Ato 4, 01
ִֶָ𓂃 ࣪˖ ִֶָ⏱️🐇 Ato 4: Guia Inútil 01 ִֶָ་༘࿐
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Nine estava prestes a colocar o café da manhã para fora. Como de costume, Ash tinha ido até a área da recepção, mas desta vez ele se acomodara descaradamente atrás do balcão. A princípio, Nine tinha acolhido a distração interessante que aparecera por conta própria, mas agora não conseguia entender por que Ash continuava vindo todos os dias e se demorando ali sem nenhum motivo real.
Por causa de Ash, Nine não tinha tempo para si mesmo. O homem prestava atenção excessiva a cada movimento dele, o que fazia com que Nine o achasse cada vez mais incômodo. A gratidão que sentira estava prestes a evaporar completamente.
— Eek!
Os pacientes que entravam na enfermaria davam uma única olhada para o homem e fugiam horrorizados. Só hoje, mais de cinco pessoas já tinham corrido sem nem sequer receber atendimento.
“Eles não deveriam correr…”
Nesse ritmo, o que poderia ter sido curado rapidamente levaria uma semana. Embora Nine soubesse que eles precisavam se sentar para receber tratamento imediato, não podia ir atrás deles. O motivo era óbvio.
— Nine, onde você vai?
— …
Era por causa do homem que falava como se estivesse pronto para segui-lo ao menor movimento.
“Por que ele está agindo assim comigo?”
Ash seguia Nine excessivamente. Exatamente como um pintinho recém-nascido. Ele é quem deveria estar se sentindo grato, então por que Ash estava…
Nine achou um pouco absurdo, como se ele tivesse resgatado Ash, e não o contrário.
Hoje também, logo após as 9h da manhã, Ash apareceu de repente na enfermaria, caminhando sem pressa. Ele apoiou o braço engessado no balcão e falou com Nine, que organizava sua mesa atarefado.
— Bom dia.
— …!
Ele está aqui de novo? Nine levou um susto tão grande que quase cuspiu água na cara dele. Enquanto Nine abaixava a cabeça, tossindo por ter se engasgado, Ash deu tapinhas em suas costas.
— Você, você está aqui de novo? Se machucou em algum lugar esta manhã?
— Hum… meu braço?
Ele ergueu o braço que fora quebrado dentro do Portal. Mas o braço firmemente imobilizado não mostrava sinais de névoa emergindo ou se contorcendo. Isso significava que a área lesionada estava cicatrizando muito bem e não parecia precisar de mais tratamento.
Mesmo assim, Ash se sentou ao lado dele novamente. Agora, as pessoas evitavam o olhar de Nine junto com o de Ash. Eles eram mais uma vez forçados a entrar em seu próprio mundinho.
— …
— …
Era constrangedor. Incapaz de suportar o desconforto por mais tempo, Nine olhou para Ash.
— Por que você continua vindo aqui?
Ele reuniu coragem e perguntou diretamente.
— Você não tem nada para fazer comigo…
— …
Ash, que estava lendo um livro ao seu lado, olhou para Nine. Aparentemente alheio ao desconforto dele, ele deu um leve sorriso, curvando os cantos da boca.
— Eu quero atenção.
— …
Essa certamente foi uma resposta inesperada. Os olhares direcionados a Ash eram tão descarados que até Nine conseguia senti-los. Se esse era o objetivo dele, já o havia alcançado. Nine perguntou cautelosamente:
— Existem muitos outros lugares, então por que aqui especificamente? Você poderia ir para um lugar com mais pessoas.
— Bem, porque o Nine está sempre enfiado aqui?
— …
Isso soou muito estranho. Como se a única pessoa de quem Ash quisesse atenção fosse ele. Mas não podia ser. Não havia razão para que esse fosse o caso.
— Nine, agora deixe me te perguntar uma coisa. Por que você acha que estou fazendo isso?
Desta vez, Ash fez um leve gesto com o queixo em direção a Nine, devolvendo a pergunta a ele. Pego de surpresa pela inversão do questionamento, Nine deixou escapar a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
— Por-porque você não tem amigos?
— Amigos?
Ash pareceu abertamente divertido.
— Você tem razão, eu não tenho amigos.
Mas ele deu uma risadinha, dizendo que Nine fora a primeira pessoa a perguntar na sua cara se ele não tinha amigos. Ele ficou sem palavras. A afirmação clara o deixou sem saber se pedia desculpas, se ria ou se até alegava que era uma piada — o momento já tinha passado.
— Certo, digamos que eu não tenha amigos e seja um carente de atenção… Nine.
— Sim?
De repente, um brilho malicioso apareceu nos olhos de Ash.
— Por que você fica olhando para mim?
— Eu?
— Você esteve me espiando constantemente. Eu estava contando — preciso te dizer quantas vezes para você admitir?
— …
— Quando você fica dando olhares tão quentes e apaixonados para alguém desesperado por atenção, como eu poderia ir para outro lugar? Estar ao seu lado é o mais interessante.
Nine não conseguiu dizer nada. Ele pensou que estivesse roubando olhares discretamente, mas não percebera que Ash tinha notado. Ao ver Nine congelado com uma expressão pasma, o sorriso no rosto do homem se aprofundou.
— Se você não vai trabalhar de qualquer forma, pode olhar abertamente em vez de ficar espiando.
— …
— Eu disse para olhar. Você gosta do meu rosto, não gosta?
O quê? Nine estremeceu por um momento e imediatamente franziu a testa. Independentemente de ser verdade ou não, as palavras soaram descaradas demais.
— Não, não gosto. Eu vou trabalhar.
— Pode ir, não estou te impedindo.
— Você poderia, por favor, ficar quieto agora? Você está fazendo barulho.
Na verdade, Ash estivera lendo seu livro em silêncio todo esse tempo, e fora Nine quem falara com ele primeiro, mas Nine disse isso mesmo assim. Afinal, este era o local de trabalho de Nine, e fora esse homem quem se sentara sem ser convidado, não ele próprio. Não havia razão para Nine não ser assertivo.
“Só estou olhando porque ele nem deveria estar aqui, para início de conversa, e ele acha que eu gosto do rosto dele? Por que eu gostaria?”
Nem que fosse por orgulho ferido, Nine evitou deliberadamente olhar na direção de Ash. Apesar de ter recebido uma dica tão óbvia para ir embora, Ash permaneceu teimosamente grudado ao seu lado.
Mesmo pessoas de patente mais alta que Nine não ousavam tratá-lo com descuido. Então quem era Nine para expulsar Ash à força? Ele percebeu tardiamente que seria mais rápido simplesmente desistir mesmo.
Ash, que estivera grudado ao lado de Nine feito uma sanguessuga e mexendo em várias coisas, levantou-se da cadeira depois de algumas horas com uma expressão relaxada e disse que ia dormir. Isso enquanto o sol ainda estava alto no céu.
E assim, a mesma coisa se repetiu por vários dias.
Os Despertados que se reuniram para evitar os olhos de Ash discutiriam a situação de Nine juntos.
— Então você ainda está vivo. Não levou nenhuma surra em algum lugar que a gente não consiga ver debaixo das roupas?
— Eu não apanhei.
— Você está sendo ameaçado?
— Não estou.
— Eles te pagaram para ficar calado?
— Eu já disse que não é nada disso!
Enquanto Nine franzia a testa e expressava seu descontentamento, os Espers balançavam a cabeça em uníssono.
O fato de um homem com aquela aparência não ser nem um pouco popular provava implicitamente que sua personalidade era um lixo. Nine devia estar sendo enganado. Os Despertados estavam angustiados pelo fato de Nine ainda não conhecer a verdadeira natureza de Ash.
— Por que vocês, adultos feitos, estão discutindo infantilmente por causa de uma coisa dessas? Em vez de ostracizar alguém, tentem se dar bem.
— …
— É por isso que ele continua vindo até mim.
Nine deu uma bronca nos Espers, dizendo o quão entediado Ash devia estar para procurar alguém que mal conhecia. Mas Nine estava entendendo algo errado. Não é que eles estivessem ostracizando Ash; ele é quem os estava ignorando. Os Espers trocaram olhares, apertando o peito como se fossem enlouquecer de frustração.
— Você simplesmente não conhece a verdadeira natureza dele. É sério!
Todos os Espers reunidos ali já tinham entrado em conflito com Ash pelo menos uma vez. Na verdade, eles é quem tinham arrumado confusão primeiro.
Ash era o tipo de pessoa que devolvia a vingança na mesma moeda para todos, exceto animais e crianças. Não era porque eles fossem fracos. Era porque esses seres não tinham malícia.
Ash era uma praga humana que era forte tanto contra os fortes quanto contra os fracos. Ele devolvia uma vingança pior do que a que sofrera em qualquer um que lhe mostrasse má vontade. Como quebrar limpidamente o tornozelo de alguém que tentasse fazê-lo tropeçar e deixá-lo abandonado em um lugar alto o dia todo, ou explodir o armário inteiro de alguém que tentasse roubar seus pertences. Não foram poucos os que terminaram no hospital com o crânio rachado por causa dele.
— Mas isso é estranho…
Eles estavam perplexos. O Ash que eles conheciam estava se comportando de forma diferente do Ash atual. Ele era alguém que se movia estritamente com base em seus próprios interesses.
Para uma pessoa assim visitar Nine todos os dias, não fazer nada e apenas ficar mordiscando chocolate na frente dele antes de ir embora — na visão deles, isso não era algo que faria.
Além disso, aqueles que ouviram trechos das conversas entre os dois lamentavam ter presenciado o que não deviam, coçando os braços vigorosamente ao ouvir o tom de voz suave de Ash que nunca tinham ouvido antes.
— Será que ele gosta do Nine?
— Acho que sim.
— …Mas por quê?
Até Nine, o próprio objeto da atenção, não conseguia entender.
Conforme Nine fora perguntando por aí, investigando por conta própria, acabou se revelando verdade que Ash era “o único Esper que entra em Portais do tipo corredor”. No fim das contas, tudo o que Ash dissera naquele dia era a pura verdade. Embora ainda não tivesse contado a ninguém sobre sua proposta…
“Mas haveria algum benefício para aquele homem se eu me tornasse um Guia?”
Nine estava pensando seriamente com uma expressão grave. Foi bem nesse momento.
↫ ࣭ ⭑๋ ࣭ ⭑Continua….
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki