Ato 4, 02
𓂃 ࣪˖ ִֶָ⏱️🐇 Ato 4: Guia Inútil 02 ִֶָ་༘࿐
— O que você acha?
Um dos Espers perguntou a ele. Afinal, como o próprio Nine se sentia era o assunto mais importante.
— Bem… Eu achei ele mais razoável do que tinha ouvido falar.
— Ele é louco? Como pode pensar isso?
— É claro que foi assim que me senti no início, mas agora…
Agora? Os Espers olharam para Nine com olhos expectantes. Ele escolheu cuidadosamente as palavras em sua mente antes de falar.
— A personalidade dele parece um pouco… única.
— Ei, isso não é só único!
— Pare com isso.
O Esper que estava prestes a dar uma bronca em Nine por chamar a personalidade de Ash de apenas única, em vez de dizer que seu caráter era completamente quebrado, foi interrompido por alguém ao seu lado, repreendendo-o por ser assertivo demais.
— É uma sorte se parar no “única”. O Ash é um nativo do Centro, veja bem.
— Um nativo?
— Nas filiais desta região, há muitos que cresceram em Centros de Despertos desde a infância. Não todos eles, mas alguns são um pouco… desprovidos de habilidades sociais, por assim dizer.
— Ei, sinceramente, não são apenas os nativos, você também… Oof!
— Você, cale a boca. Eu estou falando aqui.
A mulher que falava de repente deu um soco na cara do Esper que a interrompeu. Com um som limpo de impacto, o Esper masculino cobriu o rosto com ambas as mãos. Nine, que presenciou isso de perto, arfou, mas a mulher simplesmente limpou a mão no ar como se nada tivesse acontecido e continuou a falar.
— Se você olhar para os estágios iniciais do programa de educação dos Despertos, quase não há matérias que desenvolvam habilidades interpessoais. A maior parte consiste em treinamento de habilidades. Bem, acho que é porque as carreiras deles estão praticamente definidas, certo? Esta região tem, discutivelmente, a maior ocorrência de Portões no mundo, então a maioria dos Espers que eles reúnem tem habilidades otimizadas para implantação em Portões. O objetivo é criar Espers úteis para os Portões, em vez de gastar tempo desenvolvendo habilidades sociais. Então posso entender um pouco as personalidades terríveis dos nativos do Centro.
O Esper que levou o soco da mulher não conseguiu emitir uma única reclamação e estava enfiando lenços amassados nas narinas. Parecia que aquela não era a primeira vez que acontecia. Nine ouvia silenciosamente as palavras dela, pensando que era irônico vindo de alguém que tinha acabado de ensanguentar o nariz de um homem sem mudar de expressão. Ele temia que, se objetasse, aquele punho pudesse voar em direção ao seu rosto em seguida.
— Eu absolutamente não estou defendendo aquele cara. É melhor evitar se envolver com os nativos se puder.
— …Mas acho que já é tarde demais para mim?
— …
Todos ficaram em silêncio com as palavras de Nine. Como ele disse, já era tarde demais para evitar Ash. Eles já estavam emaranhados. Ele estava frequentando o local de trabalho de Nine com tanta frequência que todos na Filial 11 tinham notado algo estranho. Em uma situação em que as coisas já tinham acontecido, era mais importante identificar a causa do que ensinar como ter cuidado.
Mas não importava o quanto pensassem sobre isso, não parecia haver uma causa aparente. Entre os Despertos que ponderavam com as cabeças juntas, um homem resmungou com uma expressão ambígua.
— Apenas por precaução, eu estava pensando…
O homem era um Guia pertencente à Equipe de Suporte Público 2. Como a atenção se voltou para ele, adicionou evidências para apoiar sua opinião.
— Aquele cara odeia ser guiado, certo? Lembra da última vez em que o mantiveram à força na sala de guiagem usando um Esper de Ignorar, e ele jogou o Ignorar pela janela, pendurou todos os Guias em árvores e rasgou o prédio inteiro, paredes, teto e tudo mais?
— Ah, aquela vez…
As expressões dos Despertos que trabalhavam no Centro há muito tempo ficaram em branco. A memória daquele incidente os fez sentir tontura.
Foi um incidente bastante famoso na Filial 11. Eles tiveram que chamar um caminhão com escada para tirar os Guias da árvore grande que era tão alta quanto um prédio de 8 andares, e isso se tornou o catalisador para dar a eles um trauma de acrofobia.
Toda a encanação e fiação do prédio estouraram e, claro, todos os móveis e instalações foram quebrados. Exceto pelas fundações estruturais, como pilares, lajes e núcleos que impediam o prédio de desabar, todo o resto foi completamente destruído. Ele tinha tornado o prédio imediatamente inoperante, e depois pegou o avião mais rápido para um resort estrangeiro, deixando os Espers de recuperação passarem mais de um mês restaurando o prédio ao seu estado original.
— Nine… Você disse que era um Multi, certo? …Talvez, apenas talvez, ele tenha gostado inesperadamente da sua orientação.
Com essas palavras, todos os Espers riram e balançaram a cabeça.
— De jeito nenhum, com certeza não é isso.
— Ele é apenas um Guia só de nome, é basicamente um civil. Não se sente nada nem com contato de pele, sabe?
— Eu me pergunto se existe um rank ainda mais baixo que o rank F. Talvez ele seja apenas um Guia em forma, mas nem possa ter um rank medido.
— Rank lixo?
— Algo assim.
Eles riram, dizendo que se Nine fosse um Guia, eles comeriam seus chapéus. Os Guias presentes estavam preocupados que Nine pudesse se ofender por ser chamado de “rank lixo”, mas Nine ouvia impassível, acostumado com tais comentários.
Naquele momento, o Esper com lenços enfiados nas narinas abriu a boca e soltou uma declaração que causaria agitação.
— Talvez ele tenha se apaixonado à primeira vista?
— …
Embora fosse uma piada, ninguém riu, e o silêncio caiu por um tempo. Nine estava perplexo.
— Cuidado com a porra da sua boca. Dizem que palavras podem se tornar realidade.
— Até piadas têm limites.
Aquele que falou levou uns dois tapas na nuca e pareceu injustiçado.
Mas… Nine resmungou depois de pensar por um momento. Havia algo que o incomodava.
— Parando para pensar, ele leva algumas das minhas coisas toda vez que visita.
Na verdade, em vez de roubar, seria mais preciso dizer que ele exigia ousadamente. Sempre que cobiçava os pertences de Nine, ele usava a expressão “pegar emprestado”. Ele dizia: — Vou pegar isso emprestado por um tempo. Era a frase típica usada por valentões que tomavam arbitrariamente as coisas dos outros.
— O quê?
As vozes murmurantes pararam de uma vez, e todos os olhos se voltaram para Nine. Diante da insistência dos Espers para que elaborasse, Nine listou os itens que ele tinha levado. Começando com uma caneta-tinteiro, depois um crachá sobressalente, lenço de pano, caneca, cobertor de joelho e até papel toalha não utilizado…
— Isso é sério… Levar até papel toalha é passar dos limites.
— …Viu, eu avisei, droga!
O Esper que tinha levado dois hits injustamente na cabeça deu um pulo e gritou. A bolota de lenço ensanguentado saltou de sua narina e rolou pelo chão. As pessoas pediram desculpas a ele em coro.
Ash às vezes se sentava ao lado de Nine sem nada de especial para dizer, empilhando chocolates em forma de moeda e comendo-os um por um antes de ir embora. Ele também mandava embora Espers fingindo doença que visitavam a ala com apenas um olhar e, quando entediado, pedia a Nine que lhe contasse histórias interessantes.
Quando Nine perguntava: — Isso também é compensação?, Ash respondia com um rosto irritado: — Se você viver de forma tão calculista, contando cada pequena coisa, não fará nenhum amigo, chegando até a oferecer conselhos. Nine quase teve vontade de segurar um espelho na frente do rosto dele. Afinal, ele era quem não tinha amigos.
Ao contrário das preocupações das pessoas por Nine, Ash era mais gentil e razoável na frente dele do que violento. E ele tinha uma estranha obsessão em se tornar amigo de Nine.
Quando Ash visitava, ninguém mais se aproximava dele. Nine se sentia culpado, pensando que não estava fazendo seu trabalho direito, mas a equipe da ala não parecia se importar. Na verdade, eles estavam até um pouco gratos a Nine. Porque tinha surgido alguém que lidava exclusivamente com Ash, com quem eles não queriam se associar. Apenas Nine não sabia desse fato e não sabia como lidar com a situação.
— Desista. Sua vida está arruinada agora.
Um Esper que tinha ouvido toda a história resumiu a situação de Nine em uma frase. Ele até balançou a cabeça como se não houvesse solução.
— Você não acha que ele é apenas desajeitado para fazer amigos?
Nine sentia como se Ash fosse uma pessoa sem amigos tentando desesperadamente fazer um amigo pela primeira vez.
— Que… absurdo é esse?
As pessoas riram daquelas palavras.
— Como se aquele desgraçado fosse tentar fazer amigos.
— Ele com certeza tem alguma intenção oculta.
Todos afirmaram que não poderia ser nada disso. Suas expressões enojadas eram o destaque.
“Mesmo assim, ambos são homens… Se apaixonar à primeira vista não faz sentido, faz?”
Nine pensou com uma expressão azeda. Mesmo ele, que achava a aparência de Ash atraente, não afirmaria ter se apaixonado à primeira vista. Era verdade que ele ficou interessado depois de ver a aparência dele, mas era só isso. Se eles se tornariam bons amigos ou não dependia do que viria a seguir.
As pessoas aqui, talvez por serem Despertas, ou devido às características do trabalho, não demonstravam muito desconforto com contato físico ou trocas emocionais entre o mesmo sexo. Homens se apaixonando à primeira vista? Da perspectiva de Nine, parecia um mundo um pouco novo.
—
No dia seguinte.
— Nine, não sei se você está ciente, mas…
— O que é?
— O Ash está… dizendo por aí que você é o Guia dele…
— …?
De acordo com a pessoa que trouxe essa notícia, quando perguntado sobre seu relacionamento com o Órfão Espacial, Ash baixava a voz como se estivesse compartilhando um segredo e respondia alternadamente “alguém com quem compartilho segredos” ou “meu Guia”.
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࣭ ⭑๋ ࣭ ⭑Continua….
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki