torta, coberta por uma crosta esfarelada, estava recheada de cerejas frescas e maçãs que pareciam apetitosas e exalavam uma fragrância aromática. A torta redonda, como as que ficam expostas nas confeitarias, ainda soltava um vaporzinho morno, como se estivesse recém-feita, e as mãos que a ofereciam estavam avermelhadas como as cerejas. Como estavam no fim de junho e o tempo começava a esquentar, não era pelo frio que elas tinham ficado tão vermelhas.
Parecia deliciosa. Tanto o aroma quanto a aparência sugeriam isso. Mas, depois de observá-la um momento, Yurij a devolveu do mesmo jeito para a mulher.
—Não, obrigado.
Como pareceu necessário dar um motivo para a recusa, acrescentou a verdade.
—Não costumo comer doces.
Yurij não gostava de coisas doces. Não só porque o mínimo de açúcar fazia doer a ponta da sua língua e estragava seu apetite, mas porque lhe desagradava o engano peculiar que o açúcar tramava. O prazer que inundava a pessoa no instante em que ela comia algo doce lhe parecia uma forma de falsificar a realidade. Por isso, com as sobremesas, ele nem sequer fingia comer por educação.
—Por acaso o senhor tem alguma alergia?
A mulher perguntou, sobressaltada. Ao contrário de onde Yurij costumava viver, nesta cidade se prestava muita atenção até a alergias como a glúten ou a laticínios. Ela parecia constrangida, pensando se tinha cometido um erro.
Yurij considerou se devia ser mais explícito, mas decidiu esperar.
—Não. É que eu não como.
—Entendi. Que pena.
A mulher guardou a sobremesa com uma expressão desconcertada. Ao ver aquele rosto, o ânimo de Yurij também ficou incômodo. Ele nunca havia aprendido como devia receber demonstrações de afeto gentis, coisas como consideração ou preocupação.
—Hum.
Ouviu-se um suspiro hesitante e a mulher reuniu coragem de novo.
—Sei que isso pode ser constrangedor para o senhor, mas passei a semana inteira remoendo e não conseguia tirar a ideia da cabeça. Juro por Deus, não sou de dar o primeiro passo. Então… se estiver tudo bem para o senhor, o que acharia de sair comigo?
Aí estava o cerne da questão. Era uma atitude corajosa e Yurij não achava a proposta dela desagradável. A silhueta esbelta, o cabelo ruivo dourado e os olhos verdes inteligentes poderiam ser considerados, de certa forma, do gosto dele. Mas a resposta de Yurij já estava sempre decidida de antemão.
—Sinto muito.
Yurij não tinha intenção de sair com ninguém. Nunca tinha saído e pretendia continuar assim.
—Quer dizer que o senhor já tem alguém?
—Não.
Parecia que as respostas lacônicas dele a exasperavam, porque o rosto da mulher enrubesceu com uma mistura de irritação e vergonha. Yurij franziu levemente o cenho, ajeitou a franja com a mão grande e, seguindo o conselho do pai de não fazer uma dama se sentir humilhada, deu uma explicação.
—Não estou em condições de ficar com ninguém.
—E se for só um encontro? Ou será que meu físico não agrada ao senhor? Mas garanto que sou mais divertida do que pareço. Só me dê um pouco do seu tempo.
Então, com uma voz carregada de apego genuíno, ela sussurrou:
—Por favor.
Só havia uma outra resposta que Yurij poderia dar. “Um encontro é difícil, mas dormir juntos uma vez durante o período de cio é possível.” No entanto, estava claro que a mulher não desejava aquela resposta, e Yurij não estava a fim de soltar essas palavras e se arriscar a levar um tapa. Já bastava ter perdido a hora do almoço.
Como o silêncio se prolongou, a mulher soltou um suspiro. Como se não o compreendesse, bagunçou o próprio cabelo e depois ergueu bruscamente a mão que segurava a sacola de papel para apontar para ele.
—Então o senhor prefere um alfa? Ou beta?
Que absurdo.
Ao ver começarem essas conjecturas descabidas, Yurij concluiu que era melhor encerrar ali. Sair com um alfa era algo inaceitável no mundo dele. Talvez em Vancouver não fosse tão estranho, mas para ele só de ouvir já era incômodo.
—A senhora vai encontrar alguém melhor.
Desculpou-se enquanto olhava para os olhos verdes marejados dela e depois fechou a porta. Uma vez trancado dentro da oficina, Yurij deixou escapar um suspiro. O velho relógio de parede que seu pai recolheu em algum lugar já marcava duas horas. A hora do almoço tinha acabado. Se quisesse terminar os consertos conforme o planejado, precisava começar a trabalhar com afinco.
Pelo menos tinha a modesta satisfação de que seu apetite havia sumido depois de sentir o cheiro do açúcar. Yurij tocou o próprio abdômen, que permanecia tranquilo como se estivesse anestesiado, e depois olhou o dorso da mão. Sua pele branca, manchada de graxa, parecia terrivelmente suja. Pensando bem, suas mãos nunca tinham estado limpas. Nunca.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna